10 de janeiro de 2014

Homer Heater, Jr - Uma teologia de Samuel e Reis: A Monarquia em Samuel e Reis

O terceiro ofício usado por Deus para mediar o seu reino entre os povos foi a
monarquia ou realeza. A mudança na liderança de juízes para reis foi dramática e
traumática. O governo por juízes permitia as tribos manterem maior independên-
cia. Os juízes surgiam espontaneamente e, com raras exceções, não perpetuavam
o governo aos filhos que tiveram. Os reis reinavam sobre todo o Israel continu-
amente e eram sucedidos por filhos que fossem dignos ou não. Mesmo assim, o
Senhor trataria com o rei no que tange ao merecimento e o mediria de acordo com
o concerto davídico e o ideal davídico. Subsequentemente, o Rei ideal tornar-se-
ia o principal tema nos profetas, um Rei que julgasse o povo de forma honesta e
com justiça.  Nesse grande futuro escatológico, este Rei ideal será chamado Davi,

visto que Ele cumprirá mais do que o ideal davídico (Ez 34.23,24).

A Monarquia em 1 e 2 Samuel

A conclusão da história de Samuel está em 1 Samuel 7.15-17. E óbvio que
ele figura proeminentemente no restante do livro, mas a sua carreira, na teolo- 
gia de 1 e 2 Samuel, terminou com a escolha de um rei. O capítulo oito do pri-
meiro livro de Samuel começa um novo capítulo nessa teologia. Deus escolherá
um rei, mas procura um rei que conheça os critérios da liderança piedosa.

Duas perguntas principais são levantadas por 1 Samuel 8 a 15. A discussão
no capítulo 8 representa uma ambivalência para com a monarquia por parte do
escritor?  E afinal, por que Saul foi escolhido? Se Davi é o foco da teologia de
1 Samuel, então talvez devamos observar que o historiador estava preocupado
com o tipo de líder a ser designado. Samuel era o epítome do líder religioso
que o Senhor queria para governar o povo. Davi seria igualmente esse tipo de
líder (um homem segundo o coração de Deus, ou seja, um homem escolhido
por Deus). Saul foi trazido à cena por um ato soberano de Deus para permitir
o povo ver como é um rei que não satisfaz os padrões divinos. A rejeição de Sa-
muel era a rejeição da liderança temente a Deus; a escolha de Saul era a escolha
da liderança não temente a Deus. De muitas formas, Saul foi o contraste para
 O Davi temente a Deus, da mesma maneira que os filhos de Eli foram um con-
traste para Samuel.

Saul teve um bom começo. Era humilde (embora essa humildade possa
ter sido uma forma de falta de autoconfiança). Era de formação campestre, da
reduzida tribo de Benjamim  e de família insignificante. Estes são alguns aspec-
tos externos da liderança apresentados como ideais. Saul agiu primeiramente de
forma muito semelhante a juiz. Sua unção feita por Samuel e os sinais que se
seguiram para confirmar a escolha eram mais de um juiz carismático do que de
um rei. A primeira batalha e vitória em Jabes-Gileade são descritas em termos
rememorativos à era dos juízes.

No discurso de despedida de Samuel foi feito o desafio: “Se temerdes ao
SENHOR, e o servirdes, e derdes ouvidos à sua voz, e não fordes rebeldes ao dito
do SENHOR, assim vós, como o rei que reina sobre vós, seguireis o SENHOR,
vosso Deus. Mas, se não derdes ouvidos à voz do SENHOR, mas, antes, fordes
rebeldes ao dito do SENHOR, a mão do SENHOR será contra vós, como era contra
vossos pais” (1 Sm 12.14,15).

Vemos em 1 Samuel 13 que Saul não tem critérios religiosos para a lideran-
ça, pois ele não esperou por Samuel. A ordem para esperar sete dias foi dada em
1Samuel 10.8. A tarefa primária para Saul era começar a vencer a dominação
filistéia (1 Sm 9.16). Saul tinha de esperar sete dias até Samuel chegar e encetar
a invasão com um sacrifício como ele fizera anteriormente em 1 Samuel 7. A fa-
lha de Saul não foi que ele se intrometeu no ofício sacerdotal (ele provavelmente
ofereceu sacrifícios através de sacerdotes), mas que ele não esperou por Samuel
e, por conseguinte, pela bênção de Deus. Como Deus rejeitou o sacerdócio de 
Eli, assim rejeitou Saul: “Agiste nesciamente e não guardaste o mandamento
que o SENHOR, teu Deus, te ordenou; porque, agora, o SENHOR teria confirma-
do o teu reino sobre Israel para sempre. Porém, agora, não subsistirá o teu reino;
já tem buscado o SENHOR para si um homem segundo o seu coração e já lhe tem
ordenado o SENHOR que seja chefe sobre o seu povo, porquanto não guardaste
o que o SENHOR te ordenou” (13.13,14).

A liderança estropiada de Saul se comprova no voto tolo relativo à subse-
qüente batalha contra os filisteus. Jônatas, filho de Saul, modelava as qualidades
procuradas na liderança de Israel: era valente, humilde e confiava no Senhor. O
voto tolo de Saul quase custou a vida de Jônatas. O fato de Deus não responder
Saul quando ele consultou sobre o ataque aos filisteus era outra prova da rejei-
ção (1 Sm 14.36,37).

