27 de março de 2014

Gerard Van Groningen - O conceito messiânico: O termo Masiah

O Conceito Messiânico

O Termo Masîah

Definição

A raiz do substantivo masîah é o verbo masah, que tem geralmente o sentido de "ungir".
A ideia de ungir relaciona-se ao conceito de alisar com a mão, que é também o significado em árabe dessa raiz verbal.  O verbo grego chrío, usado na Septuaginta e no próprio Novo Testamento (Lc 4.18; At 4.27; 10.38) e o epíteto Messias (Jo 1.41; 4.25) também dão a ideia de esfregar o corpo. Fricção com gordura ou óleo é indubitavelmente o cconceito expresso em algumas passa¬gens bíblicas, onde se diz que objetos como bolos ou escudos são ungidos. 


O uso mais comum de masah é expressar a idéia de unção, que é feita pelo derramamento ou aspersão de óleo sobre objetos ou pessoas. Esse ato de derramar óleo tem profunda significação no Velho Testamento.  Dois termos derivam de mãsah. O primeiro é mishâ (ungüento usado para a unção); também é usado para referir-se a coisas consagradas.

O derivado mais conhecido é masiah. De que maneira se relaciona com o verbo hebraico não se sabe muito bem. O termo tem reconhecível forma passiva. Porém, as formas passivas no hebraico são tais6 que se toma necessário recorrer a outras línguas semíticas para a identificação da forma hebraica. O árabe parece ter preservado uma antiga forma passiva semita, qutila. Em aramaico o termo usado é masihã.7 O hebraico mãsiah relaciona-se evidente¬mente com esses dois termos semíticos.8 Daí, como outros estudiosos anterio¬res,9 consideraremos mãsiah como um substantivo verbal expressando a voz passiva e indicando especificamente o objeto sobre o qual a ação é praticada. O termo freqüentemente aparece no construto (p. ex., mesiáh yahweh) ou com sufixo (p. ex., mèsiha’).

Ocorrências de Masah e Masiah

O verbo masah aparece no Pentateuco vinte e nove vezes no perfeito, imperfeito, infinitivo, particípio de qal e no infinitivo do niphal. Todos os exemplos ocorrem em contexto de culto, com objetos para o culto e pessoas oficiantes recebendo o óleo da unção.

O verbo mãsah. aparece nos Profetas Anteriores cerca de vinte e cinco vezes, e sempre em qal. Todas essas passagens falam da unção de reis (p.ex., 1 Sm 10.1).

O verbo mãsah ocorre cinco vezes nos Profetas Posteriores. Amós usa-o no imperfeito de qal para designar os costumes de mulheres pecadoras que usavam continuamente os mais finos óleos em sua toalete.  Isaías fala de preparativos para a batalha, quando ordena aos príncipes que untem seus escudos (Is 215). Jeremias usa o verbo para referir-se à pintura de uma casa com tinta vermelha (Jr 22.14). Isaías usa também o perfeito de qal com referên¬cia àquele que virá, que é ungido para trazer boas novas.  Finalmente, Daniel (9.24), usando o infinitivo de qal, dá a entender que o propósito das setenta semanas, entre outras coisas, é prover tempo para a unção do Santo dos Santos. 

Nos Escritos, notamos que o verbo hebraico é usado duas vezes nos Salmos (perfeito de qal: 45.7; 89.20), em contexto real.  Em Crônicas o verbo ocorre no perfeito de qal uma vez (1 Cr 14.8); todos os usos referem-se à unção de Davi (1 Cr 113), de Salomão e de Joás, mas uma vez também inclui a unção de um sacerdote (1 Cr 29.22).

Em resumo, o verbo mãsah ocorre em contexto real cerca de trinta vezes e mais do que trinta vezes em outros contextos (principalmente em contexto cúltico). No Pentateuco o substantivo verbal mãsiah refere-se quatro vezes a sacerdotes (Lv 4.3,5,16; 6.22). É aplicado a uma pessoa real em 1 e 2 Samuel dezoito vezes; mais da metade dessas passagens tem a expressão mésiah- yahweh, "o ungido de Yahweh" (p. ex., 1 Sm 24.6,10). Ocorre duas vezes em Crônicas (1 Cr 1622; 2 Cr 6.42), dez vezes nos Salmos (p. ex., SI 2.2) e cinco vezes nos Profetas Posteriores (p. ex., Is 45.1; Hc 3.13). Das últimas dezessete ocorrências quinze seguramente referem-se a um personagem real, humano ou divino.

As Concepções Estrita e Ampla de Masiah

Estudiosos bíblicos fazem distinção entre as concepções ampla e estrita do termo masiah. Quando masiàh é usado em estreita relação com ele, a distinção aplica-se também ao verbo. A intenção básica da distinção é fazer uma separa¬ção clara e definida entre os diversos aspectos dos termos. Por exemplo, J. Ridderbos fala da concepção ampla como incluindo as promessas de salvação e a pessoa que as cumpre ; no sentido estrito os conceitos referem-se à bem-aventurança ligada com o rei que Deus enviou.

Quando se consulta a maior parte da literatura existente, sobre o Messias especificamente ou sobre o messianismo de modo geral, a designação estrita é usada geralmente para referir-se á idéia do rei como o ungido. A idéia especí¬fica, que os eruditos afirmam ser a essência da idéia messiânica, é a do personagem real. Dizer "messias" é dizer o rei que reinou, o que agora reina, o rei prometido, ou o que se espera que venha a reinar. 

