5 de fevereiro de 2014

Gleason L. Archer - Introdução ao livro de Ezequiel

O nome hebraico Yehezeqél quer dizer “Deus fortalece”. O
tema da profecia de Ezequiel é que a queda de Jerusalém e o Ca-
tiveiro na Babilônia são medidas necessárias para o Deus da graça
empregar se for para corrigir Seu povo desobediente e afastá-lo
duma apostasia completa e permanente. Mas enfim virá o dia no
qual o Senhor restaurará o remanescente arrependido do Seu povo
sofrido, estabelecendo-o numa teocracia dos últimos tempos, com
o templo renovado.

Esboço de Ezequiel

I. Vocação e Comissão do Profeta, 1:1 — 3:27.
I. Profecias Contra Judá Antes da Queda de Jerusalém, 4:1
24:27.
A. Mensagem do quinto ano (593/2 a.C.), 4:1 — 7:27.
(Destruição predita por sinal, símbolo e sentença).
B. Mensagens do sexto ano (592/1 a.C.), 8:1 — 19:14.
1. Visão da idolatria e punição de Jerusalém, 8:1 —
11:25.
2. Punição necessária por causa da corrupção univer-
sal, 12:1 — 19:14.
C. Mensagens do sétimo ano (591/0 a.C.), 20:1 — 23:49.
1. A ingratidão de Israel desde o Êxodo; Nabucodono-
sor virá a Jerusalém; nenhum rei davídico até que
venha o próprio Cristo, 20:1 — 21:32.
2. Lista dos pecados de adultério de Samaria e Judá»
22:1 — 23:49. 
D. Mensagem do nono ano (589/8 a.C.), 24:1-27.

II. Profecias Contra as Nações Pagãs, 25:1 — 32:32.
A. Amom, Moabe, Edom, e Filistia (vizinhos próximos),
25:1-17.
B. Tiro e Sidônia, símbolos de materialismo comercial or-
gulhoso, 26:1 — 28:6.
C. Egito, símbolo de idolatria auto-confiante, 29:1 — 32:32.

III. Profecias de Reconstrução e Restauração depois da Queda,
33:1 — 48:35.
A. Estágios de preparação para o reino novo, 33:1 — 39:29.
1. Responsabilidade do Profeta e do povo; advertência
e purificação, 33:1-33.
2. Os falsos pastores darão seu lugar ao Verdadeiro
Pastor, 34:1-31.
3. Volta e reavivamento do Israel cativo, depois da
destruição de Edom, 35:1 — 37:28.
4. Destruição das nações ímpias (Gogue e outras) dos
últimos dias, 38:1 — 39:29.
B. O reino final e o templo dos últimos dias, 40:1 — 48:35.
1. O templo do milênio, 40:1 — 43:27.
2. O culto do milênio, 44:1 — 46:24.
3. A terra do milênio e o rio de bênção, 47:1 — 48:35.

Biografia do Autor

Assim como Jeremias, Ezequiel pertencia a uma família sacer-
dotal. O nome do seu pai era Buzi, e era duma posição social sufi-
cientemente alta para ser incluído entre os reféns que Nabucodo-
nosor levou com ele para a Babilônia em 597 a.C. Foi colocado
numa comunidade perto de Nipur (cerca de cinqüenta milhas ao
sul da Babilônia no rio Eufrates) chamado Tel-Abibe no “Grande
Canal” (que seria a interpretação mais exata do “rio Quebar”).

Este canal, o Nãru Kabari das inscrições em cuneiforme, corria do
Eufrates ao norte de Babilônia, quase cem quilômetros para o
sudeste, para Nipur, voltando ao Eufrates ao sul de Ur, e irrigando
a planície de aluvião entre o Eufrates e o Tigre. Ezequiel foi cha-
mado ao seu ministério profético em 592 a.C. (o quinto ano do ca-
tiveiro do rei Jeoaquim) quando ele mesmo tinha uns trinta anos 
de idade (1:1). Seu casamento feliz terminou com a morte da
sua esposa, em 587 (cap. 24). Tornou-se um pregador famoso entre
os judeus exilados na Babilônia, e freqüentemente os anciãos ape-
lavam para ele, assim como o povo comum, mas sem dar resposta
prática às mensagens que dele recebiam. Seu último discurso da-
tado 29:17 e segs.) era do vigésimo-sétimo ano do cativeiro de
Jeoaquim, ou seja, 570 a.C.

