14 de fevereiro de 2014

Gleason L. Archer - Introdução ao livro de Daniel (II)

A. ARGUMENTOS TEOLÓGICOS FAVORECENDO
UMA DATA AVANÇADA DE DANIEL

Aderentes à teoria macabéia usualmente dão grande ênfase
ao suposto desenvolvimento ou evolução do pensamento religioso
da nação israelita. Apontam temas e ênfases em Daniel que crêem
ser semelhantes àqueles que caracterizam a literatura apócrifa do
período intertestamental (obras tais como o Livro de Enoque e os
Testamentos dos Doze Patriarcas, ou até os livros apócrifos tais
como Tobias ou Susana). Estas ênfases incluem a proeminência de
anjos, a atenção dada ao julgamento final, a ressurreição dos mor-
tos, e o estabelecimento do reino final de Deus sobre a terra, com
o Messias como soberano supremo do mundo. Concebe-se que há
referências ocasionais em alguns livros anteriores no Antigo Tes-
tamento, aos anjos, ao julgamento, à soberania de Deus, e ao Mes-
sias; pensa-se, porém, que estes ensinamentos tenham atingido uma
forma muito mais desenvolvida em Daniel do que em Ezequiel
ou Zacarias. A angelologia, especialmente, é considerada como per-
tencente à época do Livro de Enoque (primeiro século a.C.) por

causa da sua semelhança a ele.

Esta, porém, é uma declaração muito difícil de se substanciar.
Qualquer leitor pode facilmente verificar o fato de que Zacarias
também menciona o Messias em várias ocasiões nas suas profecias,
assim como os anjos, (2:3; 3:1; 6:12; 9:9; 13:1 segs.; 14:5) num
período entre 519 e aproximadamente 470 a.C.. Além disto, há um
papel muito semelhante desempenhado pelos anjos em Zacarias
e os anjos em Daniel, que é interpretar o significado das visões
que foram concedidas ao Profeta. A afinidade é suficientemente 
grande para apoiar a idéia de que Zacarias, influenciaria Daniel,
ou vice-versa.  Há também duas referências significativas ao Mes-
sias em Malaquias (Ml 3:1 e 4:2), e ainda, uma ao julgamento fi-
nal, também no capítulo 3. De outro lado, obras que são reconhe-
cidamente do segundo século a.C., tais como I Macabeus, as
adições em grego a Daniel, Baruque e Judite, não possuem ne-
nhum dos quatro elementos (angelologia, ressurreição, julgamento
final e Messias) os quais, segundo se assevera, são tão característi-
cos do período que revelam uma suposta origem do segundo século
do Livro de Daniel. Mesmo a literatura apócrifa do primeiro sé-
culo a.C. contém apenas duas obras (uma totalidade de possivel-
mente dezesseis) que tinham todas as quatro características, e
estas são a Visão de Isaías e a sua Ascensão.

Nesta altura seria bom talvez passar em revista a ocorrência
destes quatro elementos nos Livros mais antigos do Antigo Testa-
mento. Quanto aos tipos de anjos, Josué refere-se a um príncipe
dos anjos, Gênesis menciona os querubins. Sua função, segundo
era declarado, seria entregar mensagens a Abraão, Moisés, Josué,
Gideão, e os vários profetas como Isaías, Zacarias e Ezequiel. Já na
Torá, há anjos que revelam a vontade de Deus, que fornecem pro-
teção ao povo de Deus, e que destroem as forças do inimigo.

