9 de abril de 2014

Roland de Vaux - As doze tribos de Israel

Na primeira fase de seu estabelecimento em Canaã, Israel é uma confederação de doze tribos. Esse sistema tem analogias, precisamente entre povos aparentados que passaram pelo mesmo estado social. Segundo Gn 22.20-24, Naor tem doze filhos, epônimos das tribos aramaicas. Do mesmo modo, os filhos de Ismael são “doze chefes de outras tantas tribos”, Gn 25,12-16. Havia Igualmente doze tribos na descendência de Esaú, estabelecida na Transjordânia, Gn 36.10-14 (à qual o v. 12a acrescenta Amaleque).

Em Siquém, as doze tribos israelitas estabeleceram um pacto que selou uma unidade religiosa e estabeleceu entre elas certa unidade nacional, Js 24. Essa organização foi comparada com a das anfictionias que reuniam cidades gregas ao redor de um santuário
, onde participavam de um culto comum e onde seus representantes se reuniam em conselho. Essa comparação é instrutiva contanto que não seja levada ao extremo e que não se queira descobrir na confederação israelita todos os traços das anfictionias gregas. As doze tribos tem consciência dos laços que as unem, compartilham o mesmo nome, são "todo o Israel”. Reconhecem um mesmo Deus, Iahvé, Js 24.18,21,24, e celebram suas festas no mesmo santuário, o da arca que simboliza a presença de Iahvé no meio delas. Têm um estatuto e um direito comum, Js 24.25, e se reúnem para condenar as transgressões contra esse direito consuetudinário ou escrito, Js 24.26, as “infâmias”, as coisas “que não se fazem em Israel” Jz 19.30; 20.6,10; cf. II Sm 13.12.

A repressão do crime de Gibeá, Jz 19-20, apresenta as tribos atuando em comum para castigar uma falta particularmente odiosa. Fora esse caso extremo, é possível que para resolver suas diferenças e estabelecer pontos de direi¬to se recorresse a um juiz cuja autoridade era reconhecida por todos: a lista dos juízes “menores”, Jz 10.1-5; 12.8-15, daria testemunho dessa instituição. 

Essa é uma hipótese provável; a de um conselho dos representantes das tribos é menos segura. Em todo caso, os relatos do livro dos Juízes mostram a confederação das tribos sem órgão de governo e sem verdadeira eficácia política. Os membros formam um mesmo povo, participam em um mesmo culto, mas não têm um líder comum e a tradição antiga não conhece nessa época nenhuma personalidade comparável a Moisés ou a Josué. Sem dúvida, o redator do livro dos Juízes divide o período entre líderes, que teriam regido sucessivamente a todo Israel depois de tê-lo libertado de uma opressão estrangeira. Faz já tempo que se reconhece que essa apresentação é artificial. Esses a quem chamamos os “grandes juízes”, são os “salvadores”, cf. Jz 3.9,15, de um clã ou de uma tribo em uma situação crítica. Só excepcionalmente sua ação se estende a um grupo de tribos, como no caso de Gideão e, sobretudo, de Débora e de Baraque. Nada se diz de uma atividade de governo que tivessem exercido fora de suas proezas militares, e o mesmo Gideão recusa explicitamente uma autoridade permanente, Jz 8.22-23. A realeza de Abimeleque, Jz 9, foi um episódio sem continuidade, que só afetou a cidade cananéia de Siquém e alguns clãs israelitas. 

Por diferentes que sejam esses “juízes” entre si, têm todos um traço em comum: foram eleitos por Deus para uma missão salvadora, Jz 3.9-15; 4.7; 6.14; 13.5, o espírito de Iahvé está sobre eles, Jz 3.10; 6.34; 11.29; 13.25; 14.6,19. A única autoridade que se manifesta então em Israel tem, pois, caráter carismático. É um aspecto ao qual convém chamar a atenção e do qual falaremos mais tarde.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.