24 de março de 2014

Eugene H. Merrill - Uma teologia de Esdras e Neemias

Em sua composição original, Esdras e Neemias formavam um livro, assim, é
apropriado que uma análise teológica trate dos dois como um.  Além disso, como
alguém lê as duas partes de uma só vez apreciamos o cenário histórico e religioso
comum a ambos, o interesse pelos mesmos assuntos e a reflexão de pontos de
vista idênticos. Estes fatores são tão fortes que quase somos compelidos a não só
admitir a unidade da composição, mas a autoria ou redação única.

Antes de tratarmos disto mais extensivamente, é importante observar que
Esdras l.l-3a é a repetição exata de 2 Crônicas 36.22,23, a conclusão da história
do cronista. Uma ponte deliberada liga estes dois livros, uma ligação a qual propõe
que, ou o cronista foi o autor de Crônicas, Esdras e Neemias, ou que ele adicionou
Esdras e Neemias ao seu trabalho. E impossível entrarmos aqui na questão relativa

às fontes e ao processo de composição. É provável que Esdras e Neemias manti-
veram registros meticulosos e memórias cuidadosas e que estes foram tomados
todos juntos ou adaptados para os livros das Crônicas pelo historiador anônimo
convencionalmente designado “o cronista”. Esdras e Neemias são uma seqüência
de Crônicas, uma história retomada do ponto em que Crônicas termina, levando
a história da teocracia até ao fim do exercício governamental de Neemias. 

Esta última observação pressupõe a prioridade cronológica de Esdras
a Neemias, uma prioridade implícita na estrutura canônica como está atu-
almente, mas que tem sido criticada por muitos estudiosos modernos. Este
debate também está fora dos limites deste estudo,  mas, em todo caso, a
teologia dos livros é minimamente afetada pela seqüência cronológica. To-
mando o registro sem maior análise (que é o modo que a tradição pretende
ser tomada), podemos nomear a data de 458 a.C. para a chegada de Esdras
a Jerusalém (Ed 7.1). A sua aparição na narrativa tão tarde quanto o tempo
da chegada de Neemias (Ne 8.1) estende o ministério a pelo menos 444 a.C.
Quanto a Neemias, a sua data final fixada é 432 a.C. (Ne 13.6), de modo
que ele finalizou as suas memórias pouco tempo depois disso. O trabalho
do cronista acabou no início do século IV (ou seja, aproximadamente 400 a.C.). Assim, por essa época, Esdras e Neemias tornaram-se parte do traba-
lho historiográfico mais longo.

Independente da visão da autoria de Esdras e Neemias e a sua relação
com Crônicas, o ponto de vista teológico da coleção é essencialmente o mes-
mo. A mensagem é endereçada à comunidade pós-exílica dos judeus que dese-
jam saber se há esperança de restauração política e religiosa. O tema central é
que há realmente esperança, mas essa esperança tem de estar concretizada na
reconstrução do Templo, do culto e do sacerdócio. Só quando os judeus re-
manescentes se tornassem a nação teocrática, fundamentada e fiel ao concerto
que o Senhor fez com os seus pais, é que poderiam reavivar a casa davídica e
esperar o reinicio do seu papel de mediação entre as nações da terra.  Esdras
e Neemias são incumbidos de esclarecer (1) a Pessoa e obras de Deus, (2) a
identidade e função de Israel como povo do concerto e (3) a natureza do con-
certo nos tempos pós-exílicos.

A PESSOA E AÇÕES DE DEUS

A Pessoa e atributos de Deus. Fundamental à fé de Israel é a confissão de
que o Senhor, seu Deus, é um e que Ele, e somente Ele, existe e deve ser adora-
do (Dt 6.4,5). Nem o exílio babilónico, que expôs o povo cativo ao politeísmo
impressivo da Mesopotâmia, conseguiu alterar o fato de que há só um Deus.
Ciro, rei da Pérsia, reconheceu pelo menos a superioridade e quem sabe a ex-
clusividade do Deus de Israel e no nome dEle permitiu que os judeus voltassem 
à sua pátria (Ed 1.1-4).  Esta singularidade do Senhor forneceu a base para a
renovação do concerto quando os levitas levaram a assembléia a exclamar: “Tu
só és Senhor” (Ne 9.6).

Ainda mais pronunciada é a ênfase em Esdras e Neemias sobre a soberania
de Deus, uma regência inerente na sua única reivindicação legítima à deidade.
Mais uma vez, em meio ao ambiente do politeísmo excessivo ou do dualismo
do zoroastrismo recentemente surgido, era importante afirmar que o Senhor
é Deus de tudo que há nos céus e na terra. Foi o que os judeus afirmaram aos
inimigos, quando anunciaram que estavam construindo o segundo Templo na
qualidade de “servos do Deus dos céus e da terra” (Ed 5.11).

