11 de março de 2014

Randall Price: Os patriarcas - Lendas vivas ou vidas lendárias?

A arqueologia tem lançado luz considerável sobre a história dos Patriarcas em Gênesis: Abraão, Isaque e Jacó. Não que quaisquer registros destes homens possam ter sido jamais encontrados fora da Bíblia, mas o véu que anteriormente escondia seus tempos foi levantado. Como resultado, sabemos agora mais sobre o tipo de pessoas que eles eram, de onde eles vieram, como viviam, o que criam, onde e como eles devem ser encaixados na história das grandes nações dos tempos antigos além dos posteriores israelitas em si mesmos.1
G. Ernest Wright

A única história conhecida pelos israelitas durante sua escravidão no Egito era aquela transmitida para eles por seus ancestrais — os patriarcas (“pais que governam”). Era uma história de aliança e promessa entre Deus e seus pais, que dava ao povo de Israel esperança
mesmo no meio da opressão. Por esta razão, quando Deus agiu para libertar o seu povo dos egípcios, Ele escolheu identificar-se com os patriarcas — como “O Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó” (Êx 3.6,15,16; 4.5; Lc 20.37,38). Através disso, eles deveriam ter a certeza de sua libertação, pois Deus havia feito uma aliança com os patri¬arcas, que Ele havia jurado cumprir (Êx 6.3-8). De fato, a prática da circuncisão, que ainda é realizada nos meninos judeus hoje, testifica para a comunidade judaica uma contínua identificação com os patriarcas bíblicos que viveram 4.000 anos atrás. Os patriarcas continuam sendo o pilar central da autodefinição judaica, e a aliança patriarcal continua sendo a base histórica para o direito de Israel à sua terra antiga.

Menosprezando os patriarcas

Pode parecer um estranho ato de negar a si mesmos quando muitos críticos eruditos judeus se juntam aos seus colegas gentios na crença de que os relatos bíblicos dos patriarcas não são históricos.2 Posso lembrar bem da primeira vez que tomei conhecimento disso. Eu havia completado meus estudos no Dallas Theological Seminary e era um estudante graduado na Universidade Hebraica de Jerusalém. No Dallas Seminary, as narrativas patriarcais eram ensinadas como história verdadeira, e presumi que fosse do mesmo jeito nesta respeitável instituição acadêmica israelita. Todavia, em meu primeiro dia num curso sobre a história antiga de Israel, o professor, que era um dos mais renomados arqueólogos israelitas, declarou com absoluta convicção: “Abraão nunca existiu, mas seus primos, sim!” O professor continuou explicando que as histórias bíblicas sobre Abraão, Isaque e Jacó eram simplesmente contos do campo que haviam sido passados através dos séculos e que tinham virado lendas (ele usou a palavra saga). Ele disse que os patriarcas foram apenas uma projeção retroativa criada pelos judeus nacionalistas em meados do primeiro milênio (600-400 a.C.). Estes nacionalistas estavam procurando criar um passado glorioso, ainda que não histórico. Para apoiar seu ponto de vista, ele declarou que a evidência arqueológica não sustentava a existência do período patriarcal. Arqueologia à parte, lembro-me de destacar, com minha timidez jovem, que tal visão para os israelitas, cujos reclames territoriais repousavam em parte sobre a aliança abraâmica, e que hoje são assunto de debate internacional, era equivalente a serrar o galho sobre o qual estavam sentados. Hoje, com meu juízo mais amadurecido, eu diria que na verdade derrubaria a árvore toda (veja Rm 4.13; 11.28,29)!

