1 de abril de 2014

Gleason L. Archer - Introdução ao livro de Ester

O nome ’estêr é aparentemente derivado da palavra persa indi-
cando “estrela”, stara. O nome hebraico de Ester era Hadassah,
que quer dizer “mirta”. O tema deste breve livro é uma ilustração
da providência triunfante do Deus soberano que liberta e preserva
Seu povo da malícia dos pagãos que queriam tramar sua destrui-
ção. Embora não se mencione explicitamente o nome de Deus,
nada poderia ser mais claro do que o poder irresistível do Seu
decreto soberano, vigiando todo o povo da Aliança, protegendo-o
da malícia de Satanás na sua vã tentativa de trabalhar através de
Hamã e conseguir a aniquilação dos judeus.

Não é fácil esclarecer a ausência do nome de Deus nesta nar-
rativa; a melhor explicação que se oferece é que a narrativa trata
principalmente daqueles judeus que tinham deixado passar sua
oportunidade de voltar à terra da promessa, e escolheram ficar com
os gentios depois da volta do remanescente fiel em 536 a.C. É certo
que todos os atos deste dramático episódio desempenharam-se em
território gentio; é igualmente certo que a soberania da providên-
cia de Deus é claramente subentendida em 4:14: “Porque, se de todo
te calares agora, de outra parte se levantará para os judeus socorro
e livramento.... e quem sabe se para tal conjuntura como esta
é que foste elevada a rainha?”

Esboço de Ester

I. A Festa de Assuero e o Divórcio de Vasti, 1:1-22.
II. A Escolha de Ester como Rainha, 2:1-23.
III. O Complô de Hamã de Destruir Mordecai e os Judeus, 3:1-15.
IV. Mordecai Persuade Ester a Intervir, 4:1-17.
V. Ester Faz uma Petição bem Sucedida Perante o Rei, 5:1 —
7:10.
VI. A Queda de Hamã e a Libertação dos Judeus, 8:1 — 9:16.
VII. A Festa de Purim, 9:17-32.
VIII. Conclusão: Proeminência de Mordecai o Judeu, 10:1-13.

Autoria e Data

O texto propriamente dito não indica nem o autor nem a data
da composição. As autoridades judaicas, registram a tradição (que
remonta até Josefo e que foi repetida pelo Rabi Ibn Ezra) que
Mordecai era autor do livro, mas, a maneira de se referir a Mordecai
em 10:2, sugere que sua carreira já tinha findado. Outros possíveis
autores podem ter sido Esdras ou Neemias, mas não há boa evi-
dência lingüística para nenhum deles, a julgar pelo estilo e pela
dicção dos três livros em pauta.

Quanto à data, o limite inicial é a morte de Xerxes (465 a.C.)
sendo que 10:2 parece dar a entender que seu reinado tivesse che-
gado ao fim. O limite final é antes de 330 a.C. sendo que não há
nenhum sinal de influência grega, seja na linguagem, seja na linha
de pensamento em Ester. A data de composição mais provável é
algum período da segunda metade do quinto século (assim E. J.
Young). Qualquer que tenha sido o autor, demonstra um conhe-
cimento tão íntimo de costumes persas e da situação histórica do
quinto século, que pode muito bem ter vivido na Pérsia e ter sido
uma testemunha ocular dos acontecimentos registrados.

Oposição à Historicidade de Ester

1. Críticos racionalistas têm tirado muitas conclusões da
ausência da rainha Ester dos registros seculares. Segundo Heró-
doto, a rainha de Xerxes durante este período, isto é, desde o sé-
timo ano do seu reinado (Ester 2:16), se chamava Améstris, filha
dum persa chamado Otanes (vii, 61). Declara-se que brutalmente
mutilou a mãe de Artaynta, uma concubina de Xerxes (ix, 112) e
que também, numa certa ocasião, mandou enterrar vivos quatorze
jovens persas da nobreza, como oferta de gratidão a um deus do
submundo (vii, 113). Certamente, a origem persa de Améstris, e
sua sádica brutalidade excluem qualquer possibilidade de ser iden-
tificada com Ester — a não ser que Heródoto conservou uma tra-
dição muito confusa e errônea.  Deve ser reconhecido que nos se-
guintes detalhes há um acordo satisfatório entre as narrativas de
Ester e de Heródoto: a) Foi no terceiro ano do seu reinado, 483 a.C.,
que Xerxes convocou uma assembléia dos seus nobres para planejar 
uma expedição contra a Grécia — uma ocasião que muito prova-
velmente dera ocasião à festa mencionada em Ester 1:3 (cf. Heró-
doto vii, 7); b) foi no seu sétimo ano (479 a.C.) que Ester foi feita
rainha (Ester 2:16 e segs.), a qual corresponderia ao ano no qual
Xerxes voltou da sua derrota em Salámis, e procurou consolação
no seu harém (Heródoto ix, 108). Depois da luta violenta com
Améstris no assunto de Artaynta, Xerxes pôde muito bem ter es-
colhido uma nova favorita como sua rainha substituta. Quanto a
Vasti, é verdade que Heródoto não a menciona; mas deve ser lem-
brado que Heródoto omitia muitas pessoas importantes, e eventos
marcantes, da sua narrativa. (Deve ser lembrado, por exemplo,
que, baseados na omissão de Heródoto, estudiosos modernos nega-
vam a existência de Belsazar, até que descobertas arqueológicas
verificassem a historicidade de Daniel 5).

