28 de fevereiro de 2014

Eugene H. Merrill - Uma teologia de Crônicas: O curso do Reino


O CURSO DO REINO
Crônicas, como todos os livros da Bíblia, é um tratado teológico, mas
cuja forma e conteúdo é historiográfico. Revela a Pessoa e obras de Deus
e a natureza da sua relação com o povo em termos narrativos, no contexto
dos eventos da história. Em nenhum sentido isto diminui seu valor teo-
lógico, pois é exatamente nesse envolvimento com as nações e indivíduos 
que os propósitos eletivos e redentores de Deus são mais bem demonstra-
dos e entendidos. A discussão deve ser direcionada agora à apresentação e
avaliação do cronista sobre a história sagrada em seus aspectos completos
e preditos, quer dizer, para o curso do reino em retrospecto e na esperança

escatológica.

O CURSO DO REINO NA HISTÓRIA

Crônicas inicia a narrativa da história do reino bem no começo, com Adão,
porque o seu interesse é universal e sua intenção é demonstrar que o povo te-
ocrático de Israel é uma parte e acha a sua fonte na história comum de todo o
gênero humano. Esta é condição prévia teológica para a capacidade de Israel de-
sempenhar o ministério dual de mediador e modelo da graça salvífica de Deus
para o mundo. O reino teocrático não pode ser separado do curso dos eventos
universais humanos.

Ao mesmo tempo, Israel, a expressão veterotestamentária do reino, não é
idêntico às nações, mas separado e distinto delas. Este é o sentido da designação
“reino sacerdotal e povo santo” (Êx 19.6). A história de Israel (e do programa
teocrático de Deus até mesmo antes) é de luta constante para sobreviver como
a “luz das nações” em um mundo hostil a Ele e à sua mensagem. O cronista
organizou o material relativo ao aspecto desta teologia em termos de oposição
ao reino, confirmação do reino e julgamento do reino.

Oposição ao reino. Desde o início do programa redentor feito por Deus, o
homem pecador ou o ignorou ou procurou firustrá-Lo. Crônicas chama a atenção a
este fato de modo público e sutil. Na era anterior a Davi, nas próprias genealogias,
há indícios de que o curso de transmissão do concerto não foi uniforme e perfeito.

O primeiro exemplo é o de Ninrode, “poderoso na terra” (1 Cr 1.10). A
mera menção do seu nome evoca o espírito antiteocrático de Babel, pois foi
Ninrode, de acordo com Gênesis 10.8-10, que fundou aquele símbolo infame
de resistência do concerto. Também indica indubitavelmente esta mesma re-
belião a referência a Pelegue, descendente de Sem, em cujos dias “se repartiu a
terra” (1 Cr 1.19; cf. Gn 10.25). A maioria dos estudiosos associa esta divisão da
terra com o espalhamento das nações que ocorreu depois que o Senhor julgou o
episódio da torre de Babel.35 O mandato “frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a
terra, e sujeitai-a” (Gn 1.28), a condição prévia para o domínio do homem sobre
todas as coisas sob as ordens de Deus, estava em perigo de subversão em Babel,
mas esta oposição hostil foi superada.

Outras tendências antiteocráticas emergem das genealogias com a lista-
gem simples de Ismael (1 Cr 1.28) e Esaú (v. 34). Estes nomes falam da quase
interrupção das promessas abraâmicas pela impaciência, respectivamente, de 
Abraão e Isaque em esperar que o Senhor pusesse em ação o seu propósito. Estas
referências pressupõem também familiaridade com as narrativas de Gênesis que
fornecem o pano de fundo (Gn 16.1-6; 25.19-26). Mais significativa é a preocu-
pação com as genealogias de Ismael e Esaú (ou seja, Edom), pois a subseqüente
história do Antigo Testamento atesta a oposição amarga a Israel que surgiu dos
seus descendentes, especialmente de Edom.

Quanto à própria monarquia davídica, a ameaça partiu de ninguém mais
que Judá, sua origem tribal, quando ele violou Tamar, sua nora (Gn 38.13-30).
A despeito dessa união ilícita, Deus passou adiante a esperança teocrática pelo
filho que tiveram, Perez, antepassado de Davi (1 Cr 2.4-15). Este não foi um
processo sem ônus, como deixou claro o cronista pela breve referência a Acã
(2.7), que, por ter se apropriado gananciosamente dos espólios de Jericó, quase
fez os israelitas abortarem a conquista de Canaã (cf. Js 7.1). A oposição à obra
salvadora do Senhor nem sempre veio de fora. Como mostra o registro, veio
mais freqüentemente de dentro do povo do concerto.