Objeções Críticas Contra a Genuinidade de Ezequiel

Até recentemente, de acordo com a oitava edição de ILOT de
Driver, a genuinidade de Ezequiel tem sido aceita pela maioria
dos críticos racionalistas. Mas em 1924 Gustav Hoelscher propôs a
tese de que só uma pequena fração do Livro foi escrito pelo Eze-
quiel do sexto século (isto é, só 143 de 1273 versículos) e o restante
pertencia a algum autor posterior, morando em Jerusalém e con-
temporâneo com Neemias (540-530 a.C.). Em 1930, o Professor C. C.
Torrey publicou uma discussão do seu ponto de vista de que nenhu-
ma parte de Ezequiel pertencia ao sexto século, nem aos dois séculos
que se sucediam. Data o primeiro extrato do Livro como sendo
proveniente de 230 a.C. e deduziu que foi escrito em Jerusalém e
não na Babilônia. Não muito depois, foi reescrito por um redator,
que lhe deu a aparência de ter sido escrito em Babilônia por alguém
que ali estava, quando do Cativeiro. Deve ser mencionado que Torrey
nem sequer acreditava na historicidade da destruição de Jerusa-
lém pelos Caldeus, nem na remoção da população de Judá para
a Babilônia num tipo de Cativeiro nacional. Poucos estudiosos,
porém seguiram-no neste exagero de ceticismo, e em anos mais
recentes, os dados cumulativos da arqueologia da Palestina (con-
forme interpretada e.g. por W. F. Albright) indicam uma cessação
total da ocupação israelita da Palestina durante a maior parte do
sexto século. G. A. Cooke, que publicou o volume de Ezequiel da
coletânea ICC, em 1937, ainda aderiu à teoria que o Ezequiel his-
tórico era o autor básico do Livro, sentindo que seria tão difícil crer
no proposto redator posterior, bem como aceitá-lo, conforme cons-
tam as declarações do próprio texto. Mesmo assim, a tendência
mais recente em círculos liberais é negar a genuinidade de Ezequiel
e insistir que, na realidade, foi composto na Palestina algum tempo
depois da restauração do Exílio. Assim, N. Messel aventurou-se em
1945 a datar a obra em cerca de 400 a.C. Bentzen, na sua IAT
declarou: “O livro, conforme sua condição atual, não é de modo
algum a obra de Ezequiel” (II, 140). 

Duas razões principais têm sido levantadas para negar que
este Livro seja obra do profeta Ezequiel, do sexto século:
1. O profeta que pronunciou o castigo de Israel não poderia
ser, em hipótese alguma, o mesmo que ofereceu promessas anima-
doras de bênçãos futuras. Noutras palavras, o Ezequiel histórico
deve ter sido um pregador de pessimismo e tristeza, não oferecendo
à sua nação nenhum raio de esperança ou de luz. Mas deve ser
salientado que quase todos os Profetas do Antigo Testamento que
predisseram um julgamento catastrófico, também predisseram a
restauração subseqüente e no final, a graça da aliança que seria
concedida à nação castigada e contrita de Israel. Esta observação
é aplicada a Amós, Oséias, Miquéias, Isaías e Jeremias, para men-
cionar alguns exemplos mais marcantes. Só através dum dogma-
tismo rígido é que estes vários Profetas do Antigo Testamento po-
deriam ter sido ressaltados de várias fontes diferentes, para assim
ser conservada a hipótese que o que adverte só saberia advertir,
e o que promete, só saberia prometer. Até Hugo Gressmann foi
levado a esta conclusão por um estudo extensivo destes profetas:
“A renovação do mundo necessariamente se segue a uma catás-
trofe de alcance mundial”.

2. Alega-se que o autor de Ezequiel revela um ponto de vista
da Palestina mais do que o de um autor que escreve na Babilônia.
Por exemplo, declara-se que Ezequiel estava encenando suas pro-
fecias simbólicas para o benefício dos habitantes de Jerusalém,
que naturalmente não poderiam ter presenciado se ele habitasse
na terra dos caldeus, numa distância de mais de 1.600 km. Respon-
dendo, pode ser dito que Ezequiel não encenou suas ações simbó-
licas para jerusalemitas vivendo em Jerusalém, pois não há ne-
nhuma sugestão na narrativa do seu Livro que sugira que seria
esse o caso. Pelo contrário, o Livro indica que seu auditório era
composto de cidadãos de Jerusalém que estavam juntamente com
ele exilados na Babilônia. Em II Reis 24:14 lemos que quando o
rei Jeoaquim foi levado ao cativeiro em 597 a.C. com seus prín-
cipes e “homens valentes”, o número de cativos (inclusive artífices
e peritos trabalhadores) chegou a nada menos que dez mil. Sendo
que a grande maioria deles tinha sido residente em Jerusalém, não
há dificuldade em se supor que Ezequiel tivesse um auditório consi-
derável de cidadãos de Jerusalém ao qual podia pregar.