A segunda evidência do fracasso de Saul foi na guerra herem contra os ama-
lequitas. O ponto principal nesta discussão é a questão da obediência. Saul tinha
uma ordem clara do Senhor, mas não a obedeceu. Daí o pronunciamento doloro-
so de Samuel: “Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor
é do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria,
e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do Se-
NHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” (1 Sm 15.22,23).
E assim terminou a era de Saul. Ele continuou na história, mas do ponto
de vista teológico, ele estava acabado quando “o SENHOR se arrependeu de que
pusera a Saul rei sobre Israel” (1 Sm 15.35). Daqui em diante, o rei ideal — o
camponês jovem, humilde e temente a Deus — seria o centro das atenções.
Tudo que se esperava que Saul fosse e quisesse ser, Davi era. Era jovem, dinâmi-
co, carismático, amado pelo povo. Era humilde, corajoso e, acima de tudo, tinha
confiança simples e permanente no Senhor. O restante de 1 Samuel visa mostrar
o contraste entre o reinado falho e o reinado ideal.

A ESCOLHA DE UM BOM REGENTE (1 SM 16-31)

A história da unção de Davi é clássica. Os elementos que o povo tendia a
procurar em um rei foram rejeitados pelo Senhor. O menino com a sua confian-
ça simples em si mesmo e no Senhor foi escolhido para ser o próximo rei. Ele era
o ideal a ser imitado por todos os subsequentes reis israelitas e judeus.

O contraste com Saul começou imediatamente. O Espírito do Senhor veio
sobre Davi com poder a partir daquele dia em diante (1 Sm 16.13). A presença
do Espírito era evidência de bênçãos e direção de Deus. Não admira que Davi
pedisse depois de pecar com Bate-Seba que Deus não lhe retirasse o Espírito
Santo (SI 51.11). Por outro lado, o Espírito do Senhor deixara Saul, e um espí-
rito mau entrara nele (1 Sm 16.14). Ironicamente, era o jovem e piedoso Davi
que era chamado para aplacar o espírito de Saul quando este estava sob ataque.
Primeiro Samuel 17 oferece um segundo contraste. Como líder do povo,
Saul tinha de ser o homem a confrontar Golias. Mas foi a mocidade temente a 
Deus que derrotou o gigante blasfemo. Jônatas, filho de Saul, que o teria suce-
dido no trono, ficou amigo leal do jovem Davi. Mais tarde, Mical, filha de Saul,
defenderia Davi contra o pai. Era óbvio a todos que o Senhor escolhera Davi,
mas Saul na dureza do coração continuou resistindo o inevitável.

Uma série de episódios de Saul e Davi contrasta o reinado ideal com o
reinado caído. A paranoia de Saul se destaca em contraste com a confiança de
Davi. A índole vingativa de Saul é o oposto do espírito perdoador de Davi. Davi
recusou-se a subir ao trono por meio de artifícios próprios; ele poderia ser leva-
do até lá somente pelo Senhor.

A nobreza de Davi ficou um tanto quanto arruinada durante a curta esta-
dia entre os inimigos de Deus. As ações em Gate (1 Sm 27) e as mentiras sobre
atividades invasoras não lhe caem bem. Mas ele passou por estes apuros por
causa do Saul rebelde, e até no exílio Deus o protegia. Como seria fácil ele ter se
deixado levar à guerra contra Saul e invalidado para sempre a função de reger o
povo de Israel. Não obstante, Aquis o mandou de volta quando os outros regen-
tes filisteus não quiseram permitir que Davi se unisse a eles.

A última cena na vida de Saul é amarga e triste. Rejeitado pelo Senhor por
não ser o tipo de regente e homem que o Senhor exige, não encontrou ninguém
que lhe desse uma resposta na sua angústia. Diante de um encontro militar de
proporções gigantescas, ele precisava de uma palavra de Deus, mas não recebeu
nenhuma. Foi à feiticeira  de En-dor onde, provavelmente para a surpresa da
própria bruxa, Samuel voltou para falar com o desesperado Saul. A resposta era
a mesma: “Por que, pois, a mim me perguntas, visto que o SENHOR te tem de-
samparado e se tem feito teu inimigo? Porque o SENHOR tem feito para contigo
como pela minha boca te disse, e o SENHOR tem rasgado o reino da tua mão, e
o tem dado ao teu companheiro Davi. Como tu não deste ouvidos à voz do SE-
NHOR e não executaste o fervor da sua ira contra Amaleque, por isso, o SENHOR
te fez hoje isso. E o SENHOR entregará também a Israel contigo na mão dos fi-
listeus, e amanhã tu e teus filhos estareis comigo; e o arraial de Israel o SENHOR
entregará na mão dos filisteus” (28.16-19). Estas palavras são semelhantes às di-
rigidas a Eli quando a sua casa foi rejeitada. O tema recorrente foi redeclarado.

Os que desobedecem ao Senhor não são dignos de ser os seus regentes, e serão
substituídos por pessoas que lhe obedeçam. E assim Saul morreu, desgraçado e
abandonado pelo Senhor, e o reino foi dado a outro.

O REGENTE SÁBIO

O rei ideal agiu sabiamente o tempo todo em que Saul estava vivo. Agora
que Saul estava morto, Davi continuou agindo sabiamente, subindo ao trono
para reinar sobre todas as tribos. Isso incluiu reinar em Hebrom por sete anos.
Os atos sábios de Davi foram vários. Primeiro, foi o tratamento dado ao ama- 
lequita que ou matara Saul ou mentira sobre tê-lo matado. Davi disse que Saul
era “o ungido do SENHOR”. Da mesma maneira que ele mostrara restrição no
tratamento de Saul, assim esperava que outros fizessem. Chorou a morte de
Saul e Jônatas. Depois de ter sido ungido rei sobre Judá, ele enviou uma palavra
de elogio aos habitantes de Jabes-Gileade que tinham resgatado o corpo de Saul
de Bete-Seã. Agiu sabiamente ao responder de modo favorável a Abner, velho
general de Saul, e quando Abner foi traiçoeiramente morto, ele chorou a sua
morte em público. Por fim, Davi não recebeu com gentileza os assassinos de
Isbosete. Estavam certos de que seriam recompensados por remover este último
obstáculo no caminho de Davi à realeza, mas estavam enganados. Em todos
estes atos, Davi mostrou-se ser o líder sábio e piedoso que Deus escolhera como
o rei ideal. 

