31 de março de 2014

Eugene H. Merrill - Uma teologia de Ester

Com base no estilo hebraico, vocabulário persa e familiaridade direta
com a vida e época da Pérsia de meados do século V a.C., é plenamente claro
que o livro de Ester, pelo menos na versão massorética, tem de ser datado
antes do fim do século V a.C.  A autoria é desconhecida, mas quem escreveu
ou compilou possuía informação totalmente de acordo com os registros his-
tóricos existentes de fontes persas e clássicas. Não há razão para vermos Ester
como ficção, um romance histórico ou algo que não seja uma narrativa de
acontecimentos reais. 

Seja como for, tais questões têm pouco a ver com a mensagem teológica
central do livro. Ester, como todos os outros textos históricos da Bíblia, existe
para revelar algo sobre Deus, o seu povo e os propósitos divinos para eles e o

mundo. A escrita mostra o envolvimento genuíno de Deus nos acontecimentos
documentáveis da história humana, fato que aumenta a significação teológica.
Tivesse Ester se mostrado como mera criação apócrifa (que terminantemente
não é o caso), o seu valor revelador não teria diminuído em qualquer sentido.

A PESSOA E AÇÕES DE DEUS

O livro de Ester divide com Cantares de Salomão a característica de ser os
dois únicos livros do Antigo Testamento que não mencionam Deus por nome.
Esta omissão abriu espaço para muita discussão sobre a canonicidade de Ester.
Tal critério arbitrário mostra enorme insensibilidade da presença de Deus no
livro, presença sem a qual não podemos explicar o livro. Em suma, a ausência
do nome divino só serve para enfatizar a qualidade transcendente da auto-reve-
lação de Deus. As coisas acontecem da forma como acontecem em testemunho
do controle soberano de Deus sobre todas as questões de vida e morte. Os olhos
da fé vêem a providência em ação até (ou especialmente) quando os canais nor-
mais da auto-revelação divina estão ausentes. Em Ester, o Senhor se manifesta
especificamente sendo soberano, exigindo lealdade e homenagem exclusivas e
libertando o povo escolhido.

A própria Ester, em termos quase fatalistas, informou Mardoqueu que ela
estava prestes a comparecer diante do rei Assuero (Xerxes) em nome do povo
dela. Não sabendo quais seriam as consequências, ela se entregou ao Senhor
com as palavras: “E, perecendo, pereço” (Et 4.16). A sua vida, ela entendia cla-
ramente, estava nas mãos de Deus e as coisas sucederiam de acordo com os
propósitos divinos para ela e para o povo. 

A soberania de Deus acarreta naturalmente a sua incomparabilidade e a
sua insistência de que Ele seja reconhecimento exclusivamente como Senhor.
Novamente a referência está oculta. Mas quando Mardoqueu obstinadamente
recusou prostrar-se perante Hamã, o mais alto dos funcionários da corte, pode-
mos concluir que não foi por pura recalcitrância, mas por causa da fé monoteís-
ta na qual Mardoqueu se firmou (Et 3.2). Não se ajoelharia e honraria (a palavra
hebraica conota o ato de adoração) um mero homem, nem tremeria de medo
diante dele (v. 5), porque seria prestar homenagem a um sistema irreligioso, um
antitético ao domínio do seu Deus. 

Os estudiosos reconhecem comumente que o tema principal de Ester é a
reversão ou anulação.  As estruturas sociais e políticas deste mundo, compen-
diadas neste caso da Pérsia, procuram destruir o povo de Deus. Entretanto, tais
esforços são destruídos quando ele intervém e inverte o curso dos acontecimen-
tos. A libertação se torna a marca distintiva da presença de Deus na história,
uma atestação à soberania e poder divino.

Quando Mardoqueu rogou que Ester prestasse ajuda como rainha para
salvar o seu povo, ele sabia muito bem que ela poderia negar. Mas esta reviravol-
ta dos acontecimentos não frustraria ou impediria a sobrevivência dos judeus,
como Mardoqueu tão confiantemente expressou: “Se de todo te calares neste
tempo, socorro e livramento doutra parte virá para os judeus” (Et 4.14). Lógico
que essa parte era o próprio Deus.

Até mesmo Zeres, esposa de Hamã, sabia disso. Seu conselho ao marido
era que resistir a Mardoqueu era fútil, visto que, como judeu, não se podia
resisti-lo (Et 6.13). Este medo dos judeus (cf. 8.17; 9.2) só tem explicação no
fato de os inimigos reconhecerem que havia uma proteção em torno dos judeus,
um Deus que intervinha a favor deles e que os capacitava a prevalecer, pouco
importando as probabilidades contrárias.

