14 de março de 2014

Randall Price: A aventura da arqueologia

Revelando os segredos das eras passadas

Eu creio na pá. Ela sustentou as tribos da humanidade. Ela forneceu-lhes água, carvão, ferro e ouro. E agora ela está lhe revelando a verdade — verdade histórica, cujas minas nunca haviam sido abertas, até o nosso tempo.— Oliver Wendeil Holmes

Vivemos um período de entusiasmar! Descobertas arqueológicas estáo brotando por todo o mundo, mais rápido do que os nossos jornais podem in¬formar. E são boas as notícias para os estudantes das Escrituras: grande parte dos achados está ajudando, como nunca antes, na compreensão da Bíblia. Para ilustrar o quanto e quão rápido o passado está invadindo o presente, aqui estão apenas algumas das maravilhosas descobertas, com relevância para a Bíblia, feitas até a época deste escrito, no início de 1997:


Uma câmara escondida foi descoberta no vale do Rei (Luxor, Egito) próximo à tumba do famoso rei Tut. Ela pode ser o lugar do sepultamento do primogênito do faraó Ramsés II. Se for correta a teoria de que era ele o faraó do Êxodo, então seu filho foi morto na última praga ordenada por Moisés.

Sob as ondas da costa de Alexandria, Egito, milhares de artefatos dos anos 670-30

a. C. foram encontrados.2 Entre eles, uma das sete maravilhas do mundo antigo, o grande farol de Alexandria, desaparecido há mais de 2.200 anos. Outras descobertas incluem palácios reais de figuras famosas como a rainha Cleópatra, Júlio César e Marco Antônio.3 E, em algum lugar nesse sítio submerso de cerca de cinco acres e meio, arqueólogos crêem que encontrarão pelo menos o sarcófago dourado de Alexandre, o Grande, que fundou a cidade em 323 a.C. e cuja conquista do mundo conhecido foi predita pelo profeta hebreu Daniel (veja Dn 11.3,4).4

Descoberta recente, ainda não publicada, é a de uma inscrição cuneiforme de 3.500 anos sobre um prisma de argila do reino sírio deTikunani. Os primeiros trabalhos de tradução levaram ao anúncio de que o texto pode finalmente conter a identidade há muito procurada dos enigmáticos habirus, povo que alguns acreditam estar relacionado aos hebreus bíblicos.5

Há notícias de que satélites, utilizando-se de raios infravermelhos, localizaram o desaparecido rio Pisom. Há muito enterrado pelas areias do deserto, seu antigo curso pôde ser traçado pelo satélite no leito de Farouk El-Baz, que corre de Hijaz, no Oeste da Arábia, até o Kuwait. Esse rio, junto com os bem conhecidos Tigre e Eufrates, ajuda a definir a localização do jardim do Éden na Bíblia (Gn 2.11).6

E, falando no jardim do Éden, chega de Israel a notícia de uma serpente fossilizada com pernas traseiras bem desenvolvidas encontrada numa pedreira.7 A descoberta de uma cobra com pernas dá relevância à história da serpente descrita no relato da tentação, no livro de Gênesis (Gn 3.1-15).

Já ouviu falar nos misteriosos essênios? Cinqüenta tumbas descobertas recentemente em Beit Safafa, sudoeste de Jerusalém, podem ser a primeira evidência dessa comunidade perdida.8 Crê-se que um grupo de essênios habitou Qumran e produziu os manuscritos do mar Morto. As tumbas de Jerusalém são do mesmo período e exatamente iguais às de Qumran. Esse achado pode ser o elo que faltava entre Jerusalém e Qumran, resolvendo finalmente o enigma da autoria dos manuscritos do mar Morto.