Incidentalmente, os cristãos deveriam compartilhar uma preocupação so¬bre esta visão, porque, no Novo Testamento, Abraão é chamado “pai de todos nós” (Rm 4.16), e crentes em Cristo são considerados seus “filhos” e “descen¬dência, herdeiros segundo a promessa” (G1 3.7,29). Além disso, a historicida¬de dos patriarcas é aceita por Jesus e pelos autores do Novo Testamento (Mt 1.1,2; 3.9; 8.11; Lc 13.28; 16.22-30; 20.37,38; Jo 8.39-58; At 3.13,25; 7.16,17,32; Hb 2.16; 7.1-9; 1 Pe 3.6) e usada como testemunha por eles da garantia de Deus quanto ao cumprimento de sua Palavra (Rm 4.1-25; G1 3.6¬29; Hb 6.13; Tg 2.21-23). O coração de Hebreus capítulo 11 lista uma “galeria dos heróis do Antigo Testamento” que demonstraram a realidade de viver pela fé. Como Ronald Youngblood destaca: Para o crédito dos patriarcas, o autor de Hebreus devotou mais da metade daqueles vinte e nove versículos — quinze, para ser exato — ao detalhamento das maneiras pelas quais os patriarcas e suas esposas provaram ser homens e mulheres de fé...3 Portanto, sem os patriarcas, cuja fidelidade lançou o fundamento da nossa fé, nem judeus nem gentios têm uma promessa! Como pode a proeminência dos patriarcas na Escritura — especialmente de Abraão como uma figura central tanto no Antigo como no Novo Testamentos — ser desprezada como nada mais do que uma tradição? O registro arqueológico sustenta ou silencia a esperança de milhões de fiéis crentes cuja fé presente e bênçãos futuras estão baseadas na aliança com os pais? Vamos considerar a evidência arqueológica e decidir por nós mesmos.

Verificando os patriarcas

A antiga abordagem da escola Albright para com a historicidade das narra¬tivas patriarcais foram sem dúvida iniciadas pela surpreendente verificação ar¬queológica do império heteu. Agora reconhecido como o terceiro grande impé¬rio da história antiga no Oriente Próximo, os eruditos não podiam fazer outra coisa senão observar que as referências aos heteus, os filhos de Hete (Gn 10.15), estavam abundantemente espalhadas por todos os relatos patriarcais (Gn 11.27— 50.26). Por razões semelhantes, uma reavaliação moderna da evidência arqueo¬lógica para os patriarcas tem levado alguns eruditos de volta à uma visão mais conservadora da historicidade dos relatos de Gênesis (Gn 12—36). Por que isso está acontecendo? O professor Nahum Sarna recentemente fez esta observação:

Como um todo, as narrativas patriarcais possuem um sabor próprio sem paralelo no restante da Bíblia. Elas refletem um padrão de vida e várias instituições socio-legais que são peculiares ao período, mas freqüentemente atestados nos documentos do Oriente Próximo... a antiguidade das tradições de Gênesis é confirmada por várias práticas patriarcais que diretamente contradizem os valores sociais e as normas de uma era posterior...4

A narrativa bíblica dos patriarcas (incluindo José) em Gênesis 12—50 in¬dica um período de Bronze Médio datado do mais recente terceiro milênio aos meados do segundo milênio a.C. (2166-1805). A evidência arqueológica para este período tem emergido na forma do Código de Hamurábi, textos heteus e egípcios, e milhares de tabletes de argila da cidade amorita de Mari (Tel Hariri), a cidade horita de Nuzi, e as cidades de Leilan e Alalakh. A estes podemos  acrescentar o fabuloso achado no sítio sírio de Ebla (Tel Mardique), que apesar de ainda controvertida, tem oferecido algum material comparativo. Esta evidência inclui códigos de lei, contratos legais e sociais, e textos religiosos e comerciais.

Uma geração atrás, o argumento que estes artefatos criaram para a antiguidade e historicidade dos patriarcas era mais aceito do que é hoje. Em tempos recentes, eruditos minimalistas têm desafiado estas conclusões.5 Seus esforços, porém, ao invés de serem destrutivos para a posição maximalista, têm coopera¬do com ela removendo elementos inconsistentes ou desnecessários para o retrato bíblico dos patriarcas.6 Em particular, a análise minimalista crítica de Thompson quanto a supostos paralelos entre os tabletes de Nuzi e os costumes sociais dos patriarcas tem ajudado a aprimorar o uso desses textos para uma reconstrução maximalista mais acurada da era patriarcal. Mesmo assim, a correção dos paralelos baseados no material de Nuzi, tem provado ser muito mais do que Thompson originalmente propôs.7 Enquanto ali repousa menos evidência arqueológica para este período do que talvez qualquer outro, comparações cuidadosas de relatos bíblicos com a informação disponível têm oferecido os seguintes argumentos para a sustentação da historicidade patriarcal.

