13 de fevereiro de 2014

Eugene H. Merrill - Uma teologia de Crônicas: A Escritura do Reino (Parte 2)

A FUNÇÃO DO CONCERTO
Como “reino sacerdotal e povo santo” (Ex 19.6), Israel foi chamado ao con-
certo para empreender o ministério de sacerdote, isto é, representar os povos da
Terra diante do Senhor Deus e modelar diante deles o domínio submisso ao qual
todos os homens foram chamados em virtude da criação.  Ou, em outras pala-
vras, Israel tem de exibir na vida social, política e religiosa o que significa ser um
povo redimido, de forma a atrair todos os outros povos ao Senhor soberano, que
os criou e que desejou restabelecê-los na função de cumpridores do concerto.

Este conceito está mais claro em Crônicas como um ideal e como uma
questão de trabalho prático nas formas política e relacionada ao culto da vida
de Israel. Trataremos primeiramente o princípio do papel do concerto de Israel
como reino sacerdotal e povo santo.


O reino como um mediador/modelo. Foi só com a ascensão de Salomão e a
construção do Templo que esta ideia se expressou em Crônicas, porque o Senhor
finalmente viera habitar na Terra de forma mais visível e duradoura e em um sis-
tema político e religioso que permitiram a nação expressar plenamente o testemu-
nho do concerto. Salomão, de fato, viu o Templo como foco desse testemunho,
quando, na cerimônia de dedicação, orou que os estrangeiros, atraídos por “teu
grande nome”, “tua poderosa mão” e “teu braço estendido”, viessem e orassem em
direção ao Templo, para que assim “conheçam o teu nome e te temam, como o
teu povo de Israel” (2 Cr 6.32,33). Israel, e o Templo especificamente, foi proje-
tado para ser um ímã que atraísse as nações ao conhecimento do Senhor.  

O exemplo clássico desta ocorrência é a visita da rainha de Sabá a Salo-
mão em Jerusalém (2 Cr 9.1-8). Tendo ouvido falar da famosa sabedoria de
Salomão, ela foi testá-lo. Impressionada pelo que viu, ela só pôde exclamar:
“Bendito seja o SENHOR, teu Deus, que se agradou de ti para te pôr como rei
sobre o seu trono, pelo SENHOR, teu Deus” (v. 8). E ela foi só um exemplo, pois
o cronista relata que “todos os reis da terra procuravam ver o rosto de Salomão,
para ouvirem a sua sabedoria que Deus lhe dera no seu coração” (v. 23).

Claro que Israel e o seu Deus se tornaram atraentes aos povos curiosos de
perto e de longe, que foram forçados a confessar que o Senhor verdadeiramen-
te estava entre o seu povo e era o segredo das bênçãos e prosperidade. Mas os
que não se submeteram ao Senhor de Israel por convicção religiosa, acabariam
se submetendo por coerção política ou militar como testemunho da soberania
divina através do seu povo. Salomão, por exemplo, “dominava sobre todos os
reis”, desde o rio Eufrates até à fronteira do Egito (2 Cr 9.26). Este reinado
compendiava e antecedia o domínio do Senhor sobre a criação de acordo com
os propósitos da criação.

Nos tempos de Josafá, todas as nações circunvizinhas de Judá submete-
ram-se a ele, porque o medo do Senhor caíra sobre eles (2 Cr 17.10,11). Em
conseqüência disso, eles levavam ao rei tributo, um sinal de submissão a ele
como representante do Senhor. Este medo surgiu particularmente quando as
nações viram que os sucessos de Judá não eram atribuíveis à habilidade e cora-
gem humana, mas que o sucesso viera porque o Senhor lutava por Judá e lhe
dava vitória (20.29).

O reino em sua forma política e histórica. O ideal do governo teocrático
tinha de ser traduzido e expresso através das instituições políticas vigentes, no-
tavelmente a monarquia e especificamente a monarquia de Davi e sua dinastia.
A função do concerto era chamar Davi à liderança do reino sacerdotal que, por
sua vez, como está claro agora, tinha de servir como mediador/modelo entre as
nações. Embora Davi estivesse indubitavelmente ciente do seu papel especial
desde que fora ungido por Samuel (1 Sm 16.13), toda a dúvida persistente foi
afastada quando sucedera Saul e começara a reinar em Jerusalém. Radiante pelo
sucesso de todo tipo, “entendeu Davi que o SENHOR O tinha confirmado rei
sobre Israel” (1 Cr 14.2). O mais importante foi que ele sabia que a exaltação
pessoal era por causa da nação do concerto: Israel.

