11 de fevereiro de 2014

Gleason L. Archer - Introdução ao livro de Daniel (I)

O nome Daniel em Hebraico é Dâniyyêl, que significa “Deus é
Juiz” ou “Deus é meu Juiz” (dependendo do significado de -iy-
medial). O tema básico desta obra é a soberania do Deus único e
verdadeiro, que domina sobre tudo, condenando e destruindo a
rebelde potência mundial, e que fielmente liberta Seu povo segun-
do a fé nEle firmada.

Esboço de Daniel

A. Treinamento e Teste do Remanescente, 1:1-21.
A. Nabucodonosor leva os reféns ao cativeiro, 1:1,2.
B. Treinamento de judeus jovens para o serviço real,
1:3-7.
C. Primeiro teste de obediência para Daniel, seu desafio
de fé, 1:8-16.
D. A recompensa conseqüente: atinge sabedoria e a pro-
moção, 1:17-20.

II. O Sonho de Nabucodonosor, e o Plano de Deus para as

Eras, 2:1-49.

A. O enigma do sonho é além da sabedoria, 2:1-13.
B. Daniel oferece-se para interpretá-lo, e ora para que
Deus lho revele, 2:14-23.
C. Daniel revê e interpreta o sonho, 2:24-45.
D. Resultado: glorificação a Deus e a promoção de Daniel,
2:46-49.

III. A Imagem de Ouro e a Fornalha de Fogo, 3:1-30.

A. Ereção da Imagem e religião nacional compulsória,
3:1-7. 
B. Acusação e processo dos remanescentes firmes, 3:8-18.
C. A sentença é executada, 3:19-23.
D. Deus liberta milagrosamente; o Quarto Homem,
3:24-27.
E. Nabucodonosor se submete a Deus pela segunda vez,
3:28-30.

IV. Nabucodonosor Recebe um Sonho de Advertência e é Sub-
seqüentemente Humilhado, 4:1-37.

A. O sonho alarmante que a sabedoria do mundo não ex-
plicava, 4:1-7.
B. Daniel reconhecido como intérprete de sonhos, 4:8-18.
C. A interpretação de Daniel, e sua advertência ao orgu-
lhoso rei, 4:19-27.
D. A grande humilhação do rei, 4:28-33.
E. O arrependimento do rei e seu reconhecimento da so-
berania de Deus, 4:34-37.

V. A Festa de Belsazar, e o Juízo Divino contra a Profanação
das Coisas Sagradas, 5:1-31.

A. Belsazar abusa arrogantemente dos vasos sagrados de
Deus, 5:1-4.
B. A escritura na parede e o terror do rei, 5:5-9.
C. O soberano mundial, impotente, apela ao homem de
Deus, 5:10-16.
D. O julgamento divino da soberba do rei: pronuncia-se
a sua sentença, 5:17-28.
E. Daniel honrado e Belsazar morto, 5:29-31.

VI. Na Cova dos Leões: o Crente é Preservado contra a Mal-
dade deste Mundo, 6:1-28.

A. A conspiração da inveja: o decreto proibe qualquer
oração senão a que se dirige a Dario, 6:1-9.
B. Daniel descoberto em oração, o decreto é aplicado,
6:10-17.
C. Sua milagrosa libertação e o castigo dos seus inimigos,
6:18-24.
D. Dario testifica à soberania de Deus, 6:25-28.

VII. O Triunfo do Filho do Homem, 7:1-28.

A. Os animais (leão da Babilônia, urso da Média-Pérsia,
leopardo da Grécia, o animal terrível de Roma), 7:1-8. 
(O “chifre pequeno” dos vv. 8 e 20 se refere ao Animal).
B. O reino de Deus e a entronização do Messias, 7:9-14.
C. O anjo interpreta o sonho a Daniel, 7:15-28.
A Conquista da Pérsia pela Grécia e a Ascensão de Antíoco
Epifânio, 8:1-27.
A. A visão do carneiro, do bode e do chifre pequeno (An-
tíoco), 8:1-12.
B. Gabriel interpreta a visão, 8:13-27.
A Visão das Setenta Semanas: o Plano Perfeito de Deus
para Israel, 9:1-27.
A. A oração persistente de Daniel, baseada nas Promessas,
9:1-19.
B. Gabriel surge com a resposta: 70 vezes 7 anos para
Israel, 9:20-27.
(Predição exata do intervalo entre a reedificação do
muro de Jerusalém e a crucificação de Cristo).
O Triunfo da Oração Persistente, 10:1-21.
A. O anjo surge com as respostas às perguntas de Daniel,
apesar da oposição infernal, 10:1-14.
B. O anjo encoraja Daniel, prometendo mais revelações,
10:15-21.
A Proto-Tribulação sob Antíoco, Tipo da Tribulação Final,
11:1-45.
A. Desde o Império Persa até a morte de Alexandre Mag-
no, 323 a.C., 11:1-14.
B. Guerras entre os impérios ptolomaicos e selêucidas até
168 a.C., 11:5-20.
C. Antíoco IV persegue Israel, 11:21-39.
D. Guerra análoga do antitipo de Antíoco nos últimos
tempos, 11:40-45.
A Tribulação e o Triunfo Final do Povo de Deus, 12:1-13.
A. A grande tribulação, 12:1.
B. A ressurreição e o juízo, 12:2,3.
C. As profecias seladas para futuro cumprimento, 12:4.
D. Os anjos e o homem vestido de linho: predição dos
três anos e meio, 12:5-7.
E. A comissão final a Daniel; os 1290 diais e os 1335 dias,
12:8-13. 