A frase “Deus dos céus” é típica do linguajar pós-exílico. Ocorre para re-
ferir-se ao Senhor no decreto de Dario I (Ed 6.9,10), como também no decreto
de Artaxerxes I (7.12,21,23). Neemias, na famosa oração feita na presença deste
mesmo Artaxerxes, dirigiu-se ao Senhor nestes mesmos termos. A razão é óbvia,
pois o cenário das histórias já não é as fronteiras estreitas da Palestina e o povo
escolhido, mas é internacional. O retomo e restauração milagrosa da comuni-
dade do lamentável exílio contra todas as probabilidades opressivas ratificaram
que o Deus de Israel não é uma deidade paroquial. E, mais exatamente, o Deus
dos céus. 

Em termos mais práticos e políticos, era evidente que o Senhor era sobe-
rano sobre as estruturas políticas do tempo. Ciro reconheceu que o seu poder
era derivado, pois foi o Deus de Israel, disse ele, que “me deu todos os reinos da
terra” (Ed 1.2). O próprio Esdras sabia que Artaxerxes permitira o seu retorno
à Babilônia e o autorizara a remobiliação do Templo, porque Deus pusera estas
coisas no coração do rei (7.27). A alegre congregação que celebrou a grande
Páscoa logo após a conclusão da construção do segundo Templo expressou sen-
timento semelhante. O Senhor “tinha mudado o coração do rei” (6.22), permi-
tindo que o projeto chegasse à conclusão.

A soberania do Senhor também se manifesta em guiar o povo de muitas
formas. O retorno sob as ordens de Ciro foi provocado pela mudança do espí-
rito dos judeus para que voltassem (Ed 1.5). Esdras e Neemias se referem ao
domínio do Senhor sobre eles pela interessante expressão “a mão do SENHOR,
seu Deus, que estava sobre ele/mim” (7.6,9; 8.18,22,31; Ne 2.8). A mão de 
Deus, como está particularmente claro em Ezequiel,  é uma metonimia do seu
poder. Traduzido em termos mais modernos e atualizados, é um modo de aludir
à soberania divina, o controle do Senhor sobre todas as facetas da vida.

O verdadeiro domínio também exige que os inimigos obedeçam às suas ordens.
Quando Tatenai, governador do Trans-Eufrates, tentou embargar a construção do
Templo, fracassou, porque “os olhos de Deus estavam sobre os anciãos dos judeus”
(Ed 5-5). Mais diretamente, Esdras afirmou que ele hesitou em buscar a proteção do
rei Artaxerxes para a viagem a Jerusalém, porque ele já testemunhara ao rei que o seu
Deus podia lidar muito bem com os inimigos (8.22). Quando estavam sob a grande
pressão de Sambalate e seus co-conspiradores, Neemias exortou os judeus para que
continuassem construindo o muro, pois o Senhor, seu Deus, os livraria (Ne 4.14).

Além da exclusividade e soberania, outros atributos do Senhor recebem atenção
em Esdras e Neemias. Na passagem citada há pouco (4.14), Neemias descreveu o
Senhor como “grande e terrível”. O pagão Artaxerxes exaltou a sabedoria divina como
a fonte da habilidade de Esdras tomar decisões sábias (Ed 7.25). O Senhor também
era o Justo diante de quem a nação é impura e condenada (9.15; Ne 9.33). Outro
aspecto do caráter de Deus, a graça e a misericórdia, reparam a brecha ocasionada por
essa justiça em contraste com a maldade da humanidade rebelde. Esdras, na grande
oração sacerdotal, falou da graça de Deus em preservar um remanescente do povo,
um remanescente que também achou favor aos olhos do rei da Pérsia (Ed 9.8,9). As
palavras hebraicas que o narrador usou aqui são hen e hesed respectivamente, termos
sugestivos não só da disposição bondosa, mas também da fidelidade do concerto.  Ne-
emias descreveu a misericórdia do Senhor usando o termo rakamim (Ne 9.27,28,31),
modo mais antropopático de comunicar o lado emocional da natureza do Senhor.

Considerando que esta passagem está no contexto da declaração do concerto, temos
de ser sensíveis à palavra como termo técnico que diz respeito, mais uma vez, ao com-
promisso do concerto do Senhor. A verdade é que Neemias louvou a Deus (9.32),
porque “guardas o concerto e a beneficência,” (hablfrith ufhesed), talvez mais bem
traduzido por: “guarda fielmente o teu concerto”  (cf. NTLH).