Quanto à ressurreição, há a famosa afirmação de Jó em Jó 19:25-26
(embora que haja a possibilidade de outra interpretação da passa-
gem) ; a afirmação em Is. 26:19 (“Os vossos mortos e também o meu
cadáver viverão e ressuscitarão”); a visão de Ezequiel do vale dos
ossos secos, e, possivelmente, a ressurreição dos mortos por Elias
e Eliseu. Por outro lado, do número considerável de obras pós-
canônicas, só o Livro dos Doze Patriarcas refere-se a uma ressur-
reição tanto dos justos como dos maus, conforme é descrito em
Daniel 12:2. A doutrina do julgamento final é mencionada em
Isaías, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias e muitos dos Salmos.
Em muitos casos este julgamento se aplica às nações do mundo
e não somente a Israel. Referências ao Livro da Vida ou a um livro
de memórias remontam até Êxodo 32:32, 33 e Isaías 4:3; cf. também
Isaías 65:6; Salmo 69:28 e Malaquias 3:16. O conceito do Messias
aparece já em Gênesis 3:15 e 49:10; cf. também Números 24:17;
Deuteronômio 18:15; Isaías 9:6,7; 11:1; Jeremias 23:5, 6; 33:11-17;
Ezequiel 34:23-31; Miquéias 5:2. 

Sem dúvida, é possível discernir algtfm tipo de progresso no
desenvolvimento dessas doutrinas durante a história da revelação
de Deus a Israel, mas é um erro supor que Daniel contenha qual-
quer coisa radicalmente nova em qualquer uma das quatro áreas
em discussão. Além disto, essas exatas doutrinas eram muito apro-
priadas para a consolação e o encorajamento de Israel durante a
época do Cativeiro e na véspera da sua volta à Terra Prometida.

B. ARGUMENTOS EXEGÉTICOS FAVORECENDO
UMA DATA AVANÇADA DE DANIEL

Campeões da teoria da data macabéia alegam que seria im-
possível a um autor do sexto século compor predições com tantos
detalhes concernentes a eventos futuros da história de Israel como
as que há nos capítulos proféticos do livro de Daniel. Alegam
também que é uma circunstância suspeita que tais predições exa-
tas só se extendem até o reinado de Aritíoco IV (175-164), não
havendo nada além da sua época. A conclusão óbvia a ser tirada é
que a obra inteira tenha sido composta por alguém que vivia du-
rante o reinado de Antíoco IV e que tenha composto esta ficção
literária a fim de encorajar os patriotas judeus da sua própria
geração a alistarem-se com os macabeus para libertação do jugo
sírio. Assim, todas as profecias cumpridas são explicadas como
sendo vaticinia ex eventu.

A explicação da data em Daniel, que remonta até o polemista
neo-platônico Porfírio (que morreu em 303 d.C.), depende, pela sua
validez, da veracidade da premissa de que não havia predições
acuradas cumpridas subsequentemente a 165 a.C. Esta proposi-
ção, porém, não pode manter-se com sucesso à luz da evidência
interna do texto, e da sua correlação com os fatos conhecidos
da história antiga. Deve porém, ser reconhecido que considerável
atenção é dedicada no Livro de Daniel aos futuros eventos do
reinado de Antíoco, pelo importante motivo de que este período ha-
veria de apresentar a maior ameaça de toda a história subse-
qüente (a não ser, é claro, o complô de Hamã na época de Ester),
à sobrevivência da fé e da nação de Israel. Aceitando que as
predições fossem dadas por inspiração divina, e que Deus Se preo-
cupasse na preservação do Seu povo da Aliança, era de se esperar
que Daniel, através da revelação divina, fosse capacitado a escla-
recer às gerações futuras que Deus não somente previra a ameaça
da extinção do povo que viria a ser feita por Antíoco Epifânio, mas que também
tinha tomado as providências para sua libertação. 

Esta ênfase profética era tanto mais justificada pelo fato que
Antíoco e sua perseguição haveriam de servir como tipos do Anti-
cristo final e da Grande Tribulação que viriam no final dos tempos
(segundo o sermão de Cristo no Monte das Oliveiras, registrado
em Mt 24 e Mc 13). Isto se torna evidente pela maneira surpreen-
dente da figura do imperador grego Antíoco subitamente se trans-
formar na figura do Anticristo dos últimos tempos em Daniel 11,
começando com o versículo 40. É interessante notar que até S. R.
Driver admite que estes últimos versículos não correspondem com
qualquer coisa que se conheça da carreira de Antíoco; realmente,
chegou ao seu fim em Tabas, na Pérsia, depois duma frustrada
tentativa de saquear o rico templo de Elimais em Elão.

