2 de janeiro de 2014

Roland de Vaux - Os elementos da população livre: Os artesãos

Ao lado dos trabalhadores, o desenvolvimento da vida urbana e a evolu¬ção econômica multiplicaram o número dos artesãos independentes. O Antigo Testamento menciona muitas associações de artesãos: trabalhadores de moi¬nhos, padeiros, tecelões, barbeiros, oleiros, lavandeiros, chaveiros, joalheiros etc. Um termo mais geral, harash, designa o trabalhador em madeira, em pedra, sobretudo em metais, e o ferreiro, fundidor ou cinzelador. Trabalhava- se em regime de oficina familiar, o pai transmitia o ofício a seu filho e às vezes linha a seu serviço alguns ajudantes, escravos ou assalariados.
Como nas cidades orientais modernas, os artesãos de uma mesma profis¬são viviam e trabalhavam agrupados em ruas ou quarteirões específicos, ou então, uma aldeia se especializava em uma atividade
determinada. Esses agru¬pamentos respondiam a condições de geografia econômica: a proximidade das matérias-primas, minerais, terra argilosa, lã dos rebanhos, ou a presença de meios de produção, água, combustível ou a orientação favorável para a ventilação dos fornos, etc. Esses agrupamentos se fundavam também na tradi¬ção, pois as profissões eram geralmente hereditárias. Assim, por exemplo, sabemos que se fabricavam tecidos em Bete-Asbéia, ao sul da Judéia, I Cr 4.21, que os benjamitas trabalhavam a madeira e o metal na região de Lode e de Ono, Ne 11.35. As escavações revelam que a tecelagem e a tinturaria eram ofícios prósperos em Debir, a atual Tell Beit-Mirsim. Em Jerusalém, havia uma rua dos padeiros, Jr 37.21, um campo do lavandeiro, Is 7.3, a porta do oleiro, perto da qual trabalhavam os oleiros, Jr 19.Is, um quarteirão dos ouri¬ves, Ne 3.31-32. Essa especialização se acentuou ainda mais nas épocas greco- romana e rabínica.
Pouco a pouco esses artesãos que trabalhavam juntos se organizaram em corporações. Isto é atestado claramente depois do Exílio, quando as corporações de ofícios, modelando-se conforme a organização familiar de que, aliás, havi¬am nascido, se denominam famílias ou clãs, mishpahôt . Há em Bete-Asbéia a mishpahôt de produtores de linho, I Cr 4.21. O chefe da corporação se cha¬ma “pai”, como Joabe, “pai” do vale dos artesãos, I Cr 4.14; os oficiais se chamam “filhos”: Uziel é “filho” dos ourives, Ne 3.8, ou seja, ourives, como Malquias da mesma corporação, Ne 3.31, como Hananias, oficial perfumista, Ne 3.8. No judaísmo, esses agrupamentos obterão um estatuto legal, farão regulamentos que protejam seus membros, terão às vezes seus próprios luga¬res de oração: fala-se da sinagoga dos tecelões de Jerusalém. A influência das organizações profissionais do mundo greco-romano deve ter acelerado essa evolução, mas os textos que citamos e os paralelos mais antigos da Mesopotâmia indicam que as corporações têm origem mais antiga.
Pode-se remontar até a época monárquica se for admitido que certos sinais gravados com freqüência na cerâmica, quando não designam ao proprie¬tário da peça, são marcas registradas não de uma oficina de família, mas de uma corporação. É muito difícil decidi-lo, mas de qualquer modo uma coisa é certa: que, na época pré-exílica, as empresas importantes estavam nas mãos do rei. A fundição de Eziom-Geber, sob Salomão, era uma manufatura do Estado, que as escavações trouxeram à tona. Segundo I Cr 4.23, os oleiros de Netaim e de Gederá trabalhavam em uma oficina real. Dessas oficinas provêm os jarros que têm uma estampa oficial, que certificava sem dúvida sua capaci¬dade.  Contudo a descoberta recente, em Ramat Rahel, de alças que trazem no mesmo tempo a estampa real e o selo particular parece indicar que os quatro nomes das aldeias das estampas de Judá designam centros onde a renda era entregue antes que as oficinas de olaria.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.