A Autoria de Daniel

A despeito das numerosas objeções que têm sido levantadas por
estudiosos que consideram o Livro um vaticinium ex eventu (ou
profecia escrita depois do acontecimento), não existe nenhuma
razão para negar que o Daniel do sexto século tenha composto a
obra inteira. Esta representa uma coletânea das suas memórias
feita no final duma carreira longa e movimentada que incluía
serviços ao governo desde o reinado de Nabucodonosor na década
de 590 até o reinado de Ciro, o Grande, na década de 530. O apa-
recimento de termos técnicos persas indica que a escrita final das
memórias foi feita numa época na qual a terminologia persa já
tinha infiltrado o vocabulário do aramaico. A data mais provável
para a edição final do livro, portanto, seria cerca de 530 a.C.

A Teoria dum Pseudepígrafo na Época dos Macabeus
A grande maioria dos críticos considera o Livro inteiramente
espúrio, e composto séculos depois da morte do Daniel do sexto
século. Entendiam eles que seria uma obra de ficção histórica, com-
posta cerca de 165 a.C., visando encorajar o movimento de resis-
tência contra a tirania de Antíoco Epifânio. Há muitos estudiosos,
porém, que não se sentem completamente satisfeitos com a data
macabéia dos primeiros capítulos de Daniel. Muitos, como Eichhorn
(no fim do século dezoito e no começo do século dezenove), Mein-
hold, Bertholdt e (no século vinte) Sellin, Hoelscher e Noth sus-
tentaram que os capítulos 2 — 6 (alguns incluiriam o cap. 7) se ori-
ginaram do terceiro século a.C. Esta teoria de haver muitas fontes 
em Daniel será examinada mais adiante neste capítulo. Os argu-
mentos no sentido de datar a composição deste Livro no período
grego podem ser divididos em quatro grupos gerais: o histórico, o
literário ou lingüístico, o teológico e o exegético. Cada uma destas
áreas agora passará a ser examinada detalhadamente.

A. ARGUMENTOS HISTÓRICOS FAVORECENDO UMA
DATA AVANÇADA DE DANIEL

1. O Cânon judaico coloca Daniel entre os Kethubhim
ou Hagiógrafos, e não entre os Profetas. Isto tem sido interpre-
tado que o livro foi escrito depois de todos os demais Profetas
canônicos, mesmo depois do Malaquias pós-Exílico e depois de
“Trito-Isaías”. Mas deve ser notado que alguns dos documen-
tos nos Kethubhim (a terceira divisão da Bíblia Hebraica)
eram bem antigos, tais como o Livro de Jó, os Salmos de Davi, e
os escritos de Salomão. Uma posição entre os Kethubhim, portan-
to, não constitue prova duma data avançada de composição. Além
disto, do ponto de vista de classificação, havia um motivo muito
bom ao colocar-se Daniel entre os Escritos e não entre os Profetas.
Em primeiro lugar, Daniel não tinha sido nomeado ou ordenado
como profeta, mas permaneceu no seu posto de funcionário público
sob o governo da época durante toda sua carreira. Em segundo
lugar, uma grande porcentagem dos seus escritos não tem a na-
tureza de profecia, mas de história (caps. 1-6), duma maneira
que não aparece em nenhum outro livro dos Profetas canônicos.

Pouca coisa daquilo que Daniel escreveu é lavrada na forma duma
mensagem de Deus transmitida para Seu povo através da boca
do Seu porta-voz. Pelo contrário, o elemento que predomina é
uma série de visões proféticas outorgada ao autor de maneira par-
ticular, e interpretada para ele por um anjo. (Pode haver aqui algu-
ma comparação com Zacarias, que também ressalta uma série de
visões. Mas, em Zacarias, enfatiza-se muito mais a comunicação
da mensagem de Deus a Israel através do Seu porta-voz profético).
Foi sem dúvida por causa da natureza mista deste Livro, consistin-
do parcialmente em narrativas históricas e parcialmente em visão
profética, que levou os escribas judeus a colocá-lo na terceira cate-
goria do cânon, de miscelânea.

2. Tem sido indicado que Jesus ben Siraque (Eclesiástico)
não menciona Daniel apesar de mencionar todos os demais Profetas
(em 170 a.C.). Mas, sendo que Daniel não foi incluído na segunda
divisão do cânon, não haveria motivo de Siraque mencioná-lo nesta 
conexão. Outros autores importantes como Esdras (que não per-
tence aos Profetas tampouco) não são mencionados. Críticos que
também indicaram a declaração de ben Siraque que nunca houve
outro homem igual a José, alegam que a carreira de Daniel era
muito semelhante à de José. Nota-se, porém, que em nenhum dos
detalhes especificados, havia semelhança entre Daniel e José: “E
não nasceu outro homem igual a José, governador dos seus irmãos,
sustentáculo do povo, cujos ossos foram considerados pelo Senhor”
(Eclesiástico 49:15).

