10 de fevereiro de 2014

Eugene H. Merrill - Uma teologia de Crônicas: A Escritura do Reino (Parte 1)

Nas últimas décadas, a ideia de concerto tomou-se o assunto de muita discussão
bíblica e teológica. Certos estudiosos centraram a teologia no concerto, um centro
que, embora tendo muito a seu favor, é muito estreito para servir como o fulcro no
qual toda a matéria bíblica seja mais bem integrada e entendida. O problema é que
viram o concerto como a essência da obra e testemunho de Deus no mundo, em vez de
vê-lo como o instrumento pelo qual Ele começa a atingir os objetivos da criação. Quer
dizer, é melhor ver o concerto em termos funcionais e não em termos essenciais. 

A tese já proposta é que o tema ou o centro teológico de Crônicas é a so-
berania de Deus revelada através da monarquia davídica nos tempos veterotes-

tamentários. A centralidade da soberania divina e seu corolário, a criação como
a arena de domínio, é evidente ao longo da Bíblia. E esta bipolaridade do Rei e
do reino que precisa ser levado em conta na relacionamento, pois o Rei deve ter
no lugar certo um aparato pelo qual Ele revela as suas intenções e por meio do
qual elas são efetuadas. O concerto é esse aparato.

A história do concerto se origina na criação.  Deus criou todas as coisas e
depois fez o homem para ser a sua imagem, dando-lhe o seguinte encargo: “Fru- 
tificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes
do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra”
(Gn 1.28). O pecado afetou drasticamente a capacidade de o homem cumprir este
mandato ou concerto da criação, mas não houve rescisão, como comprova a sua
repetição a Noé antes (6.18) e depois do Dilúvio (9.1-7). A Queda, porém, exigia
uma solução para o dilema resultante. Como um Deus santo reinaria sobre todas
as coisas, particularmente caídas, por meio de um vassalo humano que também
era caído? A resposta está na promessa de expiação por aquEle cuja perfeição pode
mais do que expiar os pecados da humanidade para todo o sempre. O programa
de redenção foi implementado e por meio de uma série de arranjos do concerto
tornou-se eficaz para todos os que se beneficiassem dele.

Os propósitos reinantes e salvadores de Deus são inextricáveis e mutu-
amente dependentes. Deus criou o homem para ter domínio, mas o pecado
tornou isso impossível. Deus iniciou um meio de salvação pelo qual o homem
pudesse ser restabelecido à sua posição para cumprir o concerto. A salvação é o
pré-requisito para reinar, mas não lhe é equivalente. Ela é o meio de alcançar a
soberania para qual o homem, no princípio, foi criado.

E crucial que entendamos estas distinções e relações, pois caso contrário a
linha relacionada ao concerto da Teologia Bíblica perde sua significação. Tem de
abranger ambos os aspectos — reinado e redenção — para que seja corretamente
avaliado. Este dado ficou claro primeiramente na chamada de Abraão para o ser-
viço do concerto. A faceta do domínio está expressa na promessa: “Far-te-ei uma
grande nação, e abençoar-te-ei” (Gn 12.2), e a palavra salvadora consta na seqü-
ência: “Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem;
e em ti serão benditas todas as famílias da terra” (12.3). Abraão produziria um
reino, uma nação que se tornaria o canal da obra salvadora de Deus no mundo.

Em detalhes crescentes, o Senhor continuou revelando estas promessas de
nacionalidade e intercessão salvadora. A terra do reino seria Canaã (Gn 15.18-
21), e os governantes do reino seriam os reis descendentes de Abraão (17.5-8), reis
cujo reinado não teria fim. Como símbolos da fidelidade, o Senhor repetiu as ga-
rantias do concerto a Isaque (26.3-5) e a Jacó (28.13-15; 35.11-13; 46.3,4). Para
este último, ocorreu, nos termos mais explícitos, a promessa de que o futuro reino
acharia sua orientação no filho Judá, pois desta tribo sairia o rei por excelência:

O cetro não se arredará de Judá,
nem o legislador dentre seus pés,
até que venha Siló;
e a ele se congregarão os povos.
(Gn 49.10)

