6 de janeiro de 2014

Homer Heater, Jr - Uma teologia de Samuel e Reis: O movimento profético em Samuel e Reis


O segundo oficio que Deus usou para mediar o seu reino foi o do profeta.
Do tempo de Samuel em diante, os profetas dominam as páginas da Bíblia. Os
sacerdotes sem dúvida desempenharam um papel maior do que indica o espaço
atribuído a eles pelo historiador, mas foram os profetas que tinham de dar uma
nova dimensão à relação entre o Senhor e o povo.

O MOVIMENTO PROFÉTICO EM 1 E 2 SAMUEL


A primeira menção de profeta nestes livros ocorre em 1 Samuel 2.27-
36.  E chamado “homem de Deus”, e a tarefa era contar para Eli, em nome
do Senhor, que a casa de Eli seria substituída por um “sacerdote fiel”. Como
vimos, um tema importante em Samuel e Reis é a remoção do sacerdócio de
Eli para Zadoque.

O profeta por excelência era, obviamente, Samuel. Desde o princípio esta-
va claro que ele seria profeta. Quando Deus falou com ele pela primeira vez, o
escritor observou que “a palavra do SENHOR era de muita valia naqueles dias;
não havia visão manifesta” (1 Sm 3.1). De acordo com 1 Samuel 3.19,20: “E
crescia Samuel, e o SENHOR era com ele, e nenhuma de todas as suas palavras
deixou cair em terra. E todo o Israel, desde Dã até Berseba, conheceu que
Samuel estava confirmado por profeta do SENHOR”. O nome de Samuel está
notoriamente ausente da narrativa que trata da primeira batalha em Ebénezer,
que foi um fiasco. Foi mais tarde que ele veio às pessoas como sacerdote e pro-
feta e os conduziu à vitória.

Samuel também estabeleceu o precedente de os profetas ungirem reis. Isto
pôs base de conflitos posteriores, quando alguns reis recusaram submeter-se à
direção do profeta. Mas o procedimento era divinamente dirigido, visto que foi
o Senhor que falou para Samuel tudo sobre Saul e depois diretamente o instruiu
a ungir Davi (1 Sm 16).

Também em 1 Samuel ocorre a primeira menção a “bandos” (hebet) de
profetas. A relação de Samuel com estes profetas não está explícita. Quando 
Davi fugia de Saul (1 Sm 19), Samuel “presidia” sobre uma congregação de pro-
fetas que estavam profetizando. E plausível atribuir a Samuel o desenvolvimen-
to do movimento profético em sentido formal. Lógico que sempre foi Deus que
levantava o verdadeiro profeta, mas a estrutura em si teve início com Samuel e
desenvolveu-se mais através de Elias.

A prática de Samuel ungir e aconselhar reis levou em alguns casos ao
estreitamento das relações entre profeta e rei. Estes profetas são chamados
“profetas da corte”. Vemos o primeiro destes, Gade, em 1 Samuel 22, aconse-
lhando Davi a fugir de Saul. Muitos anos depois, ele levou a palavra de Deus a
Davi acerca da peste como castigo pelo censo de Davi (2 Sm 24.11). Também
disse para Davi que erigisse um altar na eira de Araúna e, assim, foi envolvido
na escolha do local do Templo (v. 18). Estes profetas da corte fizeram muito
mais do que aconselhar reis. Também mantiveram registros (1 Cr 29.29).
Samuel, Natã e Gade são mencionados como escritores dos registros da corte.
Quando Samuel, Reis e Crônicas foram escritos, parte do material vieram
destes profetas.