A ilustração final da oposição ao reino surge na história do primeiro rei
de Israel, Saul. Conhecemos muito bem a história da resistência de Samuel
à escolha de Saul (1 Sm 8.4-22). Este fato deveria ser suficiente para mostrar
que a sua monarquia foi, na realidade, uma expressão prematura e não sancio-
nada do sentimento antiteocrático. Em todos os textos bíblicos está claro que
Davi era o homem segundo o coração de Deus (1 Sm 13.14), e que a seleção
de outro homem constituía infidelidade ao concerto. As palavras da acusação
divina que resumem a versão do cronista sobre o reinado de Saul falam por
si: “Assim, morreu Saul por causa da sua transgressão com que transgrediu
contra o SENHOR, por causa da palavra do SENHOR, a qual não havia guarda-
do; e também porque buscou a adivinhadora para a consultar e não buscou o
SENHOR, pelo que o matou e transferiu o reino a Davi, filho de Jessé” (1 Cr
10.13,14).

O estabelecimento da verdadeira monarquia sob a tutela de Davi não deu
fim à oposição ao reino. Na verdade, intensificou-se em muitos aspectos nas
mãos de inimigos externos e internos, sendo o exemplo mais doloroso a divisão
do reino em duas partes. E impossível (e desnecessário) recontar os episódios
da guerra de Davi contra agressores, como os filisteus (1 Cr 14.13-17; 18.1),
os moabitas (18.2), os sírios (18.3-11) e os edomitas (18.12,13), salvo com a
observação de que “o SENHOR O fez temível a todas aquelas gentes” (1 Cr 14.17,
ARA). Porque o reino de Davi era na verdade o reino de Deus, “o SENHOR dava
vitórias a Davi, por onde quer que ia” (18.6, ARA). Estes sucessos eram símbo-
los do favor de Deus e sinais do seu domínio supremo sobre as nações.

Agressões ainda mais sérias contra a comunidade teocrática ocorreram nos
dias da monarquia dividida. Primeiro, foi a campanha de Sisaque, do Egito,
principalmente contra Judá (2 Cr 12.2-4). Era o julgamento do Senhor por
Roboão ter desobedecido ao concerto. Quando Judá e o rei se arrependeram,
o Senhor os livrou, mas permitiu que permanecessem por certo tempo sob a 
hegemonia de Sisaque, “para que conheçam a diferença da minha servidão e da
servidão dos reinos da terra” (v. 8). É expressão sucinta do que significava para
Israel ser o povo especial do Senhor — um povo dedicado em servidão exclusi-
vamente a Ele.

A responsabilidade do que isto acarretava para Israel tem de ser constan-
temente equilibrada pela crença predominante de que o reino é realmente do
Senhor, que Ele o criou, reina sobre ele e fica a seu lado em tempos de oposição.
Asa, rei de Judá, entendeu este ponto e, quando foi invadido por Zerá, rei da
Etiópia, ele pediu que o Senhor o livrasse para que o mero homem não prevale-
cesse sobre o Senhor (2 Cr 14.9-11). Em linguagem ainda mais extraordinária,
Josafá, sob o ataque de Moabe e Amom, rogou ao Senhor, porque este domina
“sobre todos os reinos das gentes” (20.6). O seu rogo foi respondido na palavra
do profeta Jaaziel, que lhe disse que “a peleja não é vossa, senão de Deus” (v. 15)
e que “o SENHOR será convosco” (v. 17). A oposição ao reino era, na realidade,
oposição ao Senhor e não teria efeito permanente.