Em nenhum trecho bíblico, o papel do rei está mais claramente elabo-
rado do que na denominada passagem do concerto davídico (1 Cr 17.7-14).
O Senhor disse a Davi que ele fora tirado da posição de alguém que pastoreia
um rebanho de ovelhas para ser o líder de um povo. Ele prevalecera sobre
os inimigos e ficaria famoso pelo mundo inteiro. O mais importante é que,
mesmo depois que morresse, ele continuaria em uma sucessão dinástica que
duraria para sempre. A monarquia era mais que um único homem — era
uma instituição que nunca terminaria, o resultado de um arranjo do concerto 
incondicional designado a implementar o governo divino por meio de um
instrumento humano.

Davi (1 Cr 28.4), Salomão (2 Cr 6.6), Abias (2 Cr 13.8) e a linhagem dos
reis davídicos estavam cientes da graça eletiva do Senhor no que tange a ter
escolhido o fundador da linhagem. Entenderam também que essa graça sempre
continuaria por eles. Davi retransmitiu esta promessa a Salomão (1 Cr 22.10) e
a confirmou diante dos líderes da nação em uma declaração mais notável: “De
todos os meus filhos (porque muitos filhos me deu o SENHOR), escolheu ele o
meu filho Salomão para se assentar no trono do reino do SENHOR sobre Israel”
(28.5) . Esta declaração afirma o princípio da eleição que está no cerne da relação
do concerto, e une o reino do Senhor e o reino de Israel. Salomão se assentou
sobre Israel no trono do próprio Senhor. Esta importante ideia teológica será
desenvolvida mais tarde.

O reino em sua forma de culto. A função dos concertos mosaico e davídico
é expressa pelo cronista mais, sem dúvida, em termos de sua forma e significa-
ção do culto do que de qualquer outro modo. Isto está totalmente de acordo
com a capacidade dual de Israel e a sua monarquia como mediador/modelo.

Como reino de sacerdotes, é apropriado que o papel nessa função seja descrito
em categorias apropriadas ao culto. O status do concerto de Israel como vassalo
do grande Rei exigia que a relação efetivada pelo concerto fosse mantida e arti-
culada pela característica dos termos de tais arranjos e estipulações que, no caso
das relações divino-humanas, devem ser necessariamente expressas em formas
religiosas.

A primeira destas formas tem a ver com lugares e objetos santos. Um Deus
que seja transcendentemente santo e distante não pode ser aproximado sem me-
diação. Um aspecto dessa mediação é a seleção e santificação de locais que ofe-
reçam acesso exclusivo à presença do Santo. Nos tempos anteriores a Salomão,
estes santuários eram os altares, os lugares altos, o Tabernáculo e a Arca. Como
parte da promessa a Davi, o Senhor concedeu ir entre o povo e habitar na Terra
no Templo confiado a Salomão. A teologia de Crônicas dá atenção considerável
a este desenvolvimento.

O primeiro passo para efetivar a localização do Senhor entre o povo após a
unificação sob o reinado de Davi foi a recuperação da Arca Sagrada de Quiriate-
Jearim, onde estivera desde que voltara da Filístia um século antes. O Taberná-
culo mosaico, tendo se mudado de Siló para Nobe e depois para Gibeão, não
podia, por várias razões, ser levado por Davi para Jerusalém. Por isso, montou
no monte Sião instalações temporárias para alojar a Arca (1 Cr 15.1). Esta tenda
seria substituída subsequentemente pelo grande Templo de Salomão.