A unidade central dos livros de Samuel é 2 Samuel 5 a 8. Já discutimos
o concerto davídico. A discussão a seguir mostra a perspectiva teológica des-
tes quatro capítulos e a significação para o argumento e teologia de ambos
os livros.

Resumo do reinado de Davi. O segundo livro de Samuel, capítulos 5 a 8,
sumaria o reinado de Davi. Ele começou a reinar em Hebrom com Judá (onde
passou sete anos) e depois foi feito rei sobre todo o Israel pelos anciãos do povo.

Reinou sobre a nação inteira por trinta e três anos. Vemos uma frase fundamen-
tal em 2 Samuel 5.2. Quando o povo reconheceu a mão do Senhor na escolha
de Davi, disseram: “E também o SENHOR te disse: Tu apascentarás o meu povo
de Israel e tu serás chefe sobre Israel”. Quando Herodes, o Grande, chamou
os escribas para averiguar o local do nascimento do Messias, eles responderam:
“Em Belém da Judéia, porque assim está escrito pelo profeta: E tu, Belém, ter-
ra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá, porque de ti
sairá o Guia que há de apascentar o meu povo de Israel” (Mt 2.5,6). A parte da
referência que vem de Miquéias 5.2 fala de Belém como o local de nascimento
do Rei, mas as palavras “que há de apascentar o meu povo de Israel” são de
0 Samuel 5.2. Há também a possível alusão a Gênesis 49.10. Isto mostra que
Davi é o tipo do próximo rei ideal, o Messias.  Não é provável que o escritor de
2 Samuel estivesse plenamente ciente da significação prototípica de Davi, mas
ele começou a mover-se a essa direção em 2 Samuel 7 e os escritores posteriores
viram Davi deste modo.  A pessoa de Davi tornou-se cada vez mais um tipo do
Messias. Nos dias do Novo Testamento, ele foi uma ligação importante entre a
profecia de Gênesis 49.10 e o cumprimento no Senhor Jesus Cristo. 

A captura da fortaleza dos jebuseus foi o próximo grande evento na vida
□c Davi. Isso também teve significação teológica. Esta fortaleza cananéia ficava
¿*a fronteira entre Judá e Benjamim (Js 15.8; 18.16). Essa posição inigualável e
•:Kupaçáo por estrangeiros tornaram-na a cidade ideal para o governo de Davi. A
odàde era bastante defensável e tinha boa provisão de água. Daqui em diante esta
odade seria chamada Cidade de Davi e Sião. A significação espiritual do nome
é comprovada na freqüência do uso nos Salmos e nos Profetas.  Sião tornou-
se □ lugar da habitação de Deus (SI 2.6). Zacarias indicou que “o Senhor ainda
•:•»solará a Sião e ainda escolherá a Jerusalém” (Zc 1.17). Em outros tempos,
i«ão designava o povo de Deus (Is 52.1), e às vezes, Sião foi personificada como o
povo de Deus (Jr 6.23).  Hirão, rei de Tiro, enviou materiais para Davi construir
um palácio, então “entendeu Davi que o Senhor o confirmava rei sobre Israel e
jue exaltara o seu reino por amor do seu povo” (2 Sm 5.12).

A tarefa de subjugar os filisteus, iniciada por Saul, foi concluída por Davi.
Estas batalhas contra os filisteus são pontos de referência na avaliação da lide-
rança. Primeiro, a casa de Eli foi julgada na batalha na qual a Arca foi perdida;
depois, Samuel ganhou uma batalha buscando a face de Deus; por fim, Saul foi
luigado por não esperar Samuel pelos sete dias. Jônatas mostrou grande valor
e bom caráter nos combates. Davi venceu Golias e nas batalhas subseqüentes.
Com dois ataques Davi rompeu a retaguarda dos filisteus (2 Sm 5).

O próximo evento importante de significação teológica foi o transporte
da Arca para Jerusalém. Já analisamos este movimento da Arca na seção sobre
o santuário central. Basta dizer aqui que ao estabelecer um lugar de adoração
na nova capital, Davi causou uma das impressões mais duradouras no povo de
Deus. Até mesmo a praga que o Senhor enviou para castigá-lo por fazer um cen-
so teve resultados positivos, pois o lugar onde ele fez o sacrifício propiciatório
tornou-se o local do Templo (1 Sm 24.25; 1 Cr 21.18-22.2).

O concerto davídico (2 Sm 7) já foi discutido no começo deste capítulo,
porque é a estrutura na qual são compostos os livros de Samuel. Este concerto
importante é colocado aqui na unidade sobre as realizações de Davi para mos-
trar a escolha de Deus da pessoa através da qual Ele estaria trabalhando ao longo
do restante do Antigo Testamento e no futuro escatológico.

O capítulo final desta condensação do reinado de Davi é um resumo das vitórias
do exército de Davi. Ele derrotou as nações a leste (Moabe, Edom, Amom, Amaleque),
a oeste (os temidos filisteus) e ao norte (os recentemente ascendentes sírios). E o que 2
Samuel 7.9 diz: “E fui contigo, por onde quer que foste, e destruí teus inimigos diante
de ti, e fiz para ti um grande nome, como o nome dos grandes que há na terra”.
O reinado de Davi foi firmemente estabelecido. Ele estava fazendo o
que era “justo e reto para todo o povo”. E o que um rei apropriado deve fa- 
zer. Cristo, o grande descendente de Davi (Is 11), levará este procedimento à
perfeição. Para mostrar que o reino estava estável, o escritor fez uma lista dos
membros do “gabinete” de Davi. Depois dos motins das revoltas de Absalão e
Seba, há outra lista para mostrar que o rei estava de volta ao lugar em Jerusa-
lém (2 Sm 20.23-25). Da mesma maneira que o lugar de Samuel na teologia
terminou com um resumo do seu ministério em 1 Samuel 7.15 e de Saul em
1 Samuel 15.34,35, assim o resumo de Davi é apresentado aqui. Tudo o que
vem a seguir é menos concentrado no ideal davídico do que na questão de
quem sucederá Davi como a semente prometida de Deus. O tema do escritor
no restante de 2 Samuel é duplo: (1) a questão do sucessor de Davi que virá
sob as promessas do concerto davídico e (2) o desenvolvimento do Templo
como o santuário central.