3. Tem sido alegado que existem erros históricos de tal vulto
em Daniel, que é provável que o autor tenha vivido muito tempo
depois dos acontecimentos que descreve. Por exemplo, em Daniei
1:1, declara-se que Nabucodonosor invadiu a Palestina no terceiro
ano de Jeoaquim, enquanto Jeremias 46:2 declara que o primeiro
ano de Nabucodonosor era o quarto ano de Jeoaquim. Sendo que o
conquistador caldeu assumiu o trono após a morte do seu pai no
ano no qual invadiu Judá, há uma discrepância dum ano entre
Daniel e Jeremias. Investigações mais recentes, porém, demonstra-
ram que os judeus calculavam o ano do reinado, começando a contar
do mês anterior, que precede ao ano da ascensão do rei babilónico
(calculando o ano desde o mês de Tisri, o sétimo mês do calendário
religioso). Isto quer dizer que 605 a.C. seria o quarto ano de Jeoa-
quim, que subiu ao trono em 608. Os babilônios, porém, calculavam
o primeiro ano do reinado desde o primeiro dia do ano seguinte,
i.é., desde o dia primeiro de Nisã (o primeiro mês do calendário re-
ligioso dos hebreus). Assim sendo, o ano 605 seria apenas o terceiro
ano de Jeoaquim segundo o cálculo dos caldeus. Assim, D. J. Wise-
man, em Chronicles of the Chaldean Kings — “Crônicas dos Reis
Caldeus” (1956), declara que o primeiro ano do reinado de Nabuco-
donosor começou em abril, 604, apesar de ter sido coroado em
setembro, 605.

4. Críticos indicam o fato que, no Livro de Daniel, uma clas-
se de sábios ou adivinhões é chamada “caldeus” (Kasdim). Alegam
que este termos étnico da raça de Nabucodonosor não poderia ter
se transformado em nome especializado duma classe de adivinhos
até uma época muito posterior. Na época de Nabucodonosor teria,
com certeza, apenas uma conotação racial. Isto indica que o autor
de Daniel deve ter escrito num período muito depois do colapso
do império neo-babilônio, quando só sobrou uma tênue memória.

Esta teoria, porém, não se adapta aos dados do texto, pois que
o autor desta obra sabia muito bem que Kasdim era o termo étnico 
que descrevia a raça de Nabucodonosor. Assim é que Belsazar foi
chamado rei dos caldeus em Daniel 5:30; neste caso, a palavra não
se aplicava, de modo nenhum, a qualquer classe de sábios. Assim
sendo, a teoria duma data avançada não esclarece os fatos se-
gundo constam. Precisamos procurar outras explicações desta ma-
neira dupla de empregar a palavra Kasdím. Heródoto (I, § 181-
183) se refere aos caldeus de tal maneira que dá a idéia dos que
rapidamente galgaram todos os ofícios estratégicos, politicamente
falando, na Babilônia, logo após ganharem controle da capital.
Este sendo o caso, então “caldeu” pode desde logo ter surgido como
um termo que descrevia os sacerdotes de Bel-Marduque.

Outra sugestão oferecida (por R. D. Wilson, na primeira série
dos seus Estudos no Livro de Daniel), é que a palavra Acadiana
Kasdu ou Kaldu, que se referia a um tipo de sacerdote, foi deri-
vada do título antigo sumeriano Gal-du (que significa “mestre
construtor”), um termo que se refere à construção de demonstra-
ções astronômicas que se empregavam como ajuda às predições
astrológicas. Wilson cita um emprego semelhante de Gal-du numa
placa do ano 14 de Shamash-shumukin da Babilônia (668-648 a.C.).
Deve-se notar que muitos títulos sumerianos foram achados com
o elemento Gal (“grande”, “chefe”, “mestre”). Numa única pá-
gina de Copenhagen Texts — “Textos de Copenhagen” (p. 3) acha-
mos os seguintes títulos: Gal-LU KUR, Gal-UKÚ, Gal-DAN-QAR,
e Gal-SUKKAL. A semelhança entre este Gal-du ou Kaldu como
forma alternativa, com o termo Kaldu ou Kasdu seria acidental.
Tal explicação esclarece as diferentes aplicações deste termo, feitas
pelo autor de Daniel.

5. O aparecimento de rei Belsazar no capítulo 5 tem sido in-
terpretado como uma falha histórica, sabendo-se que Nabonido
foi o último rei do império caldeu. Descobertas posteriores de
placas cuneiformes que se referem a Belsazar como sendo “filho
do rei” desacreditam quase completamente aquela crítica. Mesmo
assim, ainda há a objeção que Belsazar é referido no capítulo 5
como sendo um filho de Nabucodonosor, quando, de fato, seu pai
era Nabonido (Nabuna’id) que reinou até a queda da Babilônia em
539. Alega-se que só um autor de muito tempo depois do evento
teria suposto este seria filho de Nabucodonosor. Este argumento,
porém, deixa esquecido o fato que, segundo o costume antigo, o
termo “filho” freqüentemente se referia a um sucessor ao mesmo
ofício, havendo ou não havendo um relacionamento físico de san-
gue. Assim se lê na história “O Rei Queops e os Mágicos” (conserva- 
da no Papiro Westcar do período dos Hicsos), que o príncipe Quefren
diz ao rei Kufu (Queops): “Narro à vossa majestade uma mara-
vilha que aconteceu na época de seu pai, o rei Neb-ka”. Na reali-
dade Neb-ka pertencia à Terceira Dinastia, um século inteiro antes
da época de Queops, na Quarta Dinastia. Além disto, há uma pos-
sibilidade distinta de ter havido neste caso um relacionamento
genético entre Nabucodonosor e Belsazar. Se Nabonido se casara
com uma filha de Nabucodonosor para legitimar sua usurpação
do trono em 556 a.C., segue-se logicamente que seu filho através
dela seria neto de Nabucodonosor. A palavra traduzida “pai” (’ab ou
’abbá’) também significava “avô”.