Seria razoável dizer que o ponto mais fraco na estrutura in-
teira da teoria macabéia, se acha na identificação do quarto impé-
rio predito no cap. 2. Com a finalidade de sustentar sua posição,
os teóricos da data avançada precisam interpretar este quarto
império como sendo o reino dos macedônios ou gregos fundado por
Alexandre Magno cerca de 330 a.C. Isto então significa que o
terceiro império precisa ser identificado com o reino persa esta-
belecido por Ciro, o Grande, e o segundo seria a potência média,
mantida por um breve período pelo lendário Dario, o medo. Se-
gundo esta interpretação, a cabeça de ouro no capítulo 2 repre-
senta o império caldeu, o peito de prata representa o império dos
medos, o ventre e os quadris de bronze representam o império per-
sa, e as pernas de ferro o império grego. Embora que esta identi-
ficação dos quatro impérios seja sustentada por um grande número
de estudiosos hoje em dia, é dificilmente sustentável à luz da evi-
dência interna. Isto quer dizer que o próprio texto de Daniel dá as
indicações claríssimas que o autor considerava os medos e os
persas como constituindo um único império, e que, a despeito de
ter empregado o título “Dario, o medo”, nunca teve a noção de
ter havido um império separado e distinto dos medos, a qual-
quer tempo.

Em primeiro lugar, o simbolismo de Daniel 7 impede a possibi-
lidade de identificar o segundo império com a Média e o terceiro
com a Pérsia. Neste capítulo, o primeiro reino é representado por
um leão. (Todos os estudiosos concordam que isto representa o
império caldeu ou babilónico). O segundo império aparece na for-
ma dum urso devorando três costelas. Isto corresponderia bem às
três conquistas principais do império medo-persa: Lídia, Babilônia
e Egito (sob Ciro o Grande e Cambises). O terceiro império é re- 
presentado por um leopardo com quatro asas e quatro cabeças.

Não há nenhum registro de que o império persa tenha sido dividido
em quatro partes, mas é bem conhecido que Alexandre Magno, ao
morrer, deixou um império que se dividiu em quatro partes subse-
qüentemente, que eram: a Macedônia, a Ásia Menor, o império se-
lêucida (incluindo Síria, Babilônia e Pérsia), e o Egito. A inferên-
cia natural seria, portanto, que o leopardo representasse o império
grego. O quarto reino é apresentado como uma besta terrível de
dez chifres, incomparavalmente mais poderoso do que os outros, e
com capacidade de devorar a terra inteira. Os dez chifres sugerem
por demais os dez dedos dos pés da imagem descrita no capítulo 2,
e deve ser notado que pertencem às duas pernas de ferro. As duas
pernas se identificam com o império romano, que na época de Dio-
cleciano foi divido na parte oriental e na parte ocidental. Não há,
porém, nenhuma maneira de reconciliá-las com a história do impé-
rio grego que se seguiu à morte de Alexandre.

Em Daniel 8 temos mais simbolismos para nos ajudar nesta
identificação dos impérios n.° 2 e n.° 3. Há um carneiro com dois
chifres (um dos quais era mais alto do que o outro, assim como a
Pérsia sobrepujava a Média no império de Ciro) que é finalmente
derrubado por um bode, que no começo tem um chifre grande (que
facilmente se identifica com Alexandre Magno) mas subseqüente-
mente brota quatro chifres (i.é. Macedônia, Ásia Menor, Síria e
Egito), dos quais finalmente se desenvolve um chifre pequeno, isto
é, Antíoco Epifânio.