O interlúdio de Bate-Seba ocorre principalmente em 2 Samuel 11 e 12 para
indicar o nascimento e a escolha de Salomão, mas muito se aprende sobre os procedimentos de Deus relacionados ao concerto com o rei. O pecado de Davi com Bate-Seba traça uma série de contrastes. Davi, o homem que Deus escolheu para ser o líder do
povo, não cumpriu as exigências do seu ofício. Além de não julgar de maneira justa,
a sua conduta violava brutalmente todo o senso de justiça. O estrangeiro Urias, que
aceitara a fé de Davi (o nome Urias significa “o Senhor é a minha luz”), portou-se de
modo exemplar em contraste com Davi. A história está repleta de ironia, culminando
com Urias levar a sua própria sentença de morte (sem abri-la) a Joabe.

A confrontação de Natã, o porta-voz de Deus que entregara o oráculo da
dinastia de Davi, ilustrou dramaticamente a violação do concerto de Deus. O
Senhor advertiu Davi que mesmo que o cumprimento último do concerto fosse
incondicional, as bênçãos imediatas eram condicionadas à obediência. Davi, o
primeiro recebedor do concerto, foi grotescamente desobediente, cometendo os
pecados de adultério, mentira, roubo e assassinato. Através de Natã, o Senhor dis-
se que as estipulações do concerto tinham de ser cumpridas, e Davi, castigado.
Davi foi castigado quando o primeiro filho morreu, quando o filho Am-
nom foi assassinado e quando o filho Absalão foi morto na batalha. A espada
do Senhor tinha dois gumes: um para punir Davi e outro para eliminar os com-
petidores de Salomão. A rebelião de Absalão foi excepcionalmente traumática.
Davi fora estabelecido como hasid (“o escolhido”) do Senhor, mas quase foi
destronado por Absalão. Através de 2 Samuel 20.23-25, ele fora restabelecido.
O concerto do Senhor estava sendo trabalhado.

A escolha de Salomão. Nunca houvera a transferência da realeza de pai para
filho na história de Israel. Por conseguinte, a questão da sucessão é retomada em
2 Samuel 13 a 20 e 1 Reis 1 e 2.  Claro que Salomão tinha de ser o próximo rei
apesar das probabilidades aparentemente insuperáveis contra ele. 

Os capítulos 10 a 12, do segundo livro de Samuel, formam uma unidade
projetada a mostrar que Deus escolhera Salomão para ser o sucessor de Davi.
A guerra contra Araom agrupa a história (2 Sm 10.1-11.1 e 12.26-31). O his-
toriador trata os amonitas de modo sumário em 2 Samuel 8 junto com outros
povos circunvizinhos. Por isso, ele os reapresenta aqui em detalhes para compor
o cenário para o pecado de Davi com Bate-Seba e Urias.

Enquanto esta unidade dá muita informação sobre assuntos diversos, o
autor chamou a atenção para o fato de que o filho nascido da união de Davi
e Bate-Seba era Salomão. Para que não houvesse dúvida sobre a legitimidade
do próximo rei, foi o segundo filho nascido depois da morte de Urias que foi
escolhido. Falando sobre Salomão, 2 Samuel 12.24 diz: “O SENHOR O amou”.
Este é o modo hebraico de dizer que o Senhor o escolheu. O Senhor enviou pa-
lavra pelo profeta Natã declarando que o outro nome de Salomão tinha de ser
Jedidias (“o Senhor ama”). Claro que esta unidade visa mostrar que o sucessor
de Davi seria Salomão, e visto que 2 Samuel 7 revelou que o filho de Davi cons-
truiria o Templo, Salomão tornou-se o construtor.

A unidade composta de 2 Samuel 13 a 20 (1 Reis 1 e 2 está incluído na narra-
tiva) mostra como Deus julgou Davi pelo seu pecado (a parte negativa do concerto
davídico), mas também como Ele eliminou os candidatos ao trono que ameaça-
riam Salomão. Amnom, Absalão e Adonias eram filhos dos primeiros casamentos
de Davi e, por nascimento, tinham preferência ao trono. Amnom revelou que era
indigno para reinar e foi morto pelo irmão. Absalão, por ter se rebelado contra o pai,
foi morto, e Adonias, que decidiu fazer oposição, foi morto em concorrência tola
pela realeza. Agora o caminho estava livre para Salomão reinar sem oposição.

Os propósitos de Deus estavam sendo trabalhados pelo seu hesed (“amor re-
lativo ao concerto”) por Davi, seu ungido. A semente de Davi seria abençoada na
obediência e disciplinada na desobediência. A primeira “semente” de Davi seria
Salomão, que Deus escolheu acima dos irmãos mais velhos, como escolhera Davi
acima dos irmãos mais velhos. Davi escolheu a cidade e o local para o Templo,
mas para Salomão coube a tarefa de construí-lo. Daqui em diante a adoração ao
Senhor no Templo em Jerusalém tornou-se o assunto principal para o autor de
Reis. Os sucessores de Davi seriam julgados levando em conta o concerto daví-
dico. O restante de 2 Samuel é dedicado a reunir os eventos da vida de Davi que
mostram a graça de Deus e também a aguardar o trabalho de Salomão em estabe-
lecer o Templo como o lugar fundamental da adoração ao Senhor em Jerusalém.
Palavras de despedida de Davi. Considerando que o Senhor estabelece-
ra Davi e a sua dinastia, um salmo foi cantado em comemoração. O capítulo
22, do segundo livro de Samuel (paralelo ao Salmo 18), foi apropriadamente
escolhido de todos os possíveis salmos de Davi, porque diz respeito ao Senhor
libertando Davi da mão de todos os inimigos e da mão de Saul. E apropriado,
porque é precedido por 2 Samuel 21 que se refere à quase extinção da casa de
Saul e à derrota dos gigantes filisteus. 