Em segundo lugar, faz-se objeção a que o autor revele um
conhecimento próprio duma testemunha ocular de eventos que 
ocorreram em Jerusalém e que só poderiam ter sido testemunha-
dos por pessoas presentes. Assim, no capítulo 8 o autor descreve
os devotos idólatras, que eram alguns dos próprios anciãos no tem-
plo; em 11:13 se refere à morte súbita de um entre eles (Pelatias,
filho de Benaías); em 12:3-12 refere-se à tentativa de Zedequias ao
escapar de Jerusalém à noite; em 21:18 e segs. descreve Nabuco-
donosor consultando os sinais agourentos numa encruzilhada do
caminho para Jerusalém; e em 24:2 refere-se ao seu acampamento
fora dos muros da cidade. A única conclusão razoável a ser tirada,
segundo estes críticos, é que o autor vivia em Jerusalém nos últi-
mos anos antes da destruição final em 587 a.C. (A maioria dos
que apoiam esta teoria, porém, colocam o autor depois do Exílio,
e entendem que sua obra seria uma narrativa de pura ficção ba-
seada nalguns fragmentos de tradição oral).

Deve porém, ser notado que muitas das referências em Eze-
quiel são perfeitamente compatíveis com a suposição de que notí-
cias dos eventos narrados pudessem chegar aos exilados na Babi-
lônia até o autor escrever sua narrativa. Noutros casos, uma
declaração introdutória é dada (como no cap. 8) de que aquilo que
o autor passar a contar consiste numa visão que o Senhor lhe
concedeu de maneira sobrenatural. Só na base de pressuposições
anti-sobrenaturais é que se pode negar a possibilidade da revelação
divina como uma explicação do fato de Ezequiel chegar a ter um
conhecimento tão exato daquilo que estava acontecendo na casa
do Senhor na sua terra natal. Além disto, não se pode sustentar
de maneira satisfatória que a suposição dum autor vivendo em
Jerusalém explicaria de maneira convincente tudo que há no texto,
pois há, nestas visões, alguma coisa da sua origem obviamente so-
brenatural. Este é preeminentemente o caso da visão da glória do
Senhor partindo do templo, segundo a maneira de narrá-la em 10:4
e 11:23. Estas passagens de Ezequiel só podem ser entendidas de
maneira inteligente quando se aceita a suposição de que o Senhor
transmitiu estas cenas ao Seu Profeta de maneira miraculosa sob
a forma duma visão espiritual.

Discrepâncias Entre Ezequiel e o Código Sacerdotal

No capítulo 12 já nos referimos ao papel que a escola de Well-
hausen atribui ao Profeta Ezequiel do sexto século, que é lançar os
alicerces para a obra da escola sacerdotal. Atribuiu-se a ele, ou
a seus discípulos imediatos, o Código de Santidade (Lv 17 — 26)
e os primeiros estágios duma nova doutrina que o sacerdócio deve 
ser confinado aos descendentes de Arão e não permitido à tribo
de Levi como um todo. (Cf. Ez 44:7-16 que concede uma posição
privilegiada à família de Zadoque). Mas, segundo insistiam os que
apoiavam esta escola, o Documento P não poderia ter existido antes
da época de Ezequiel, senão não teria ousado prescrever regula-
mentos que são notavelmente diferentes daqueles estipulados no
Código Sacerdotal. Realmente, há divergências marcantes em três
áreas gerais: 1) as dimensões do Templo, 2) os móveis do templo,
3) o ritual do culto sacrificial. Por este motivo, é claro, algumas
autoridades judaicas, especialmente as que pertenciam à escola
de Shamai, levantavam dúvidas quanto à canonicidade de Ezequiel
esquecendo-se que havia a possibilidade que os regulamentos
do templo descritos nos caps. 40 — 48, não visavam ser impostos
durante o período da antiga aliança, mas sim, no do reino final
da época messiânica.

