15 de abril de 2014

ROBERT B. CHISHOLM.JR - Uma teologia de Salmos: Deus Criador a Base para a Realeza

O livro de Salmos testemunha a relação vibrante que existia entre o Deus
de Israel e o seu antigo povo do concerto. Embora o Antigo Testamento retrate
o povo de Israel sob luz negativa, os Salmos demonstram que havia muitos na
comunidade do concerto que confiavam no Senhor e, obedientes, o serviam. O
saltério contém as orações e hinos dessas pessoas que buscavam a Deus como
refúgio no meio da tempestade e experimentavam, repetidas vezes, a interven-
ção pessoal de Deus na vida.

Os Salmos diferem do restante do Antigo Testamento. Temos a lei de
Deus proclamada por Moisés, as narrativas inspiradas dos procedimentos his-
tóricos de Deus com o povo, os conselhos divinos sobre a vida prática revelados

por sábios e as mensagens de julgamento e salvação entregues por profetas di-
vinamente comissionados. Em vez de ser a palavra direta de Deus para o povo,
os Salmos contêm as expressões de fé em Deus e as reações à auto-revelação
de Deus em palavras e ações.  Ao mesmo tempo, devemos entender que estas
orações e hinos oferecidos a Deus também são a palavra de Deus para os homens
e mulheres, embora em sentido indireto. O próprio Deus moveu os salmistas
a orar e cantar. Por essas palavras aprendemos muito sobre o caráter divino
e como Ele se relaciona com o mundo e o seu povo. Como as outras porções 
da Bíblia supramencionadas, o livro dos Salmos é plenamente inspirado (ou
“soprado por Deus”) e por isso é proveitoso “para ensinar, para redargüir, para
corrigir, para instruir em justiça” (2 Tm 3.16).

Há vários tipos de salmos no saltério. Os mais comuns são os lamentos ou
Salmos de petição e os cânticos de louvor. Nos cânticos de louvor há cânticos
de ação de graças, oferecidos com relação a um ato específico e normalmente
recente da intervenção divina, e hinos, que elogiam a Deus em condições mais
gerais pela sua bondade ao longo da história. Muitos salmos tratam de temas
particulares, como os salmos régios (que enfatizam o rei e a sua relação com
Deus), os salmos de entronização (que descrevem o Senhor reinando sobre o
mundo), os cânticos de Sião (que celebram a grandeza de Jerusalém, a cidade
escolhida por Deus como residência terrena) e os salmos sapienciais (os quais,
como Provérbios, contrastam os estilos de vida e destinos de justos e injustos).
Como era de se esperar, esta grande variedade formal e temática torna o saltério
uma fonte rica para a teologia bíblica.

Como muitas outras porções do Antigo Testamento, os Salmos estão
escritos em forma poética. São caracterizados por correspondência de pen-
samento entre as linhas (conhecido por paralelismo) e uma abundância de
figuras literárias. O uso da imagem poética dá aos Salmos uma concretude
e vivacidade que aliciam a imaginação, movem as emoções e permitem o
leitor simpatizar mais facilmente e até identificar-se com os salmistas. Por
causa das qualidades emocionais e pessoais destes antigos hinos e orações,
podemos aplicá-los prontamente às nossas próprias experiências e apreciar
mais profunda e pessoalmente a relevância das verdades teológicas que
afirmam.

Da sua experiência com a monarquia e de seus contatos com nações es-
trangeiras, o antigo Israel estava plenamente ciente da realeza e seus conceitos
acompanhantes (cf. 1 Sm 8). O tema central do livro dos Salmos, que as suas
orações presumem e os seus cânticos de louvor afirmam, é a realeza de Deus.
Por exemplo, Salmos 103.19 declara: “O Senhor tem estabelecido o seu trono
nos céus, e o seu reino domina sobre tudo”. Muitos Salmos se referem especi-
ficamente ao Senhor como rei (5.2; 10.16; 24.7-10; 29.10; 44.4; 47.2; 48.2;
68.24; 74.12; 84.3; 95.3; 98.6; 145.1; 149.2) ou falam do seu domínio (SI
22.28; 59.13; 66.7; 89.9; 93.1; 96.10; 97.1; 99.1; 103.22; 114.2; 145.11-13;
146.10). Muitos descrevem Deus como um Juiz justo, Pastor atencioso, Guer-
reiro poderoso e Suserano do concerto, os quais eram funções ou papéis dos reis
no antigo mundo do Oriente Próximo.

Podemos resumir a mensagem teológica do livro da seguinte forma: como
Criador de todas as coisas, Deus exerce autoridade soberana sobre a ordem na-
tural, as nações e Israel, o seu povo inigualável. No papel de Rei universal, Deus
assegura a ordem e a justiça no mundo e entre o seu povo, exibindo o poder de
guerreiro invencível. A resposta apropriada para este Rei soberano é confiança
e louvor. 