Como já comentado, o ataque mais doloroso ao propósito do reino do
Senhor não partiu das nações ímpias, mas veio de dentro do corpo do povo
escolhido. Graças em grande parte às políticas fiscais exageradas de Salomão,
as tribos do norte, chefiadas por Jeroboão, se revoltaram contra Roboão, for-
mando o distinto Reino de Israel, o Reino do Norte (2 Cr 10.16-19). Claro que
isto dificultou a missão nacional de as doze tribos de Israel serem o mediador e
modelo da soberania divina. Mas deu pleno cumprimento à promessa do con-
certo davídico, porque essa promessa se centralizava apenas em Judá e Davi. O
cronista chegou a afirmar que a divisão do reino não foi um golpe imprevisto e
irreparável ao desígnio redentor do Senhor, pois “esta mudança vinha de Deus”
(10.15). A distinção entre Israel, considerado conjuntamente como povo vas-
salo do Senhor, e o reino davídico como parte desse papel, ainda que transcen-
dente, estava clara até para as tribos nortistas rebeldes. E o que vemos na famosa
“declaração de independência”: “Que parte temos nós com Davi? Já não temos
herança no filho de Jessé; Israel, cada um às suas tendas! Olha, agora, pela tua
casa, ó Davi” (2 Cr 10.16). A monarquia davídica como o veículo do reino sal-
vífico e soberano do Senhor sobre a Terra não dependia das ligações completas
com todo o Israel. Muito instrutivo sobre este aspecto é o discurso de Abias aos
inimigos do norte. Disse-lhes que o Senhor deu a realeza para sempre a Davi e
seus descendentes, e repreendeu-os porque traçavam planos “contra o reino do
SENHOR, que está nas mãos dos filhos de Davi” (2 Cr 13.4-8).

Confirmação do reino. A oposição à causa do reino foi correspondida pelas
expressões consistentes do favor do Senhor. Afinal de contas, era o seu reino e,
portanto, o sucesso era garantido.

Em uma pequena vinheta encantadora, cuja inclusão no texto inspirado di-
ficilmente teria outra explicação, o cronista conta que Jabez, um integrante da
tribo de Judá, pediu que Deus lhe aumentasse o território, sendo-lhe concedida a 
petição (1 Cr 4.9,10). Como integrante da tribo de Judá e antepassado de Davi,
é bastante provável que Jabez era um tipo de Davi e que o seu rogo fervoroso foi
feito na previsão da escolha e bênçãos de Deus da casa de Davi ainda por nascer.
A descrição do reinado de Davi está repleta de evidências da confirma-
ção de Deus. Muitas mais ocorreram no reinado de Salomão, que recebeu
sabedoria e conhecimento e também inigualáveis bens, riquezas e honra “qual
nenhum rei antes de ti teve, e depois de ti tal não haverá” (2 Cr 1.11,12). O
cumprimento é atestado na quantidade enorme de riquezas descritas como
resumo do seu reinado (9.13-21) e especialmente no reconhecimento de que
"excedeu o rei Salomão a todos os reis da terra, tanto em riquezas como em
sabedoria” (v. 22). Sentimentos semelhantes descrevem o reinado do bom rei
Ezequias (32.27-29).

A Teologia do Novo Testamento, com razão, não vê correlação necessária
entre prosperidade física, material e obediência a Deus. O Antigo Testamento
deixa claro que a probidade do concerto da nação como também do individual
resultará inevitavelmente em bênçãos e abundância, ao passo que o oposto é
igualmente verdadeiro — a ausência de sucesso é indicativo de fracasso espiri-
tual e moral. Por conseguinte, a confirmação do Senhor do reino tomou a forma
de compensação tangível.

Julgamento do reino. O livro de Crônicas foi escrito no período pós-exílico
para explicar por que o exílio teve de acontecer e dar esperança para que a comu-
nidade restaurada fosse o começo de um novo reino teocrático, um reino capaz
de completar a missão que a nação pré-exílica fracassara em cumprir.  E dessa
perspectiva histórica que o cronista lida com o Senhor julgando os dois reinos e
as causas radicais do fracasso.

Mais uma vez embutido em uma genealogia está uma narrativa breve
que chama a atenção a si exatamente por causa do caráter interruptor. Diz
respeito ao destino das tribos transjordanianas Rúben, Gade e Manassés, que
“transgrediram contra o Deus de seus pais e foram após os deuses dos povos
da terra” (1 Cr 5.25). Este ato notório de violação do concerto resultou na
deportação do povo para a Assíria, um cativeiro da terra que continuava nos
dias do cronista (v. 26).