Do ponto de vista do simbolismo dos capítulos 2, 7 e 8, por-
tanto, a identificação dos quatro impérios com Babilônia, Média-
Pérsia, Grécia e Roma oferece uma correspondência perfeita, en-
quanto as identificações envolvidas na teoria da data macabéia
apresentam problemas e discrepâncias dos mais graves.

Neste assunto deve ser notado que o argumento mais forte no
sentido de intentificar o quarto império de Daniel com o de Ale-
xandre e seus sucessores gregos se deriva do aparecimento do chifre
pequeno nos capítulos 7 e 8. Isto quer dizer, no capítulo 7, o chifre
pequeno reconhecidamente se desenvolve do quarto império, isto
é, o animal terrível com dez chifres que derrubou o leopardo com
quatro asas. Mas no capítulo 8, o chifre pequeno se desenvolve na
cabeça do bode, que claramente representa o império grego. Con-
forme já mencionamos, este bode começou sua carreira com um
chifre único (Alexandre Magno), mas então produziu quatro outros 
no seu lugar. Não pode haver qualquer dúvida que o chifre peque-
no no capítulo 8 indique um rei do império grego, nominalmente,
Antíoco Epifânio. Os críticos supõem, portanto, que o pequeno
chifre no capítulo 7 forçosamente se refira ao mesmo indivíduo.

Dificilmente, porém, pode ser esse o caso, sendo que o leopardo das
quatro asas do capítulo 7 claramente corresponde ao bode com
quatro chifres do capítulo 8; isto é, ambos representam o império
grego que se dividiu em quatro partes depois da morte de Alexandre.
A única dedução razoável a ser tirada é que há dois chifres peque-
nos diferentes nas visões simbólicas de Daniel. Um deles emerge
do terceiro império, e outro emerge depois, do quarto império. Pa-
rece que o relacionamento é o de tipo (Antíoco IV do terceiro im-
pério) e o de antítipo (o Anticristo que surgirá na forma final que
o quarto império assumirá). Esta é a única explicação que está à
altura em relação aos dados, e que lança luz sobre 11:40 e segs.,
trecho no qual o Antíoco da história subitamente se confunde com
a figura do Anticristo que virá no final dos tempos.

Duas outras considerações devem ser acrescentadas para de-
monstrar que o autor considerasse os medos e os persas como se
constituindo um só império. Em Daniel 6, há declarações de que
Dario é obrigado a obedecer à “lei dos medos e dos persas”, sem ter
autoridade de revogar o decreto que designou Daniel à cova dos
leões. Se o autor considerasse Dario como sendo soberano dum
império medo independente cronologicamente e anterior ao dos per-
sas, é impossível explicar como este teria sido obrigado pelas leis
dos persas. Em segundo lugar, temos a evidência da escritura na
parede conforme a interpretação dada por Daniel em 5:28. Neste
trecho, Daniel é representado dando a interpretação da inscrição
a Belsazar, último rei do primeiro império, isto é, o reino dos cal-
deus. Ao interpretar a terceira palavra, diz sobre ela, peres: “Divi-
dido foi o teu reinado, e dado aos medos e aos persas”. Isto é obvia-
mente um jogo de palavras, pelo qual o termo parsín, ou melhor,
seu singular, peres, se deriva do verbo peras, “dividir” ou “separar”.
Mas ao mesmo tempo é referido a pãrãs, ou “persa”. Isto só pode
significar que, segundo o autor, o império caldeu foi tirado de
Belsazar, como o último representante do primeiro império, e dado
aos medos e aos persas, constituindo-se o segundo império. Isto não
pode significar que o reino foi entregue em primeiro lugar aos
medos, sendo só mais tarde entregue aos persas, sendo que a
palavra significativa que apareceu escrita na parede, era espe-
cificamente a palavra “Pérsia”. A seqüência é clara, portanto: o 
império passou da Caldéia para a Pérsia. Não pode haver qualquer
dúvida legítima, de que o império persa foi considerado o segundo
deles. Isto sendo o caso, a conclusão só pode ser que o quarto im-
pério de fato representava Roma. 