É necessário dizer que a teoria duma origem pós-exílica para
o Código Sacerdotal não fornece nenhuma explicação real das di-
vergências acima mencionadas. É um fato inegável que, as instru-
ções em Ezequiel diferem tanto do Documento D, e até do Do-
cumento H, como diferem de P. Por exemplo, Ezequiel nem sequer
menciona os dízimos e as ofertas que devem ser apresentados por
um primogênito (conforme as instruções em D e E), nem a Festa
de Pentecostes com os regulamentos que lhe são apropriados, nem
certas instruções, como a que proibe que se suba a um altar por meio
de degraus. Sendo que todos estes assuntos são incluídos em Deu-
teronômio, o mesmo tipo de lógica que declara que Ezequiel é
anterior a P nos compeliria a colocá-lo antes de D também.  É
digno de nota que Ezequiel pressupõe o mesmo sistema geral de
sacrifício que se descreve em P: holocaustos, ofertas pelo pecado e
ofertas pacíficas, e uma distinção clara entre aquilo que é ritual-
mente puro e impuro. Todas estas regras se mencionam de ma-
neira a dar a entender que o sistema sacrificial era bem conhe-
cido aos seus leitores, e que tinha sido praticado desde tempos da
antiguidade.

Talvez a evidência mais notável neste assunto é que as dimen-
sões do templo, citadas na última parte de Ezequiel, diferem não
somente do Código Sacerdotal como também das do templo de 
Salomão conforme a descrição em II Reis 6 e 7. Se a divergência
de Ezequiel indica que ele escreveu primeiro, então uma aplicação
consistente deste critério nos levaria a entender que Ezequiel é
anterior à construção do templo de Salomão! Mais uma vez, por-
tanto, precisamos reconhecer que a totalidade dessa linha de ra-
ciocínio leva a resultados ridículos, e não pode ser seguida como
critério praticável.

Outro tipo de divergência que uma data pós-exílica de P não
explicaria é a divisão que Ezequiel faz da Terra Santa entre as
doze tribos durante o reino milenial. Já que as medidas e divisões
dadas no cap. 48 não condizem com a geografia atualmente exis-
tente na Palestina, subentende-se uma situação algo diferente.

Ezequiel foi criado em Judá e deve ter conhecido profundamente
a disposição da terra na sua própria época e por esta razão não po-
deria ter pensado, por ele mesmo, num tipo de divisão de terras a ser
levada a efeito no futuro próximo. Decerto, referia-se a uma nova
ordem de coisas que começaria nos últimos dias. Se este for o caso
no que diz respeito á geografia, não há razão de não ser possível
aplicar isto ao próprio caso do culto.

O Problema do Cumprimento de Ezequiel 40 — 48

Estes capítulos contém uma longa e detalhada série de pre-
dições sobre a situação da Palestina do futuro, com sua cidade e
seu templo. Para o leitor esclarecido, é seguro dizer que as pre-
dições destes nove capítulos dão a aparência de haver uma intenção
tão literal como os contidos na parte anterior do livro (e.g. os
julgamentos de Tiro e Sidônia em 26 — 28, que foram literal-
mente cumpridos na história subseqüente). Se nunca houver um
templo de acordo com estas especificações, e se nunca houver uma
Cidade Santa tal qual o Profeta descreve, e se nunca houver uma
divisão da terra entre as doze tribos conforme ele indica, vemos
aqui um trecho de Escritura contendo falsa profecia.

A única maneira de se evitar esta conclusão, segundo muitos
intérpretes, é entender que todas estas disposições têm que ser
interpretadas de maneira figurativa. Estes capítulos, portanto, se-
riam tomados como profecias acerca da Igreja do Novo Testamento,
a Jerusalém espiritual. Esta linha de interpretação é seguida por
um número considerável de estudiosos de indubitável ortodoxia.
No Novo Comentário da Bíblia (Davidson-Stibbs-Kevan) lemos (na
pág. 811): “A conclusão da profecia de Ezequiel, por conseguinte. 
deve ser considerada como uma verdadeira predição sobre o reino
de Deus, dada sob as formas com as quais o profeta estava fami-
liarizado, a saber, as formas da sua própria dispensação (judaica).
A verdade essencial dessas predições será incorporada na nova
era sob formas próprias da nova dispensação (cristã). A maneira
como isso se realizará, é-nos esboçado no livro de Apocalipse (21:1
22:5).” Substanciais pontos de vista são sustentados por C. F.
Keil, e também Wilhelm Moeller no seu artigo sobre Ezequiel em
ISBE (Vol. II, págs. 1071 — 1081).