As obras e ações de Deus. O Antigo Testamento afirma consistentemen-
te que Deus é conhecido não só pelos (ou talvez, não principalmente pelos)
atributos declarados, mas também pelo envolvimento nos assuntos das pes-
soas. Através da sua obra na história, Ele declara quem é. Obviamente, o ato
em si não pode se comunicar, por isso é obrigatória a palavra explicativa,
a proposição. Esdras e Neemias, como as demais testemunhas canônicas, 
falam das ações de Deus, mas também lhes dão significado na palavra falada
e escrita.

Do ponto de vista lógico e teológico, o primeiro ato revelador de Deus
foi a criação, evento que recebe atenção escassa em Esdras e Neemias, porque
o foco da matéria é a restauração da comunidade teocrática, uma restaura-
ção necessariamente baseada na criação, mas não diretamente ligada a ela no
pensamento pós-exílico. É exatamente quando é necessária a ligação, isto é, a
repetição da história do concerto, que Neemias fundamentou o poder e a fide-
lidade do concerto de Deus na obra inicial da criação (Ne 9.6).9 Analisaremos
este ponto mais adequadamente ainda neste capítulo.

O Senhor também é o revelador dos seus propósitos (Ed 5.1,2), espe-
cialmente através dos profetas — propósitos que focalizam particularmente
o papel de Fazedor do concerto e Guardião do concerto (Ne 1.5). Historica-
mente, isto se deu quando Ele lutou pelo povo na guerra santa (4.20; 9.24)
e trabalhou para alcançar os objetivos que tinha para eles (6.16). Ocasional-
mente, ele agia como juiz, pois quando o povo transgredia o concerto santo,
ele executava as pertinentes sanções terríveis, especial e culminantemente na
forma de deportação e exílio (Ed 5.12; 9.7,13; Ne 9.27).

O POVO DE DEUS

A divisão de Israel em o Reino do Norte e o Reino do Sul, e o exílio per-
manente do Reino do Norte sob as forças dos assírios, só deixaram Judá como
povo do concerto dos tempos do Antigo Testamento. Isto não foi tão devastador
para as promessas e esperança do concerto quanto parece, porque a monarquia
davídica originou-se em Judá e continuou exercendo domínio até pelo menos a
queda de Jerusalém diante dos babilônios em 586 a.C.. Foi um golpe letal contra
a viabilidade do concerto, pois apesar das vozes proféticas oferecerem palavras
de consolo e promessas de restauração, permanecia o fato de que Jerusalém fora
conquistada, o Templo arrasado e o povo, com o monarca davídico, levado cativo
para a longínqua Babilônia.

Um raio de otimismo continuou brilhando na pessoa de Joaquim, o últi-
mo descendente que sobrevivera de Davi, a sentar-se no trono como rei. Exilado
em 598 a.C. como rapaz de 18 anos, Joaquim morou na Babilônia até pelo
menos 562 a.C. Foi bem tratado e, enquanto viveu, manteve a ligação entre a
linhagem davídica do passado e a reassunção prometida dessa linhagem nas eras
vindouras. O livro de 2 Reis termina com referência a Joaquim, como a dizer
que o terrível julgamento de Deus sobre o povo não anulou o compromisso de
restabelecer a casa de Davi ao trono real (2 Rs 25.27-30; cf. Jr 52.31-34).

Não sabemos quanto tempo Joaquim viveu, mas o decreto de Ciro ocorreu
pouco mais de 20 anos depois da última referência a ele. As genealogias indi- 
cam que Joaquim foi sucedido por Sealtiel e este por seu sobrinho Zorobabel, 
o principal líder do primeiro retorno da Babilónia (1 Cr 3.17-19; cf. Ed 3.2).
Zorobabel era a evidência tangível e física de que o penhor para restabelecer a
dinastia davídica encontrara cumprimento, ainda que Zorobabel nunca tivesse
atuado como rei na província persa da Judéia.

A restauração da comunidade. Qual era a significação teológica da restaura-
ção conforme está apresentada em Esdras e Neemias? Este primeiro, toma a forma
de listas genealógicas extensas (Ed 2.1-70; 8.1-14; Ne 7.5-65), cujo propósito
era pelo menos duplo: (1) legitimar aqueles que voltaram, identificando-os com
os ancestrais tribais, e (2) demonstrar por essa ligação que o exílio, embora fosse
traumático e terrivelmente destruidor, não cortara a linhagem da promessa que
originou-se em Abraão e continuaria para sempre. Havia nestas listas as linhagens
dos sacerdotes, levitas e outros funcionários religiosos (Ed 2.36-54; 8.1-14; Ne
7.39-56), pois o reino teocrático, como reino de sacerdotes, era um povo de ado-
radores que expressava a vassalagem na forma relacionada ao culto.