Se, pois, o quarto império do capítulo 2, conforme corroborado
pelas outras representações simbólicas do capítulo 7, indica cla-
ramente o futuro estabelecimento do Império Romano, segue-se
logicamente que se trata aqui de profecia preditiva verdadeira e
não meramente vaticinium ex eventu. Segundo a teoria da data
da época dos macabeus, Daniel foi composto entre 168 e 165 a.C.,
enquanto o Império Romano não começou (pelo menos para os
judeus) até 63 a.C., quando Pompeu, o Grande, anexou a parte do
Oriente Próximo que incluía a Palestina. É certo que Aníbal já
tinha sido derrotado por Cipião em Zama, em 202 a.C., e Antíoco
III tinha sido vencido em Magnésia em 190, mas os romanos ainda
não tinham avançado além dos limites da Europa em 165, a não ser
para estabelecer um reino vassalo na Ásia Menor, e um protetorado
sobre o Egito. Mas certamente, segundo a situação em 165 a.C.
nenhum ser humano poderia ter predito com certeza que as mo-
narquias helenísticas do Oriente Próximo seriam engolfadas pela
nova potência que surgira no ocidente. Nenhum homem que então
vivia poderia ter previsto que esta república italiana teria um do-
mínio mais absoluto e de maior alcance do que qualquer império
que o precedera. Esta única circunstância, pois, é suficiente para
demonstrar que Daniel predisse o Império Romano, e derrubar a
hipótese da data macabéia (que afinal, não passa duma tentativa
de achar uma explicação para eliminar o elemento sobrenatural
de predição e de cumprimento). Conforme veremos dentro em
breve, há outras predições notáveis neste livro que indicam a ins- 
piração divina do mesmo, não se tratando, pois, duma mera novela
histórica escrita na época dos macabeus.

Temos que indicar também que a data macabéia dos teóricas
não consegue explicar como o Livro de Daniel veio a ser aceito
pelos judeus duma época posterior como sendo Escritura Sagrada.
Em Deuteronômio 18:22 estabeleceu-se o princípio: “Sabe que
quando esse profeta falar, em nome do SENHOR, e a palavra dele
se não cumprir nem suceder, como profetizou, esta é a palavra que
o SENHOR não disse”. Isto significa que qualquer pessoa que
alega ser um genuíno profeta do Senhor, cujas predições do futuro
não se realizam, precisa ser totalmente rejeitada. Não pode haver
dúvida que a descrição dada em Daniel 11:40 e segs., relativa ao
fim do chifre pequeno, não corresponde de maneira alguma ao
modo pelo qual Antíoco Epifânio encontrou a morte; há uma inter-
rupção bem nítida na revelação profética, começando com 11:40.
Esta interrupção é indicada claramente pelas palavras, “No tempo
do fim”. Aqueles que optam pela teoria liberal, só podem alegar que
o autor macabeu de Daniel não tinha sucesso no seu esforço de
predizer a forma da queda de Antíoco. Fez uma boa tentativa, mas
os acontecimentos não foram assim como imaginara. Mas se este
tivesse sido o caso, é impossível conceber como os judeus poderiam
ter considerado este Livro como sendo canônico ou autoritativo,
se continha falsa profecia. Se, porém, esta obra foi composta pelo
Daniel histórico, é fácil entender como ela teria sido preservada
como sendo a genuína Palavra de Deus. O fato de que tantos
eventos da história subseqüente foram preditos com exatidão já no
sexto século pelo Daniel histórico serviria de autenticação do seu
valor como revelação divina.