A significação da Arca como objeto santo está clara no relato da comitiva
para Jerusalém. Davi desejou levar a Arca para a cidade em primeiro lugar por-
que fora negligenciada por todos os longos anos do reinado de Saúl (1 Cr 13.3).
Não admira que a nação tivesse caído em tamanha profundidade espiritual sob 
tais condições. A Arca era a evidência tangível de que o Senhor reinava entre o
povo e sobre o povo, que ela levava o seu nome santo (v. 6). Em sentido real, o
Senhor estava onde quer que a Arca estivesse. Consolidava a imanência divina, testemunho da sua proximidade e soberania.

Desde o tempo da convocação ao concerto no Sinai, a Arca do Senhor, e,
por conseguinte, Ele mesmo, habitara entre o povo em um Tabernáculo, uma
tenda-santuário portátil e temporária adequada para um estilo de vida nômade.
Mesmo depois da conquista de Canaã, a instabilidade da vida de Israel na Terra
impedia a possibilidade de uma estrutura permanente. Enquanto a ocupação do
território designado estivesse incompleta e a nação estivesse sujeita a desordens
internas e externas, o Tabernáculo estava sujeito à deslocação frequente e ines-
perada. Esta condição persistiu ao longo dos dias de Josué e dos juízes, chegan-
do ao reinado de Davi, totalizando um período de mais de quatro séculos.

Localizado primeiramente em Gilgal (Js 4.19; cf. 10.15,43), depois o
Tabernáculo apareceu em Siló (Js 18.1; cf. Jz 21.19; 1 Sm 1.3), em Nobe (1
Sm 21.1; cf. 22.19) e, por fim, em Gibeão (2 Cr 1.3). Assim que Davi conse-
guira Jerusalém como capital política do Israel unido, quis torná-la também
o centro religioso, plano que a liderança da nação considerou radicalmente
moderno, visto que até então os focos político e religioso da nação estiveram
escrupulosamente separados. Mesmo depois que Davi estabeleceu a sede do
governo em Jerusalém, ele deixou o antigo Tabernáculo mosaico em Gibeão,
preferindo erigir um santuário novo no monte Sião para alojar a Arca. Como
e por que ele chegou à conclusão de que era apropriado trocar o centro rela-
cionado ao culto da nação passando de Gibeão para Jerusalém não está claro.
Mas isso foi obviamente aceitável ao Senhor, visto que não há repreensão
profética.

O que o Senhor lhe impediu dar foi o próximo passo lógico, ou seja, cons-
truir uma casa permanente para o Senhor em uma escala magnífica e gloriosa.
Impressionado pela disparidade entre a opulência do palácio real e a pobreza
do Tabernáculo de Sião, Davi compartilhou com Natã, o seu confidente pro-
fético, o desejo de construir um templo proporcional à majestade e glória do
seu Deus (2 Sm 7.1,2). Mas exatamente porque a estabilidade total ainda não
fora alcançada e Davi era homem de guerra (“Não edificarás casa ao meu nome;
porquanto muito sangue tens derramado na terra, perante a minha face”, 1 Cr
22.8), o privilégio de construir o templo foi reservado para o seu filho Salomão,
cujo nome significa “paz” (v. 9). 

Mas Davi não foi completamente excluído da transição do Tabernáculo
para o Templo, porque ele comprou o terreno no qual o Templo seria constru-
ído (1 Cr 21.18-27), indo tão longe quanto dar ao lugar o nome de “a Casa do 
SENHOR Deus” (22.1) como sinédoque para a realidade que ele esperava. Ali,
Davi construiu um altar no qual ofereceu holocaustos e ofertas pacíficas para
expiar o pecado de ter orgulhosamente enumerado os exércitos de Israel. Deus
reagiu a este ato de adoração, respondendo a Davi com “fogo do céu” (1 Cr
21.26) , um sinal pelo qual Ele sancionava não só os sacrifícios, mas também
essa jurisdição. Era óbvio que a eira de Araúna no monte Moriá foi o lugar no
qual a residência terrestre permanente de Deus tomaria forma.