Natã foi o profeta que num primeiro momento encorajou Davi a cons-
truir um Templo e depois, sob as ordens do Senhor, rescindiu essa direção (2
Sm 7). Isto indica que os profetas davam conselhos baseados no bom senso
como também orientações da parte de Deus. Foi Natã também que entregou a
condenação pungente de Davi sobre o pecado contra Bate-Seba e Urias (2 Sm
12) . Tempos depois, Natã envolveu-se no movimento anti-Adonias para manter
Salomão na ordem de sucessão (1 Rs 1.11 -14). Natã sabia que o Senhor escolhe-
ra Salomão para suceder Davi (2 Sm 12) e acreditava que ele deveria agir para
consolidar a posição de Salomão, visto que Davi alcançara um ponto de indife-
rença acerca da situação. Natã também ungiu Salomão para ser rei. Este status
de “conselheiro para o rei” continuou em Judá com sucesso inconstante. Alguns
profetas foram espancados, presos ou mortos, mas sempre havia o reconheci-
mento tácito de que o profeta tinha o direito de falar pelo Senhor. No Reino do
Norte, o ofício profético era normalmente antagônico. Em parte, era devido à
tentativa de os profetas de Baal legitimarem a profecia que davam. Os profetas
do Senhor tinham o dever de responder e refutá-los. O exemplo clássico é Elias
no monte Carmelo (1 Rs 18).

A palavra “profeta” é tradução do hebraico nabi’. A etimologia é incerta.
Certos estudiosos discutem a favor do significado de “borbulhar”, mais um
reflexo da idéia de profeta do que uma etimologia. Outros argumentam que
significa “ser chamado”.  A palavra significa, mais certamente, porta-voz de
Deus, mas a etimologia exata não pode ser determinada. A passagem vetero-
testamentária clássica sobre profeta é Deuteronômio 18, quando Moisés estava
preparando os israelitas para entrarem em Canaã, onde eles encontrariam todos
os tipos de práticas ocultas. Em contraste com esta falsa atividade, Israel tinha 
de dar ouvidos aos profetas. Amazias mandou Amós para casa para profetizar
em Judá em vez de em Israel (Am 7.10-17). Semelhantemente, Ezequiel recebeu
a ordem: “Profetiza sobre estes ossos e dize-lhes” (Ez 37.4). Isto dá a enten-
der que a idéia de profetizar significa basicamente comunicar o que Deus diz.
Podemos observar esta prática na vida de Natã e Gade. Por outro lado, certas
referências a profetizar em 1 Samuel (1 Sm 10.5-7; 19.18-24) indicam que, às
vezes, comportamento estranho acompanhava a profecia. Certamente significa
que Deus dominava o profeta de forma que ele já não agia por iniciativa pró-
pria.  Como um dos sinais de autenticidade, Saul profetizou. Deus o impediu
de capturar Davi quando o fez ficar deitado a noite toda despido. Deus se apo-
derava dos homens para executar os propósitos divinos como fez com os 70
anciãos que trabalhavam com Moisés para ajudar no julgamento.

Os movimentos sacerdotais e levitas foram instrumentos para conduzir
as pessoas na adoração ao Senhor, nos sacrifícios e nos cânticos. O movimen-
to profético abriu o caminho para entender a mente de Deus (entendimento
muitas vezes dado diretamente pelo profeta) e convocar as pessoas a adorar
ao Senhor em santidade e obediência. O movimento profético é talvez o mais
significativo na história de Israel. Reis e sacerdotes tinham de submeter-se à
palavra do profeta pela razão simples de que Ele não estava falando em nome
próprio mas em nome de Deus.

O MOVIMENTO PROFÉTICO EM 1 E 2 REIS

O primeiro e o segundo livro de Reis mencionam diversos profetas que
não deixaram registros escritos. Vamos analisá-los para determinar a teologia
que eles apresentam.3“*

Natã. O idoso profeta da corte e amigo de Davi apareceu pela última vez
quando Salomão foi feito rei em meio à oposição. Natã recebeu mensagens de
Deus e até agiu como acusador quando Davi pecou contra Bate-Seba e Urias.
Em 1 Reis, ele aparece como mero conselheiro tramando a ascensão de Salo-
mão. Certamente, ele seguia o plano estabelecido pelo Senhor quando escolheu
o recém-nascido Salomão ao nascer, mas ele não aparece como homem falando
por Deus tanto quanto um homem fazendo o que ele sabia o que era certo.

