8 de janeiro de 2014

Roland de Vaux - Os elementos da população livre: Os comerciantes

Os israelitas começaram muito tarde a dedicar-se ao comércio. O comércio exterior, o comércio em grande escala, era monopólio real. Com a cooperação de I I irão, rei de Tiro, Salomão armou uma frota no Mar Vermelho, I Rs 9.26-28; 10.11 -22, que ia trocar os produtos da fundição de Eziom-Geber com o ouro e as riquezas da Arábia. Uma tentativa análoga, sob Josafá, acabou em fracasso, I Rs 22.49-50. Salomão comercializava também com os caravaneiros, 1Rs 10.15. Fazia também um comércio de intermediação: seus enviados com¬pravam cavalos na Cilicia e carroças no Egito e revendiam, I Rs 10.28-29, mas essa interpretação do texto é duvidosa. Acabe concluiu com Ben-Hadade um tratado comercial segundo o qual podia estabelecer mercados em Damasco, como o rei sírio tinha em Samaria, I Rs 20.34. Trata-se ainda de uma empresa real. Assim sucedia em todo antigo oriente próximo. Os contrapartes de Salomão eram o rei de Tiro, I Rs 5.15-26; 9.27; 10.11-14, e a rainha de Sabá, I Rs 10.1-13. E a tradição era antiga. No terceiro milênio antes de nossa era, e depois sob Hamurabi, os reis da Mesopotâmia tinham suas caravanas; na época de Amarna, os reis da
Babilônia, de Chipre e de outras partes tinham mercadores a seu serviço; no século XI a.C., a história egípcia de Wen-Amón nos informa que o príncipe de Tanis tinha uma frota de comércio e que o rei de Biblos tinha registro dos negócios que fazia com o faraó.

Em Israel, as pessoas do povo só se dedicavam a operações locais. Na praça da cidade ou da aldeia, onde havia o mercado, II Rs 7.1, os artesãos vendiam seus produtos e os camponeses o produto do seu campo ou do seu rebanho. Essas trocas, de volume limitado, eram feitas diretamente do produtor ao consumidor, sem intermediários, e não existia uma classe de comerciantes. O verdadeiro negócio estava nas mãos de estrangeiros, especialmente os fenícios, que eram os corretores de todo o oriente, cf. Is 23.2,8; Ez 27, e também assírios, segundo Na 3.16. Ainda depois do Exílio, podem-se ver os judeus levarem a Jerusalém os produtos agrícolas, mas os tírios vendiam aí as mercadorias de importação, Ne 13.15-16. Os primeiros comerciantes israelitas da Palestina que conhecemos são talvez os que, sob Neemias, trabalham na restauração das muralhas, Ne 3.32; mas ainda é possível que sejam tírios que, segundo Ne 13.16, viviam na cidade.

Essa situação se reflete no vocabulário: “cananeus” significa “comerciantes” em Jó 40.30; Pv 31.24; Zc 14.21. Outros termos designam o comerciante como “o que circula” ou com uma raiz que tem afinidade com “caminhar”. São estrangeiros, caravaneiros como os midianitas de Gn 37.28, ou mercadores ambulantes que percorriam o país oferecendo sua pacotilha importada e comprando, para exportá-los, produtos locais.

É na diáspora, e por necessidade, que os judeus se tornam comerciantes. Na Babilônia, descendentes dos exilados que não tinham retomado figuram como agentes ou clientes de grandes firmas comerciais. No Egito, na época helenística, os papiros mostram que alguns eram negociantes, banqueiros ou corretores. Os judeus da Palestina seguiram pouco a pouco esse movimento, mas os sábios como mais tarde os rabinos, não o viam com bons olhos.

O Eclesiástico diz, sem dúvida, que os benefícios comerciais são legítimos, Eclo 42.5, mas destaca também que um comerciante não poderá permanecer sem pecado, Eclo 26.29; 27.2.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.