Davi também tomou a iniciativa de providenciar a mão-de-obra e pre-
parar os materiais para a construção (1 Cr 22.5). A paz era iminente e agora
o Senhor poderia assumir o seu domicílio eterno (23.25). Privado de fazer o
trabalho da construção, Davi envolveu-se na concepção e execução do projeto
em todas as fases. O que devemos observar e enfatizar é que nenhum detalhe
do projeto surgiu da originalidade ou criatividade de Davi ou Salomão ou de
qualquer outro designer humano. O cronista foi insistente em mostrar que
Davi deu a Salomão “Entregou-lhe também as plantas de tudo o que o Espí-
rito havia posto em seu coração” (1 Cr 28.12, NVI). O próprio Davi disse ao
filho: “Tudo isso [os preparativos para construir o templo], disse Davi, por
escrito me deram a entender por mandado do SENHOR, a saber, todas as obras
deste risco” (1 Cr 28.19).

Antes que o conceito teológico do Templo como lugar santo receba mais
detalhes, é necessário tratarmos brevemente da significação dos templos no an-
tigo Oriente Próximo como pano de fundo para o papel que desempenhavam
no Antigo Testamento.  A palavra intra-semítica para referir-se a templo tem a
sua etimologia no vocábulo sumério E.GAL, um ideograma que significa “casa
grande”. Um templo era nada mais nada menos que a casa do deus que estava
associado a ele. Porém, até os sumérios reconheciam o caráter simbólico dos
templos, pois a literatura épica e mítica deixa claro que as deidades nativas eram
cósmicas e não materiais. O templo servia como foco no qual estava concentra-
do o aspecto espacial e imanente da relação divino-humana.

O termo acadiano para referir-se a templo é ekallu, o qual obviamente
foi tomado do sumério e traz o mesmo significado. O mesmo ocorre com o
vocábulo ugarítico (hkl), aramaico (hêkat), siríaco (hayklla), árabe (haikal) e,
claro, hebraico (hêkal). Em todos estes idiomas, a palavra em questão é usada
para descrever o palácio de um rei ou o templo de um deus. A diferença entre
palácio e templo está apenas em que o templo foi “santificado” ou “cultificado”
em virtude de estar associado com a deidade.

Infelizmente, para a Teologia Bíblica, esta distinção faz com que a maioria
dos estudiosos perca de vista o fato de que o Templo de Israel do Antigo Testa-
mento não era essencialmente um centro “religioso”, onde se faziam atividades
religiosas como sacrifício e adoração. Era a Casa do Senhor, o Palácio do grande 
Rei. que podia e devia ser visitado pelos súditos devotos.  Perder de vista este
ponto subestima a centralidade do concerto como princípio teológico funda-
mental. Quando entendemos que o Senhor redimira e fizera concerto com o
povo eleito, Israel, como um grande rei faz concerto com um vassalo, o papel do
Templo como foco da fé de Israel fica imediatamente evidente. E o palácio do
Soberano, o lugar para o qual eles fazem peregrinação periódica para prestar-lhe
lealdade e oferecer-lhe dádivas homenageantes. Visto sob esta ótica, o cuidado
com que até os detalhes minuciosos são revelados e executados fica extrema-
mente inteligível, pois como a expressão visível do Deus invisível, o Templo
com todas as suas formas e funções se torna um veículo revelador sublime do
caráter e propósitos do Todo-Poderoso.

Assim, questões como os pátios, os tesouros, as divisões sacerdotais e levi-
tas, os objetos de ouro e prata a serviço do Templo, os candelabros e a mobília e
até o “carro” ou querubim de ouro não são trivialidades sem sentido. Tratam-se
de objetos e lugares investidos de profunda verdade teológica, quer ou não essa
verdade sempre seja predita pelo homem moderno.

Salomão, plenamente ciente da significação hermenêutica do Templo,
também estava ciente de ser inapto para construí-lo sem ajuda externa. Con-
tratou os serviços dos fenícios, mundialmente célebres por serem especialistas
arquitetônicos e construtivos (2 Cr 2.6,7), sempre cuidadoso em assegurar que
as plantas e especificações divinas fossem seguidas à risca (v. 14). Este objetivo
foi alcançado, como mostra a reação do Senhor ao projeto concluído: “A casa se
encheu de uma nuvem, a saber, a Casa do SENHOR; [...] porque a glória do SE-
NHOR encheu a Casa de Deus” (5.13,14). Ele ficou contente com a obediência
do rei e do povo e demonstrou seu prazer escolhendo-o como lugar de sacrifício
(7.12), um lugar onde o seu nome habitaria para sempre (v. 16).