Se esses relatórios são insuficientes para entusiasmá-lo, talvez seja porque notícias desse tipo estão cada vez mais comuns nesta era de redes de informação  24 horas e de variados programas educacionais de televisão. Para realmente apre¬ciarmos as revelações arqueológicas de nossos dias, será preciso fazer uma pequena viagem à época em que tais informações eram desconhecidas para o mundo.
Era assim
No início do século XVIII, ninguém podia sonhar que maravilhas a arque¬ologia estava para revelar. O mundo do passado estava amplamente esquecido, exceto pela procissão histórica de nomes antigos de pessoas e lugares, mas não havia qualquer evidência física de que eles realmente houvessem existido. Típi¬ca daquele tempo era a observação de Herder: 

No Oriente Próximo e no vizinho Egito, tudo que é dos tempos antigos nos parece ruínas ou um sonho que desapareceu [...] Os arquivos da Babilônia, Fenícia e Cartago não existem mais; o Egito sucumbiu praticamente antes que os gregos conhecessem o seu interior. Assim, tudo se restringe a algumas folhas desgastadas que contêm histórias sobre histórias, fragmentos de história, um sonho do mundo anterior ao nosso.9

Essa era a condição de nosso conhecimento material sobre a Antigüidade há apenas dois séculos. A Bíblia era o único testemunho a respeito dela própria. De um lado, o leitor era abençoado por suas verdades, ainda que de outro lado ele fosse freqüentemente deixado a perguntar-se acerca dos lugares e eventos nela registrados. Havia, é lógico, muitas fontes de literatura antigas — comen¬tários sobre a história antiga e bíblica, como o Talmude, Josefo e os escritos greco-romanos —, mas estavam disponíveis somente para quem fosse treinado em literatura clássica. Os demais tinham de contentar-se com a sua fé e imagi¬nar o mundo bíblico sem nenhuma outra referência além do mundo no qual viviam. E, mesmo para os especialistas, o passado era um quadro nebuloso e imaginário.

O fato de o passado aparentemente não ter nada a oferecer gerou uma apropri¬ada ilustração da mortalidade do homem e uma ponderação fdosófica sobre a sua transitoriedade. Foi com essa atitude mental que Dunsany escreveu o seu contemplativo solilóquio:

Foi a aranha que falou: “O trabalho do mundo é construir cidades e palácios. Mas não para o homem. O que é o homem? Ele apenas prepara cidades para mim e as aperfeiçoa. Leva de dez a cem anos para construir uma cidade e por mais quinhentos ou seiscentos a aprimora, e fica preparada para mim. Então passo a habitá-la, e me escondo de tudo o que é feio e faço belos fios sobre ela, de um lado para o outro [...] Para mim Babilônia foi erguida, e a rochosa Tiro; e os homens ainda constroem minhas cidades! O trabalho do mundo é a construção de cidades, e eu herdo todas elas!”

Desenterrando o passado

A arqueologia, no entanto, humildemente reclama essa herança para o ho¬mem. Ela espanta as aranhas do tempo e ressuscita a glória desvanecida do passado para que uma geração a entenda e aproveite. Sob alguns aspectos, ela também repeliu algumas noções céticas concernentes à Bíblia, que alcançaram popularidade com a invasão da Alta Crítica, há mais de um século. Esse avanço tornou-se possível graças ao trabalho da pá, quando começaram a vir à luz pers¬pectivas do mundo da Palavra. Na verdade, como orgulhosamente declarou o professor William Foxwell Albright, deão da velha escola: “descoberta após des¬coberta [a arqueologia] tem estabelecido a exatidão de inumeráveis detalhes e trazido reconhecimento crescente ao valor da Bíblia como fonte de história”.10

Enquanto para muitos arqueólogos modernos a visão de Albright continua a ser desafiada, as evidências da arqueologia aumentam sem parar. Décadas atrás, o Dr. Donald J. Wiseman podia gabar-se de que “a geografia das terras bíblicas e resquícios visíveis de antigüidade foram gradualmente registrados, até hoje: mais de 25 mil sítios dentro dessa região e datando dos tempos do Antigo Testamento, em seu mais amplo sentido, foram localizados”.11 Hoje, todavia, os resquícios são centenas de milhares. Com tal abundância de artefatos — e com outros vindo à tona o tempo todo — é difícil, se não impossível, para nós estudantes das Escritu¬ras nos mantermos atualizados quanto a cada item que tenha relevância bíblica. Contudo, livros como este são uma tentativa, uma proposta de jornada ao berço da Palavra — as terras, as línguas e o ambiente do Livro dos livros.
Para iniciarmos nossa viagem, faz-se necessário um entendimento básico do assunto.