E surpreendente que na história de Salomão (extraído do livro dos anais
de Salomão), não haja menção de um profeta que fala com Salomão. Ainda
mais quando reconhecemos que parte da fonte para a narrativa bíblica veio
dos “escritos no livro da história de Natã, o profeta”, da “profecia de Aias,
o silonita” e das “visões de Ido, o vidente, acerca de Jeroboão, filhos de 
Nebate” (2 Cr 9.29). Duas vezes o Senhor apareceu diretamente a Salomão:
uma vez no começo do reinado (1 Rs 3.5-14), e uma vez depois da dedicação
do templo (9.1-9). Além destas aparições diretas, o historiador escreveu que
a palavra do Senhor veio a Salomão encorajando-o a obedecer-lhe de forma a
cumprir a promessa feita a Davi (6.12,13). No capítulo no qual o Senhor indi-
ciou Salomão (1 Rs 11), a frase: “Pelo que disse o SENHOR a Salomão” consta
com a promessa de tirar parte do reino do filho de Salomão. Com este tipo
de oráculo de julgamento, esperaríamos ter a presença de um profeta, mas
mesmo aqui não há menção de profeta. O historiador apresentou a idéia que
Salomão teve acesso mais direto ao Senhor do que Davi, seu pai, ou outro dos
que o sucederam. A sabedoria especial que Deus lhe deu, forneceu-lhe maior
perspicácia sobre as atividades judiciais que qualquer outro rei. Claro que os
profetas estavam envolvidos no reinado de Salomão, mas o historiador enfati-
zou a informação direta de Salomão. A teologia em 1 Reis 3.4-10, que registra
a primeira aparição do Senhor a Salomão, e em 1 Reis 9.3-9, que registra a
resposta do Senhor à oração do rei, também refletem a teologia dos profetas.
Aias, o silonita. O primeiro profeta a aparecer em Reis (depois de Natã) é
Aias. Não compareceu na presença de Salomão, embora a mensagem dissesse
respeito a Salomão. Compareceu diante de Jeroboão I (1 Rs 11.29-40). A pala-
vra profética, mencionada obliquamente em 1 Reis 11.11-13 (e provavelmente
entregue por Aias), contém os seguintes elementos: (1) em cumprimento do
concerto davídico, a dinastia davídica seria castigada com retirada de parte do
norte do reino, e (2) também por causa do concerto davídico (e por amor a Je-
rusalém), uma tribo seria deixada para a família de Davi.

Aias reiterou a mesma mensagem para Jeroboão com a promessa a mais
de que se Jeroboão andasse na presença do Senhor da mesma forma como fora
exortado que Davi andasse, outro concerto “davídico” ou “jeroboânico” teria
cumprimento no Reino do Norte. Isto levanta uma pergunta interessante. Se
Jeroboão tivesse, de fato, sido um homem justo, como a “casa firme” prometida
a ele afetaria as relações entre Israel e Judá no futuro? Visto que ele foi muito
injusto, a questão é discutível. O historiador fala sobre a obstinação de Roboão:
“O rei, pois, não deu ouvidos ao povo, porque esta revolta vinha do Senhor,
para confirmar a palavra que o Senhor tinha dito pelo ministério de Aias, o si-
lonita, a Jeroboão, filho de Nebate” (1 Rs 12.15). Era necessário aos propósitos
de Deus que Roboão rejeitasse o conselho sadio e causasse a divisão das tribos
do Norte. Isto provocou a profecia contra Salomão.