O propósito do concerto sinaítico era cumprir a promessa aos patriarcas
concernente a uma nação e dar um reino sobre o qual o soberano judeu reinasse.
É importante observar que a eleição e a redenção dessa nação (Israel) não foi 
por causa da nação em si. Foi com a finalidade de criar um povo que modelasse
entre os reinos da Terra o que significava ser o domínio do Senhor e que servis-
se de canal pelo qual a salvação fosse mediada a esses reinos. O papel de Israel
era duplo, paradigmático e redentor. É por isso que o concerto mosaico era
do tipo condicional entre soberano e vassalo e não do tipo feito com Abraão,
isto é, um acordo real incondicional. Contanto que Israel desempenhasse o seu
mandato do concerto fielmente, ele continuaria existindo e sendo abençoado.
Se e quando não fizesse assim, Deus poderia antecipar o término do seu papel
e benefícios. Seja como for, os propósitos reinantes e salvadores do Senhor con-
tinuariam incólumes, pois o que a nação não fizesse coletivamente na história
seria feito individualmente por seu maior descendente e com repercussões eter-
nas. Assim, o servo Israel e o Servo Messias encontram harmonização perfeita
em Isaías.19 O que Israel não fizesse como luz para as nações, o Messias realizaria
pelo seu sofrimento e morte vicária.

Embora Crônicas não tenha praticamente nada a dizer sobre o concerto
mosaico, é importante dizer que não podemos entender a monarquia davídica,
tão central à teologia de Crônicas, sem o reconhecimento de que, afinal de con-
tas, Davi e a sua dinastia reinaram sobre a nação que existia por meio do con-
certo mosaico. E necessário fazermos essa conexão entre os concertos do Sinai e
Moabe e aquilo que criou a monarquia davídica.

Tendo lembrado da promessa aos pais patriarcais, o Senhor tratou dos so-
frimentos da descendência deles no Egito (Ex 2.23-25; 3.7-10,15-17) e prome-
teu tirá-los de lá (6.6-8), promessa que resultou na libertação poderosa feita no
êxodo. Esta ação, que não fez de Israel o povo do Senhor, mas só confirmou esse
estado, levou-o ao momento crucial da oferta do concerto, no qual o Senhor
convidou o povo redimido a tornar-se o instrumento pelo qual Ele mostraria as
suas intenções reinantes e salvíficas perante toda a Terra:

Vós tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de águias, e vos trouxe a
mim; agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes o meu concerto,
então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é
minha. E vós me sereis reino sacerdotal e povo santo.
(Êx 19.4-6)

A aceitação desta oferta colocou Israel nos papéis duplos de modelo e me-
diador, um papel cuja função prática foi regulamentada pelo instrumento do
concerto com todos os seus princípios e estipulações. Os Dez Mandamentos, o
livro do concerto (Êx 20.22-23.33), as leis cerimoniais e relacionadas ao culto
(Ex 24-40; Levítico; grande parte de Números) e a reafirmação do concerto nas
planícies de Moabe (Deuteronômio) formam o corpo legislativo do concerto
designado a orientar a nação-servo na tarefa de representar o Soberano e mediar
a graça divina. Não menos importante entre as provisões estava a da realeza. Em 
Deuteronômio, Moisés instruiu a nação que, quando chegasse o tempo para ha-
ver um rei, “porás, certamente, sobre ti como rei aquele que escolher o SENHOR,
teu Deus; dentre teus irmãos porás rei sobre” (Dt 17.15). Ele deve prestar aten-
ção cuidadosa aos termos do concerto nacional, “para que prolongue os dias no
seu reino, ele e seus filhos no meio de Israel” (17.19,20).

Este Rei é mais especificamente identificado no Oráculo de Balaão como
uma estrela que sairá de Jacó, um cetro de Israel, aquEle que guiará Israel à
grande potência às custas dos inimigos (Nm 24.17-19). A justaposição desta
passagem com a bênção de Jacó (Gn 49.10) torna certo que a estrela conquista-
dora tem de subir de Judá. De Moisés a Samuel, então, o povo do concerto es-
perava o seu rei, um regente humano que teria na mão o cetro do Rei dos reis.
Com este cenário e história do concerto em vista, agora é necessário olhar-
mos o concerto da realeza em Crônicas, um concerto que serve como a escritura
para a administração davídica.

A FONTE DO CONCERTO

Como declarado repetidamente, o cronista deu pouca atenção ao concerto
que trouxe a nação de Israel à existência. O que lhe interessava era a monarquia
davídica e as suas origens históricas e teológicas. Pelo fato de o concerto que
estabeleceu a monarquia ter suas raízes nas promessas aos pais, Crônicas retorna
a essa era para descrever a fonte do concerto.