As genealogias dão a entender que a mesma nação que fora desarraigada
tão violentamente da terra da promessa voltaria. E ainda que não fossem as
mesmas pessoas, eram os seus descendentes, castigados e de número muito re-
duzido. Neemias conhecia muito bem o penhor do Senhor dado a Moisés (Dt
30.2- 4) que, mesmo que o povo desobediente fosse exilado nos confins da terra,
Ele os ajuntaria e os traria de volta ao lugar habitado pelo seu nome (Ne 1.8-
10). Neemias também sabia que seria quase como um novo começo, pois o povo
restaurado seria apenas um remanescente (nis’arim, Ne 1.3). E de tal começo
humilde que Esdras também sabia que a comunidade restaurada tinha de surgir
novamente (Ed 9.15).

A doutrina do remanescente é generalizada no Antigo Testamento.  Era
fato que o povo do Senhor sempre tinha a tendência a apostatar-se, com exce-
ção de uma minoria, o remanescente que permanecia fiel às responsabilidades
do concerto. Em outras palavras, sempre havia um Israel dentro do Israel, o
verdadeiro núcleo envolto pela casca de uma entidade nacional externa. Os pro-
pósitos e promessas salvíficos do Senhor não se cumprem na nação em si, mas
só nesse cerne religioso que ele preservou no decorrer das eras.

O que destacou o remanescente do povo foi a determinação de ser um povo
separado, um povo cuja lealdade era exclusivamente ao Senhor. Em contraste
com o pano de fundo do exílio, ocorria um julgamento exatamente porque a 
nação do concerto tinha abandonado este princípio de exclusividade. Este fato
é muito evidente, porque Esdras e Neemias destacam tal interesse na pureza do
remanescente pós-exílico. Seus integrantes tinham de sair dentre os incrédulos
do seu tempo para exibir religiosidade própria, o que significava ser um povo
santo e um reino sacerdotal.

Zorobabel enfrentou esta questão logo cedo, quando o trabalho construtivo
do Templo estava em andamento. Os samaritanos e outros adversários dos que
voltaram do exílio quiseram unir-se na construção do Templo, mas os líderes
judeus imediatamente perceberam que o sincretismo implícito neste esforço coo-
perativo era ostensivamente contrário ao espírito do concerto. Zorobabel respon-
deu: “Nada tendes conosco na edificação da casa a nosso Deus” (Ed 4.3, ARA).
A exclusividade implícita nesta resposta ecoou repetidamente nas adver-
tências de Esdras e Neemias ao povo remanescente para separar-se das popula-
ções circunvizinhas, sobretudo na prática matrimonial. Esdras ouviu a reclama-
ção que o povo, os sacerdotes e os levitas tinham se casado com indivíduos das
nações vizinhas descrentes, uma abominação que resultou na mistura da raça
santa com os que os cercavam (Ed 9.2). Como fizeram os antepassados dessas
nações séculos antes, eles entraram na terra da promessa para levar as práticas
más dos habitantes cananeus (w. 11,12).

Esdras ficou tão indignado com este desarranjo das linhas demarcatórias
que ordenou o divórcio peremptório sempre que houvesse casamentos mistos
(Ed 10). Anos mais tarde, Neemias retomou a causa. Ordenou que os israelitas
que tinham se separado das nações vizinhas pagãs renovassem os votos do con-
certo ao Senhor (Ne 9.2) e se contivessem, daí em diante, de casarem-se entre
nacionalidades diferentes (10.28).

De interesse especial para Neemias, foi o problema do casamento entre ju-
deus com as mulheres de Asdode, Amom e Moabe. Comparou essas alianças com
as de Salomão, que resultaram no fim da monarquia unida (Ne 13.23-27). Isto
lhe foi particularmente ofensivo, porque a lei mosaica proibia especificamente
que amonitas ou moabitas entrassem na assembléia de Israel (Dt 23.3-5),12 proi-
bição claramente frustrada pelos casamentos mistos. Quando os judeus envolvi-
dos compreenderam essa verdade, prontamente retiraram a multidão mista do
meio deles. Ao que parece, Neemias não foi tão longe quanto Esdras, exigindo o
término dos casamentos já feitos (Ne 13.1-3).