Há evidência quase conclusiva que Belsazar foi elevado à
posição de rei secundário durante a vida do seu pai (assim como
Jotão o tinha sido durante a vida do seu pai Uzias no reino de
Judá — uma prática comum da antiguidade para garantir uma
sucessão pacífica). Descobertas arqueológicas recentes indicam que
Belsazar foi responsabilizado pela fronteira norte do império ba-
bilônio enquanto seu pai mantinha seu quartel-general em Temã,
Arábia do norte. Entre as descobertas do local de Ur há uma ins-
crição de Nabunaid contendo uma oração em benefício próprio,
seguida por uma oração em prol do seu filho primogênito Bel-shar-
usur (Belsazar) — tais orações vinham sendo feitas tradicionalmen-
te, em favor do monarca reinante. Outros documentos cuneiformes
atestam que Belsazar ofereceu ovelhas e bois no templo de Sipar
como “oferta do rei”. O fato que até o tempo de Herodódoto o pró-
prio nome de Belsazar tinha sido esquecido (cerca de 450 a.C.), pelo
menos no que diz respeito aos informantes do historiador grego,
indica que o autor do Livro de Daniel estava muito mais enfro-
nhado nos eventos do fim do sexto século do que seria o caso se
se tratasse dum escritor do segundo século a.C.

Há um detalhe adicional nesta narrativa que torna difícil de
sustentar uma teoria duma data avançada para a autoria do Livro;
é que o escritor do capítulo 5 cita que Belsazar prometeu à pessoa
que interpretasse a inscrição, a posição de terceiro no reino (5:16).
Por que só pôde oferecer a terceira posição, e não a segunda? Obvia-
mente porque Belsazar pessoalmente era apenas o segundo, enquan-
to seu pai Nabonido ainda vivia.

6. Alega-se que a figura de “Dario, o medo” é uma evidência
de confusão histórica. Supõe-se que o autor deve ter confundido
o nome com o de Dario filho de Histaspes, terceiro sucessor depois
do rei Ciro, e que realmente era persa e não medo. Mas esta inter- 
pretação é insustentável à luz da evidência do próprio texto, a) Não
há possibilidade de se definir Dario filho de Histaspes como medo,
quando este foi conhecidamente um descendente da antiga linha-
gem real persa, b) O autor assevera que Dario o medo tinha ses-
senta e dois anos de idade quando assumiu o governo da Babilônia,
porém era bem conhecido na antiguidade que Dario o Grande era
relativamente jovem quando começou a reinar, c) Em Daniel 9:1
assevera-se que Dario, o medo, foi feito rei (homlak) sobre o reino
dos caldeus. Este termo indica que foi investido na posição de rei
por alguma autoridade superior, o que concorda muito bem com
a suposição que fora instalado Vice-Regente da Babilônia por Ciro
o Grande. Nota-se neste assunto que a referência de Dario I na
inscrição de Beistum a seu pai Histaspes era que este tinha sido
feito rei. Sendo que os cálculos cronológicos demonstram que na
época não passava dum rei inferior que governava sob a autoridade
de Ciro, comprova-se assim, que era a política de Ciro permitir
que governadores subordinados a ele reinassem com o título de rei.
Tem sido levantada a objeção de que um mero vice-rei não
teria endereçado um decreto para os habitantes de “toda a terra”
(Dn 6:25). Se a palavra “terra” significa a totalidade do Oriente
Próximo habitado, a objeção é válida (sendo que a autoridade de
Dario, o medo seria necessariamente confinada aos antigos domí-
nios de Nabucodonosor, que não incluíam a Ásia Menor, o norte da
Assíria, a Média e a Pérsia). Mas deve ser mencionado que a pa-
lavra aramaica ’ar’ã (como a palavra hebraica cognata ’ere) pode
significar país ou região e não o mundo inteiro. Interpretada as-
sim, a palavra não apresenta dificuldade alguma. Deve também
ser indicado, porém, que um dos títulos antigos do rei da Babilônia
desde a época de Hamurabi, era a frase shar kish-shati, ou, “rei do
universo” (lit. “rei de tudo״). No seu decreto, portanto, Dario, o
medo pode simplesmente ter empregado a fórmula oficial ao usar
uma terminologia que implicaria em domínio universal.

Fica ainda em aberto a pergunta: quem era Dario, o medo?
Nenhum historiador antigo refere-se a ele nominalmente. Apesar
disto, há importante evidência cumulativa que demonstra ser ele
identificado com um governador chamado Gubaru, que é menciona-
do, tanto pelos registros cuneiformes como pelos historiadores gre-
gos, como tendo desempenhado um papel central na captura da Ba-
bilônia e na sua subseqüente administração. Durante algumas
décadas foi tradicional identificar este Gubaru (Grego: Gobryas)
com o governador mencionado por Daniel. Apesar disso, parece 
ter havido algumas discrepâncias estranhas nos registros antigos
deste personagem, o que levou estudiosos críticos, tais como H. H.
Rowley a rejeitarem a identificação entre Gubaru e Dario, o medo
còmo sendo completamente insustentável.