Na história enigmática do profeta que veio de Judá a Betel para falar
contra o altar de Jeroboão, o Senhor revelou que era hostil a altares pagãos.
O elemento preditivo (essencial para a autenticação) incluía o jovem rei Jo-
sias, cuja reforma se estenderia a esta mesma área a uns 200 anos depois (1
Rs 13). A exigência do Senhor por obediência total foi evidenciada quando o
jovem profeta foi morto (pelo Senhor) por não ter executado a palavra divi- 
na, embora um homem, afirmando que falava em nome do Senhor, o tivesse
enganado.

A mensagem de Aias para Jeroboão, que tinha o filho doente, comparou
a conduta de Jeroboão com Davi. Parece que Aias, levando em conta a profe-
cia sobre uma “casa firme” para Jeroboão, pensou que a dinastia de Jeroboão
substituiria em certo sentido a dinastia de Davi.  Seja como for, o fracasso
de Jeroboão andar no caminho de Davi foi a base para o Senhor julgar a casa
de Jeroboão. O grande mal cometido por Jeroboão foi a idolatria e rejeição do
Senhor (1 Rs 14.9,10).

Semaías. O cronista fala sobre a confrontação de Semaías com Roboão,
acusando-o de apostasia espiritual. Roboão se humilhou e o Senhor livrou Judá,
mas permitiu que fossem “servos” de Sisaque, o rei egípcio (2 Cr 12.1-8). Este
Semaías, junto com o vidente Ido, também escreveram um relato dos atos de
Roboão (v. 15).

Azarias e Hanani. A reforma de Asa (analisada mais adiante) é tratada
bastante ligeiramente em Reis, ao passo que Crônicas oferece várias páginas ao
tema e detalha a profecia de Azarias (2 Cr 15.1-7). Semelhantemente, a profe-
cia do vidente Hanani, que reprovou Asa por procurar fazer aliança com a Síria
(16.7-9), é ignorada em Reis.

Jeú. O julgamento do Senhor sobreveio a Baasa, rei do Reino do Norte,
pelo profeta Jeú, filho de Hanani, por duas razões: (1) o mal pessoal de Baasa
aos olhos do Senhor, e (2) a destruição da casa de Jeroboão, ainda que este fosse
um julgamento profetizado (1 Rs 15.7). Baasa foi pego pelo código de conduta
íntegra que se esperava dos reis do Senhor. Embora Davi não seja mencionado
no relato, o seu padrão aparece indistintamente no plano de fundo.

Daqui em diante, o historiador de Reis usará esta fórmula para os monar-
cas do Norte: “Por causa dos seus pecados que cometera, fazendo o que era
mal aos olhos do SENHOR, andando no caminho de Jeroboão e no seu pecado
que fizera, fazendo pecar a Israel” (1 Rs 16.19).

Elias e Eliseu. O ministério de Elias e Eliseu é inigualável no meio dos
ministérios inigualáveis. A tarefa era extraordinária, porque tiveram de resistir
a uma forma hostil e virulenta de baalismo. O baalismo era fortemente promo-
vido pelo rei e rainha de Israel, e o povo foi apanhado em um sincretismo de
adoração ao Senhor e a Baal. O culto da fertilidade de Canaã continha idéias
culturais, terminologia e práticas comuns com o jeovismo o que tornava a pas-
sagem fácil. Só o fato de o Senhor poder ser chamado Baal (“senhor” ou “mes- 
tre”) tornava a diferenciação difícil. A tarefa de Elias e Eliseu era levar o Reino
do Norte a voltar a adorar ao Senhor pura e unicamente.

A teologia de Elias era simples: O Senhor é o Deus do universo que pode
fazer chover ou reter chuva. A religião da natureza com que os israelitas estavam
envolvidos estava sendo desafiada. Por conseguinte, Elias disse a Acabe que não
choveria até que o Senhor disse que chovesse (1 Rs 17.2). Este Deus do universo
dignou-se em satisfazer as necessidades mais simples do profeta. Elias foi sus-
tentado em Querite e em Sarepta. O Senhor, Deus de Israel, também decretou
que a provisão minguada de comida de uma viúva não acabaria até que Rle
enviasse chuva à terra (v. 14). Com a ressurreição do filho da viúva o Senhor
também provou que Ele é Deus de toda a vida. Este milagre levou a mulher a
dizer: “Nisto conheço, agora, que tu és homem de Deus e que a palavra do
SENHOR na tua boca é verdade” (v. 24).