Provas Adicionais da Autoria de Daniel

Em primeiro lugar, temos o testemunho claro do próprio Se-
nhor Jesus no Seu discurso no Monte das Oliveiras. Em Mateus
24:15, Ele Se refere ao “abominável da desolação de que falou o
profeta Daniel”. A frase “o abominável da desolação” ocorre três
vezes em Daniel 9:27; 11:31, 12:11. Se estas palavras de Cristo
foram corretamente relatadas, somente podemos concluir que Ele
cria que o Daniel histórico foi o autor pessoal das profecias que
esta frase contém. Não há outra interpretação possível, à luz da
preposição dia (= através do profeta), palavra que se refere a um
agente pessoal. É significativo que Jesus considerasse esta coisa
abominável como sendo algo a se cumprir numa época futura, e 
não simplesmente o ídolo de Júpiter, já outrora estabelecido por
Antíoco no templo, que é o que insistem os teóricos da data ma-
cabéia.

Em segundo lugar, o autor de Daniel demonstra um conhe-
cimento tão exato de eventos do sexto século, que não estariam ao
alcance dum escritor do segundo século; e.g. a cidade de Susã é
descrita em 8:2 como fazendo parte da província de Elão na época
dos caldeus. Mas dos historiadores gregos e romanos, ficamos sa-
bendo que durante o período dos persas, Susã ficou pertencendo a
uma nova província que recebeu seu nome, Susiana, e a província
antes mais extensa de Elão, foi reduzida ao território a oeste do
rio Euleu. É razoável concluir que só um autor muito antigo po-
deria saber que Susã era antigamente conhecida como fazendo
parte da província de Elão.

Em terceiro lugar, temos no capítulo 9 uma série de predições
extraordinárias que não toleram nenhuma outra interpretação
senão a de que apontam à vinda de Cristo, Sua crucificação cerca de
30 d.C., seguida pela destruição de Jerusalém poucas décadas depois.
Em Daniel 9:25, 26, declara-se que haverá um período de sete vezes
69 anos (i.é., 483 anos) entre um “decreto” para construir-se os
muros de Jerusalém, e a morte do Ungido. Em 9:25, 26, lemos:
“Sabe, e entende: desde a saída da ordem para restaurar e para
edificar Jerusalém, até ao Ungido, ao Príncipe, sete semanas, e ses-
senta e duas semanas.... Depois das sessenta e duas semanas será
morto o Ungido, e já não estará; e o povo de um príncipe, que há
de vir, destruirá a cidade e o santuário”.

Há duas maneiras de se computar estes 69 períodos de sete
anos (ou 483 anos). Primeiro, tomando-se o decreto de Artaxerxes
emitido em favor de Neemias em 445 a.C. (cf. Neemias 2:4, 8), e
calculando os 483 anos como sendo anos lunares de 360 dias cada, 
dando o equivalente de 471 anos solares, o que chegará à data de
31 d.C. para o aparecimento e sua morte (ou crucificação).  Ou, 
mais razoavelmente, o ponto de partida pode ser identificado com
o decreto de Artaxerxes no seu sétimo ano, emitido em favor de
Esdras em 457 a.C. Este incluía, segundo parece, autoridade para
restaurar e edificar a cidade de Jerusalém (conforme podemos de-
duzir de Esdras 7:6, 7, e também 9:9, que declara: “Deus estendeu
sobre nós a sua misericórdia e achamos favor perante os reis da
Pérsia, para nos reviver, para levantar a casa do nosso Deus, para
restaurar as suas ruínas e para que nos desse um muro de se-
gurança em Judá e em Jerusalém”.) Apesar de Esdras não ter
conseguido levantar os muros até que Neemias chegasse treze anos
mais tarde, é lógico entender que 457 a.C. seja o ponto de partida
para o decreto profetizado em Daniel 9:25; 483 anos solares conta-
dos desde 457 a.C. dariam o ano 25 d.C. como sendo a data do mi-
nistério de Cristo. Note-se que as palavras do versículo 26: “Depois
das sessenta e duas semanas será morto o Ungido”, não forçam a
entender que o fim dos 483 anos é a data exata da crucificação
propriamente dita; trata-se simplesmente de que o Messias, depois
de surgir, seria morto.