O mundo dos patriarcas

Os textos de numerosos contratos do antigo C )riente Próximo revelam que o cenário social retratado nas narrativas patriarcais é exato e se encaixa no tem¬po sugerido pela cronologia bíblica. Um ponto de comparação entre estes tex¬tos e a Bíblia envolve leis que regiam a herança. Em Gênesis 49, Jacó abençoa seus 12 filhos, dividindo uma fatia igual da herança para cada filho. Isso, po¬rém, mudou no Sinai, pois a lei mosaica estipulava que o filho primogênito devia receber o dobro da herança (Dt 21.15-17). Esta aparente contradição foi formalmente explicada pelos altos críticos de acordo com o documentário hi¬potético de Wellhause, que alegava que diferentes escritores compuseram rela¬tos conflitantes do Pentateuco ao mesmo tempo na história pós-exílica de Isra¬el. Mas os textos extrabíblicos do antigo Oriente Próximo confirmam que ape¬sar deste material poder ter sido editado para uma forma definitiva num perío¬do posterior, sua composição original poderia ter-se dado durante o tempo de Moisés.8 No caso da bênção patriarcal de Gênesis 49, uma fatia igual na lei das heranças é evidente nas leis de Lipit-Istar (século XX a.C.). Todavia, 200 anos mais tarde, no Código de Hamurábi (século XVIII a.C.), uma distinção é feita entre os filhos da primeira mulher de um homem — que têm a primeira esco¬lha — e os filhos de sua segunda esposa. Então, quando comparamos os textos de Mari e Nuzi (século XVIII a XV a.C.) descobrimos que um primogênito natural recebeu uma porção dobrada enquanto um filho adotado não recebeu. As leis neobabilônicas do primeiro milênio refletem uma progressão semelhante, com os filhos de uma primeira esposa recebendo uma porção dobrada e os demais recebendo uma porção única.

O egiptologista britânico Kenneth Kitchen sugere um número de outras comparações sociais do registro arqueológico que oferecem correlação com uma data no segundo milênio.9 Sua lista inclui o preço de escravos em siclos de prata (como com José, Gn 37.28), a forma específica de tratados e alianças (Gn capítulos 21, 26, 31), condições geopolíticas (Gn 14), e referências ao Egito (Gn capítulos 12,45-47). Exemplos adicionais propostos por eruditos incluem a domesticação de camelos (Gn 12.16), que foi atestada em textos até anteriores aos patriarcas,10 a adoção de filhos através de substituição (Gn 12.16), testemunhadas por contratos de casamento na antiga Assíria (século XIX a.C.)11, no Código de Hamurábi e em Nuzi, da lei mesopotâmica garantindo os direitos de herança de um filho adotado (assim como Eliézer em Gn 15.2-4).12 Em cada um desses textos, a informação arqueológica parece concordar exatamente com a nossa informação das condições naquela época. Por isso, de acordo com a mudança dos costumes sociais refletida por essas leis, somente o contexto do segundo milênio vai encaixar-se no tipo de prática de herança dos patriarcas.13

Os nomes dos patriarcas

Um modo de determinar o espaço cronológico de personagens históricos é considerando seus nomes. Nomes tendem a refletir um ambiente cultural espe¬cífico no tempo. Considere por um momento os nomes de seus pais e avós. Minhas avós chamavam-se Tabitha e Jesse, e meus avôs, Peyton e Ernest. O nome de minha mãe é Maurine e do meu pai era Elmo. Porque tais nomes são peculiares a um tempo eles raramente são passados adiante (exceto como inici¬ais) para a próxima geração. Hoje, na cultura americana é mais comum encontrar um Brandon, uma Sabrina ou Meagan. As principais exceções são nomes imortais tirados de grandes personagens do passado, mais freqüentemente figu¬ras bíblicas. Por esta razão sempre teremos Davis, Marias, Joãos e Paulos.

Comecemos a considerar os nomes dos parentes mais próximos de Abrão, como seu bisavô Serugue, seu avô Naor e seu pai Tera (e o próprio nome de Abrão). Pesquisadores confirmaram que estes nomes aparecem em antigos tex¬tos assírios e babilônios e aqueles textos neo-assírios e correspondem aos lugares na região Eufrates-Habur da Siro-Mesopotâmia. Esta ligação geográfica com Abrão e sua linhagem concorda com os relatos bíblicos de que sua família veio de Ur e se estabeleceu em Harã (Gn 11.28,31)- Além disso, se tentarmos colo¬car os nomes dos patriarcas num ambiente cultural, descobriremos que eles são mais proeminentes no grupo lingüístico semita do noroeste da população amorita do início do segundo milênio a.C. (como Mari), e exemplos do terceiro milênio também têm sido atestados em Ebla. Nomes com um prefixo i/y, como Yitzchak (“Isaque”), Ya’akov (“Jacó), Yoseph (José) e Yshmael (“Ismael”), pertencem a este lipo de nome, e a freqüência com que aparecem diminui significativamente no primeiro milênio e daí em diante.14

Assim, o tempo durante o qual os homens com este nome teriam vivido seria o período pré-israelita — um fato que está de acordo com o texto bíblico.