O REINO DE DEUS

A teologia do Antigo Testamento concentra-se em grande medida na na-
ção que Israel, o povo do concerto do Senhor, a quem Ele elegeu, resgatou e
comissionou para servi-Lo entre as nações da terra. Como reino sacerdotal e
povo santo (Ex 19.46), era tarefa de Israel modelar o domínio de Deus sobre
a criação e mediar a graça salvadora à humanidade caída e alienada (Gn 1.26-
28; 12.1-3). Este papel expressou-se na histórica com mais vigor na gloriosa
monarquia davídica com as providências do concerto eterno (1 Cr 17.1-15). O
exílio deu um fim cabal à monarquia, especialmente porque os exilados, como
Mardoqueu e sua prima Ester, permaneceram na diáspora. Até os judeus que 
voltaram a Jerusalém sob a tutela de Sesbazar, Zorobabel, Esdras e Neemias en-
contraram apenas uma versão truncada da antiga glória do reino. A questão de
Israel como povo-servo dizia respeito tanto a eles quanto à comunidade judaica
espalhada pelo Império Persa.

O sentimento de desespero relativo à esperança do concerto só fez aumen-
tar o sentimento de temor que os judeus exilados sentiam quando testemunha-
vam da magnificência da realização humana ao redor deles. O livro de Ester im-
passivelmente se maravilha com a glória da Pérsia e o extraordinário rei Assuero
(Et 1.4-6). Ele demonstrou o tipo de soberania que caracterizava os reinados de
Davi e Salomão no passado distante, o qual deveria ser reservado para domínio
exclusivo do Senhor. Assuero emitiu ordens e decretos que mantiveram o des-
tino de amigos e inimigos igualmente nas garras da sua mão (1.8,19; 3.9,12;
4.11; 9.14; 10.1,2).

Esse poder absoluto tinha a capacidade de causar enorme mal ou incal-
culável bem. Como extensão da humanidade caída, era inerentemente antiteo-
crático e, portanto, naturalmente oposto à comunidade judaica sobre a qual ele
dominava. Lógico que Mardoqueu sabia desta animosidade. Por isso, disfarçou
a própria identidade como judeu e aconselhou Ester a fazer o mesmo (Et 3.4;
cf. 2.10,20). Ironicamente, foi a revelação da afiliação étnica de Mardoqueu que
precipitou o esforço público e combinado para destruir os judeus (3.6). Tendo
persuadido Assuero de que o modo peculiar e “convencido” dos judeus consti-
tuía ameaça à unidade do reino, Hamã o aconselhou a empreender um pogrom
total contra eles (3.9-11).

Em nenhuma parte a mão de Deus está mais visível na história do que
na reversão desta cadeia de acontecimentos, pois o mesmo rei que inexpli-
cavelmente o pôs em movimento (do ponto de vista privilegiadamente hu-
mano), contrariou-o. A maneira como aconteceu é exemplo maravilhoso de
cooperação humana com iniciativa divina, pois foi por um homem comum e
sua prima que o poder salvador de Deus expressou-se em prol de uma nação
inteira.

Antes mesmo de Assuero tomar Ester como esposa foi lhe aconse-
lhado substituir Vasti, a rainha naquela ocasião, por outra “companheira
que seja melhor do que ela” (Et 1.19). Deste modo, a atitude de Assuero
para com o seu cônjuge, e, por conseguinte, o povo judeu, tinha inclina-
ção favorável. Quando Ester compareceu na presença do rei, ela “pareceu
formosa aos seus olhos e alcançou graça perante ele” (2.9,17), reação
compartilhada por toda a corte (v. 15).

Mardoqueu também logo subiu de posição e na estima do rei. Tendo des-
coberto uma trama para assassinar o rei, Mardoqueu a revelou, recebendo honra
e recompensa, ironicamente da mão do arquiinimigo Hamã (Et 6.10,11). Para
acrescentar insulto à injúria, Mardoqueu assumiu o cargo (8.1,2) e propriedades
de Hamã (v. 7) depois da execução daquele vilão. Este foi apenas o começo da sua
ascensão ao poder, porque logo a reputação de Mardoqueu se espalhou por toda a 
extensão do império (9.3,4). O livro de Ester termina com o epitáfio que “o judeu
Mardoqueu foi o segundo depois do rei Assuero [Xerxes], e grande para com os
judeus, e agradável para com a multidão de seus irmãos, procurando o bem do seu
povo e trabalhando pela prosperidade de toda a sua nação” (10.3).