Os argumentos de Rowley, porém, têm sido superados pela
obra competente de J. C. Whitcomb no seu livro Darius the Mede
(1959). Whitcomb reuniu todas as antigas inscrições que se re-
ferem a Ugbaru, Gubaru e Gaubaruva que se acham na Crônica
de Nabonido, nos Textos Contenau, nos Textos Pohl, nos Textos
Tremayne e na Inscrição de Beistum. Por meio de comparações
cuidadosas, e do processo de eliminação, Whitcomb demonstra que
a suposição antigamente existente, de que Ugbaru e Gubaru eram
maneiras diferentes de soletrar o mesmo nome, é errônea, e só tem
originado em confusão. Ugbaru era um general de certa idade
que tinha sido governador de Gútio; foi ele que planejou a cap-
tura da Babilônia, dirigindo as águas do Eufrates para um canal
artificial. Mas, segundo os registros cuneiformes, viveu somente
poucas semanas depois da sua gloriosa vitória, acometido segundo
parece, por uma doença. Parece que depois da sua morte, um
homem chamado Gubaru foi nomeado governador da Babilônia e
de Ebir-nãri (“além do rio”), por Ciro. É assim que as placas
o definem, tanto as do quarto, sexto, sétimo e oitavo ano de Ciro
(i.é. 535, 533, 532 e 531 a.C.) como as do segundo, terceiro, quarto
e quinto ano de Ciro (i.é. 528, 527, 526 e 525 aC.). Parece que
morreu durante as revoltas de Pseudo-Smerdis e Dario I, pois já
em 520 a.C., no dia 25 de março, o novo sátrapa da Babilônia é
citado como sendo Ushtani.

Whitcomb continua, dizendo: (ibid., p. 24): “É nossa convic-
ção que Gubaru, governador da Babilônia e da região além do rio,
aparece no Livro de Daniel como Dario, o medo, o monarca que
assumiu controle do reino dos caldeus imediatamente depois da
morte de Belsazar, e que nomeou sátrapas e presidentes (inclusive
Daniel) para ajudá-lo a governar uma região extensa e muito po-
voada. Cremos que esta identificação é a única que se harmoniza,
de maneira satisfatória, com as evidências que descobrimos no Livro
de Daniel e nos registros cuneiformes contemporâneos”.

Whitcomb cita ainda a declaração de W. F. Albright no artigo
“A Data e a Personalidade do Cronista” (JBL, XL, p. 11, n. 2):
“Parece-me altamente provável que Gobryas realmente assumisse
a dignidade real juntamente com o nome “Dario”, talvez um an- 
tigo título real iraniano, enquanto Ciro estava ausente numa cam-
panha na Europa... Depois da elucidação cuneiforme do mistério
de Belsazar, demonstrando que este já havia muito, tinha sido
co-regente com seu pai, a vindicação da historicidade de Dario,
o medo, era de se esperar.... Podemos sem sombra de dúvida de-
duzir que este autor judeu na Babilônia estava bem ao par dos fatos
principais da história neo-babilônica”. Conforme sugere Albright,
é bem possível que o nome Dano, em Persa Darayavahush, fosse
um título de honra assim como “César” ou “Augusto” vieram a
ser no império romano. Na língua persa medieval (Zenda) há
a palavra dara que significa “rei”. Talvez Darayavahush tivesse
o significado de “personalidade real”.

Em conexão com esse assunto, seria importante mencionar
algo sobre o notável decreto referido em Daniel 6, proibindo que
o culto fosse prestado a qualquer objeto ou pessoa, a não ser o pró-
prio Dario, durante um período de trinta dias. Mesmo que o rei
tenha se arrependido da estultícia de tal decreto quando descobriu
que era meramente um complô para eliminar seu fiel servo Daniel,
ainda permanece a questão de como no início chegou a sancio-
nar a medida. Tendo em vista a conexão íntima existente entre
a lealdade política e a lealdade religiosa que governava a maneira
de ser dos povos daquela antiga cultura, pode muito bem ser con-
siderada uma manobra de estadista compelir todos os diversos ha-
bitantes que tinham lealdades tribais e religiosas heterogêneas a
reconhecerem de maneira muito prática a supremacia do novo im-
pério persa que tinha assumido o controle supremo de todos os
seus territórios. Uma suspensão temporária do culto (pelo menos
no apresentar as petições pelas bênçãos e ajudas) era uma medida
bem calculada para transmitir à mente dos súditos de Dario a
realidade da mudança de controle, da soberania dos caldeus para
a dos medos e persas. À luz da psicologia antiga, portanto, é injus-
tificável negar a possibilidade dum decreto tão extraordinário, ou
condená-lo como sendo uma fábula, ou não-histórico, conforme têm
feito muitos críticos.


B. ARGUMENTOS LINGÜÍSTICOS E LITERÁRIOS
FAVORECENDO UMA DATA AVANÇADA DE DANIEL

1. Palavras estrangeiras emprestadas no Aramaico de Daniel.
Tem sido alegado que as palavras estrangeiras em grande nú-
mero na porção aramaica de Daniel (e numa escala menor, também 
na porção escrita em Hebraico) demonstram conclusivamente urna
origem posterior ao sexto século a.C. Há nada menos do que quin-
ze palavras, provavelmente de origem persa (embora a totalida-
de destas nunca foi descoberta em quaisquer documentos persas),
e sua presença comprova conclusivamente que nem os capítulos
que datam do período de Nabucodonosor podem ter sido com-
postos durante o período dos caldeus. Este argumento pode ser
admitido como sendo razoável, mas os estudiosos conservadores
não defendem uma posição na qual o Livro de Daniel tenha sido
composto, pelo menos na sua forma final, até o estabelecimento
da autoridade persa sobre a Babilônia. Sendo que o próprio texto
indica que Daniel sobreviveu para servir, pelo menos durante al-
guns anos, sob o império persa, nada impede que ele tivesse em-
pregado na sua linguagem aqueles termos persas (que na sua
maior parte, dizem respeito ao governo e à administração) tornan-
do-se linguagem corrente no Aramaico conforme era falado na
Babilônia até 530 a.C.

