6 de março de 2014

Gleason L. Archer - Introdução ao livro de I e II Crônicas

O título hebraico destes Livros é Diberêy hay-yãmím ou “nar-
rativas dos dias”, ou, mais literalmente, “as palavras dos dias”.
O propósito destes dois volumes é passar em revista a história de
Israel desde a aurora da raça humana até o Cativeiro na Babilônia,
e o Edito da Restauração. Este esboço histórico é composto com
propósitos definidos em mente, que é dar para os judeus da Se-
gunda Comunidade a verdadeira base espiritual da sua teocracia
como povo da Aliança do Senhor. O propósito deste historiador é
demonstrar que a verdadeira glória da nação hebréia se acha no
seu relacionamento com Deus, através da Aliança, conforme as
formas prescritas de culto no templo e administrado pelos sacer-
dotes divinamente ordenados, sob a proteção da dinastia, divina-
mente autorizada, de Davi. Sempre se enfatiza aquilo que há de
sadio e válido no passado de Israel, como sendo base segura para
a tarefa de reconstrução que há no futuro. Ressalta-se a rica tra-
dição de Israel, e suas conexões ininterruptas com o começo na
época patriarcal (decorrendo daí a proeminência dada às listas
genealógicas).


Esboço de I e II Crônicas

Note-se que I Crônicas leva a narrativa até a morte de Davi;
II Crônicas continua com o reinado de Salomão, edificador do
Templo, e termina com o Exílio e um decreto de Restauração. Ori- 
ginalmente os dois Livros foram contados como sendo um só, mas
já na Septuaginta (que lhes dá o título Paraleipomenõn, “das coi-
sas omitidas”) parece ter havido uma divisão em duas partes. Se-
guiremos aqui o breve esboço de M. F. Unger (em IGOT 407).

I. Genealogias desde Adão até Davi, I Cr 1:1 — 9:44.
A. Desde Adão até Jacó, 1:1 — 2:2.
B. As gerações de Jacó, 2:2 — 9:44.

II. A História do Rei Davi, 10:1 — 29:30.
A. A morte de Saul, 10:1-14.
B. Sião é tomada, e os heróis de Davi, 11:1 — 12:40.
C. O reinado próspero de Davi, 13:1 — 22:1.
D. Façanhas de Davi em prol do culto ritualístico, 22:2 —
29:30.

III. A História do Rei Salomão, II Crônicas 1:1 — 9:31.
A. A riqueza e a sabedoria de Salomão, 1:1-17.
B. Edifica e dedica o Templo, 2:1 — 7:22.
C. Suas várias atividades, e sua morte, 8:1 — 9:31.

IV. A História dos Reis de Judá, 10:1 — 36:23.
A. Desde Reoboão até Zedequias, 10:1 — 36:21.
B. O Edito de Ciro, 36:22,23.

Autoria e Data de Crônicas

Assim como outros Livros históricos, Crônicas não especifica
o nome do seu autor. A evidência interna indica um período entre
450 e 425 a.C. como sendo a data da sua composição. É bem pos-
sível que a tradição talmúdica (Baba Bathra 15a) seja correta ao
atribuir a autoria a Esdras. Como líder no planejamento ao reavi-
vamento espiritual e moral da Segunda Comunidade, teria todos
os incentivos possíveis à produção duma obra deste tipo, de retros-
pecto histórico. Sendo levita da linhagem sacerdotal, seu ponto de
vista seria perfeitamente adaptável ao que o autor desta obra expri-
me, e sua tendência seria ressaltar os pontos que o cronista res-
saltou. Nesta linha de pensamento, é uma contribuição interes-
sante o registro, em II Macabeus 2:13-15, duma tradição que o
Governador Neemias possuía uma biblioteca considerável: “Ele, for-
mando uma biblioteca, reuniu todos os livros acerca dos reis e dos
profetas, e os livros de Davi e as cartas dos reis acerca de dádivas
sagradas”. Se Neemias realmente possuía uma coletânea tão gran- 
de de obras de referência, pode muito bem ser o caso de seu cola-
borador íntimo, Esdras, ter tido livre acesso a estas obras de refe-
rência, empregando-as na compilação de Crônicas.

E. J. Young favorece a teoria da autoria de Esdras, apesar de
ter certas reservas quanto à última parte do Livro (os dois versí-
culos finais que contêm o decreto de Ciro) que indicam pertença à
data mais recuada do que o primeiro capítulo de Esdras. M. F.

Unger inclina-se ao mesmo ponto de vista, embora pareça levar
em conta a possibilidade de que os Livros não tivessem sido escritos
antes da primeira metade do quarto século (IGOT 407). J. E.
Steinmueller desconta a tradição talmúdica e considera o autor
como sendo desconhecido. D. N. Freedman  apoia o ponto de
vista que a obra básica do cronista, começando com 1 Crônicas 10,
data de cerca de 515, quando o segundo templo acabara de ser
completado. Sem dúvida, cooperava com os profetas Ageu e Zaca-
rias, que consideravam Zorobabel como herdeiro legítimo à dinas-
tia davídica. 