Há nove epítetos para Deus em 2 Samuel 22.2,3: rochedo (selcf), lugar forte,
libertador, rochedo (sûr), escudo, força, alto retiro, refugio e salvador. Cada um
destes títulos diz respeito ao aspecto protetor da obra do Senhor em prol de Davi.
O refúgio de Davi náo era a sua bravura, nem tentou ele usurpar o trono para si
(como o fez seu filho Absalão). Ao invés disso, ele escolheu confiar no Senhor para
trabalhar nos propósitos divinos. Isto é evidente quando Davi fugiu de Jerusalém,
na resposta que deu à maldição de Simei: “Deixai-o; que amaldiçoe, porque o Se-
NHOR lho disse. Porventura, o SENHOR olhará para a minha miséria e o SENHOR
me pagará com bem a sua maldição deste dia” (2 Sm 16.11,12).

O Salmo fala da libertação do Senhor em termos cósmicos. Esta imagem
se chama “teofania da tempestade”. Por mais que descrevamos esta linguagem
poética vívida, o intento é mostrar que o Senhor livrou o servo Davi de todos os
inimigos. O Salmo conclui com uma alusão ao concerto davídico: “É ele quem
dá grandes vitórias ao seu rei e usa de benignidade para com o seu ungido, com
Davi e sua posteridade, para sempre” (2 Sm 22.51, ARA). A obra do Senhor em
prol de Davi estava completa. Ele derrotara todos os inimigos de Davi, inclusive
a casa de Saul, e estabelecera seu concerto para sempre. As “últimas palavras de
Davi” em 2 Samuel 23 também perseguem a ideia do estabelecimento do reino
de Davi. O reinado justo do Senhor no universo é o tema desta unidade. Quan-
do a justiça prevalece, então tudo está bem (v. 4). Na mesma tendência, a casa
de Davi é uma dinastia justa que Deus estabeleceu com um concerto perpétuo.
A bênção do Senhor se evidenciaria na casa e reino de Davi. O período da mo-
narquia que continuou após o reinado de Davi seria medido nesses termos. Os
reis seriam julgados pela medida do reino justo de Deus no universo. Tinham
de reinar com equidade e justiça (cf. Acabe e Nabote), e quando não o fizessem,
seriam julgados. Ainda que a dinastia de Davi fracasse, o Senhor prometeu um
futuro Rei que reinará com equidade e justiça (Is 11; Jr 23; Ez 34).

De forma interessante, muitos dos elementos do salmo de Ana (1 Sm 2.1-
10) encontram-se no salmo de Davi (2 Sm 22). O Senhor é inigualável, liber-
tador, rochedo (1 Sm 2.1,2). Controla o destino da raça humana, humilha os
orgulhosos, fortalece os fracos e tem prazer em mudar-lhes as expectativas nor-
mais da vida (w. 3-10a). Ana concluiu com a promessa de que Deus dará força
ao rei e exaltará o poder do ungido. Os livros de Samuel começam com um sal-
mo exaltando o Senhor Deus do universo e referindo-se ao rei ungido de Deus.
Terminam com um salmo honrando o mesmo Deus do universo e aludindo ao
concerto do Senhor com o seu rei ungido.

A teologia geral de 1 e 2 Samuel é que Deus reina com justiça nos assuntos
dos homens. Sua exigência é que os homens vivam com justiça no seu reinado.
O líder (seja juiz ou rei) tem de representar a justiça do Senhor no reinado sobre
o povo de Deus. Não seguir os padrões de justiça estabelecidos por Deus leva
ao castigo do regente e dos súditos sobre os quais ele rege. Esta mensagem era
normalmente apresentada por um profeta que se punha entre Deus e o rei como
também entre Deus e o povo. 

A MONARQUIA EM 1 E 2 REIS

Para entendermos a atitude do historiador para com a monarquia depois de
Davi, é necessário observarmos a sua perspectiva teológica. Os livros de 1 e 2 Reis
Foram compostos de várias fontes. Os primeiros dois capítulos são a conclusão da
história da sucessão, mostrando que Deus escolhera Salomão para suceder Davi, seu
pai. A seção sobre Salomão (1 Reis 3-11) é derivada do livro dos anais de Salomão (1 Rs 11.41). Os registros da corte dos reinos do norte e do sul fornecem grande parte
áos dados que compõem os livros. Certos estudiosos propõem que a declaração na
Septuaginta em 1 Reis 8.53 (no Texto Massorético [TM] é 1 Rs 8.12) foi extraído
do livro de Jasar (o justo?) que também é mencionado em Josué e 2 Samuel.49 As
seções exclusivas sobre Elias e Eliseu vieram de uma única fonte. A data mais recente
para a composição final de 1 e 2 Reis é 560 a.C., o último evento datado no livro,
que se refere à elevação de Joaquim no cativeiro pelo Evil-Merodaque. LaSor e ou-
tros estudiosos arrazoam que a composição foi feita logo após a queda de Jerusalém
em 586 a.C., e que o último evento é um apêndice posterior.50