Alega-se, porém, que a presença de pelo menos três palavras
gregas em Daniel 3, indicam que a obra tenha sido composta depois
da conquista do Oriente Próximo por Alexandre Magno. Estas três
palavras (em 3:5) são gayterôs (Grego kitharis), psanterín (Grego,
psaltêrion), e sümpõnyah (Grego symphoma). A última destas
três ocorre na literatura grega que sobreviveu desde a época de
Platão (cerca de 370 a.C.), pelo menos no sentido de instrumento
musical. Daí tem sido argumentado que a palavra deva pertencer
ao quarto século na linguagem grega. Mas, sendo que possuímos
menos do que uma décima parte da literatura grega do período
clássico, faltam dados suficientes para datarmos com certeza a
origem precisa de qualquer palavra ou expressão específica no de-
senvolvimento do vocabulário grego.

É necessário observar com cuidado que estas três palavras são
nomes de instrumentos musicais, e que tais nomes sempre cir-
culam além de fronteiras nacionais à medida que os próprios ins-
trumentos tomam-se disponíveis no mercado internacional. Estes
três eram indubitavelmente de origem grega, e circulavam junta-
mente com seus nomes gregos além das fronteiras nacionais, assim
como termos musicais estrangeiros chegaram à nossa língua, como
é o caso de palavras italianas tais como piano e viola. Sabe-se que
já durante o reinado de Sargom (722-705 a.C.) havia, segundo as
narrativas assírias, cativos gregos que foram vendidos como escra-
vos, provenientes de Chipre, Jônia, Lídia e Cilicia. O poeta grego 
Alceu de Lesbo (fl. cerca de 600 a.C.) menciona que seu irmão Anti-
mênidas servia no exército assírio. É portanto evidente que mer-
cenários gregos, escravos gregos e instrumentos musicais gregos
eram bem conhecidos no Oriente Próximo semítico muito tempo
antes da época de Daniel. É igualmente significativo que, nas pla-
cas de rações neo-babilônicas publicadas por E. F. Weidner, car-
pinteiros e construtores de navios iônios fossem mencionados como
sendo beneficiários da distribuição de rações feita pelos comissá-
rios de Nabucodonosor — juntamente com músicos de Asquelom e
de outros lugares (cf. “Jojachin König von Juda” em Mélanges
Syriens, II, 1939, págs. 923-935).

Duas ou três outras palavras têm sido erroneamente atribuí-
das por alguns autores a uma origem grega, mas estas têm sido
completamente reprovadas. Uma delas era kãrõz (arauto) que,
segundo se supunha, foi derivada da palavra grega kêryx (segundo
o Lexicon de Brown, Driver e Briggs). Mas em obras mais recentes,
como o Léxicon Hebraico de Koehler-Baumgartner, esta derivação
é explicitamente rejeitada em favor da palavra krausa da língua
persa antiga, originalmente significando alguém que chama. C. Torrey e
Cowley consideram pathgãm como sendo uma derivação do Grego, mas
Kutscher, em Kedem II, 74, publicou um rolo de couro de Arsames
de cerca de 410 a.C., no qual este termo ocorre mais do que uma
vez. É desnecessário dizer que isto toma impossível uma derivação
grega. Provavelmente, a palavra que deriva de pratigama, palavra
persa antiga, originalmente significando algo que chegou, ou seja,
“comunicação” ou “ordem” (cf. Albright, The Biblical Period —
“O Período Bíblico”, p. 65).

A verdade é que o argumento baseado na presença de palavras
gregas acaba sendo uma das evidências mais fortes a favor de
comprovar que Daniel não poderia ter sido composto num período
tão avançado cronologicamente falando como seria o período grego.

Em 170 a.C. já tinha havido um governo de língua grega domi-
nando a Palestina desde 160 anos antes, e este período de tempo
teria sido o suficiente para os termos gregos políticos e administra-
tivos terem entrado na língua da população subjugada. Os próprios
livros dos Macabeus testificam a invasão extensiva de linguagem e
costumes gregos na vida dos judeus até a primeira metade do
segundo século, especialmente nas grandes cidades.

Isto é especialmente significativo tendo em vista que o Ara-
maico de Daniel era um veículo lingüístico que facilmente absorvia 
terminologia estrangeira. Inclui aproximadamente quinze palavras
de origem persa, quase todas elas se relacionam com o governo e
a política. É difícil imaginar portanto, como é que depois de a
língua grega ter sido a língua do governo durante mais do que
160 anos, nenhuma terminologia pertencendo à política ou à admi-
nistração tivesse penetrado no Aramaico da Palestina. Esta mesma
generalização se aplica igualmente às porções hebraicas de DanieL
Contém termos persas tais como “palácio” (appeden em 11:45, de
apadãna), “nobres” (partemín em 1:3, de fratama) e “da mesa
real” (patbãg em 1:5, de patibaga). Mesmo assim, os capítulos
hebraicos não contêm uma palavra sequer de origem grega (apesar
de os críticos declararem que o Hebraico de Daniel pertença a uma
época ainda posterior à das suas seções em Aramaico).