Entre estudiosos liberais não há nenhuma unanimidade quan-
to à data da composição. Até recentemente, Albright sustentava
O ponto de vista de que o Esdras que compôs a obra, vivia durante o
reinado de Artaxerxes II durante a primeira• metade do quarto sé-
culo.  Muitos outros colocam a época da composição na segunda
metade, entre 350 e 300 a.C. Ainda outros, como Pfeiffer, avançam
a data até 250 ou mesmo 200 a.C. Supondo que o testemunho de
1 Crônicas 3:19 e segs. (segundo uma variação atestada pela Sep-
tuaginta, pela Vulgata e pela Siríaca) indique onze gerações depois
da época de Zorobabel, W. Rudolph atribuiu ao núcleo de Crônicas
uma data por cerca de 400-380 a.C. Este foi suplementado por maté-
ria demasiadamente variada e contraditória para ter surgida dum
 único redator (Wilhelm Rudolph, Chronikbücher — “Livros de
Crônicas” — 1955).

Conforme já tem sido sugerido, um dos argumentos mais fre-
qüentemente empregados em prol da autoria de data avançada de
Crônicas se acha em I Crônicas 3.19-24, que, segundo o Texto Mas-
sorético, indica seis gerações depois de Zorobabel. Mas, realmente,
conforme Young indica na sua Introdução ao Antigo Testamento
(p. 413), as listas em Crônicas não oferecem em cada caso uma lista
de gerações de pai para filho, mas algumas incluem vários filhos
que nasceram na mesma família, de maneira que é possível que
neste caso a genealogia se estenda apenas à segunda geração depois
de Zorobabel. O texto indica que Hananias era o filho de Zorobabel,
e que Pelatias e Jesaías eram simplesmente seus netos. Nenhum
dos nomes que seguem a estes (de versículo 21 em diante) tem algo
a ver com a genealogia de Zorobabel, portanto o trecho não pode
ser considerado como sendo um apoio para uma data de compo-
sição avançada.

Por algum motivo, outro versículo muito citado no argumento
que procura provar uma data mais recente, é I Cr 29:7, que cita uma
soma de dinheiro em dáricos (adarkõním). Sendo que o dárico
aparentemente recebeu seu nome, Dario I (520-486 a.C.), sua ci-
tação em conexão com a época de Davi deve ser considerada ana-
cronística. Ao mesmo tempo, precisa ser reconhecido que os dá-
ricos tinham circulado durante muito tempo antes da época de
Esdras, e não haveria dificuldade se eles tivessem sido citados como
unidades contemporâneas de câmbio. Sendo que o dárico repre-
sentava um peso em ouro bastante conhecido, não há motivo pelo
qual Esdras não tivesse calculado a quantidade de ouro maciço,
contribuída pelos príncipes israelitas para o serviço do Templo,
para então convertê-la em dáricos, unidade compreensível e mais
atual para a geração de Esdras. 

As Fontes de Crônicas

Muito mais do que a metade da matéria contida em Crônicas,
é o equivalente à matéria de outros livros do Antigo Testamento,
especialmente Gênesis, Samuel e Reis. O autor cita nominalmente
muitas das fontes das quais tirava sua matéria, além destes livros 
canônicos: 1) o Livro dos Reis de Judá e Israel (ou Israel e Juda)
que pode ser o mesmo que é chamado Livro dos Reis de Israel
e Palavras dos Reis de Israel (Young os considera como variações
do mesmo título); 2) a História (midrash) do Livro dcs Reis (que
pode ser diferente ou não do Livro já mencionado); 3) as Palavras
de Uzias, compostas pelo Profeta Isaías; 4) as Palavras de Semaías,
o Profeta e de Ido o Vidente; 5) a História do Profeta Ido; 6) as
Palavras de Jeú, Filho de Hanani; 7) as Palavras de Hozai. É
debatido se o cronista realmente copiou de Samuel e Reis; a maior
parte dos peritos entende que sim (cf. O Novo Comentário da Bí-
blia — Davidson). Outros, como Zoeckler (no comentário de Lan-
ge, págs. 18-20) e E. J. Young (págs. 405-407) crêem que foram
copiadas de fontes mais antigas do que estas obras tinham em
comum, mas que diferenças nos detalhes e no arranjo evitam a
possibilidade de empréstimos diretos.