A Teoria das Fontes Diversas como sendo a Origem de Daniel

Já foram mencionadas as declarações de Hoelscher e Torrey
que as porções em Aramaico do Livro de Daniel originaram do
terceiro século a.C., apesar de pensarem que os capítulos em He-
braico fossem certamente compostos por um novelista desconhecido
da época dos macabeus. Sendo que o reconhecimento da existência
de tais componentes antigos parece subverter a estrutura de argu-
mentos que apoiam a data macabéia como um todo, seria apropria-
do resumir as sugestões feitas pelos proponentes desta teoria da
fonte anterior, acrescentando alguns comentários pertinentes.
Em 1909 C. C. Torrey publicou seu ponto de vista que a pri-
meira metade de Daniel foi composto em cerca da metade do terceiro
século a.C., enquanto a segunda metade pertencia a um autor ma-
cabeu que traduziu o capítulo primeiro para o Hebraico, e então
compôs o capítulo 7 em Aramaico afim de poder encaixar os ca-
pítulos 2 — 6. Montgomery no ICC aceitou esta sugestão com
a seguinte exceção: considerava o capítulo 7 como sendo uma
composição distinta das outras duas seções. Otto Eissfeldt na
sua Introdução (Einleitung, 1934) apoiou o mesmo ponto de vista:
que os primeiros seis capítulos pertenciam ao terceiro século, e
que os últimos seis pertenciam ao período dos macabeus, e que
foram compostos como uma continuação da obra anterior. 

Gustav Hoelscher, no seu livro Die Enstehung des Buches
Daniel — “A Origem do Livro de Daniel’’ (1919) tinha dado forte
apoio à origem pré-macabéia dos capítulos 1 — 7, demonstrando
de maneira bem convincente que Nabucodonosor, segundo sua des-
crição nos capítulos 2 — 4, representava um ponto de vista muito
mais esclarecido e tolerante para com a religião judaica (geral-
mente falando-se), do que o tirano grego Antíoco Epifânio, e não
poderia, portanto, ter servido como tipo ou símbolo deste último.
Martin Noth, em Zur Komposition des Buches Daniel — “Sobre a
Composição do Livro de Daniel” (1926), Chegou ao ponto de datar
as porções originais dos capítulos 2 e 7 da época de Alexandre Mag-
no; então, durante o terceiro século, as lendas dos capítulos 1 — 6
foram colecionadas, e a visão dos quatro reinos foi incluída de
forma alterada.

H. L. Ginsburg em 1948 se esforçou para isolar seis autores
diferentes que contribuíram à coleção denominada Daniel: os ca-
pítulos 1 — 6 teriam sido compostos entre 292 e 261 a.C.; o cap. 2
teria sido trabalhado uma segunda vez, recebendo interpolações en-
tre 246 e 220 a.C.; capítulo 7 seria do período dos macabeus em
geral; cap. 8 pertenceria a 166/165; os caps. 10 — 12 pertenceriam a
outro autor do mesmo período; e o cap. 9 dum período um pouco
depois de 165. H. H. Rowley, em The Unity of Daniel — “A Unidade
de Daniel” (1952), concedeu a existência anterior em forma oral de
alguns materiais que compunham os capítulos 1 — 6, mas mesmo
assim se dispôs a defender com certo vigor a unidade essencial
da composição de Daniel na sua atual forma literária — isto é,
na época dos macabeus.

Deve ser notado que a atribuição de consideráveis seções de
Daniel a um século ou mais antes da época da revolta dos maca-
beus é só ameaçar de ruína a hipótese duma origem no segundo
século conforme a proposta por defensores da teoria da data avan-
çada. Assim, se o retrato de Nabucodonosor é contrastado conside-
ravelmente com o caráter e a atitude de Antíoco Epifânio, sua
relevância à situação dos macabeus se torna bastante escura. A
mesma verdade se aplica aos demais episódios históricos nos quais
o governo pagão parece tratar os judeus com tolerância e respeito. 

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.