DEUS CRIADOR: A BASE PARA A REALEZA
O CRIADOR DA ORDEM NATURAL

De acordo com os primeiros versículos da Bíblia, os Salmos afirmam que
Deus fez os céus e a terra (121.2; 124.8; 134.3; 146.6). O seu comando verbal os
trouxe à existência (33.6,9; 148.3-5), sendo considerados obras das suas mãos (8.3;
19.1; 95.5), e formados com compreensão e habilidade infinitas (136.5). O Senhor
separou o mar da terra seca (95.5) e estabeleceu a terra em suas fundações (104.5).
Fez todos os seres viventes (104.24-26) e colocou homem e mulher, o pináculo do
trabalho criativo, como regentes sobre a terra (8.6-8). Ainda que a humanidade seja
uma parte minúscula e insignificante do vasto universo de Deus (8.4), sua posição
é grandemente exaltada, estando abaixo somente do próprio Deus, e momentanea-
mente inferior a dos anjos — ao menos em poder — (8.5). 

Até mesmo o mar ondulante, um símbolo do caos e desordem no antigo
pensamento pagão, é produto do trabalho criativo de Deus. Na mitologia ugarí-
tica, Baal, deus da tempestade, em sua busca pela realeza, é forçado a lutar com
Yam, o deus do mar. Depois de acirrada luta, Baal sai vitorioso. A batalha é descri-
ta deste jeito: “E a clava dançou na mão de Baal [como] uma águia partindo dos
dedos de Baal. Atingiu a coroa do príncipe [Yam], entre os olhos do juiz Nahar.
Yam desmoronou (e) caiu [de joelhos] em terra; as juntas tremeram e a forma
física se enrugou. Baal empurrou Yam com força e o derrubou, dando um fim ao
juiz Nahar”.  Em outros textos, uma criatura chamada leviatã, ao que parece um
dos servos de Yam, se opõe ao reinado de Baal (outra possibilidade é que leviatã
seja um nome alternativo de Yam). Em contrapartida, alguns salmos afirmam
que Deus fez o mar (yam, 95.5; 146.6). Em vez de serem vistos como forças que
se opõem a Deus, o mar e as suas criaturas, inclusive o leviatã, são apresentados
como exemplos primorosos da habilidade criativa de Deus (104.24-26).

Em Salmos 89.9-12, o tema da batalha com o mar aparece junto com o
trabalho criativo de Deus, talvez para sustentar a afirmação do Salmo sobre a
incomparabilidade do Senhor (cf. 89.5-7).  Contrário às reivindicações das na- 
ções pagãs, o Senhor criou as forças do caos (simbolizadas pelo mar ondulante,
no versículo 9, e pelo monstro marinho Raabe, no versículo 10),  quando deu
ordem ao universo.5 Só o Senhor é Rei soberano sobre o mundo por causa do
seu ato poderosamente criativo e só Ele merece aclamação da humanidade (cf.
89.14,15) . Tendo estabelecido a terra e conquistado os mares caóticos, Ele, as-
sentado em seu trono eterno, reina sobre o mundo (93.1-5).

O CRIADOR DE ISRAEL, O POVO DO CONCERTO

O Senhor criou a nação de Israel para ser o seu povo especial do concerto
(SI 95.6; 100.3; 149.2). Como prometera a Abraão e aos patriarcas, Ele libertou
milagrosamente os seus descendentes da escravidão no Egito, os formou em uma
nação e os levou à Terra Prometida (cf. 105.6-11,42-45). Vários salmos detalham
os acontecimentos históricos básicos que conduzem à criação de Israel, realçando
os julgamentos no Egito (78.12,43-51; 105.27-36; 135.8,9; 136.10) e a liberta-
ção sobrenatural pelo mar Vermelho (77.14-20; 78.13; 81.10; 136.11-15). Como
Criador de Israel, Deus tem o direito de reinar sobre a nação (114.1,2 declara que
Israel se tornou o “domínio” de Deus quando os livrou do Egito, e SI 149.2, ARA,
o “seu Criador” está em paralelismo poético com o “seu Rei”).

No caso de Israel, o trabalho criativo de Deus foi também um ato de re-
denção. Os dois temas estão estreitamente relacionados em Salmos 74.12-17,
em que o salmista reconhece Deus como o Rei eterno que traz salvação à terra
(v. 12), registra a vitória de Deus sobre o leviatã, a criatura marinha (w. 13,14),
e descreve alguns dos seus atos criativos (w.15-17). A referência à “salvação” no
versículo 12 e a descrição do leviatã por “mantimento aos habitantes do deser-
to” (v. 14; cf. Êx 14.30) indicam que o autor está aludindo à travessia do mar
Vermelho e à destruição dos exércitos de faraó nessas águas. Ao mesmo tempo, a
associação da vitória de Deus com o ato da criação (w.15-17) dá a entender que
a subjugação do mar primevo está em vista (cf. 89.9-12). Talvez seja desneces-
sário escolher entre a criação e o êxodo, como se fossem conceitos distintos. A
ocorrência redentora no mar Vermelho também foi um ato de criação por meio
do qual Deus trouxe ordem (uma nação) da desordem (escravidão no Egito),
subjugando as forças do caos (os exércitos egípcios), da mesma maneira que
fizera quando subjugou o primeiro mar e trouxe o universo ordenado à exis-
tência. Por conseguinte, o linguajar em Salmos 74.12-14, ainda que talhado 
para espelhar o caráter redentor do evento do Êxodo, também alude à vitória de
Deus sobre o caos na criação. 

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.