Aplicar Ezequiel 40 — 48 à Igreja do Novo Testamento evita
algumas das dificuldades que acompanham uma interpretação mais
literalista. Este é especialmente o caso das regulações do sacrifício
de sangue que aparecem nestes capítulos e que dificilmente se
enquadrariam numa dispensação de Salvação após-Calvário,
se é que estes sacrifícios continuam tendo seu valor expiatório
(o que naturalmente tinham segundo a Lei de Moisés). Na Epís-
tola aos Hebreus, passagens tais como 10:4 deixam bem claro que
os sacrifícios animais passaram a ser desnecessários, e que não têm
mais eficácia na expiação do pecado. A Epístola anuncia que o
único ato expiatório do Senhor Jesus tem uma eficácia permanente,
que cancela o sacerdócio vétero-testamentário de Arão, e os sa-
crifícios do código levítico. Conforme declara H. L. Ellison no
livro Ezekiel, the Man and His Message — “Ezequiel, o Homem e
Sua Mensagem” (1956, p. 142): “Além disto, eles (os oponentes
da interpretação literalista) não podem aceitar por que, quando
o pão e o vinho satisfizeram as necessidades simbólicas de quase
mil (sic!) gerações de cristãos, será agora necessário voltar para
outros símbolos. O Rei voltou e a maldição que pesava sobre a
Natureza já foi retirada; por que a criação animal terá ainda que
entregar sua vida?” Não pode ser negado que esta é uma linha
de raciocínio persuasiva, e não é de se estranhar que uma grande
maioria dos expositores conservadores se disponham a reduzir o
templo de Ezequiel a uma mera alegoria da Igreja cristã.

Apesar disto, permanece verdadeiro o fato de que o assunto
não termina de maneira tão fácil, porque ainda permanece a pre-
sença concreta de oito ou nove capítulos de Escrituras proféticas
que informam aos fiéis que Deus tem um plano específico para o
futuro de Jerusalém, do templo, e da Palestina, e que dá medidas
e fronteiras exatas para a divisão dos territórios tribais da Terra
Prometida e para a construção do Templo e seus arredores. Não
é menos vedadeiro que as passagens referidas no Livro do Apo- 
calipse são um apoio duvidoso para a identificação do templo com
a Dispensação da Igreja. Em Apocalipse 21:22, recebemos a infor-
mação que não haverá templo algum, e esta parece ser uma ma-
neira estranha de se cumprir o conteúdo de quatro capítulos (Ez
40 — 43) que descrevem o templo em grande detalhe, especialmente
tendo em vista o fato de que Ezequiel faz uma separação clara entre
o templo e a cidade (48:8, 15).

Tem sido indicado que há uma certa semelhança entre o rio
simbólico em Ezequiel e o rio que se descreve em Ap 22:1, mas deve
ser notado que o rio da visão de João, flui debaixo do trono de
Deus e do Cordeiro, enquanto o rio em Ezequiel 47:1 flui ao limiar
do templo. Não se pode negar o relacionamento que há entre as
passagens do Antigo e do Novo Testamento neste assunto, mas pa-
rece ser um relacionamento entre o intermediário ou típico com
aquilo que é consumado e eterno. Noutras palavras, o reino milenial
futuro será uma dispensação provisional que aponta para o novo
céu e a nova terra do futuro, anunciados em Apocalipse 21 e 22.
É bem significativo que inclusive pessoas que acham que a
Igreja neotestamentária seja o cumprimento do templo de Eze-
quiel, hesitem em dizer que Ezequiel tivesse a Igreja mentalmente
perante ele ao compor estes capítulos. No artigo no Novo Comen-
tário da Bíblia, mencionado acima, lemos na página 811: “Ezequiel
apresentou aqui planos que ele esperava serem realizados mais
tarde. Transformá-los deliberadamente numa descrição simbólica
da adoração na Igreja Cristã nem deve entrar em cogitação”. Este
comentário naturalmente levanta a pergunta: será que Ezequiel
errou na sua expectativa? Se estes planos do templo e da Cidade
Santa tivessem sido inventados por ele, seria talvez concebível que
fosse erro dele (embora dificilmente tal erro pudesse ter se trans-
formado em parte das Escrituras Sagradas). Mas o Profeta mostra
com clareza meridiana que não foi ele quem esboçou estes planos,
que lhe foram revelados pelo anjo do Senhor que lhe mostrou os
esplendores da totalidade do templo com seus pertences, e que
mediu para ele toda a sua extensão. Se pois, houve um erro nesta
expectativa, deve ter sido participado pelo anjo do Senhor (a não
ser, naturalmente, que Ezequiel não nos tenha dado um relató-
rio fiel).