2. Baseados em Ester 2:5,6, alguns críticos têm alegado que
o autor deve ter considerado Xerxes como sendo um sucessor quase
imediato do rei Nabucodonosor, já que dá a entender que Mordecai
foi levado com a deportação de Jeoaquim em 597, e que ainda estava
vivo e ativo durante o reinado de Xerxes (485-465 a.C.). Mas esta
dedução se fundamenta numa interpretação errônea do texto he-
braico; o verdadeiro antecedente do pronome relativo “que” no
vers. 6, não é Mordecai mas sim, Quis, seu bisavô. Se Quis foi o
contemporâneo de Jeoaquim, conforme dá a entender o autor,
três gerações teriam passado até o tempo de Mordecai — um inter-
valo apropriado entre 597 e 483.

3. Uma objeção tem sido levantada contra Ester 1:1 por ter
sido considerado que 127 províncias fosse um número alto demais
para o reino de Xerxes, sendo que Heródoto declara que o império
naquela época dividia-se em vinte satrapias. Mas não é, de modo
nenhum, certo que a palavra hebraica medínah (“província”) repre-
sentasse a mesma unidade administrativa que a palavra grega sa-
trapeia; em toda a probabilidade, a palavra medínah era uma sua
subdivisão. Assim, em Esdras 2:1, Judá é chamado medínah, ou
uma subdivisão da quinta satrapia definida por Heródoto, a Síria.
O próprio número das satrapias não era de modo nenhum estável,
sendo que na inscrição da Rocha de Beistum, declara-se que o im-
pério era composto de 21 satrapias, e depois, mais adiante na ins-
crição, 23, e ainda mais adiante, 29. O próprio Heródoto declarou
que havia cerca de 60 nações sob o domínio dos persas. Tendo em
vista toda esta evidência, é prematuro para qualquer pessoa decla- 
rar categoricamente que o império persa não pode ter sido dividido
em 127 medínõt na época de Xerxes.

4. Tem sido argumentado também que os judeus, ainda que
armados, não poderiam ter morto um número tão grande de ini-
migos pelo império persa afora, no período dum único dia (75.000
conforme declara Ester 9:16.17), e também que o governo persa
não deixaria que se praticasse uma matança tão grande. É, porém,
um raciocínio bem precário insistir que o fora do comum seja a
mesma coisa que o impossível. À luz da situação peculiar causada
pelo complô de Hamã de destruir a nação judaica inteira, e do
armamento especial dos judeus visando a destruição dos seus ini-
migos, não é de modo algum incredível que os judeus pudessem ter
enfrentado e vencido um número tão grande de inimigos. Além
disto, os historiadores testificam abundantemente que o governo
persa tinha uma atitude extraordinariamente insensível para com
a vida humana, e quando se tratava dum problema dum membro
da família real, sabe-se que sua severidade não tinha limites.

5. Muitos autores têm levantado dúvidas quanto à historici-
dade de Mordecai, e defensores da teoria da data posterior decla-
raram que Ester é um mero romance para reforçar o egoísmo na-
cional, melhorando a disposição do povo judeu oprimido e tirani-
zado. Mas, mais recentemente, aqueles estudiosos que antes rejei-
tavam a narrativa inteira como sendo fictícia, têm sido forçados a
rever suas conclusões à luz duma inscrição publicada por Ungnad
mencionando um certo Marduk-ai-a que era oficial em Susã du-
rante o reinado de Xerxes. De fato, o nome Marduk tem sido acha-
do freqüentemente em inscrições babilónicas posteriores (como se-
ria de se esperar dum nome que significava “Homem de Marduque”
o deus patrono da própria Babilônia).

6. Quanto às dúvidas sobre a historicidade de Hamã, o aga-
gita, é significante que uma inscrição de Sargom tenha sido pu-
blicada por Oppert que menciona Agag como distrito no império
persa. À luz desta evidência, é aparente que Hamã era nativo desta
província, e não um descendente do rei amalequita Agague, como
a tradição posterior dos judeus tem suposto, cf. ISBE 1008a).

Uma confirmação impressionante da exatidão histórica do
autor de Ester tem sido achada numa inscrição de Artaxerxes II,
que declara que o palácio de Xerxes foi destruído por um incêndio
durante o reinado de Artaxerxes I. Isto significaria que dentro de 
trinta anos da época de Ester, o palácio no qual vivia teria sido des-
truído, e, segundo a ordem natural de acontecimentos, a lembrança
dele logo desapareceria. Dificilmente pode-se supor que qualquer
romancista duma data posterior teria tido qualquer conhecimento
dum edifício que tinha sido destruído tanto tempo antes da sua
própria época. Escavações de arqueólogos franceses desvendaram
os remanescentes deste palácio, e demonstram que seu plano con-
corda perfeitamente com a estrutura pressuposta no livro de Ester
(cf. ISBE lOOya).

Concluindo, deve ser observado que não há nenhuma outra ex-
plicação razoável para o fato histórico da Festa de Purim, conforme
se observava entre os judeus, a não ser que houvesse realmente na
história um livramento da nação de ser aniquilada, exatamente do
tipo descrito aqui. Não teria havido nenhum motivo para que se
inventasse tal narrativa, a não ser que fosse baseada numa ocor-
rência real. O nome Purim é indubitavelmente autêntico, sendo
que o termo puru, significando “sorte”, tem sido descoberto nas
inscrições assírias.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.