A designação ampla é usada, de modo geral, para referisse aos aspectos adicionais envolvidos no conceito de mãsiah. Portanto, a referência pode ser a um ou a vários dos seguintes aspectos: (1) as promessas de salvação, (2) a obra a ser executada para realizar as promessas, (3) as qualificações, (4) os meios empregados, (5) os alvos estabelecidos, (6) as pessoas necessárias, além do rei, (7) o reino sobre o qual o Messias reina, e (8) o resultado de seu reino. 

A relação entre as concepções ampla e estrita foi e continua sendo matéria de discussão entre os eruditos. Todos eles reconhecem que a distinção de ambas tem sido e continua sendo feita. Todavia, nem todos concordam que é legítimo falar da concepção ampla. Sigmund Mowinckel representa o exemplo clássico deste ponto de vista.  Com efeito, ele afirma que a relação entre a concepção ampla e estrita não é matéria de debate; não há o que discutir quanto a esta relação porque a concepção ampla é imaginária. Mowinckel não crê que a Bíblia ensina que o personagem real, isto é, o Messias esperado, tenha as características necessárias para executar sua obra incluídas na concepção am¬pla. Ele pensa que tal ponto de vista é baseado numa interpretação errônea das referências do Velho Testamento ao Messias que os hebreus esperavam, depois que o desfecho do reino de Davi e Salomão se tomou evidente.

Nem todos os críticos modernos seguem Mowinckel. É mais exato dizer que a maioria dá algum crédito à concepção ampla. O ponto de vista predominante, entretanto, é que tanto cronológica quanto logicamente a concepção estrita é a primeira e básica. Mas este ponto de vista ignora ou nega as promessas de redenção, espiritual, moral e fisicamente recebidas, como é revelado no Pentateuco e nos Profetas Anteriores.  

Neste estudo demonstraremos que a Escritura não limita as referências messiânicas ao conceito mais estrito. Isto, naturalmente, não significará que o conceito de masiah não se refira diretamente por vezes a um personagem real. Significará que a Escritura usa o termo tanto no sentido estrito quanto no amplo. Deve também ser dito que adotar o ponto de vista "crítico" tende a levar a uma rejeição consistente da concepção ampla. Mas este não é sempre o caso. Alguns estudiosos evangélicos tentam adotar o ponto de partida e o método crítico dos antigos estudiosos em seu estudo das passagens messiânicas do Velho Testamento; além disto, mantêm a mensagem de salvação tanto no Velho quanto no Novo Testamento (isto é, os elementos da concepção ampla).19 Marie L. Martin é um exemplo interessante desta abordagem.20 Na primeira parte de seu livro, ela discute o material bíblico relativo ao masiah, de Gênesis a 1 Samuel, numa linha especificamente crítica.21 Aceita a premissa de que o Messias do Velho Testamento é o rei reinante em Israel e sustenta que a idéia foi concebida em relação a ele. Como conseqüência, tudo que o Velho Testa¬mento revela em relação à prática e ao significado da unção antes do tempo de Davi, ou foi teologicamente estabelecido por escritores posteriores ou requer uma interpretação em harmonia com certas pressuposições aceitas. Martin também admite, superficialmente e de modo não-crítico, a idéia de que era dado aos reis terrestres um caráter arquétipo celestial num festival que os salmos supostamente revelam. O rei terrestre torna-se escatológico no pensamento posterior dos hebreus. Em outras palavras, Martin aceita o ponto de vista crítico do conceito messiânico. Entretanto, ela reconhece que quem aceita consistentemente o ponto de vista estrito, demitizando e desespiritualizando o Velho Testamento, remove a base da mensagem relativa ao Cristo vivo. Ela compreende que sua presença e realidade no Velho Testamento estão dividi¬das.22 Entretanto, postulando um processo evolucionário, ela tenta introduzir sem sucesso os elementos da concepção ampla relativos ao masiah e, desta maneira, tenta introduzir a mensagem do Evangelho de ambos os Testamentos referente ao Messias pessoal, sua obra, seu propósito e sua influência.23

A esta altura será bom sumarizar o que os estudiosos compreendem como concepção ampla e concepção estrita quando discutem o conceito de mãsiah. Está de acordo com a apresentação bíblica manter a distinção entre as perspectivas mais amplas e mais estreitas.

Masiah e termos correlatos referem-se à pessoa divina, real, sagrada, reveladora, representada por vários ofícios e personalidades, que tem tarefas especificamente designadas, metas determinadas e os meios para atingi-las. Em outras palavras, estas concepções ampla e estrita são inseparáveis. Os elementos incluídos na concepção ampla são necessários como aspectos que definem, explicam e ilustram a pessoa que é o masiah. Elementos da concepção ampla estão sempre presentes quando o mãsiah é referido, mesmo quando apresentado de maneira vaga e indefinida. De fato, elementos incluídos na concepção ampla são apresentados inicialmente de modo mais claro e positivo do que os elementos definitivos da concepção estrita.

Em relação ao termo mãsiah, observe-se que ele não foi usado nos estágios iniciais da revelação do conceito messiânico. À medida que essa revelação progrediu e se desdobrou, os vários messias humanos que, juntamente com eventos e fenômenos, retratavam ou prefiguravam o grande Messias esperado e sua obra, foram dando mais clareza ao conceito messiânico, até que o termo mãsiah veio a designá-lo, bem como a sua obra.

GRONINGEN, Gerard Van. Revelação Messiânica no Antigo Testamento. Cultura Cristã, 2003.