A Integridade Histórica de Crônicas

Tem havido uma tendência entre os críticos liberais em ques-
tionar a integridade de quase todas as declarações em Crônicas
que não se acham também em Samuel ou Reis. Tal ceticismo é
totalmente injustificável, tendo em vista que o Cronista cita muitas
fontes que não são mencionadas em Samuel ou Reis, que tenderiam
a incluir informações que não se acham nestes dois Livros bíblicos.

É digno de nota que estes itens adicionais se conformam, de modo
geral, com os propósitos básicos do Livro que foram citados no
primeiro parágrafo deste capítulo. Assim é que o interesse nas insti-
tuições religiosas como sendo essenciais à perpetuação da verda-
deira teocracia, alude aos músicos e cantores do Templo, às ge-
nealogias dos sacerdotes e variações de diversos tipos, nos cultos.
Assim também, o interesse nas grandes decisões da fé levou o cro-
nista a incluir informações adicionais acerca dos reis e profetas
que tinham de enfrentar estas decisões. Assim, há também a nar-
rativa de Reoboão enfrentando a invasão de Sisaque, e Asa con-
frontando־se com Zerá, o etíope; a tentativa de Uzias adquirir se-
gurança através dum forte exército regular e de empreendimentos
mercantis ambiciosos; o arrependimento final de Manassés; a gran-
de páscoa nacional de Josias, etc. Informações adicionais são dadas
sobre os profetas Samuel, Gade, Natã, Aias, Semaías, Hanani, Jeú e
até Elias. Há referências a outros profetas que não aparecem em
nenhum outro lugar nas Escrituras: Asafe, Hemã, Jedutun, Ido, os
dois profetas chamados Odede, e também Jeaziel e Eliezer.
Fiel aos seus princípios básicos, o cronista omite na sua des-
crição da época de Davi tudo aquilo que não se vinculava direta-
mente à dinastia davídica, sendo que a considerava a única linha-
gem válida para a teocracia. Assim, os crimes de Davi, Amnom,
Absalão, Adonias e Salomão são omitidos na maioria das vezes,
por não contribuírem à edificação e preservação da teocracia. Assim
também só há alusões ao reino do norte na medida que este entrava
em contato com o reino de Judá, sendo que as dez tribos não ti-
nham um rei válido govemando-as pela autoridade divina, e porque
sustentavam um cisma herético que as separava quase completa-
mente do culto no templo de Jerusalém.

Se é verdade que as genealogias são freqüentemente incom-
pletas, sendo às vezes apenas um esboço, pode ser que o autor
entendesse que outras fontes de informações (tanto Samuel e Reis
como os livros não canônicos) fossem normalmente acessíveis e
bem conhecidas ao seu público. Assim, em II Crônicas 26:17 e
31:10 Jeoiada e dois Azarias são omitidos. Naturalmente, não po-
demos excluir completamente a possibilidade de que copistas subse-
qüentes ao manuscrito de Esdras tivessem inadvertidamente omi-
tido alguns dos nomes. W. J. Beecher (em ISBE) sugeriu que talvez
o cronista tivesse acesso a placas de barro, cacos de cerâmica e
papiros, em estado fragmentário, e que em certos casos os copiasse
diretamente, sem deixar reticências ou linhas de travessão no seu
manuscrito para indicar interrupções, lacunas e novas fontes, que
copistas modernos fariam.

Há vários exemplos de transmissão descuidada do texto em
Crônicas. Surge assim, um bom número de diferenças na soletra-
ção de nomes, comparada com Gênesis, Samuel e Reis. Alguns
destes erros são facilmente explicados pela confusão entre letras
semelhantes, tais como daleth (a letra d) e rêsh (a letra r). “Do-
danim” em Gênesis 10:4 aparece como “Rodanim” em 1 Crônicas
1:7. (Neste caso, parece que a ortografia de Crônicas é superior,
sendo que provavelmente se refere aos habitantes de Rodes). Ou
também, mém se confunde com hê em “Abias”, que é a maneira do
copista escrever “Abiam” (embora que neste caso não haja nenhu-
ma semelhança entre as duas letras). Sendo que as pontuações
vocálicas não foram colocadas pelos escribas judeus até o quinto
século d.C. ou depois, não devemos ficar surpreendidos pelas dis-
crepâncias nas vogais contidas nestes nomes próprios divergentes.