Por fim, não podemos negligenciar a própria Jerusalém como lugar santo,
pois da mesma maneira que o Templo abrigava a Arca, assim Jerusalém era a
casa do Templo. Por isso, recebeu para sempre a designação de “Cidade Santa”.
Embora a cidade, desde a antiguidade, fosse um enclave cananeu ou jebuseu,
caiu sob o ataque de Davi. Ele quis tirar proveito da neutralidade entre Israel e
Judá, tornado-a sede do governo. Suas razões poderiam ter sido políticas e em
causa própria, mas a escolha não ocorreu sem a sanção divina e até sem a previ-
são divina. Mil anos antes de Davi, Abraão se encontrara com Melquisedeque,
rei de Salém (Jerusalém) e sacerdote de El Elyon (Gn 14.18), e lhe oferecera
tributo. Davi se viu como sucessor de Melquisedeque em Jerusalém, como rei
(SI 110.1,2) e como sacerdote da mesma ordem não-arônica (SI 110.4).

Levando em conta esta preparação de Jerusalém como lugar santo, não é
surpreendente que Salomão repetisse as palavras do Senhor: “Escolhi Jerusalém 
para que ali estivesse o meu nome; e escolhi Davi, para que tivesse cargo do
meu povo de Israel” (2 Cr 6.6). O cronista confirmou esta escolha de Jerusalém
como a cidade do Senhor, quando se referiu a ela como “a cidade que o SENHOR
escolheu dentre todas as tribos de Israel, para pôr ali o seu nome” (12.13). Da
Arca Santa à Cidade Santa, o Senhor concentrou a sua presença entre o povo em
lugares circunscritos, tornados santos, porque era ali e em nenhum outro lugar
que Ele se reservara.

O reino em sua forma de culto também se expressa em dias santos, oca-
siões declaradas quando o povo de Deus o encontra para celebrar e adorar.
Isto dá a entender que Ele é não só o Senhor do espaço (por conseguinte, dos
lugares santos), mas também o Senhor do tempo. Em termos mais amplos, o
Deus de Israel era o soberano da historia universal, não só da nação eleita, mas
também de todas as nações. Mais estreitamente, Ele estava indissoluvelmente
associado com os anos, os meses, as semanas e os dias. Os ciclos sazonais, as
fases da lua e o nascente e o poente do sol eram símbolos do seu interesse
incansável na criação e falava do seu domínio sobre a natureza e todos os seus
processos.

Crônicas pressupõe este aspecto do culto, um aspecto detalhado completa-
mente na Torá (Êx 23.14-17; 34.18-24; Lv 23.1 -44; Nm 28.1 -29.40; Dt 16.1 -17).
O calendário sagrado é tratado em apenas uma passagem: 1 Crônicas 23.30,31.
Davi instruiu que os levitas observassem os serviços diarios de ação de graças e
louvor como também os sábados, as festas da lúa nova e as festas estipuladas.

Estas práticas não foram cumpridas fielmente nos anos consequentes, como está
claro pelas narrativas da reforma nas quais o povo era chamado repetidamente
à observância dos tempos santos. Particularmente destacáveis foram os esforços
de Ezequias e Josias, os quais centraram os reavivamentos religiosos na Páscoa,
a festa que primeiro marcou Israel como recebedor eleito do favor do concerto
do Senhor. Após a Páscoa de Ezequias, ele reafirmou o ministério dos levitas,
incluindo a participação deles nas festas regulares (2 Cr 31.2,3). Foi a negligência
destas observâncias que o cronista, citando Jeremias, estipulou como a razão para
o cativeiro de 70 anos de Judá. Porque a terra não desfrutara dos sábados como
prescrevia a lei do concerto, assim descansaria depois que o povo do concerto fosse
desarraigado dela e enviado para uma terra distante (36.21).

