4 de fevereiro de 2014

Eugene H. Merrill - Uma teologia de Crônicas: O povo do Reino

Na teologia de Crônicas, o povo do reino é restrito e precisamente definido
— eram os cidadãos de Israel, a comunidade teocrática. Até mais particular-
mente, eram os súditos da monarquia davídica, a entidade eleita e comissionada
para modelar e mediar a soberania de Deus sobre toda a criação. Como um
reino de sacerdotes chamados para aquela tarefa, as suas estruturas políticas e
relacionadas ao culto serviam para regular a plenitude da vida nacional diante
do Senhor, e para articular como todos os homens, em consequência desse tes-
temunho, deveriam se portar como criaturas de Deus. Não dá para entender
a teologia de Crônicas sem entender a centralidade da adoração e seu aparato

formal à vida do povo teocrático.

Por outro lado, Israel não existia em um vazio, sem raízes ou referência à his-
tória universal. Era o encargo do cronista ligar a nação eleita à criação e à história
de tal modo como para mostrar que a monarquia davídica não era uma reflexão
tardia improvisada no propósito de Deus pertinente ao reino. Pelo contrário, era a
expressão, há muito prometida, das intenções salvíficas de Deus pela criação caída 
e alienada. O homem foi criado para ser a imagem de Deus e nessa função ter do-
mínio sobre todas as coisas. A paralisação desse mandato por causa da rebelião do
homem exigiu um ato poderoso de expiação e redenção, algo de efeito suficiente
para restabelecer os propósitos primitivos de Deus. Assim, pôs-se em movimento
a história da salvação, uma história que nos tempos do Antigo Testamentos previa
o ato de expiação e que em Cristo e no evangelho viram a sua concretização.

O foco da salvação e soberania no Antigo Testamento é Davi e a dinastia
davídica.  Abraão, chamado para ser o pai de um povo que abençoaria a Terra
inteira, compreendeu que ele geraria reis, na verdade, uma nação de reis. Estes
vieram a ser circunscritos em Israel (a nação escolhida) e compendiados em
Davi (o primeiro rei legítimo de Israel) e na linhagem que o seguiu, culminando
naquEle Filho que reinará para sempre. Agora é necessário vermos como Crôni-
cas estabelece estas linhas de conexão.

A ORIGEM DA NAÇÃO

O livro de Crônicas começa com uma coleção de genealogias cujo pro-
pósito é fornecer as interligações próprias sugeridas acima. A solidariedade da
raça humana e o lugar de Israel dentro disso é evidente já na primeira lista, que
relaciona o gênero humano de Adão aos três filhos de Noé: Sem, Cão e Jafé (1
Cr 1.1-4).  Depois, a atenção é fixada nos semitas, em um dos seus membros,
Héber, que dá o nome à descendência de Abraão, isto é, os hebreus. A linhagem
de Sem culmina com Abraão (w. 17-27), em quem se origina a semente que
será o canal de bênção universal. E neste momento, então, que um descendente
da raça é escolhido para mediar a graça ao restante da raça.

A transmissão da promessa de uma nação e realeza passa por Isaque e vai
para Jacó (ou Israel como o cronista quase sempre o chama). É óbvio que o
cronista tinha um interesse teológico especial na organização dos dados, por-
que ele concentrou-se imediatamente em Judá, o quarto filho de Israel (1 Cr
2.3—4.23), e depois em Simeão (4.24-43), a tribo que se afiliou a Judá para
compor o reino davídico. 

A ORIGEM DA MONARQUIA

Depois de uma listagem mais superficial dos filhos de Israel (1 Cr 2.1,2),
o autor se concentra em Judá e seus descendentes e, no espaço de 12 versícu-
los, chega a Davi (w. 3-15). E evidente que ele estava ansioso para estabelecer 
a conexão entre a tribo escolhida (cf. 5.2) e o “um homem segundo o [...] co-
ração [de Deus]” (1 Sm 13.14). Não é a nação de Israel que é importante para
ele, mas o seu rei e o seu descendente real. Como a genealogia de Rute 4.18-
21, esta de 1 Crônicas 2.3-17 evita referência a Moisés e ao concerto sinaítico,
que fizeram de Israel uma entidade nacional.  As duas listas fazem a conexão
entre a tribo, de quem Jacó pouco antes de morrer prometeu o cetro da realeza
(Gn 49.10), e o soberano que regeria o povo de Deus sob sua influência.

A interligação não está completa só em Davi, como vemos claramente
pela genealogia de 1 Crônicas 3.1-24, que lista todos os seus sucessores dinás-
ticos no tempo do exílio babilónico em diante. De fato, como a promessa do
concerto a Davi deixa evidente, o trono do seu descendente real será ocupado
para sempre (17.14). O domínio que emana dele é perpétuo (2 Cr 13.5).

Dois focos teológicos que até aqui emergiram na análise de Crônicas são o
Deus do reino e o povo do reino. Embora os indícios das suas relações tenham
sugerido eles mesmos até nos seus tratamentos separados, é necessário, em seguida,
ver como e por que Deus, através da comunidade escolhida, aplicou o seu propósito
soberano na criação. Isto dá origem a considerações sobre a escritura do reino.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.