A expressão final da restauração da comunidade foi a reconstrução das
estruturas físicas da cidade e da nação. Era necessária não só por razões práticas
de habitação e recursos comunitários, mas também como símbolo da conti-
nuidade com o passado e a confiança no futuro. Assim que voltou, o povo,
sob a administração de Zorobabel e Josué, iniciou os projetos construtivos, em
particular o Templo do Senhor (Ed 3.8-13). Lentamente o trabalho progredia 
sob as orientações destes líderes e de outros, inclusive de Esdras e Neemias, até
que terminou e permaneceu como um monumento à fidelidade do Senhor ao
seu povo.

A restauração da adoração. O remanescente do povo era mais que ape-
nas uma entidade étnica ou nacional — era o povo vassalo do Senhor eleito
e redimido por Ele para servi-Lo como luz para as nações. Nessa função, eles
tinham de modelar os propósitos soberanos e salvíficos divinos e mediá-los para
o mundo. Isto está de acordo com o tema central do concerto mosaico em que
Israel tem de assumir a responsabilidade de ser um reino sacerdotal e um povo
santo (Êx 19.4-6).

A demonstração mais clara do caráter teocrático da comunidade foi o
compromisso fiel ao concerto e a prática dos seus termos, uma prática indis-
soluvelmente ligada ao sistema de adoração nacional com lugares santos, pes-
soas santas, ações santas e tempos santos.  Era Israel em adoração que melhor
modelava o domínio do Senhor sobre todos os aspectos da vida humana. Da
mesma maneira que a destruição do Templo e de seus ministérios sinalizava o
verdadeiro começo do exílio, assim a reconstrução e renovação dos seus minis-
térios efetivaria o restabelecimento do povo de Deus ao papel de redenção. A
comunidade sem adoração não tinha função efetiva.

Não é surpreendente, então, que o primeiro evento da vida pós-exílica de
Judá fosse a celebração da Festa dos Tabernáculos, uma celebração que obvia-
mente precedeu a reconstrução do Templo (Ed 3.1-7). Como foi adequado que
a Festa dos Tabernáculos, que comemorava a provisão de Deus para o povo no
deserto do Sinai, fosse agora a ocasião de alegrar-se pelo cuidado divino duran-
te os 70 anos do deserto exílico na Babilônia. Dezesseis anos depois, tendo se
concluído a construção do Templo, o povo comemorou novamente a provisão
graciosa do Senhor em um grandioso e esplendoroso culto de dedicação na vi-
rada do ano através da observância da Páscoa (6.16-22).

Foi o Templo que forneceu o foco central da vida e testemunho da comu-
nidade. Logo no início do segundo ano do retorno de Zorobabel, ansioso por
restabelecer a casa de Deus a esse papel crucial, orientou o povo a pôr as funda-
ções (Ed 3.8-13). Por mais pobre que parecesse aos olhos dos que tinham visto a
magnificência do Templo de Salomão, bastava para mostrar que o Senhor, mais
uma vez, se agradou em viver entre o seu povo. Depois de 16 anos de interrup-
ção, os trabalhos retomaram, graças à inspiração profética e incentivo de Ageu
e Zacarias (5.1,2). Os reis persas também deram apoio (6.12,14,15) até que a
construção do Templo terminou em 515 a.C.

Embora o Templo fosse a própria residência de Deus, Jerusalém, o seu
local, era a cidade de Deus. Sua reconstrução também era necessária para que se 
percebesse na terra a plena expressão dos propósitos do Senhor relativos ao rei-
no. O Templo e a cidade estavam juntos (Ed 4.24), tanto que era possível falar
deles intercambiavelmente (7.15-17,19). Neemias sentia a necessidade de re-
construir a cidade, mas também queria certificar-se de que fosse adequadamen-
te repovoada. Descrevendo-a como “santa cidade”, ele procurava voluntários
que se mudassem para ela de forma a ter o tamanho e esplendor indispensáveis
à capital do reino teocrático (Ne 11.1,2).

A adoração requeria tempos santos, épocas sagradas, junto com templos e
cultos. Embora Esdras e Neemias sejam econômicos na descrição destes como
também de outros detalhes do desempenho do culto, há referências à Festa dos
Tabernáculos e à Páscoa como já mencionamos (Ed 3.4; cf. Ne 8.13-18; Ed
6. 19). Neemias também faz referência ao Rosh Hashaná ou o dia do Ano Novo
(Ne 8.2), embora a significação não seja enfatizada até os tempos pós-bíblicos.
Esdras e Neemias não entram em detalhes concernentes à adoração pú-
blica que era tão importante ao cronista, embora não devamos concluir que o
culto não fosse importante para a comunidade pós-exílica. O mais provável é
que tais detalhes não precisam ser repetidos em uma obra que o cronista possa
ter tido participação. Esdras, Neemias e os profetas pós-exílicos nos dão a nítida
impressão de que o Templo restaurado e o culto eram senão sombras do que
foram no passado glorioso de Israel. A mensagem era que a etapa pós-exílica da
vida de Israel era mero antegozo de algo muito mais maravilhoso ainda por vir.
Como disse Ageu, olhando claramente para o (seu) futuro distante: “Encherei
esta casa de glória” (Ag 2.7).