Em uma justaposição mais surpreendente, o historiador observou, logo
em seguida às extensas listas genealógicas (1 Cr 1.1-9.la), que “os de Judá fo-
ram transportados à Babilônia, por causa da sua transgressão” (9.1b). Após esta
declaração, tão fora de lugar à primeira vista, consta uma lista dos judeus que
voltaram para Jerusalém (9.2-34) e a genealogia de Saul (w. 35-44). Como
comenta Braun, a mensagem é de continuidade.  Todo o Israel caiu vertigino- 
sámente no exílio, uma calamidade atribuída diretamente ao fracasso do con-
certo, mas o Senhor, fiel às promessas eternas, trouxe de volta o seu povo e lhes
deu um novo começo.

Já no fim da narrativa, o escritor sagrado resume toda a história do seu
povo como aquele que inexoravelmente conduzia o julgamento (2 Cr 36.15-
19). Repetidas vezes, o Senhor enviara profetas com palavras de advertência,
palavras que foram recebidas com escárnio e ridículo. Até veio o julgamento
da destruição e deportação babilónica, pois “também todos os chefes dos
sacerdotes e o povo aumentavam de mais em mais as transgressões, segun-
do todas as abominações dos gentios; e contaminaram a Casa do SENHOR”
(36.14). A palavra hebraica traduzida por “transgressões” (ma'al) também
ocorre em 1 Crônicas 5.25 e 9.1, e fala do ato de traição, de infidelidade
ao concerto. Crônicas, por conseguinte, conclui com uma nota bastante
desanimadora.

O CURSO DO REINO NA ESCATOLOGIA

Perdão e restauração. Apesar da nota de pessimismo soada pelo exílio, há,
ao longo do livro de Crônicas, raios de esperança, pois o Deus do concerto é
digno de confiança — Ele não pode negar a si mesmo. Na famosa oração de
dedicação do Templo, Salomão pediu ao Senhor, quando o povo pecasse e fosse
exilado: “Ouve tu desde os céus, e perdoa os pecados de teu povo de Israel, e
faze-os tornar à terra que tens dado a eles e a seus pais” (2 Cr 6.24,25). Claro
que isto requereria arrependimento, uma mudança de coração, pelo qual o rei
orou fervorosamente (6.37-39).

Estabelecimento eterno. As condições da restauração, claramente declaradas
na oração de Salomão, estão talvez implícitas na palavra de Deus que Natã disse a
Davi na ocasião da revelação do concerto davídico. Mas a ênfase está na iniciativa
graciosa de o Senhor ser fiel à palavra do concerto. Deus disse: “Ordenarei um
lugar para o meu povo de Israel e o plantarei, para que habite no seu lugar e nunca
mais seja removido de uma para outra parte; e nunca mais os debilitarão os filhos
da perversidade, como ao princípio” (1 Cr 17.9). O seu reino, materializado no
povo de Israel e particularmente na casa de Davi, será estabelecido para sempre (v.
14). Mesmo depois da divisão do reino, todos sabiam muito bem que a soberania
do Senhor pelo seu servo Davi permaneceria eternamente (2 Cr 13.5).

CONCLUSÃO

O grande encargo teológico de Crônicas é a afirmação de que o Senhor,
pelo estabelecimento do concerto com a dinastia davídica, oferece a todos os
povos um modelo do domínio divino e um meio de participação. Davi, o sacer-
dote real e filho de Deus, foi escolhido para reinar sobre Israel, um “reino sa-
cerdotal e povo santo”, e tipificar essa soberania messiânica do seu descendente 
cujo domínio será para sempre. Todo esforço se curva à tarefa de centralizar este
tema integrado. As genealogias ajudam Davi unindo-o à criação e às promessas
patriarcais; as campanhas e conquistas militares do rei lhe validam a eleição ao
papel de redentor; o estabelecimento de um culto elaborado fala da natureza
sacerdotal dessa chamada; e as promessas de restauração histórica e escatológica
da nação e sua realeza davídica atestam a durabilidade dos propósitos salvadores
de Deus. O povo do concerto poderia (e iria) fracassar nos tempos do Antigo
Testamento, mas o Senhor reservou um dia quando, como Ele disse: “Naquele
dia, tornarei a levantar a tenda de Davi, que caiu, e taparei as suas aberturas, e
tornarei a levantar as suas ruínas, e a edificarei como nos dias da antiguidade”
(Am 9.11). Esta é a mensagem de Crônicas. 

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.