Os lugares dos patriarcas

Os lugares mencionados nas narrativas patriarcais também revelam uma consistência histórica quando comparados à evidência arqueológica das ruínas de Ur, Hebrom, Berseba e Siquém. Em particular, a cidade de Harã na Mesopotâmia superior, que no texto bíblico parece ter sido um centro comerci¬al durante o tempo de Abraão, foi abandonada depois do período patriarcal e continuou desocupada desde cerca de 1800 a.C. até 800 a.C. Observando este ponto, Barry Beitzel, um arqueólogo da Trinity Evangelical Divinity School, observa: “E altamente improvável [que alguém inventando uma história mais tarde] escolhesse Harã como um local-chave quando a cidade não havia existi¬do por centenas de anos”.

O sítio israelita de Tel Dã nas montanhas de Golã preserva o nome da antiga cidade de Dã, que muitos leitores da Bíblia se lembram por causa da descrição geográfica da Bíblia “De Dã até Berseba.” De acordo com alguns textos egípcios de execração, o antigo nome de Dã era Laís {veja Jz 18.7,14).15 Esse teria sido o nome da cidade no tempo dos patriarcas. As escavações arqueológicas neste sítio revelaram uma grande cidade cananita com cultura altamente desenvolvida, ricas tumbas, e enormes fortificações diagonais de defesa. A grande surpresa na escava¬ção foi descobrir no meio das fortificações um portão de tijolos de 4 mil anos com um arco (uma realização arquitetônica que pensava-se ter sido inventada pelos romanos 2 mil anos depois!). Ainda mais incrível é o fato de que este muro de tijolos ainda permanece de pé hoje exatamente como foi construído originalmente, completo até em cima.16 Esta serviu como principal porta para Laís, e teria sido usada por todos os que visitavam a cidade. De acordo com Avraham Biran, isso poderia ter muito bem incluído os patriarcas: 

Abraão, no livro de Gênesis, prosseguiu em derrotar os reis do Norte que levaram seu sobrinho Ló como prisioneiro, e o texto diz em Gênesis 14 que: “Abraão os perseguiu até Dã.” Agora, é claro, naqueles dias o nome da cidade era Laís e não Dã. Eu imagino que o copista bíblico que achou o nome Laís tenha dito: “quem ainda lembra de Laís, ela se foi, está esquecida,” então ele escreveu Dã. Mas para o meu modo de pensar, Abraão, sem dúvida, foi convidado a visitar a cidade de Laís e pelo que sei passou pelo muro antes que ele fosse bloqueado.17

Um lugar como a porta de Laís provê confirmação que, conforme declara o registro bíblico, havia de fato uma cidade em Dã no tempo de Abraão, desta forma acrescentando credibilidade à narrativa patriarcal.
Prova para os patriarcas no forte Abrão Outro lugar do período israelita tem sido proposto como evidência incidental para confirmar a existência dos patriarcas. Construída no Neguebe por Davi ou Salomão no começo do século X a.C. como parte de uma linha de defesa contra os egípcios, o nome do lugar é listado num texto em hieróglifo sobre o relevo da parede no templo de Amon, em Carnaque (Luxor, Egito). O nome deste lugar é “O Forte de Abrão” ou “Cidade Fortificada de Abrão”. Yohanan Aharoni acreditava que “forte Abrão” era o termo usado pelos egípcios para a cidade israelita de Berseba. Isso porque na lista egípcia das cidades do Neguebe, Berseba não é mencionada, todavia era um lugar proeminente duran-te aquele tempo. A explicação mais plausível para isso é que o novo lugar de defesa em Berseba tinha recebido o nome de Abrão porque ele foi o fundador original da cidade (Gn 21.22,23). Como Ronald Hendel explica: “Quando o governo levan¬ta fortificações, é natural chamá-las pelos nomes de ilustres heróis locais ou naci¬onais. Abrão, com a fama bíblica, certamente preenche os requisitos”.18

O clima dos patriarcas

Através das eras, mudanças nos ciclos climáticos global e regionais afeta¬ram o movimento das populações humanas. Em Gênesis lemos que os patriar¬cas se mudaram de lugar em lugar por causa de desastres regionais e fomes. Hoje, o clima moderno do Oriente Próximo é muito mais seco e árido do que era em tempos antigos da história. Porque as condições atuais não refletem as antigas, quando os arqueólogos querem conferir os relatos patriarcais das con¬dições climáticas, eles têm que comparar o registro documentário antigo das mudanças climáticas com a evidência revelada nas escavações, amostras de es¬sências e pólen e calibração radiocarbônica.