O aspecto final da forma do reino relacionada ao culto tem a ver com o
povo santo, os indivíduos separados para administrar os assuntos religiosos da
comunidade do concerto. Eram os sacerdotes e levitas e, de certo modo especial-
mente enfatizado em Crônicas, a realeza davídica.

Da mesma maneira que os lugares santos mediavam o céu e a Terra, o povo
santo tem de mediar um Deus sem pecado e uma humanidade pecadora e caída. E
o que se evidencia pelas descrições iniciais da inauguração e função do sacerdócio
de Israel. Assim que o concerto fora claramente efetivado no Sinai e suas estipu-
lações delineadas, Moisés recebeu instrução sobre o Tabernáculo e a mobília (Êx
25.1- 27.21). Imediatamente depois disso, Arão e seus quatro filhos foram esco- 
iludos, vestidos com as roupas indicativas da vocação sacerdotal e consagrados
ao ofício santo (28.1-29.46). O Senhor informou a Moisés que eles tinham de
administrarem o ofício sacerdotal” (28.1,4), um serviço que incluía levar os
homens das tribos de Israel nos ombros (v. 12) e sobre o coração (v. 29), de forma
que pudessem, pelo menos como sumo sacerdote, determinar a vontade de Deus
para o povo.

Os sacerdotes também intercediam na apresentação das ofertas do povo ao
Senhor. Quer estas dádivas fossem animais ou produtos agrícolas, o sacerdote os
aceitava em nome do Senhor e os colocava no altar, ou dava outro fim conforme
ditasse a ocasião (cf. Lv 1.1-7.37).

O terceiro ministério fundamental do sacerdócio consistia no ensino da
Torá para a comunidade. Isto está claramente explicado em Deuteronômio,
onde Moisés ordenou que os sacerdotes lessem esta lei para o povo com estes
propósitos: Para que “ouçam, e aprendam, e temam ao SENHOR, VOSSO Deus, e
tenham cuidado de fazer todas as palavras desta Lei” (Dt 31.11,12). O Senhor
destacou esta ordem formal nas bênçãos para a tribo de Levi, onde dissera acer-
ca dos sacerdotes: “Ensinaram os teus juízos a Jacó e a tua lei a Israel; levaram
incenso ao teu nariz e o holocausto sobre o teu altar” (Dt 33.10).

Como já sugerido, Crônicas interessa-se muito mais com a religião e insti-
tuições religiosas de Israel como veículos pelos quais o seu papel mediador entre
as nações seja articulado. O ministério crítico dos sacerdotes e levitas como
parte do aparato relativo ao culto é evidente desde o começo do trabalho do
cronista, quando ele dedicou um longo capítulo (1 Cr 6) para este assunto.

Para primeiro estabelecer a legitimidade do sacerdócio de Zadoque para os
seus contemporâneos, o cronista traçou a sua genealogia por Zadoque, Eleazar
e Arão chegando ao próprio Levi (1 Cr 6.1-15).  Concluiu a lista com Jeozada-
que, o sacerdote que acompanhou os exilados para a Babilônia e que também
era antepassado direto de Josué, o sumo sacerdote dos tempos pós-exílicos (Zc
6.11). O exílio, por mais traumático que fosse, não exterminou com o antigo
sacerdócio arônico.

A seção seguinte da genealogia (1 Cr 6.16-30) começa novamente com
Levi, mas traça os descendentes não-sacerdotais, quer dizer, os levitas. As tarefas
eram multifacetadas, mas primariamente consistiam em ajudar os sacerdotes na
obra de mediação. Especificamente, tomavam conta da música no Tabernáculo
e no Templo (w. 31-48) e, com a exceção de fazer ofertas nos altares (w. 48-53),
ocupavam-se com a adoração na Casa do Senhor. Para tornarem-se acessíveis a
toda população de Israel, os levitas se instalaram em cidades e aldeias estrategi-
camente localizadas ao longo da nação (w. 54-81). Desta forma, o lugar santo e
o povo santo estão justapostos mais uma vez. 

