27 de março de 2014

Roland de Vaux - Israel e as diversas noções orientais de estado

Quando os israelitas conquistaram Canaã, o país estava dividido em uma multidão de principados. Js 12.9-24 conta trinta e um reis derrotados por Josué c essa lista não esgota o mapa político da Palestina. Dois séculos antes, as cartas de Amama refletem a mesma situação e mostram que ela se estendia até a Síria. Esta foi a forma que o domínio dos hicsos tomou nessas regiões, mas cia retrocede ainda mais no tempo: os textos egípcios de proscrição testemu¬nham-na em princípios do segundo milênio. Essas unidades políticas se redu¬zem a uma cidade fortificada e a um pequeno território que a rodeia. São governadas por um rei que, no tempo dos hiesos e de Amama, é com freqüên¬cia de origem estrangeira e se apoia em uma tropa recrutada entre os seus e reforçada por mercenários; a sucessão ao trono se rege normalmente pelo prin¬cípio dinástico. A mesma concepção de Estado se acha nos cinco principados filisteus da costa. É certo que esses formam uma confederação, Js 13.3; Jz 3.3; l Sm 5.8, mas esse traço aparece também na união de quatro cidades gibeonitas, Js 9.17, sem contar as alianças, que parecem transitórias, entre reis cananeus, Js 10.3s; 11.1-2.


Em contraste com esses pequenos Estados, há grandes impérios, como o do Egito, do qual durante longo tempo foram vassalos os reizinhos da Palesti¬na e da Síria, depois os impérios assírio, neobabilônico e persa. São Estados fortemente organizados, que unem populações diversas em grandes territórios estendidos por conquista. Neles, o sentimento nacional é pouco desenvolvido c o exército que defende o território e realiza as conquistas é um exército de soldados profissionais que enquadra grupos mercenários. A autoridade é monárquica e a sucessão é, teoricamente, hereditária.

No fim do segundo milênio a.C. aparecem Estados nacionais. Têm nomes de povos: Edom, Moabe, Amom, Aram. Limitam-se ao território habitado pelo povo e, em seu início, não procuram estender-se pela conquista. A defesa do país não é assegurada por um exército profissional, mas pela nação em
armas, convocada em caso de perigo. O governo é monárquico, mas não neces-sariamente hereditário. Da lista dos primeiros reis de Edom, Gn 36.31-39, resulta que esses reis deviam o poder à escolha ou à aceitação pela nação. Se mais tarde o princípio dinástico foi estabelecido, foi sem dúvida por evolução natu¬ral ou por influência dos grandes Estados vizinhos.

Segundo uma tradição bíblica, os israelitas pediram um rei para serem “como as outras nações”, I Sm 8.5. Mas não imitaram os principados cananeus que haviam sido desapossados por sua conquista. Nunca prevaleceu em Israel essa concepção de Estado. Tentativas foram feitas, que terminaram em fracas¬so: uma realeza desse gênero, com sucessão hereditária, foi recusada por Gideão, Jz 8.22s, e o reinado efêmero de Abimeleque em Siquém apoiava-se em elementos não israelitas, Jz 8.31; 9.1 s. Recentemente sustentou-se que Jerusalém, cidade jebuséia conquistada por Davi, e Samaria, cidade nova fun¬dada por Onri em um terreno comprado por ele, haviam tido, no interior dos reinos de Judá e de Israel, o estatuto de cidades-Estados do tipo cananeu. Essa conclusão parece ir além dos textos em que se pretende fundá-la.

Os israelitas, pelo menos originariamente, também não modelaram sua concepção de Estado sobre a dos grandes impérios, por exemplo, a do Egito, com a qual estavam em contato. Só ao final do reinado de Davi e sob Salomão 1 tentou-se realizar a idéia de império. Mas o êxito foi de curta duração e só se conservaram na organização administrativa alguns traços imitados do Egito.

Pelo contrário, a noção de Estado em Israel se aproxima mais à dos rei¬nos arameus da Síria e da Transjordânia. Como estes, Israel e depois Israel e Judá são reinos nacionais, têm como eles nomes de povos e, como eles, não admitiram desde o início o princípio dinástico. Poderíamos, sem dúvida, levar mais adiante o paralelo se conhecêssemos melhor a história primitiva e a orga¬nização desses reinos. Em todo caso, é notável que esses Estados nacionais se formaram aproximadamente na mesma época que Israel, por agrupamentos que tinham com ele afinidade racial e que, como ele, se sedentarizaram depois de uma existência seminômade. Esses Estados aparecem como a continuação da solidariedade tribal, fixada no quadro de um território.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.