A oposição ao reino. A história do reino de Deus na terra, pouco impor-
tando em que tempo e de que forma, é uma história de luta e conflito, porque o
estabelecimento é à custa de subjugar os elementos hostis que se formam contra
esse objetivo. O próprio exílio, embora um julgamento do Senhor, foi executa-
do pelas mãos da ímpia Babilônia, um inimigo perene do programa teocrático.
Mas o fim do exílio não acompanhou o fim do conflito do reino, pois a comu-
nidade pós-exílica, nos esforços de restauração, continuou enfrentado oposição
acirrada e inflexível.

Assim que os exilados voltaram para casa e começaram a construção do
Templo, os inimigos procuraram frustrar-lhes o trabalho, primeiro através de
colaboração ilícita (Ed 4.1,2) e depois por meio de resistência clara (w. 4-6).
Quando Neemias entrou em cena 90 anos depois para reconstruir os muros de
Jerusalém, o antagonismo ainda persistia. Acusando os judeus de traição contra
o rei persa, Sambalate e seus colegas primeiro ridicularizaram os esforços do
povo de Deus (Ne 2.19). Depois, ficaram furiosos quando viram que o trabalho
prosseguia (4.1-3). Decidiram que o único recurso era a intervenção militar, 
uma estratégia que foi vencida pelas orações e vigilância de Neemias e seus
companheiros (w. 8,9). O trabalho foi concluído e o Senhor triunfou através
de seus servos obedientes. A mensagem teológica é muito clara. Jerusalém, o
foco da habitação e obra salvadora de Deus na terra, é símbolo ou talvez até
um microcosmo do seu reino. Intrinsecamente considerada, é a casa do povo de
Deus, mas também o objeto do ataque das forças antiteocráticas que procuram
eliminá-la da terra. Mas Jerusalém, como o reino eterno do próprio Deus, não
pode ficar caída para sempre. Das próprias cinzas da história humana ressurgirá,
restabelecida à pureza primitiva como a residência eterna do Senhor e de todos
os seus súditos reais.

A história do concerto. Sem dúvida, o evento mais teologicamente traumá-
tico da história do povo teocrático foi a destruição de Jerusalém e do Templo
e a deportação do povo do concerto para a distante Babilônia. Não foi o deslo-
camento físico que foi tão trágico, mas o rompimento do concerto que ligara
Deus e o povo por quase um milênio. O que aconteceria agora? O Senhor tinha
acabado com Israel? Havia esperança de que as antigas promessas fossem reno-
vadas e a nação exilada restaurada?

Muitos dos profetas pré-exílicos previram esta calamidade e já tinham
registrado a esperança para aqueles que, na servidão, buscariam o perdão do
Senhor e, portanto, seriam restaurados como povo-servo. Agora que o retorno
do cativeiro acontecera, os profetas pós-exílicos acrescentaram as palavras de
confirmação e até olharam para frente, para dias mais gloriosos. Não há dú-
vida de que o povo de Deus quebrara rudemente os votos do concerto, mas o
compromisso aos pais fora evidentemente eterno. Jamais deixaria de haver uma
nação real ou um reino davídico para prover liderança. Israel falharia repetidas
vezes, mas o Senhor teria a última palavra. As suas obrigações do concerto para
o povo eram tão certas quanto o seu nome e reputação.

Pensando nisso, Neemias conduziu o povo a uma das cerimônias mais
bem documentadas e significativas da renovação do concerto de todo o Antigo
Testamento (Ne 8-10).  A sua centralidade no livro mostra, inquestionavel-
mente, que a relação do concerto estava inerentemente intacta. O povo só tinha
de arrepender-se e reafirmar a lealdade às providências e exigências do concerto.
Então, e somente então, os israelitas poderiam apanhar o manto do privilégio
teocrático que os marcara do Sinai em diante como a nação sacerdotal especial
de Deus.