Tendo em vista as considerações acima, o autor deste livro
chegou a um ponto de vista onde reconhece haver menos sérias
dificuldades numa interpretação moderadamente literal destes ca-
pítulos do que numa interpretação figurativa. Precisamos de muita
 cautela em forçar os detalhes, mas, em linhas gerais, pode ser
deduzido de maneira razoável que numa época vindoura todas as
promessas transmitidas pelo anjo terão seu cumprimento no reino
terrestre glorioso com o qual se encerrará o drama da redenção.
As ofertas sacrificiais mencionadas nestes capítulos devem ser en-
tendidas como sendo isentas de qualquer caráter de expiação, sen-
do que o sacrifício de Cristo oferece uma expiação que é suficiente
para toda a eternidade (Hb 10:12). Mesmo assim, o Senhor Jesus
ordenou o sacramento da santa comunhão como sendo uma dis-
posição a ser praticada mesmo depois da Sua crucificação, e espe-
cificou que tinha que ser observada até Sua segunda vinda (I Co
11:26: “até que ele venha”). Por definição pré-milenial, o milênio
se seguirá ao Seu advento glorioso. Se pois, há uma forma sacra-
mental a se praticar durante a Dispensação da Igreja, o que im-
pede que haja uma nova forma de sacramento para ser celebrada
durante o próprio Milênio? 

Nós, nesta época, temos pouca competência a mais para jul-
gar as novas exigências e condições do futuro reino milenar do
que tinham os fiéis do Antigo Testamento para julgar as novas
formas e condições que seriam inauguradas na época do Novo
Testamento depois da primeira vinda de Cristo. 

Deve ser acrescentado que alguns escritores deste assunto in-
troduziram uma exatidão um pouco questionável nos detalhes
quanto à natureza do reino milenar, tais como a alegação que os
cidadãos seriam exclusivamente judeus, ou a supremacia da raça
hebraica como unidade étnica sobre todas as nações da terra. Há,
porém muitas indicações nos profetas do Antigo Testamento que
tanto os fiéis judeus como os fiéis gentios seriam incorporados
numa única unidade política na época vindoura. Por exemplo,
Isaías 11:10-12 dá a entender que tanto o ’am (“povo”) dos hebreus,
como os gõyím (“gentios”) serão incluídos sob o reinado do mesmo
Messias, gozando da mesma situação de igualdade perante Ele. O
símbolo da boa oliveira em Romanos 11 parece indicar que todos
os cristãos, sejam judeus ou gentios quanto ao seu nascimento,
serão colocados dentro dum relacionamento orgânico como mem- 
bros dum corpo único, e há a sugestão que esta situação continuará
até o final dos tempos (cf. G1 6:16, que parece chamar a Igreja
de “Israel de Deus”).

Por estas razões, parece muito difícil sustentar a forte dicoto-
mia que se mantém entre Israel e a Igreja no capítulo de Unger,
“Objeções à Interpretação Futurista Literal do Templo de Ezequiel
Refutadas”, em Great Neglected Bible Prophecies — “Grandes Pro-
fecias Bíblicas Negligenciadas” — 1955, págs. 88-95. Devemos,
porém, reconhecer que crer no cumprimento de Ezequiel 40 — 48
no Milênio não envolve necessariamente qualquer identificação
clara entre o “príncipe” ou soberano deste reino dos últimos dias,
mencionado nestes capítulos (44:3; 46:2 etc.) e a pessoa do Senhor
Jesus Cristo. É muito mais provável que este “príncipe” deve ser
compreendido como sendo um vice-regente, governando sob a au-
toridade do Messias (cujo império, naturalmente, se estenderá a
todas as nações da terra). 

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.