Assim, mais de 500 anos são abrangidos nesta pesquisa histórica. Duran-
te esse meio milênio houve mudanças dramáticas em Israel e no mundo do
Oriente Médio. Todo este material foi reunido e comentado por um escritor
que falava da perspectiva do término da monarquia e da destruição do Templo
e cidadela de Davi. Um dos propósitos de 1 e 2 Reis é explicar o desastre e dar
esperança para o futuro. Há um conjunto extenso de referências ao concerto da-
vídico ou ao ideal davídico (aproximadamente 16 passagens). Os comentários
avaliadores feitos ao longo do trabalho são do ponto de vista profético.51 Keil
tem razão em enfatizar o ponto de vista “profético-histórico” em lugar do ponto
de vista “profético-didático”. “O desenvolvimento histórico da monarquia ou,
para expressá-la mais corretamente, do reino de Deus sob os reinados dos reis,
forma o verdadeiro tema de nossos livros.”52 Vemos a ênfase teológica dos livros
principalmente nos comentários do escritor profético, mas também a identifi-
camos nas ações e palavras dos participantes. 

A CONCLUSÃO DA HISTÓRIA DA SUCESSÃO

O assunto do sucessor imediato de Davi, iniciado em 2 Samuel 2, chega agora
ao fim. Jedidias, ou Salomão, subiu ao trono. Pela primeira vez na história de Israel,
um filho sucedeu o pai no trono. Claro que a ascensão à dignidade real não ocorreu
sem problemas. O antigo regime tinha de passar. As ambições de Adonias, a última
ameaça para Salomão, foram frustradas e, por fim, mataram-no. Joabe, o formador do
poderoso exército de Davi e de muitas formas promotor de Davi, morreu ignominiosamente junto ao altar. A maldição sobre a casa de Eli foi terminantemente executada
com o banimento de Abiatar. A promessa de Deus para Davi estava em ação.

O IDEAL SALOMÔNICO

A narração em 1 e 2 Samuel é refrescante em sua franqueza e simplicidade. Em
contrapartida, a narrativa do reinado de Salomão, tirado de uma fonte chamada o
livro dos anais de Salomão (1 Rs 11.41), é muito mais estilizada e formal. Salomão
não subiu ao trono como juiz carismático; nem parece ter o carisma pessoal do
pai. O que ele tinha era sabedoria (hokmâ). A maior contribuição de Salomão foi
a construção do Templo e o desenvolvimento da adoração no Templo posta em
funcionamento pelo seu pai. Entretanto, ele é talvez mais bem conhecido pela sua
sabedoria. O autor mostrou o prazer de Deus com o pedido de Salomão por sabe-
doria em vez de pedir outras coisas óbvias (1 Rs 3.10). Salomão pediu um coração
sábio para fazer justiça ao povo de Deus. Esta é a característica da realeza promovida
em 1 e 2 Samuel. Alcançou proporções ideais em Salomão. Foi ele que desenvol-
veu o conceito de sabedoria em Israel em sentido não-judicial: tinha conhecimento
enciclopédico (4.34) e escreveu provérbios e canções. Ironicamente, o homem que
foi usado por Deus para desenvolver a ideia de sabedoria da corte e conduta real
(refletidas em Provérbios) acabou praticando pouco disto. Salomão, como Davi,
tornou-se, mais tarde, símbolo do rei ideal na literatura do Antigo Testamento. O
cronista lidou com ele de modo diferente do que o escritor de Reis. 

A construção e dedicação do Templo ocupam grande porção das memórias
de Salomão. Os dois principais artigos tangíveis da história de Israel, Jerusalém
e o Templo, foram fornecidos pelos primeiros dois reis. Jerusalém era Sião, o
lugar onde Deus escolheu para fazer habitar o seu nome. O Templo era o edifí-
cio no qual Ele habitava. A destruição do Templo em 586 a.C. foi devastadora
para a fé de Judá. A centralidade e singularidade do Templo são acentuadas na
teologia de 1 e 2 Reis. A atitude do rei para com os lugares altos onde o jeovismo
popular era sincréticamente praticado, era a base para a crítica do historiador.
Muito da teologia de 1 e 2 Reis está em 1 Reis 8 na oração de Salomão.
Considerando que parte dessa teologia já foi discutida na seção sobre o Templo,
discutiremos somente mais três itens. 

A singularidade do Senhor (1 Rs 8.23). Salomão começou a oração afir-
mando que o Senhor é o Deus de Israel. Não há Deus como Ele no universo.
Isto não significa que existam deuses que sejam diferentes dEle; significa que
nenhum outro deus existe. Este tema repercute ao longo de Reis na batalha
entre os profetas e o povo sincretista.

O Deus mantenedor do concerto (1 Rs 8.24-26). Ao fazer concerto com
o povo, o Senhor mostra a extensão da graça vindo das alturas santas para os
habitantes do mundo. Diferente das deidades pagãs, Ele é totalmente previsível
com respeito ao concerto. Quando Deus dá a palavra, Ele a mantém. Prova dis-
to para Salomão (1 Rs 8.24) é que ele estava assentando no trono de Davi. Foi o
que Deus prometeu no concerto davídico, e Ele o fizera acontecer.

O concerto davídico (1 Rs 8.15-21,24-26). O concerto maravilhoso e gra-
cioso feito com Davi impregna o restante da teologia do Antigo Testamento.
Continua entre os Testamentos e influencia a teologia do Messias no Novo
Testamento. O próprio Davi tornou-se um paradigma para todos os outros reis.
Os reis no sul são comparados com o chefe dinástico e considerados sucessos
ou fracassos baseados nessa comparação. E o Rei escatológico, que reinará com
justiça, é até chamado “Davi” (Ez 34.23,24). Não admira que Jesus seja referido
como o grande filho de Davi que se assentará no trono de Davi (Lc 1.31-33).