A narrativa da renovação começa com a história da relação do concerto
desde o princípio (Ne 9.5-35). Em forma de tratado padrão do Iniciador do
concerto, o Senhor, Deus de Israel, é apresentado como o único Deus, o Criador
e Preservador dos céus e da terra (w. 5,6). Em seguida, há o prólogo histórico, 
uma recitação prolongada dos procedimentos de Deus com o povo desde o tem-
po de Abraão até aquele presente momento (w. 7-35). O pai da nação fora elei-
to e, tendo sido achado fiel, tornou-se o recebedor das promessas do concerto
relativas à terra e à semente (w. 7,8). Depois, segue-se a permanência no Egito
e a libertação milagrosa de Israel pelo mar Vermelho, um ato de redenção que
resultou nas providências graciosas do concerto no Sinai (w. 9-15).

Desde aquela época, por mais que o Senhor fosse bondoso, Israel tinha
pecado. Foi o que aconteceu no deserto (Ne 9.16-21), na Transjordânia (v. 22)
e na própria Canaã (w. 23-25). Rejeitaram as advertências dos juizes (w. 26-29)
e não deram atenção aos profetas (w. 30-35). O Senhor trouxera julgamento
inúmeras vezes, mas não destruiu totalmente o povo, porque ele era “clemente e
misericordioso”, ou seja, fiel à promessa incondicional e eterna (w. 31,32).

Judá como povo-servo. Agora que o exílio terminou e que a comunidade
fora restaurada, o remanescente do concerto viera colocar-se mais uma vez dian-
te do grande Rei como povo-servo (Ne 9.36). Esta era a essência do que signi-
ficava estar em concerto com o Senhor. O caráter soberano-vassalo do concerto
mosaico levou à conclusão inevitável de que o papel exclusivo de Israel era de
servo.

Os que voltaram muito antes de Neemias entenderam isto claramente,
pois quando foram interrogados por Tatenai, governador do Trans-Eufrates,
sobre os motivos para construir o segundo Templo, eles se justificaram decla-
rando: “Nós somos servos do Deus dos céus e da terra” (Ed 5.11). Neemias
identificou-se como servo do Senhor, mas também descreveu o povo de Israel
nestes termos (Ne 1.6). Em linguagem rememorativa ao êxodo e ao concerto
sinaítico, ele falou sobre o remanescente da nação: “Estes ainda são teus servos
e o teu povo que resgataste com a tua grande força e com a tua forte mão” (v.
10). A força contínua da relação do concerto é cristalinamente clara nestas de-
clarações.

A violação ao concerto. Como já comentado, a história do concerto de
Deus tratando do povo foi pontuada pela desobediência constante às exigências
divinas. Infelizmente, nem a destruição de Jerusalém e a deportação para a Ba-
bilônia tinham curado esta tendência viciadora, pois Esdras e Neemias tiveram
de lidar com a violação do concerto nas suas respectivas situações pós-exílicas.
Quando informado sobre o casamento misto dos judeus com os povos vizinhos,
Esdras viu que era mais um exemplo da infidelidade de Israel. Com lamento
amargo, lembrou a história da infidelidade do seu povo (Ed 9.6,7) e depois con-
fessou ao Senhor: “Pois deixamos os teus mandamentos” (v. 10), exatamente
como seus pais tinham feito. Embora tivesse graciosamente deixado um rema-
nescente, o Senhor poderia não repetir o feito, concluiu Esdras (v. 14).
A resposta foi como esperada, porque Secanias, falando em nome do povo,
disse: “Nós temos transgredido contra o nosso Deus e casamos com mulheres es- 
tranhas do povo da terra” (Ed 10.2). Vemos que isto é o epítome da violação do
concerto quando Secanias roga que os israelitas façam concerto com o Senhor para
dissolver os casamentos ilegítimos e restabelecer a pureza da comunidade (9.3).
De tom mais especificamente pertinente ao concerto é a linguagem de
Neemias na primeira oração. Dirigindo-se ao Senhor por “Deus grande e ter-
rível, que guardas o concerto e a benignidade para com aqueles que te amam e
guardam os teus mandamentos!” (Ne 1.5), Neemias confessou pelos israelitas
que eles não obedeceram “os mandamentos, nem os estatutos, nem os juízos”
que o Senhor dera a Moisés (v. 7). Os termos técnicos empregados aqui falam
claramente de violação do concerto em sentido formal. 

No retorno à Jerusalém, depois de uma ausência de 12 anos, Neemias
encontrou pelo menos dois exemplos evidentes de desobediência do povo ao
concerto — a quebra do sábado e o casamento misto. Identificou a primeira
destas desobediências como uma das principais causas da destruição de Jeru-
salém, porque o sábado era o sinal do concerto sinaítico (Ne 13.15-18; cf. Ex
31.12-17). O casamento com pessoas de outras nacionalidades falava do total
fracasso do povo do concerto em cumprir a separação exigida, sendo especial-
mente odioso ao Senhor. Quando Neemias voltou a Jerusalém, descobriu que
não foi só a população em geral que se casara com pessoas dos povos vizinhos
(Ne 13.23-27), mas até mesmo o filho do sumo sacerdote também se casara.
Neemias descreveu este ato de sacrilégio especial como contaminação do ofício
sacerdotal e do “concerto do sacerdócio e dos levitas” (v. 29).

