17 de janeiro de 2014

Roland de Vaux - Os escravos: Os escravos de origem estrangeira

Em toda a antiguidade a guerra foi uma das principais fontes de escravidão: era o estado a que ficavam reduzidos os prisioneiros. O mesmo sucedia na Palestina. Na época dos juizes, se o exército de Sísera tivesse sido vitorio¬so, teria repartido o saque: “uma ou duas moças para cada homem”, Jz 5.30. Os amalequitas, depois do saque de Ziclague, levam para si como prisioneiros todos os que ali havia, I Sm 30.2-3. Iahvé julgará as nações que “lançaram sorte sobre o meu povo, trocaram meninos por prostitutas, para comprar vinho venderam meninas”, Jl 4.3. Na época helenística, comerciantes de escravos seguiam as tropas de Antíoco Epífano para comprar os judeus que elas fizessem prisioneiros, I Mb 3.41; II Mc 8.10-11. Mais tarde, Adriano vende os prisioneiros da segunda revolta judaica.

Em todos esses casos, trata-se de israelitas reduzidos à escravidão por seus inimigos estrangeiros. Mas o Cronista conta que Peca de Israel, na guerra contra Judá, fez 200.000 prisioneiros, mulheres, moços e moças, que foram postos em liberdade devido às admoestações de um profeta, II Cr 28.8-15. Não sabemos que crédito deve-se dar a essa história, que não tem seu paralelo nos livros dos Reis e cuja soma é, pelo menos, suspeita. De qualquer forma, ela demonstra que a redução à escravidão, de cativos de guerra, que eram irmãos de raça, não era coisa inaudita, embora fosse reprovada pelas pessoas bem-pensantes. Quanto à presença em Israel de prisioneiros estrangeiros fei¬tos escravos, ela é pressuposta por duas leis do Deuteronômio. Dt 21.10-14 contempla o caso da cativa que seu vencedor toma por mulher: ele pode em seguida repudiá-la, porém não pode vendê-la. Isso implica que poderia vendê- la como escrava se não a houvesse tomado por esposa. Nesse sentido pode-se recordar o relato de Nm 31.26-47 acerca da repartição do saque depois da guerra contra Midiã: as mulheres virgens (todo o resto foi massacrado em cumprimento do anátema, cf. Nm 31.15-18) foram repartidas entre os comba¬tentes e a comunidade.

A lei de Dt 20.10-18 se refere à conquista das cidades. Se a cidade se encontra no território atribuído por Deus a Israel, é entregada ao anátema e nada vivo deve subsistir nela. Quando se ataca uma cidade situada fora da Terra Santa, deve-se propor sua rendição: se ela aceita, todo o povo é subme¬tido à corvéia e ao trabalho; se ela resiste e por fim cai, todos os homens são mortos, e as mulheres e as crianças são consideradas como saque. Em sua formulação atual, impregnada do espírito deuteronomista, cf. o paralelo de 7.1- 6, essa lei é irreal: o tempo da conquista do país e das guerras exteriores era já um passado remoto. Ela conserva a lembrança dos antigos anátemas, Js 6.17-21; 8.26; 10.28s etc.; I Sm 15.3; cf. Dt 2.34; 3.6, dos fracassos de uma conquista total, Js 17.12-13; Jz 1.28,30,33,35, e das guerras de Davi, II Sm 8.2; 12.31, que proporcionaram ao Estado seus primeiros escravos públicos. 

Os escravos, reduzidos a essa condição pela guerra ou de alguma outra maneira, eram objeto de comércio em todo o antigo oriente. Em Am 1.6 e 9, (Gaza e Tiro são condenadas por haver praticado o tráfico de cativos; segundo Ez 27.13, Tiro comprava homens na Ásia Menor, e ali mesmo vendia judeus, segundo J1 4.6. Esses fenícios, que eram os principais negociantes em Israel, deviam ser também ali provedores de escravos. A lei permitia aos israelitas comprar servos de ambos os sexos originários do estrangeiro ou nascidos de estrangeiros residentes em Israel, Lv 25.44-45; cf. Êx 12.44; Lv 22.11; Ec 2.7.

Os escravos comprados a dinheiro eram distinguidos dos nascidos em casa, Gn 17.12,23,27; Lv 22.11; cf. Jr 2.14, estes são chamados yeliclê bait. Entretanto, é possível que a expressão não signifique exclusivamente o fato de haver nascido na casa, mas também o vínculo a uma “casa” a título servil, com certos deveres militares. Assim se explicaria o fato dos 318 yelidê bait de Abraão, Gn 14.14, e o emprego de yalid em um contexto guerreiro, Nm 13.28; I Sm 21.16,18.0 dono podia adquirir escravos casados ou casar os que tinha; os filhos pertenciam a ele, cf. Êx 21.4, com o que multiplicava de modo barato sua criadagem. Criados na família, eram, sem dúvida, mais ligados a ele e eram melhor tratados, mas não desfrutavam de estatuto social diferente daque¬les que tinham sido comprados.


VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.