De acordo com o arqueólogo James Sauer, que tem feito escavações exaus¬tivas e pesquisas climatológicas na Jordânia e na Síria, a evidência material con¬corda com os registros históricos para substanciar as tradições bíblicas do perí¬odo do Bronze Médio.19 Ele descobriu que durante o tempo do terceiro milênio a.C. a região inteira teria sido muito mais úmida. Isso teria feito o vale do Jordão, especialmente ao redor da presente área do mar Morto (onde as narrati¬vas patriarcais colocam as cidades da planície), uma região fértil — exatamente como a Bíblia descreve. Além disso, a evidência para ciclos áridos durante este período é muito correlata com as fomes documentadas nos registros arqueoló¬gicos do Egito, Canaã e regiões circunvizinhas. Estas, em contrapartida, verifi-cam padrões ambientais como os dos patriarcas, que buscaram alívio de tais condições. Esta evidência levou Sauer a concordar com as conclusões anteriores de Albright concernentes à antigüidade dos patriarcas e sugerir:

Uma vez que as lembranças das mudanças climáticas e da geografia antiga parecem acuradas, sugeriria-se até que algumas destas tradições possam não ter sido escritas pela primeira vez no século X a.C., mas de fato muito antes.20

O testemunho de Gênesis capítulo 14

Todavia, outra corroboração da historicidade e antigüidade das narrati¬vas patriarcais é encontrada no relato de uma invasão da baixa Canaã por uma coalizão de reis da Mesopotâmia (veja Gênesis 14). Na batalha seguinte, Ló,  sobrinho de Abraão, que vivia em Sodoma, foi capturado e levado com sua família (Gn 14.12). Abraão entrou na guerra e resgatou seu parente e depois da vitória encontrou com Melquisedeque, o rei-sacerdote de Sodoma (w. 18¬24). Tão especial é este relato que os altos críticos têm sido forçados a chamá- lo de farsa ou creditá-lo a uma fonte isolada (separada das supostas fontes documentais da escola da Alta Crítica usadas na composição do livro de Gê¬nesis e baseada no uso de diferentes nomes para Deus no texto e supostamen¬te na influência sacerdotal referida como J = Javista, E = Eloísta, S = Escola Sacerdotal). O que torna este capítulo tão impressionante é sua listagem de nomes e lugares tão detalhada e precisa (tanto estrangeiros como locais), vári¬as vezes explicada incidentalmente por mais nomes contemporâneos, como “o vale de Sidim” para “o mar Salgado” (mar Morto - v. 3). Ou “o vale de Savé” para “o vale dos Reis” (o baixo “vale do Cedrom” - v. 17). Tais esclarecimentos literários estão entre os traços que indicam que este capítulo tenha a marca da antiguidade.

Apesar do fato de que aqueles reis nomeados em Gênesis 14 ainda te¬nham que aparecer nos relatos bíblicos cuneiformes, nós sabemos que os nomes certos estão conectados com os lugares certos. Sabemos disso porque enquanto os personagens específicos não são mencionados fora da narrativa do Gênesis, tais nomes aparecem em vários textos mesopotâmios deste período. Para demonstrarmos isso, consideremos os nomes de quatro reis do Leste dados em Gênesis 14.1.
“Anrafel, rei de Sinar” é visto como um típico nome semita ocidental da baixa Mesopotâmia, encontrado tanto em fontes acadianas como amoritas, e possivelmente conectado com o nome amorreu Amud-pa-ila.2'' “Sinar”, em tex¬tos egípcios, é usado para Babilônia.22 “Arioque, rei de Elasar”, aparece como o Arriyuk(ki)/Arriwuk(ki) nos textos de Mari (amorreus) e Nuzi (horeus).23 Em Mari este era o nome do quinto filho de Zinri-Lim, rei de Mari.24