O que é arqueologia “bíblica”?

A palavra “arqueologia” deriva do termo grego archaiología, que significa “estudo das coisas antigas [ou arcaicas]”. Os gregos usavam a palavra “arqueolo¬gia” para descrever antigas lendas e tradições. A primeira menção conhecida — em inglês — data de 1607, usada numa referência ao “conhecimento” sobre o Israel antigo com relação a fontes de literatura como a Bíblia. Então, no século XIX, quando começaram a ser desenterrados artefatos dos tempos bíblicos, a palavra foi a estes aplicada (excetuando-se os documentos escritos).

Portanto, a arqueologia está ligada à Bíblia desde o começo. K hoje é en¬tendida como um departamento da pesquisa histórica que busca revelar o passado por uma recuperação sistemática de seus resquícios. Todavia, à medida que a arque¬ologia se desenvolveu como ciência e as escavações alcançaram terras alem das que têm relevância bíblica, surgiu a necessidade de se cunhar um termo mais exclusivo. E assim, como uma disciplina distinta em um campo mais extenso, nasccu a “arque¬ologia bíblica” — a ciência da escavação, decifração e avaliação crítica dos registros de materiais antigos relativos à Bíblia.

O nascimento da arqueologia bíblica

A arqueologia nasceu quando os homens começaram a querer recuperar materiais do passado. Os primeiros arqueólogos, se é que podemos chamá-los assim, foram os ladrões de tumbas, que pilhavam os sepulcros da Antigüidade (geralmente não muito tempo depois de serem selados). Apesar do risco de acabar preso numa tumba com os cobiçados tesouros e da morte a que estava sujeito o ladrão aprisionado, a “profissão” aparentemente floresceu. A maioria das grandes tumbas do passado descobertas em nosso tempo já haviam sido visitadas por aqueles “profissionais”.

Quando em tempos relativamente modernos o passado começou a ser ex¬plorado por aventureiros europeus, relíquias e souvenires eram levados para casa com o propósito de encantar amigos e conquistar fama. Logo os caçadores de fortuna começaram a proliferar, navegando para terras distantes em busca de ri¬quezas que imaginavam estarem à espera deles nas vastas minas sem dono que eram as antigas ruínas. As “escavações” desses mercenários destruíam material em proporção idêntica à dos achados. Outros, porém, com um espírito diferente, começaram a registrar as suas observações em pinturas e desenhos, que, apesar do romantismo, traziam notícias de terras e culturas havia muito esquecidas.12

A primeira tentativa “científica” em arqueologia foi conduzida por Napoleão Bonaparte em 1798. Seu interesse pela arqueologia era evidente, considerando- se a maneira como se dirigiu às tropas francesas após ter invadido o Egito: “Do alto destas pirâmides, cinqüenta séculos vos contemplam!” Diz-se que Thomas Jefferson* “explorou cientificamente” os túmulos da Virgínia. No século se¬guinte, outros americanos, como Edward Robinson e Eli Smith, juntaram-se a um grupo de eruditos da Inglaterra, Suíça, França, Alemanha e Áustria para publicar plantas topográficas, mapas detalhados e resultados de árduas escava¬ções nas terras bíblicas.

As primeiras expedições arqueológicas, executadas com altos custos, foram quase todas financiadas por pessoas cujo principal interesse era a Bíblia. Assim, na maioria das vezes, o progresso da arqueologia como um todo deveu-se ao impulso da arqueologia bíblica. Quaisquer que tenham sido as motivações, todavia, esses “descobridores das fronteiras arqueológicas” abriram caminho para um desenvol¬vimento mais científico da disciplina — em benefício de todos nós.