As genealogias de 1 Crônicas 1 a 9, como já comentado, começa com
Adão, o fundador da raça humana e o recebedor do mandato do concerto ori-
ginal para ter domínio sobre todas as coisas. E óbvio que o cronista quis fazer
a conexão entre Adão, o primeiro “rei”, e Davi, o epítome da realeza terrestre
e humana. Davi poderia ter sido rei de Judá, mas era descendente direto do
homem primitivo e representava um domínio que transcendeu os estreitos
perímetros de Judá ou de qualquer nação. Poderíamos dizer que Davi era o rei
de todo o mundo já que ele remonta a linhagem de volta ao rei do mundo.
O alargamento (e ao mesmo tempo, estreitamento cada vez maior) da
descendência de Adão não deixa dúvida de que o prisma da história mundial
concentrou todos os focos no filho de Jessé. Noé, o “segundo Adão”, gerou
três filhos, um dos quais, Sem, foi separado dos outros dois como exemplo da
estratégia eletiva de Deus. Os semitas, então, devem ter o nome do Senhor (Gn
9.26) . A décima geração de Sem era formada pelos três filhos de Tera — Abrão,
Naor e Harã — dentre os quais somente um, Abrão, foi escolhido. Este pai dos
hebreus passou as promessas do concerto apenas para um filho, Isaque, que
as passou para somente um dos seus filhos, Jacó. Finalmente, a configuração
nacional estava adequada, mas era uma nação de doze tribos, grupos de clãs e
milhares de famílias. O processo de estreitamento tinha de continuar até que
uma família e um membro dessa família fosse escolhido e separado.

O cronista não desperdiçou tempo para chegar ao objetivo, pois já no
segundo capítulo ele identificou Judá como a tribo em questão. Judá teve três 
filhos sobreviventes, um dos quais (Perez) continuou a linhagem do concerto.
A décima geração de Perez completou-se não em três, mas em sete filhos da
família do belemita Jessé. O último destes, o jovem Davi, provou que era o
tão esperado rei, embora sua conveniência não fosse nada aparente. E apenas
pelo fato de o Senhor olhar para o coração (1 Sm 16.7) que Samuel pôde dizer:
“Levanta-te e unge-o, porque este mesmo é” (16.12).

O próprio Davi estava cônscio de que ele se situava na tradição do concer-
to. Na ocasião da recuperação da arca e da comitiva a Jerusalém, ele relembrou
as promessas aos pais de lhes dar Canaã (1 Cr 16.14-18). No mesmo Salmo de
ação de graças, ele chamou a atenção para a soberania da realeza do Senhor, seu
Deus (v. 31), dando a entender o seu papel como rei. A ligação entre as promes-
sas antigas e a realeza atual (para ele) é articulada com mais vigor na oração de
Davi, na qual ele se dirigiu ao Senhor por “Deus de nossos pais Abraão, Isaque
e Israel” e o invocou para dar ao filho Salomão o requisito da dedicação para um
reinado de sucesso (29.18,19).

A consciência de Davi ser o objeto da graça eletiva especial e particular
está relatada na declaração incisivamente corajosa dita aos oficiais reunidos: “O
SENHOR, Deus de Israel, escolheu-me de toda a casa de meu pai, para que eter-
namente fosse rei sobre Israel; porque a Judá escolheu por príncipe, e a casa de
meu pai, na casa de Judá; e entre os filhos de meu pai se agradou de mim para
me fazer rei sobre todo o Israel” (1 Cr 28.4). Esta escolha, disse ele mais tarde,
também estendia-se ao filho Salomão (29.1), fato que até a pagã rainha de sabá
reconheceu (2 Cr 9.8). Abias, filho de Roboão (e, portanto, bisneto de Davi),
declarou sem rodeios que o Senhor dera a realeza de Israel a Davi e aos seus
descendentes para sempre (13.5).

O próprio cronista concordava com esta noção da eleição de Davi e da per-
petuidade da sucessão dinástica. E o que vemos muito bem no seu comentário
feito mais de 130 anos depois da morte de Davi e apesar do mau reinado de
Jeorão de Judá: “Porém o SENHOR não quis destruir a casa de Davi, em atenção
ao concerto que tinha feito com Davi, e porque também tinha dito que lhe daria
por todos os dias uma lâmpada, a ele e a seus filhos” (2 Cr 21.7). Até mesmo
na época em que a linhagem dinástica esteve mais fraca por ter Atalia matado
toda a família real de Judá, o bebê Joás foi preservado, porque, como o sacerdote
Joiada afirmou: “Eis que o filho do rei reinará, como o SENHOR falou a respeito
dos filhos de Davi” (23.3).