“Quedorlaomer, rei de Elam” é claramente um nome elamita, baseado em termos elamitas familiares: kudur (“servo”) e Lagamar, uma deusa principal no panteão elamita.25 Ele se encaixa no tipo de nomes reais elamitas conhecidos como um tipo Kutur, e é conhecido de pelo menos três exemplos reais.26 “Tidal, rei de Goim”, é bem atestado como uma forma antiga do nome heteu Tudkhalia, que era o nome de pelo menos cinco governantes heteus.27 Diz-se que um serviu como “rei de povos/grupos,” o que reflete a fragmentação política que existia no império heteu em Anatólia (Turquia) durante os séculos XVIII e XIX a.C. e permitia o tipo de aliança descrita em Gênesis 14.28 As condições políticas descritas pela aliança em Gênesis 14 e aquela da coalizão trans jordaniana dos reis da bacia do mar Morto foram possíveis em apenas 11m período da história — o início do segundo milênio a.C. Somente neste tempo o registro arqueológico revela que os elamitas estavam agressivamente envolvidos em assuntos da região (o Levante), e somente neste período as alianças mesopotâmicas eram tão instáveis para permitir tal confederação.29 O termo “Goim” i- uma tradução hebraica da palavra acadiana Umman, um termo usado para caracterizar vários povos que vieram como invasores.30 Assim, este rei era provavelmente um governante andarilho que assimilou várias tribos e províncias em seus exércitos. Dado este entendimento e a mudança do quadro político, é lógico que um rei elamita encabeçasse uma coalizão mesopotâmica de cidades-estado e lançasse um ataque punitivo contra os rebeldes reis cananeus. Depois deste período, e especialmente durante o primeiro milênio a.C., o mapa político tornou-se completamente incompatível com as condições necessárias para tal formação.

A estes indicadores de historicidade ligados ao tempo, podemos acrescentar 1) a exatidão da rota de invasão tomada pelos reis do Leste, 2) o uso de um termo hebraico para “criados” no versículo 14, que é atestado fora desta passagem apenas no século XIX a.C. Um texto egípcio e uma carta do século XV a.C. de Taanak e 3) a descrição de Melquisedeque, que acuradamente descreve o ambiente do segundo milênio.31 Estes detalhes em Gênesis 14, atestados em documentos extrabíblicos de tempo, podiam não ter sido inventados e correta¬mente atribuídos às suas respectivas nações e ambientes geográficos por um escritor hebreu vivendo num período posterior. Assim, a antiguidade deste rela¬to, dentro do contexto mais amplo das narrativas patriarcais, indica que existe razão substancial para considerar o todo como historicamente acurado.

As tumbas dos patriarcas

No caso dos patriarcas de Israel, a arqueologia tem preservado para nós não apenas suas memórias, mas também seus memoriais. Nós geralmente dizemos de um modo figurado que as pessoas “enterram suas memórias”, mas normal¬mente esta frase não é usada em sentido literal. Elas geralmente não fazem isso tão literalmente. Porém, quando se trata dos patriarcas (e matriarcas), os lugares de seus sepultamentos ainda estão conosco hoje. Que histórias estas tumbas contam?

O lugar do sepultamento dos patriarcas

Um dos mais conhecidos e controversos sítios na terra de Israel é a Tumba dos Patriarcas na cidade de Hebrom. O conflito que envolve esta cidade hoje encte judeus e árabes pelo direito a este lugar sagrado é um testemunho de eras a favor da presença dos patriarcas, dos quais ambos os grupos alegam descender. Na Bíblia lemos que depois da morte da esposa de Abraão em Quiriate-Arba (Hebrom), Abraão comprou de Efrom, o heteu, uma caverna para sepultamento para sua família em Macpela (Gn 23.17-20).32 A Bíblia registra que nas tumbas desta caverna foram sepultados Abraão e Sara, Isaque e Rebeca, Jacó e sua esposa Lia. Indubitavelmente, seu caráter como lugar dos patriarcas fez da cidade a escolha de Deus para a capital do país sob o reinado de Davi (2 Sm 2.1-4; 5.3-5). Sobre a área da caverna hoje permanece de pé uma maravilha arqueológica — uma construção ainda intacta com mais de 2 mil anos. Este edifício, que foi construído para comemorar e preservar o lugar do sepultamento deles, é datado pela maioria dos eruditos como do tempo de Herodes, o Grande. Outros eruditos, porém, acreditam que a construção ori¬ginal é muito mais antiga.