Asseverava-se antigamente que o Aramaico de Daniel pertence
ao dialeto ocidental, não podendo, portanto, ter sido composto na
Babilônia, como teria sido o caso se o Daniel do sexto século fosse
seu autor verdadeiro. Recentes descobertas de documentos aramai-
cos do quinto século, no entretanto, demonstraram conclusivamente
que Daniel, como Esdras, foi escrito numa forma de Aramaico im-
perial (Reichsaramáisch), um dialeto oficial ou literário que era
corrente em todas as áreas do Oriente Próximo. Assim, há um
estreito relacionamento com o Aramaico dos Papiros de Elefantina,
no sul do Egito, sendo que estes também foram escritos em Ara-
maico imperial. E. Y. Kutscher (JBL, Dez. 1957, p. 338), numa re-
vista de Aramaic Documents ©f the Fifth Century B.C. — “Do-
cumentos Aramaicos do Quinto Século a.C.” de G. R. Driver (1954),
comenta as peculiaridades lingüísticas destas cartas que foram
enviadas de Babilônia e Susã, na área aramaica oriental. Declara:
“Quanto ao Aramaico bíblico, que, pela ordem das palavras e por
outras tendências, é do tipo oriental (i.é., mais livre e flexível na
ordem das palavras) possuindo quase nenhuma característica oci-
dental, é plausível concluir-se que originasse do oriente. O veredito
final neste assunto, porém, precisa aguardar a publicação de todos
os textos aramaicos de Cunrã”.

2. Evidências gramaticais pela data recuada do Aramaico
de Daniel.

Uma das características do Aramaico de Daniel que é digna
de nota por causa de definir sua origem antiga, é a freqüência de
passivos do verbo formados por mudanças vocálicas internas. Isto
quer dizer que, ao invés de aderir exclusivamente ao método co-
 mum de exprimir o passivo (com o prefixo hit- ou ’et-) o Aramaico
bíblico empregava uma formação hophal (e.g. honhat de nehat,
hussac de selaq, hübad de ,abad e hu‘al de 'alai). Nenhum exemplo
semelhante de formas hophal tem sido descoberto até agora em
qualquer documento Aramaico publicado das Cavernas do Mar
Morto (alguns dos quais, como a Apócrifa de Gênesis, datam de
menos dum século depois das guerras dos macabeus). Tais formas
não podem ser menosprezadas como sendo meros hebraísmos em-
pregados pelo autor judeu de Daniel, sendo que nem sequer os
escribas judeus dos Targuns nunca empregavam tais formas, mas
apenas o tipo ’et- de passivo. Se a influência do Hebraico podia
produzir passivos com mudanças vocálicas internas, seria razoável
esperar que este fato teria sido revelado nos Targuns.

Mormente por causa da relação estreita que há entre o Ara-
maico bíblico e os Papiros de Elefantina (datando dos séculos quin-
to e quarto a.C.), muitos estudiosos se sentiram forçados a datar
os capítulos 2 — 7 do Livro de Daniel como sendo anteriores ao
terceiro século a.C. Até H. H. Rowley concorda em dizer que a
evidência é conclusiva que o Aramaico bíblico pertence a um pe-
ríodo entre os Papiros de Elefantina e o Aramaico das inscrições
de Nabatéia e de Palmira. Sachau declara com toda a clareza que
a linguagem dos Papiros, em todos os detalhes essenciais, é idêntico
ao Aramaico bíblico.

Torrey e Montgomery chegaram à conclusão que Daniel 1 — 6
foi escrito entre 245 e 225 a.C., e que um redator posterior traduziu
o capítulo 1 para o hebraico cerca de 185 a.C.  Eissfeldt (Einleitung
“Introdução”, 1934) semelhantemente indicou que os primeiros
seis capítulos pertencessem ao terceiro século a.C., os últimos seis
sendo do período dos Macabeus, como uma continuação da obra
mais antiga. Gustav Hoelscher na sua Die Enstehung des Buches
Daniel — “A Origem do Livro de Daniel” (1919) seguiu a opinião de
Ernst Sellin, que declarou que os capítulos 1 — 7 constituíam num
livro apocalíptico ou biográfico de Daniel em Aramaico, mais anti-
go (cap. 1 foi traduzido para o Hebraico mais tarde, e interpolações
macabéias foram feitas nos caps. 2 — 7), enquanto os caps. 8 — 12
tivessem uma data verdadeiramente macabéia. Hoelscher declara
que possivelmente o autor da coletânea de lendas (caps. 2 — 6) as
recebesse da tradição oral, ou que as achasse por escrito numa forma
mais antiga. Mesmo assim, demonstra que revelam inconfundi- 
velmente a marca dum autor único pelo texto inteiro, por haver
uma certa uniformidade no estilo e no método de tratamento. Tan-
to Hoelscher como Martin Noth (Zur Komposition des Buches Da-
niel — “Acerca da Composição do Livro de Daniel”, 1926) procura-
ram datar a origem de certos elementos e motivos ao correlacioná-
los com eventos contemporâneos da história helenística, dentro da-
quilo que dela sabiam.

O simples fato dos caps. 2 — 7 de Daniel terem sido escritos em
aramaico, e o restante em hebraico, tem sido aduzido por certos
expositores como sendo um motivo para atribuírem uma data avan-
çada ao documento. Alguns têm argumentado que o Aramaico
dificilmente teria sido preferido, ao Hebraico tradicionalmente sa-
grado, a não ser num período tão tarde na história dos judeus,
que o Hebraico já tinha se transformado numa língua quase in-
compreensível, e esquecida por todos menos os próprios rabinos.
Deve ser compreendido, no entretanto, que esta idéia da sacrossan-
tidade do Hebraico é uma mera teoria com fundamentos fracos.

Parece que os judeus não se ofenderam com as seções em Aramaico
do Livro de Esdras, sendo que a maior parte delas consiste em
cópias de correspondências havidas em Aramaico entre os gover-
nos locais da Palestina e a corte imperial persa, em aproximada-
mente 520 até 460 a.C. Se Esdras pode ser aceito como um do-
cumento autêntico do meio do quinto século, apesar de haver tantos
capítulos que em boa parte foram compostos em Aramaico, é difí-
cil entender por que os seis capítulos do Livro de Daniel em Ara-
maico, precisem duma data de dois séculos mais tarde. É im-
portante observar com cuidado que, na Babilônia do fim do sexto
século, onde Daniel declaradamente vivia, a língua falada predo-
minante, nesta metrópole de população heterogênea era o Ara-
maico. Não é de se estranhar que um habitante daquela cidade
tivesse escolhido o Aramaico ao compor uma parte das suas
memórias.