A violação do concerto não era algo limitado ao passado distante de Israel.
Continuou nos tempos exílicos e pós-exílicos e teve de ser tratado inúmeras
vezes pelos profetas e outros porta-vozes teocráticos como Esdras e Neemias.
O único remédio era a renovação pessoal e coletiva. Até os fundamentos do
concerto tiveram de ser descobertos de novo e os seus princípios apropriados
mais uma vez, pois o papel de Israel como modelo e mediador do reino estavam
constantemente em perigo.

A renovação do concerto. Embora não ocorra cerimônia de renovação do
concerto em Esdras, a renovação está indicada na condenação de Esdras aos
casamentos mistos e na proposição dos passos necessários para pôr as coisas
em ordem (Ed 10.11-17).  Primeiro, insistiu na confissão e depois exortou os
culpados a fazerem a vontade do Senhor (v. 11). Conclamou-os especificamente
a separarem-se dos povos circunvizinhos e das esposas estrangeiras. Isto atingiu
o âmago da relação do concerto, a noção de que Israel era um povo santo, eleito
e comissionado para ser a propriedade exclusiva de Deus. Como tal, ele tem de
ser puro de todas as alianças alheias, servindo somente ao Senhor e representan-
do o seu domínio na terra. 

Já demos certa atenção à renovação do concerto sob a orientação de Nee-
mias. Agora é importante analisarmos alguns de seus aspectos técnicos. Começa
com Esdras lendo a Torá no início das grandes festas de outono (Ne 8.2). Depois,
Neemias e Esdras proclamaram que a ocasião era santa, na qual o povo tinha de
celebrar a Festa dos Tabernáculos em comemoração à provisão do Senhor aos an-
tepassados que peregrinaram no deserto (w. 13-18). Por fim, no vigésimo quarto
dia do sétimo mês, dois dias depois da Festa dos Tabernáculos,  a assembléia,
separada “de todos os estranhos” (9.2), pôs-se de pé e confessou os pecados diante
do Senhor. Neste momento, os levitas oficiaram a cerimônia de renovação do
concerto.

Os elementos há pouco mencionados — a Torá, os Tabernáculos e a con-
fissão — abriram o caminho para a fase seguinte. É a afirmação da soberania e
exclusividade do Senhor (Ne 9.6), a recitação da história da relação do concerto
dEle com Israel (w. 7-35) e a confissão alegremente feita de que este grupo reu-
nido é o servo do Senhor (w. 36,37). A ocasião terminou com um compromisso
ao concerto nestas palavras notáveis ditas pela assembléia: “E, com tudo isso,
fizemos um firme concerto e o escrevemos; e selaram-no os nossos príncipes, os
nossos levitas e os nossos sacerdotes” (v. 38). Segundo a grande tradição da re-
forma e reavivamento no passado, a comunidade pós-exílica de Israel prendeu-
se mais uma vez ao compromisso de ser o povo do concerto do Senhor.

CONCLUSÃO SOBRE ESDRAS E NEEMIAS

Os livros de Esdras e Neemias mostram um dos dias mais sombrios e
difíceis da longa história veterotestamentária de Israel. Embora o exílio tives-
se acabado e um povo remanescente estivesse em processo de reconstruir as
superestruturas da vida nacional, os prospectos para o sucesso diminuem em
comparação aos dias felizes do passado, quando o reino davídico dominou
todo o mundo mediterrâneo oriental. Havia a necessidade de uma palavra de
encorajamento, uma mensagem de esperança no Deus que abençoara uma
vez o seu povo acima de todas as nações da terra e que prometera fazê-lo no-
vamente.

Mas esta palavra de esperança estava condicionada ao desejo de a comuni-
dade restabelecer as fundações do concerto nas quais ela tinha sido edificada e
levar a sério o mandato de ser um reino sacerdotal e um povo santo. O grande
tema teológico dos livros está exatamente nesta ligação entre as antigas pro-
messas do Senhor e as expectativas presentes e futuras do seu povo escolhido.
A comunidade pós-exílica era pequena, mas o seu Deus é grande. A confiança
em tal Deus assegurará um futuro mais glorioso do que qualquer coisa dos dias
passados. 

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.