Ninguém na história recente explorou o interior da caverna,33 mas existe evidência da presença de várias tumbas em covas da Era do Bronze Médio I debaixo do prédio. A única entrada para a caverna durante os tempos moder¬nos foi logo depois que Israel ganhou de volta o acesso ao local durante a Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967. Moshe Dayan fez uma garota israelita bem magra, chamada Michael, passar através da única entrada disponível para a caverna, uma entrada de ar de onze polegadas dentro do nível superior da construção.34

Enquanto sentia seu caminho em completa escuridão, ela media e fotogralava um longo corredor (cerca de 19 metros) e 16 degraus que levavam a uma câmara maior. Além da presença de vários blocos de pedra, que podiam ser pedras de tumbas (uma estava escrita em árabe com palavras do Alcorão), nada deste ponto em diante podia ser examinado. Visitantes à Tumba dos Patriarcas hoje não podem nunca entrar exceto no nível superior do edifício, onde centotaphs (tumbas comemorativas) dos patriarcas e matriarcas podem ser vistas.

O lugar do sepultamento de Raquel

De acordo com a Bíblia, dois membros da família de Abraão não foram incluídos na caverna de sepultamento — a esposa favorita de Jacó, Raquel, e seu estimado filho José. José foi enterrado em Siquém (moderna Nablus), mas o lugar de seu sepulcro é incerto. Raquel, que morreu no caminho para Belém, foi enterrada nesta vizinhança. Uma tradição muito moderna situa o lugar de sua tumba onde ela está hoje ao longo da estrada de Hebrom, na entrada para Belém, mas é duvidoso que este seja o lugar verdadeiro do enterro, baseando- nos numa comparação geográfica cuidadosa das descrições bíblicas do livro de Gênesis, 1 Samuel e Jeremias. O relato de Gênesis diz que Raquel foi enterrada na estrada para “Efrata (que é Belém)” (Gn 48.7). Belém hoje está localizada ao sul de Jerusalém no território designado à tribo de Judá. Porém, Jeremias, alu¬dindo à morte de Raquel, diz que ela está “em [ou perto de] Ramá” (Jr 31.15), uma área ao norte de Jerusalém (A-Ram dos dias atuais) na herança tribal de Benjamim. Esta localização próxima a Ramá ou a Gibeá (logo a leste de Ramá) parece sustentada pela declaração de Samuel de que o “sepulcro de Raquel” estava “no termo de Benjamim, em Zelza” (1 Sm 10.2). O lugar original de Efrata tem sido identificado com uma cidade antiga construída perto da fonte de Ein Prat, onde a estrada de Betei à fonte primeiro passa entre Ramá e Gibeá. Somente a uma pequena caminhada deste local estão localizadas cinco grandes estruturas de pedras que, desde os tempos antigos, os árabes têm chamado de Kubr Bnai Yisrael (“Os Sepulcros dos Filhos de Israel”). A origem destas estru¬turas retangulares permanece um mistério; tem sido cuidadosamente sugerido que elas datem da era megalítica (2000-1500 a.C.), uma delimitação de tempo que inclui os patriarcas.35 Durante o último século Clermont-Ganneau identifi¬cou o lugar como a tumba de Raquel.36 Argumentos posteriores em favor do local foram feitos recentemente pelo topógrafo e naturalista israelita Nogah Hareuveni.37 


Então, enquanto podemos ter apenas evidência circunstancial para a existência dos patriarcas — baseada em documentos do antigo Oriente Próximo que refletem seus costumes e práticas — podemos também acrescentar a isso o testemunho de suas tumbas desde a antiguidade.

Ainda outro desafio

Podemos concluir que, baseado na arqueologia, temos um bom argumento para traçar uma linha histórica confiável para os patriarcas. Documentários paralelos, lugares mencionados no relato bíblico, a precisão dos detalhes histó¬ricos, e a contínua existência das tumbas atribuídas a eles desde a antiguidade têm ajudado a iluminar nosso entendimento sobre esta era. Todavia, uma história do período patriarcal tem sido considerada como tão absurda que críticos a têm usado para pintar a forma dentro deste esboço histórico como fantasia. Esta é a história da destruição de Sodoma e Gomorra e das cidades da planície (Gn 18—19). A resposta da arqueologia para este desafio de historicidade será considerada em nosso próximo capítulo, então continue lendo! 

PRICE, Randall. Arqueologia Bíblica. Rio de Janeiro: CPAD, 2006