No começo do reinado de Salomão ele “amava ao Senhor, andando nos
estatutos de Davi, seu pai” (1 Rs 3.3). A única falha encontrada em Salomão é
que ele usava os lugares altos para sacrifício. Salomão louvou a Deus pela grande
bondade (hesed, “amor relacionado ao concerto”) mostrada para ele, a mesma
bondade e lealdade que o Senhor mostrara ao seu pai Davi. Deus respondeu ao
pedido de Salomão, prometendo-lhe vida longa se ele andasse nos caminhos
divinos e obedecesse às leis divinas como fizera Davi (v. 14).

Vemos o desejo de Davi pelo Templo na carta de Salomão a Hirão. Nova-
mente, Salomão se referiu ao concerto davídico e ao fato de que a descendência
de Davi construiria o Templo (1 Rs 5.5). O Senhor apareceu a Salomão durante
a construção do Templo para reafirmar as promessas (6.12). Se Salomão obede-
cesse a Deus, então as promessas feitas a Davi sobre Deus habitar entre o povo
(simbolizado pelo Templo) se cumpririam.

Quando Salomão abençoou o povo e louvou ao Senhor na dedicação do
Templo (1 Rs 8.15-26), ele falou do fato de o Senhor ter cumprido a promessa
feita a Davi (relativa ao Templo). Nenhum lugar foi escolhido para o Templo,
senão o escolhido por Davi (v. 16). Era desejo de Davi construir o Templo para
o nome de Deus, e embora Deus não lhe permitisse construí-lo, Ele prometeu
que a descendência de Davi o construiria. A Arca, em alojamentos temporários
sob o regime de Davi, foi instalada em uma habitação mais permanente. Desta
forma, estabeleceu-se forte ligação entre o Templo de Salomão e a Arca que
pertencia à Sião de Davi (v. 1).

Na oração de dedicação, Salomão rogou ao Senhor que cumprisse as
promessas relativas aos descendentes de Davi. Se fossem obedientes, teriam
a permissão de assentar-se no trono (v. 25). Na mesma tendência estão as
palavras do Senhor a Salomão quando lhe apareceu depois do término da
construção do Templo e lhe entregou uma declaração profética (9.4-9). O
Senhor reiterou a promessa de continuidade por Salomão e sua semente, caso
eles obedecessem, mas também incluiu o julgamento prometido a Israel por
desobediência. Da perspectiva do exílio, a repreensão para Israel foi o Templo
destruído. Esta é a razão para a devastação: “Porque deixaram ao Senhor, seu
Deus, que tirou da terra do Egito seus pais, e se apegaram a deuses alheios, e
se encurvaram perante eles, e os serviram; por isso, trouxe o Senhor sobre eles
todo este mal” (v. 9). Para os leitores exílicos ou pós-exílicos, estas teriam sido
palavras encorajadoras, porque provavam que o Senhor não agiu por capri-
cho. Ele era consistente com as promessas feitas a Davi.

Em 1 Reis 11, Salomão ficou sob o aspecto negativo do concerto davídi-
co. Contrastando Salomão com Davi, o historiador declarou que Salomão não
satisfez o padrão (v. 4). Por causa da atividade sincretista de Salomão, o Senhor
disse a ele que o reino lhe seria tirado. Por amor a Davi, Salomão não perderia o
reino durante a sua vida, e mesmo quando fosse arrancado dos descendentes de
Davi, uma tribo seria deixada por causa de Davi (w. 12,13).

Quando Deus falou com Jeroboão I, Ele reiterou a mesma promessa
sobre deixar uma tribo por causa de Davi. E interessante observar que, Je-
roboão, embora rei do norte, foi comparado com Davi e prometido que ele
seria julgado por esse padrão. Ainda que o concerto de Deus com Davi não
se estendesse para o Norte, o próprio Davi era o padrão de excelência pelo
qual os reis do Norte seriam medidos. Jeroboão não satisfez o padrão daví-
dico, e assim Deus rejeitou a ele e a sua família (1 Rs 14.8).

O filho de Salomão, Roboão, é cabalmente criticado pelo historiador,
que escreveu: “Seu coração não foi perfeito para com o Senhor, seu Deus,
como o coração de Davi, seu pai” (1 Rs 15.3). Mesmo assim, Deus não exter-
minou a dinastia (v. 4). Pelo contrário, Asa era um rei temente a Deus. A sua
conduta foi comparada favoravelmente com a de Davi (v. 11).

O historiador não faz outra menção ao concerto com Davi até 2 Reis
8.19, onde escreveu: “Porém o Senhor não quis destruir a Judá por amor de
Davi, seu servo, como lhe tinha dito que lhe daria para sempre uma lâmpada
a seus filhos”. Disse isto com relação ao rei Jeorão. O filho Josafá se casara
com a filha de Acabe. Joás, o reparador do Templo, tinha um filho chamado
Amazias, que fez o que era reto aos olhos do Senhor, mas não como o seu ante-
passado Davi tinha feito (14.3). Como ele não esteve à altura de Davi não está
claro, a menos que seja com relação aos lugares altos (v. 4). O rei Acaz, que rei-
nou durante o tempo de Isaías, é duramente contrastado com Davi. “Não fez
o que era reto aos olhos do SENHOR, seu Deus, como Davi, seu pai” (16.2).
Ezequias, por outro lado, “fez o que era reto aos olhos do Senhor, conforme 
tudo o que fizera Davi, seu pai” (18.3). Isto incluía destruir os lugares altos e,
do ponto de vista do historiador no exílio ou depois dele, este pode ter sido o
fator decisivo na comparação com Davi.