Tornando a história tangível

Como já mencionei, antes do nascimento da arqueologia ninguém tinha realmente idéia de como era o mundo da Bíblia. As concepções eram puramen¬te imaginárias. Como conseqüência, os comentários da Bíblia eram recebidos N. do T. - Terceiro presidente americano (1743-1826). quase do mesmo modo que os contos mitológicos dos gregos e romanos. Não que as pessoas rejeitassem a Bíblia como verdade. Mas o mundo da Bíblia lhes parecia um planeta diferente, e seus personagens, uma população alienígena cuja aparência e maneira de viver assemelhavam-se mais ao universo dos sonhos que à realidade.

Lembro-me de como fiquei chocado ao visitar pela primeira vez a Terra Santa. A concepção que eu tinha de um Jesus vestido de linho branco a passear sobre tapetes de grama viridente, tal como se via nos flanelógrafos, evaporou-se diante da realidade. As relíquias diante de mim, resgatadas nas escavações e o material exposto nos vários museus da Terra Santa mudaram muitas de minhas idéias preconcebidas. O mundo que eu construíra em minha imaginação ia se dissipando à medida que os fatos — que também diziam respeito à minha fé — me eram apresentados. E, passada a surpresa inicial, a arqueologia despertou- me para uma realidade: eu não tinha mais desculpas para justificar um compor¬tamento diferente do apresentado pelos heróis da fé!

Sim, porque eles também foram pessoas reais, vivendo num mundo real e conhecendo as mesmas preocupações e dúvidas com as quais eu me deparava. E, se a fé por eles manifestada desenvolvera-se num mundo real, então nada me escusava de ser diferente. E essa convicção tornou-se mais forte à medida que, ao logo dos anos e das sucessivas descobertas arqueológicas, os contornos do mundo bíblico real se faziam mais nítidos diante dos meus olhos.

A arqueologia revelou as cidades, palácios, templos e casas dos que con¬viveram com os indivíduos cujos nomes aparecem nas Escrituras. Tais des¬cobertas nos possibilitam declarar, como o apóstolo João: “O que era desde o princípio, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida [...] Estas coisas vos escrevemos” (1 Jo 1.1,4).

Coisas palpáveis podem assistir a fé em seu crescimento. A arqueologia traz à luz os remanescentes tangíveis da história, permitindo a criação de um contexto razoável para o desenvolvimento da fé. Permite também que fatos a sustentem — a confirmação da realidade dos personagens e eventos bíblicos. Assim, céticos e santos podem, do mesmo modo, perceber a mensagem espi¬ritual arraigada à história. O arqueólogo Bryant Wood, diretor da Associates for Biblical Research (Associados para Pesquisa Bíblica), comenta o assunto ao discorrer sobre a descoberta do nome “Casa de Davi” numa coluna de Tel Dã {cf. capítulo 9): 

Sabemos que [Davi] é uma figura histórica porque ele é mencionado na Bíblia, mas isso não é suficiente para os eruditos. Eles precisam de evidência extrabíblica. Então a arqueologia bíblica pode desempenhar um importante papel, verificando a verdade das Escrituras em face da crítica que hoje recebemos da moderna erudição.13

Uma aventura para todos os tempos

A arqueologia de Hollywood é uma aventura sem fim. Os arqueólogos do cinema são em parte eruditos e em parte super-homens, capazes de saltar abis¬mos flamejantes para resgatar fantásticos tesouros. Mas a arqueologia, em sua busca pelo passado, segue um caminho diverso. Ela é metodológica e freqüente¬mente secular. Mesmo assim, ainda é uma aventura — quando nos transporta ao passado e nos desafia a mudarmos nossa perspectiva do presente. Nessa aven¬tura, às vezes somos forçados a substituir opiniões particulares por fatos concre¬tos da história e a encarar, quem sabe pela primeira vez, a realidade da Palavra. E, à luz dos incessantes reclamos dos críticos, a arqueologia nos contempla com respostas adequadas a esta era tecnologicamente abençoada mas teologicamente falida.

E com um senso de aventura, então, que o convido a unir-se a mim numa viagem através do tempo — para escavar o solo, sondar as Escrituras e descobrir que coisas maravilhosas nos falam as pedras! 

PRICE, Randall. Arqueologia Bíblica. Rio de Janeiro: CPAD, 2006