Há também uma inferioridade na transmissão do texto, no que
se refere aos números das declarações estatísticas. Críticos libe- 
rais têm procurado demonstrar uma tendência consistente da parte
do cronista, em exagerar os números, cada vez que surge uma dis-
crepância entre Crônicas e Reis. Alega-se que isto represente uma
política consistente de glorificar o passado por meio de exageros
deliberados. Um exame prático dos dados textuais revela, porém,
a falta de exatidão destas conclusões. No vasto número de casos
em que há valores numéricos em Crônicas, Reis e Samuel, estes
concordam perfeitamente. Há apenas uns 18 ou 20 exemplos de
discrepância. Destas diferenças, uma terça parte, aproximadamen-
te, revela uma cifra maior em Samuel ou Reis do que em Crô-
nicas (cf. I Cr 11:11 e II Sm 23:8; I Cr 21:5b e II Sm 24:9b;
II Cr 3:16b e I Rs 7:20b, cf. v. 42; II Cr 8:10 e I Rs 9:23; II Cr 36:9
e II Rs 24:8). Freqüentemente a discrepância é de pequena monta,
quanto às cifras envolvidas, e a grande maioria dos casos se explica
pelo fato de as cifras não se referirem a precisamente ao mesmo
grupo de pessoas ou coisas na mesma época e na mesma classe.

Ocasionalmente, a cifra registrada em Crônicas parece mais baixa
e mais provável do que na passagem paralela. Por exemplo, o nú-
mero de estábulos individuais construídos para os cavalos de Salo-
mão é registrado em I Rs 4:26 a 40.000, mas a cifra de 4.000 aparece
em II Cr 9:25. Semelhantemente, o número de inimigos que o
herói militar Jasobeão matou numa única batalha é registrado em
300 em I Cr 11:11, mas Sm 23:8 aparece com a cifra de 800.

Tratando deste tipo de discrepâncias entre os números, preci-
samos levar em conta o tipo de anotação empregado na antigui-
dade. Keil indica que praticamente todos os números que parecem
ser indevidamente altos, exprimem-se em milhares arredondados,
como se fossem estimativas aproximadas dos contemporâneos. Su-
gere que os próprios números fossem sem dúvida registrados com
letras alfabéticas, e que, naquela forma, eram mais susceptíveis de
serem confundidos por copistas posteriores, especialmente quando
se tratava dum manuscrito gasto ou manchado. (É interessante
notar que as mais antigas moedas dos judeus, certamente desde
a época da primeira revolta em 67 d.C., senão desde o período dos
hasmoneanos no segundo século a.C., empregavam letras alfabé-
ticas para registrar os números, especialmente as datas). Cifras
exageradas tais como 50.070 que segundo I Sm 6:19 é o número de
pessoas mortas pelo Senhor em Bete-Semes, devem ser entendidas
como sendo o resultado da confusão entre o valor de um dígito e
outro. Note-se que o sistema alfabético de numeração requer nada
mais do que um ou dois pontinhos acima duma letra, ou em baixo
 dela, para multiplicá-la por mil; assim, a letra nun com dois pon-
tinhos em cima significaria 50.000 (cf. Gesenius-Kautsch, Gramá-
tica Hebraica, 5,1). 

A descoberta dos Papiros de Elefantina, porém, levanta a pos-
sibilidade de que, enquanto os hebreus empregavam um sistema de
anotação numeral para indicar os números grandes, poderiam ter
usado traços verticais ou horizontais nos números menores. Nestes
papiros, por exemplo, os dígitos de um até dez são indicados com
traços verticais, com um sinal especial para indicar o cinco. Os
números acima de dez são representados por traços horizontais; e
há sinais especiais para centenas e milhares, derivados das letras
iniciais dos nomes destes números.  À luz de toda esta evidência é
impossível construir um argumento sem falhas que comprove
qualquer discrepância entre o manuscrito original de Crônicas e
as passagens relevantes nos outros livros canônicos. Pode ser dito
com certeza que todas as assim-chamadas discrepâncias são pas-
síveis de solução através da crítica textual ou pela exegese do
contexto.

Este debate não deve ser encerrado sem uma interessante
observação de W. F. Albright (capítulo sobre o Antigo Testamento
e a Arqueologia, na p. 63 do Comentário do Antigo Testamento, de
Alleman e Flack). Declara ele que os críticos erraram, ao supor
que o cronista caísse em anacronismo ao fazer as corporações mu-
sicais do templo remontarem até ao Rei Davi. “Agora podemos de-
clarar com toda a confiança que as principais corporações musicais
tinham sua origem entre os cananitas muito tempo antes do pe-
ríodo de Davi. Os cananitas do segundo milênio tinham desen-
volvido a música a um grau adiantado, conforme sabemos de fontes
egípcias que freqüentemente se referem a instrumentos musicais
cananitas e representam os músicos cananitas em desenhos e gra-
vuras. Os nomes dos que são considerados fundadores destas cor-
porações, Hemã, Etã (Jedutun) e Asafe, são demonstravelmente
nomes do tipo cananita, e os sábios proverbiais, Calcol e Darda,
associados com eles em 1 Reis 4:31, têm nomes dum tipo comu-
mente dado aos músicos”. Assim, Calcol aparece numa inscrição
egípcia do 13.° século, recentemente descoberta em Megido, como
nome dum grande músico cananita em Asquelom.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.