12 de fevereiro de 2014

Roland de Vaux - Os escravos: Os escravos fugitivos

A fuga era o recurso comum do escravo para libertar-se do trato duro de seu dono, Eclo 33.33. Ainda nos casos em que era bem tratado, podia sentir a tentação de fugir, mesmo que fosse apenas para sentir-se livre, como todo homem tem direito de ser.

O rico e malvado Nabal parece que estava bem a par disto: “Muitos são hoje em dia os servos que fogem do seu senhor”, ele respondeu aos enviados de Davi, 1 Sm 25.10. Dois escravos de Simei fogem para a cidade de Gate, I Rs 2.39. Isso acontecia em toda parte. O código de Hamurabi pune com a morte toda ajuda prestada a um escravo fugitivo, a recusa a entregá-lo ou sua simples ocultação. As outras leis da Mesopotâmia são menos severas: em Nuzu, o que oculta deve pagar uma multa. Ao referir-se a escravos que fugiam para o estrangeiro, certos tratados entre Estados orientais previam cláusulas de extradição. Assim, Simei pode recuperar seus dois escravos que haviam se refugiado junto ao rei de Gate, I Rs 2.40, cf. também I Sm 30.15.


A lei israelita contém só um artigo sobre os escravos fugitivos: Dt 23.16-17 proíbe que se entregue um escravo que escapou de seu dono e buscou refúgio: na cidade que escolher, deve ser recebido e bem tratado. Essa determinação não tem paralelo nas leis antigas e não é fácil de interpretar. Não parece apli¬car-se a um escravo israelita que abandone um dono israelita, pois ele voltaria naturalmente à sua família ou a seu clã. Pela mesma razão também não se refere a um escravo israelita que abandona seu dono estrangeiro. Parece, pois, que a lei visa a um escravo não israelita vindo do estrangeiro e admitido em Israel como gerou como tôshâb. Seria negada só a extradição, considerando toda a Terra Santa como lugar de asilo, à maneira de Is 16.3-4.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.