Poderíamos concluir cinicamente que foi pura genialidade humana ou até
duplicidade que levou Mardoqueu a essa posição gloriosa, mas a teologia do livro
de Ester não permite tal interpretação. Foi Deus e só Deus que trabalhou, secre-
tamente, temos de admitir, pela agência humana em prol do programa do reino.
É o que explica a capacidade de os judeus protegerem-se (Et 8.11), até a ponto de
virarem o jogo (9.1), fazendo o que quisessem com os que os odiavam (v. 5).

O CONCERTO DE DEUS

No tempo do Antigo Testamento, a identidade e o papel de Israel estão
ligados na relação do concerto com o Senhor. Na verdade, são totalmente in-
compreensíveis sem essa relação. Isto é tão evidente como um todo ao longo
do Antigo Testamento que muitos estudiosos veem o concerto como o campo
mais importante da teologia do Antigo Testamento.  E indubitável que não
seria exagero dizer que a maioria dos livros do Antigo Testamento enfatiza o
concerto até certo ponto, de forma que, quando uma composição literária como
o livro de Ester ignora o concerto e a complexidade de termos técnicos que o
acompanham, ficamos procurando uma explicação.

O que devemos manter em mente é que Ester diz respeito à comunidade
judaica na diáspora e não à nação restabelecida na Judéia. Esta distinção é im-
portante, porque o concerto não foi feito com um povo heterogêneo e espalha-
do, mas com a nação reunida e adorando como entidade corporativa. O Templo
e Jerusalém ainda estavam no centro do programa teocrático, e era somente lá
que o Senhor prometera encontrar-se com o povo do concerto como expressão
coletiva do reino na terra. O concerto foi crucialmente importante na teologia
de Esdras e Neemias, mas só teve interesse marginal em Ester.

Isso não quer dizer que não haja em Ester conotações relacionadas ao
concerto, pois, como sugerido, seja de que forma for — reunido ou disperso
—, Israel se explica e só existe em referência ao concerto. A separação de Is-
rael de todos os povos, a distinção como servo especial de Deus entre as na-
ções, era fundamental ao caráter como povo do concerto. Hamã reconheceu
este aspecto da vida nacional de Israel quando, referindo-se aos judeus, disse
que “existe espalhado e dividido entre os povos [...] um povo” (Et 3.8).

A causa para a separação era que Israel podia exibir uma pureza de
vida que modelava o reino de Deus na terra, e isso atrairia as nações à graça 
redentora de Deus que deseja que todos os homens se reconciliem com Ele.
Uma declaração notável que comprova o sucesso dessa missão pelo Israel
disperso consta em Ester 8.17, onde o narrador relata que, depois da rever-
são da sorte dos judeus, “muitos, entre os povos da terra, se fizeram judeus;
porque o temor dos judeus tinha caído sobre eles” (cf. 9.27). Embora não
devamos pressionar o ponto, é fato que o medo às vezes sirva de alcunha
para o Senhor, de forma que Deus usou o povo como meio de trazer outros
povos para si. 

Em nível mais individual, Mardoqueu serviu de papel mediador quan-
do descobriu o plano para assassinar o rei Assuero (Et 2.21-23; 6.2,3), papel
que lhe deu as boas graças do rei e levou as bênçãos ao povo. Ester até chegou
a tipificar a intercessão que Deus esperava que o povo-servo empreendesse.
Quando Mardoqueu ficou sabendo do édito de aniquilação que sentenciava
a comunidade judaica, implorou à prima Ester que fosse ao rei rogar-lhe
pelo povo dela (4.8). “E quem sabe”, disse ele, “se para tal tempo como este
chegaste a este reino?” (v. 14). Os acontecimentos subsequentes revelam
como ela foi bem-sucedida quando se colocou entre os judeus e as forças
que ameaçavam erradicá-los. Na fidelidade de cada um como mediadores,
Mardoqueu e Ester demonstram algo da tarefa designada ao povo como in-
tercessor entre um Deus santo e Deus e todos os outros povos da terra.

CONCLUSÃO SOBRE ESTER

Embora não citado e trabalhando por trás dos acontecimentos, o Se-
nhor é o personagem central do livro de Ester. Só a presença e o poder da
deidade explicam a reversão radical das circunstâncias que formam o enredo
central do livro. O povo judaico, dispersado no exílio, permaneceu o povo-
servo, chamado e comissionado para servir ao Senhor na obra de redenção
universal. Por causa da desobediência dos judeus e da hostilidade inflexível
do mundo contra eles, a existência judaica foi colocada inúmeras vezes em
risco. A história adorável de Ester proporciona a grande verdade teológica
de que os propósitos de Deus não podem ser frustrados, porque Ele é leal ao
concerto para sempre com a sua nação eternamente eleita. 

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.