A NATUREZA DO CONCERTO

Pelo visto, têm razão os estudiosos que identificam a forma criticamente
do concerto davídico como tratado real semelhante ao concerto abraâmico.20 A
narrativa que descreve Davi sendo escolhido pelo Senhor e sendo ungido por 
Samuel (1 Sm 16.1-13) não deixa dúvida de que Davi se tornou rei por ato de
pura graça e sem condições expressas ou pressupostas. O Senhor rejeitara Saul e,
nas palavras de Samuel, procurara “para si um homem segundo o seu coração e
já lhe tem ordenado o SENHOR que seja chefe sobre o seu povo” (13.14). Esse
homem era um dos filhos de Jessé, no princípio não mencionado a Samuel, mas
descrito a ele como escolhido por Deus (16.1). Em nenhuma parte da narrativa
ou em qualquer outro texto da literatura bíblica, a monarquia de Davi é vista
sob outra luz que não como dádiva imerecida e incondicional de Deus para ele
e seus descendentes para sempre.

Em Crônicas, a informação mais importante relativa à natureza do concer-
to está, claro, na revelação dada a Natã, na qual o concerto davídico é explicado
(1 Cr 17.4-14). O Senhor aqui diz que Ele tirara Davi “do curral, de detrás das
ovelhas”, para que fosse “chefe” do “povo de Israel” (v. 7). Não há indicação
de recompensa ou condicionalidade. Ao longo dos anos do reinado de Davi o
Senhor confirmara dando-lhe vitória e sucesso. E, em culminante penhor glo-
rioso, o Senhor jurou ao servo Davi: “Há de ser que, quando forem cumpridos
os teus dias, para ires a teus pais, suscitarei a tua semente depois de ti, a qual
será dos teus filhos, e confirmarei o seu reino. Este me edificará casa; e eu con-
firmarei o seu trono para sempre. [...] [Eu] o confirmarei na minha casa e no
meu reino para sempre, e o seu trono será firme para sempre” (w. 11-14). É vã
nossa procura que não seja por uma declaração direta da graça, um benefício
concedido só por iniciativa divina.

Embora haja pouca disputa sobre o concerto com Davi ser incondicional
em sua concessão e em sua perpetuidade, os benefícios desse concerto para Davi
e para a nação dependiam da obediência aos termos do concerto mosaico dentro
do qual a monarquia operava.  Neste aspecto, e só neste aspecto, o concerto
davídico era condicional.

O próprio Davi deixou este ponto claro para Salomão quando lhe prome-
teu: “Então, prosperarás, se tiveres cuidado de fazer os estatutos e os juízos, que
o SENHOR mandou a Moisés acerca de Israel” (1 Cr 22.13). Logo depois disso,
dirigiu-se aos oficiais da nação e disse-lhes que o reino de Salomão duraria para
sempre, contanto que Salomão perseverasse em cumprir os mandamentos e os
juízos de Deus (28.7). Poderíamos propor que só a continuação da nação, e não
da monarquia, está em jogo aqui. Mas Davi, dirigindo-se a Salomão, disse: “Se
o deixares a [Deus], rejeitar-te-á para sempre” (v. 9).

A permanência da nação como modelo e mediador é condicionada pela
obediência. Isto está óbvio pelo fato de que o concerto, feito com Israel no
Sinai, era do tipo entre soberano e vassalo e, portanto, inerentemente condi-
cional. O que dizer, entretanto, da possibilidade da interrupção da monarquia
davídica, levando em conta os argumentos previamente propostos que é unila-
teral e incondicional? A resposta está indubitavelmente no pronome singular. A 
advertência não é para a dinastia como um todo, mas só para Salomão. A obedi-
ência ao Senhor trará sucesso, mas a desobediência resultará em rejeição pessoal
e em julgamento sobre o seu reino (cf. 2 Cr 7.19,20). A realeza sobreviverá e
continuará existindo para sempre. 

Mais adiante, a prova da contingência das bênçãos com a obediência po-
dem ser vistas nas narrativas históricas de Crônicas em que o autor constante-
mente faz esta observação. O profeta Azarias foi a Asa, por exemplo, para lhe
dizer que se ele abandonasse o Senhor, o Senhor o abandonaria (2 Cr 15.2). O
Senhor estava com Josafá, escreveu o cronista, porque ele “buscou ao Deus de
seu pai e andou nos seus mandamentos” (17.4). Nos seus dias, o sacerdote Zaca-
rias advertiu o povo de que o Senhor os abandonara, porque eles o abandonaram
(24.20). Enquanto Uzias buscou ao Senhor, assim escreveu o historiador, “Deus
o fez prosperar” (26.5). O mesmo tipo de elogio e reprimenda salpicam as pági-
nas do registro inspirado (cf. 2 Cr 27.6; 28.6,9; 29.6-9; 33.8; 34.24-27).


ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.