Quando Davi se tornou rei e fez preparativos para a centralização da ado-
ração em Jerusalém, ordenou que os sacerdotes e levitas se consagrassem à tarefa
de transportar a Arca para Jerusalém, tarefa que tinha de seguir o regulamento
mosaico explicitamente (1 Cr 15.11-15; cf. Ex 25.14). Designou os cantores
levitas de acordo com as suas ordens (1 Cr 15.16-24), definindo o ministério
nos termos de fazer petição, dar graças e louvar ao Senhor (16.4-6). Na véspera
de construir o Templo, Davi organizou os levitas para supervisionar a obra do
Templo (23.4), servir como oficiais e juizes (v. 4), ser porteiros (v. 5) e louvar
ao Senhor na música (v. 5). Em suma, “o seu cargo era de estar ao mandado dos
filhos de Arão no ministério da Casa do SENHOR” (V. 28).

Os sacerdotes e levitas desempenharam obviamente papel importante na
vida de Israel relacionada ao culto, servindo como fizeram, dentro do contexto
do concerto sinaítico, como mediadores entre a nação vassala e o grande Rei. O
que não devemos esquecer é de que este ministério era restrito àquele concerto
e àquela nação, ainda que vejamos lições sobre a santidade e intercessão de
aplicação eterna.

Este não é o caso com o segundo tipo de pessoa santa, o rei, como ele é
revelado em Crônicas em seu duplo papel de sacerdote e filho de Deus. Crô-
nicas faz contribuição incomum para a Teologia Bíblica exatamente nestes
conceitos. Como este estudo repetidamente argumentou, a Teologia Bíblica
se integra de forma muito clara e consistente em torno do tema da sobera-
nia, que o Senhor está sobre toda a criação e que o homem, seu vice-regente,
sobre todas as coisas delegadas a ele. Disso se deriva que o domínio, embora
prejudicado pela queda, ainda está em vigor e alcançará total perfeição nas
eras vindouras.

Enquanto isso, na história humana, o Senhor elegeu uma nação, Israel,
para mediar os seus propósitos salvadores ao mundo e fornecer um modelo
de soberania na Terra. Abraão foi chamado e recebeu a promessa de que, pelo
seu descendente, toda a Terra seria abençoada. Uma promessa adicional era
que ele geraria reis, uma promessa estreitada na bênção de Jacó acerca de um
rei que viria da tribo de Judá. Ciente desta linha de expectativa, o cronista fez
a conexão direta entre Adão e Abraão e entre Abraão e Davi, com o propósi-
to de mostrar que Davi e sua casa real eram a expressão física e histórica do
mandato do domínio dado a Adão e canalizado por Abraão e sua semente. O
rei de Israel era mais que mero personagem político; era o regente messiânico
que atuava como segundo Adão em domínio sobre todas as coisas, mas que,
porque era humano, também atuava como tipo de predição daquEle que não
pecou, o qual culminaria e completaria a linhagem de Davi. 

Como tal rei, Davi era intercessor e sacerdote, mas não limitado a Israel e
à linhagem arônica. Era da linhagem de Melquisedeque, sacerdote de El Elyon, 
que, enfatiza o autor de Hebreus, era “sem pai, sem mãe, sem genealogia, não
tendo princípio de dias nem fim de vida”, alguém que, “semelhante ao Filho de
Deus, permanece sacerdote para sempre” (Hb 7.3).  Era o que o próprio Davi
entendia de si, quando, referindo-se a ele mesmo, escreveu: “Jurou o SENHOR e
não se arrependerá: Tu és um sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquise-
deque” (SI 110.4).

Esta reivindicação extravagante tem confirmação e ilustração abun-
dantes nas narrativas do reinado de Davi, particularmente em Crônicas. A
primeira atestação aparece com relação à transferência da Arca de Quiriate-
Jearim para Jerusalém. Conduzindo a comitiva está o próprio Davi: “Ia ves-
tido de um roupão de linho fino, como também todos os levitas que levavam
a arca” (1 Cr 15.27). Usava sobre isso o éfode de linho, uma roupa reservada
somente ao sumo sacerdote arônico (v. 27). Considerando que ele não era de
Levi, mas de Judá, Davi não podia estar usando as vestimentas do sacerdócio
levita. Portanto, o seu sacerdócio era de tipo diferente (cf. Hb 7.11-17). 