A razão da escolha quanto à pergunta do por que de metade
do Livro ser escrito em Aramaico e metade em Hebraico é quase
óbvia. As partes da profecia de Daniel que tratam mormente dos
assuntos dos Gentios (os quatro reinos do sonho de Nabucodonosor,
a humilhação daquele rei no episódio da fornalha de fogo e nos
seus sete anos de loucura, e também as experiências de Dario o
medo) foram escritas numa linguagem que seria apreciada pelo
público em geral, judeu ou gentio. Mas as porções que tinham um
interesse especialmente judaico (caps. 1, e 8 — 12) foram escritas 
em Hebraico para serem entendidas exclusivamente pelos judeus.
Isto era apropriado especialmente tendo-se em vista o mandamento
no capítulo 12 de conservar estas últimas predições mais reserva-
das, selando-as até a época do seu cumprimento (12:9).

No que diz respeito ao Hebraico de Daniel, já vimos que contém
um número significante de termos persas de uso governamental,
indicando sua origem durante o período do domínio persa. Não há
o mínimo sinal da influência da língua grega sobre a linguagem.

É interessante observar que o texto hebraico de Eclesiástico, datan-
do de cerca de 200 — 180 a.C., pouco antes do período dos maca-
beus, nos dá uma boa amostra do tipo de Hebraico que seria comum
na época na qual Daniel foi escrito — segundo os teóricos da data
avançada. Já que Eclesiástico é um documento de literatura de
sabedoria, seria de se esperar que seu estilo não revelasse grandes
semelhanças estilísticas aos capítulos posteriores de Daniel. Mes-
mo assim, é notável que Eclesiástico revela características em lin-
guística muito mais avançadas do que Daniel, um pouco rabínicas
na tendência. Israel Lévi na sua Introdução ao Texto Hebraico de
Eclesiástico (em inglês) (1904) alista as seguintes: a) verbos com
formas novas emprestadas em geral do Aramaico, b) uso excessivo
de hiphil e de hithpael (conjugações verbais), e, c) peculiaridades
de vários tipos que prenunciavam a ascensão do Hebraico mishnaico
(págs. xi, xii).

Quanto à matéria de Cunrã, nenhum dos documentos sectá-
rios compostos em Hebraico (“Manual de Disciplina”, “Guerra dos
Filhos da Luz Contra os Filhos das Trevas”, “Salmos de Ações de
Graças”) naquela coletânea, não demonstra quaisquer caracte-
rísticas em comum com o Hebraico de Daniel. Ao mesmo tempo,
não há a mínima semelhança entre o Aramaico da Apócrifa de
Gênesis e os capítulos em Aramaico de Daniel. Nem na morfolo-
gia, nem na sintaxe, nem no estilo de expressão é possível achar
qualquer evidência em Daniel, de o Livro ter sido composto numa
época que se aproxime do período desses documentos sectários. Se-
gundo a teoria da data da época dos macabeus, a totalidade do
Livro de Daniel foi composto na Judéia no segundo século a.C.,
poucas décadas antes dos documentos de Cunrã. A luz desta evidên-
cia lingüística recentemente descoberta, portanto, parece impos-
sível continuar-se a sustentar uma data do segundo século como
sendo a da composição de Daniel.

Podemos aqui mencionar uma característica fonética à qual
apelaram H. H. Rowley, J. A. Montgomery e outros, como sendo 
evidência duma data avançada da composição, que se acha no
Aramaico de Daniel. Nas inscrições Aramaicas mais antigas, como
também nos Papiros de Elefantina do quinto século, há um certo
fonema que aparece como z enquanto no Aramaico bíblico aparece
quase sempre como d. Insiste-se que se Daniel tivesse escrito já
no quinto século a.C. (para não dizer no sexto século), a antiga
ortografia com z deveria ter sido conservada.

Respondendo a esta objeção, é preciso mencionar que até ao
presente momento nenhum documento aramaico do sexto século
a.C., de qualquer região, tem sido descoberto, muito menos do setor
oriental ou babilónico do mundo de fala aramaica. Até o surgi-
mento de tais documentos, é prematuro dizer se a mudança de z
para d já tinha acontecido ou não. Certamente deve ser reco-
nhecido que esta mudança já tinha ocorrido de maneira consis-
tente nos capítulos aramaicos de Esdras (pelo menos no que se
pode ver pelo texto que chegou até nós), e isto refletiria, segundo
se supõe, a pronúncia do Aramaico na Pérsia, região na qual Esdras
vivia. Pareceria, portanto, que esta mudança de z para d ocor-
reu no oriente antes que no ocidente (já que os Papiros de Ele-
fantina só refletem esta mudança no verbo ’ahad, representando a
forma anterior ’ahaz). Não é de modo nenhum necessário supor
que todas as mudanças de consoantes tivessem ocorrido simulta-
neamente no Aramaico em todas as áreas do Oriente Próximo onde
era corrente esta linguagem. Por exemplo, na história do Alemão
Medieval pode ser verificado pela evidência documentária que as
mudanças de consoantes do Alto Alemão ocorreram mais cedo em
certas regiões da Alemanha do que em outras. 

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.