A referência final em Reis ao concerto davídico é 2 Reis 21.7. Manasses,
que foi infame por sua maldade, foi tão longe quanto colocar um poste-ídolo
no Templo. Este era o Templo que fazia parte do concerto davídico. O Senhor
decidira fazer com que o seu nome habitasse ali para sempre. Obediência traria
bênçãos perpétuas para o povo, mas porque Manassés o fez se desviar, o povo
tinha de ser julgado pelo Senhor. O historiador fez um resumo da mensagem
de vários profetas concernentes a este julgamento severo (2 Rs 10-15).

Um ponto principal da teologia de 1 e 2 Reis é que o exílio e a des-
truição de Jerusalém e do Templo têm de ser explicados levando em conta a
conduta dos reis e do povo. Davi era o padrão pelo qual os reis subsequentes
foram medidos, e Davi era a razão para a fidelidade continuada de Deus
pelo povo, apesar de seu pecado. O afastamento flagrante de tal padrão não
podia ficar impune para sempre. Por isso, Israel foi para o exílio.

A QUESTÃO DO REINO DIVIDIDO

A atitude do cronista com o Reino do Norte é bastante clara. Todas as re-
ferências à monarquia começadas por Jeroboão I foram omitidas, exceto quan-
do necessário para explicar algo sobre a dinastia davídica. O cronista estava
focalizando a volta dos judeus e desenvolvendo a história que levou ao exílio e
ao retorno deste. A restauração futura das tribos do norte, por outro lado, está
claramente especificada pelo profeta exílico Ezequiel. A visão das duas varas em
Ezequiel 37 confirmou explicitamente o futuro das tribos do norte (chamadas
Efraim e José). Pelo visto, o cronista não estava ciente do futuro do Reino do
Norte; esse fato simplesmente não se ajusta aos seus propósitos.

Vemos a teologia de 1 e 2 Reis sobre o Reino do Norte na discussão do his-
toriador sobre a relação dos dois reinos e nas suas declarações teológicas sobre
o Senhor julgar a nação.

Aias, o silonita, quando entregou a mensagem do Senhor a Jeroboão I, expôs
a ideia de que uma dinastia rival a Davi estava sendo estabelecida (1 Rs 11.29-
39). O concerto davídico, por causa dos aspectos incondicionais, assegurava a
continuidade da dinastia de Davi. O aspecto condicional se cumpriu na divisão
das dez tribos, que foram dadas a Jeroboão I. As promessas feitas a Jeroboão eram
semelhantes às feitas a Davi: “E há de ser que, se ouvires tudo o que eu te mandar,
e andares pelos meus caminhos, e fizeres o que é reto aos meus olhos, guardando
os meus estatutos e os meus mandamentos, como fez Davi, meu servo, eu serei
contigo, e te edificarei uma casa firme, como edifiquei a Davi, e te darei Israel. E,
por isso, afligirei a semente de Davi; todavia, não para sempre” (w. 38,39).
O que teria acontecido se Jeroboão tivesse sido obediente ao Senhor
como Davi fora? Jamais saberemos a resposta, porque Jeroboão se rebelou
contra o Senhor e até estabeleceu um núcleo de culto rival que era de estrutu- 
ra pagã. A segunda profecia de Aias, dada quando Jeroboão enviou sua esposa
para perguntar a Aias pela saúde do seu filho, contém a mensagem de destrui-
ção da dinastia de Jeroboão e o fim das possibilidades eternas para com a sua
semente (1 Rs 14.10,11). O reino de Nadabe, filho Jeroboão, durou só dois
anos. Foi assassinado por Baasa. A linguagem de Aias usada com Jeroboão não
é repetida com nenhum dos outros reis israelitas.

Apesar da pecaminosidade dos reis do norte,  o povo de Efraim sempre foi
visto como povo do Senhor. Este fato se destaca nitidamente em profetas como
Amós e Oséias,  mas também é proeminente ao longo da narrativa histórica.
Quando Jeoacaz, filho de Jeú, buscou o Senhor por causa da opressão
terrível da Síria, o Senhor o ouviu e “deu um salvador a Israel, e os filhos de
Israel saíram de debaixo das mãos dos siros” (2 Rs 13.4-6). Semelhantemen-
te, quando o seu filho Jeoás procurou Eliseu, foi lhe prometida a vitória sobre
os sírios (w. 14-19).

Uma das declarações mais teologicamente significativas relacionadas aos
concertos do Senhor é feita com relação ao reinado de Jeoacaz (2 Rs 13.22-24).
A graça a compaixão do Senhor em livrar os israelitas do opressor poderoso, Ha-
zael, baseavam-se no concerto com Abraão, Isaque e Jacó. Obviamente, o con-
certo davídico não pode estar em jogo aqui, mas as promessas feitas a Abraão
(Gn 12) e confirmadas a Isaque e Jacó têm de ser cumpridas. Por isso, o historia-
dor disse: “E não os quis destruir e não os lançou ainda da sua presença” (2 Rs
13.23). O historiador fala sobre as migrações do povo do Norte para o Sul. De
certo modo, todas as 12 tribos estão preservadas em Judá, mas o historiador diz
mais que isso. Ainda que nos seus dias muitos israelitas do norte tivessem sido
deportados, ele viu que os judeus restantes, até com a mistura entre eles, eram o
povo do concerto. As promessas do Senhor não podem ser ab-rogadas.

Jeroboão II não foi um rei temente a Deus, contudo o Senhor foi bondoso
com ele e, falando pelo profeta Jonas, permitiu-lhe restabelecer as fronteiras de
Israel. O historiador deu novamente uma explicação teológica (2 Rs 14.26,27).
O Senhor vira a opressão amarga do seu povo: “E ainda não falara o Senhor em
apagar o nome de Israel de debaixo do céu; porém os livrou por mão de Jero-
boão, filho de Jeoás”. Ele promoveu libertação e bênçãos através de Jeroboão II.
Era sobre este tempo que Oséias estava profetizando.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.