Assim que instalou a Arca no Tabernáculo de Sião, Davi sacrificou holo-
caustos e ofertas pacíficas, rito reservado ao sacerdócio, e deu para o povo uma
bênção sacerdotal (1 Cr 16.1,2). Só como um sacerdote o rei se qualificaria para
cumprir essas funções.

Que este ofício de sacerdócio real era transmissível por Davi é evidente no
ministério intercessor de Salomão, seu filho. Depois de terminar a construção
do Templo e este ter sido envolvido com a presença gloriosa do Senhor, Salo-
mão ofereceu holocaustos e ofertas pacíficas (2 Cr 7.7). Estas não foram ofertas
sancionadas por ele ou oferecidas a seu favor, mas, como mostra a sua liderança
da convocação religiosa (5.2-7.10), o próprio Salomão estava participando e
cumprindo-o em uma função sacerdotal.

Apoio negativo para o conceito de sacerdócio real consta na história de
Uzias (2 Cr 26.16-20). Tendo ficado grandioso, ele arrogou para si as prerroga-
tivas sacerdotais que eram exclusivamente do domínio dos sacerdotes arônicos e
entrou no Templo para queimar incenso. Enquanto estava no ato, o sumo sacer-
dote Azarias o confrontou, repreendendo-o por usurpar o ministério reservado
ao sacerdócio levita.  “A ti, Uzias, não compete queimar incenso perante o Se-
NHOR”, advertiu Azarias. “Mas aos sacerdotes, filhos de Arão, que são consagra-
dos para queimar incenso.” A identificação dos sacerdotes como descendentes
de Arão pressupõe outra ordem sacerdotal para a qual o próprio Uzias pertencia.
O pecado não era por atuar como sacerdote, mas por intrometer-se no domínio
dos sacerdotes de Israel. 

A descrição que o cronista faz de Davi e sua dinastia como filhos de Deus é
ainda mais impressionante. Esta metáfora ousada está de acordo com a conexão
entre Davi e Melquisedeque conforme estabelecido no Salmo 110, e com o fato
de que aquele salmo de Davi declara explicitamente: “Disse o SENHOR ao meu
Senhor [ou seja, Davi]: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus
inimigos por escabelo dos teus pés” (SI 110.1).

Quando vemos esta linguagem sublime levando em conta outro salmo de
Davi (SI 2) fica bastante evidente que o rei sacerdotal não é diferente do Filho de
Deus.33 As linhas pertinentes dizem: “O SENHOR me disse: Tu és meu Filho; eu
hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança e os confins da terra
por tua possessão” (SI 2.7b,8).

Lógico que isto se refere à filiação adotiva, como concorda a maioria dos
estudiosos. Mas se ajusta muito bem àquEle que um dia seria o Filho de Deus
em carne humana, o maior descendente de Davi. Os textos narrativos do Antigo
Testamento nunca descrevem Davi como o filho de Deus, mas Crônicas descreve
Salomão nesses termos. Discutindo com o filho os projetos para o Templo, Davi
disse a Salomão, falando para o Senhor: “Ele [Salomão] me será por filho, e eu a
ele por pai” (1 Cr 22.10). A mesma declaração ocorre em 1 Crônicas 28.6.

Por fim, pode haver indicação de filiação divina na reação dos israelitas na
ocasião em que Davi lhes apresentou Salomão como sucessor. O registro declara
que eles louvaram ao Senhor, Deus dos seus pais, e “inclinaram-se e prostraram-se
perante o SENHOR e perante o rei” (1 Cr 29.20). Esta ligação incomum do Senhor
e do rei como sujeitos à homenagem sugere mais que realeza comum entre eles.34
Já se propôs que a teologia de Crônicas focaliza a monarquia davídica
como expressão teocrática dos propósitos eletivos e redentores soberanos de
Deus para o seu povo e, no final das contas, para todas as nações. Esta tese
programática inicial encontra confirmação abundante no papel de Davi e da
dinastia davídica como sacerdote e filho de Deus. E certamente de interesse
que Jesus Cristo, descendente e herdeiro de Davi, também seja revelado como o
sacerdote real e o Filho de Deus (Hb 5.1-10).

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.