Elias enfrentou a horda dos profetas de Baal com tranquilidade. A confiança
no Senhor era tão simples e total que o profeta escarnecia dos esforços tolos que
eles faziam para obter o favor e a ação de Baal. Ele consertou o altar arruinado
do Senhor. Tomou uma pedra para cada uma das 12 tribos de Israel e com elas
construiu o altar. Ao longo da história de Elias, inclusive a fuga para o Sinai, o
historiador enfatizou a importância da revelação prístina do Senhor no deserto.
A organização das 12 tribos ao redor do altar do Senhor com o sacrifício animal
necessário era a fé simples dos israelitas quando peregrinavam no deserto, para
a qual Elias estava exigindo que o povo retornasse. Quando o Senhor respondeu
com o milagre de fogo no altar, o povo clamou: “Só o SENHOR é Deus! Só o SE-
NHOR é Deus! ” Baal, o deus da tempestade, deveria ter podido trazer fogo, mas foi
o Senhor, o Deus de toda a natureza, que arreou os relâmpagos.

A “peregrinação” de Elias ao Sinai foi uma busca das raízes do jeovismo. Lá,
o Senhor aparecera a Moisés quando ele estava cuidando das ovelhas, e lá Ele apa-
receu de novo para lhe dar a lei. Elias precisava de reafirmação. O que ele achava
que ia acontecer no monte Carmelo não aconteceu, ou seja, o arrependimento de
Israel. Dirigiu-se ao monte Sinai (também conhecido por monte Horebe) para
repreender o Senhor por abandoná-lo. O Senhor renovou a confiança de Elias a
respeito do seu controle soberano, mesmo enquanto falava com uma voz suave e
baixa. Elias foi comissionado novamente e voltou à batalha (1 Rs 19.15-18).

O primeiro livro de Reis 20 não menciona Elias, mas é do mesmo círculo
profético. Neste caso, o mau rei Acabe teve a permissão de ganhar uma batalha
contra os sírios. Um profeta veio a Acabe e disse que Deus lhe daria grande
vitória para que soubessem que Ele é o Senhor (v. 13). Depois, o profeta disse
para Acabe que porque os sírios supuseram que o Senhor era limitado a certos
locais, o Senhor daria uma grande vitória, para que Acabe soubesse que Ele é o
Senhor (v. 28).

O ato mais hediondo de Acabe ocorreu na questão de Nabote. A respon-
sabilidade primária de um rei era fazer justiça na terra. Odiosamente, Acabe
violou esta exigência roubando de um homem que ele assassinara (por Jezabel). 
A palavra de condenação de Deus passou por Elias, tisbita (1 Rs 21.20-22). O
historiador adicionou uma nota sobre a maldade de Acabe, mostrando a neces-
sidade de ser julgado (w. 25,26).

O último capítulo da vida de Acabe era, como não podia deixar de ser, uma
confrontação com um profeta do Senhor. Josafá, em todos os outros aspectos,
um bom rei, decidiu se aliar com Acabe. Ele foi tão longe que chegou a selar
uma aliança de casamento do seu filho com a filha de Acabe. O primeiro livro
de Reis capítulo 22 relata que ele resolvera unir-se com Acabe em uma das suas
constantes batalhas contra os sírios em Ramote-Gileade. Josafá quis saber qual
era o conselho do Senhor, mas Acabe tentou satisfazê-lo trazendo os profetas da
corte, os lacaios do rei. Josafá percebeu a farsa diante dele e pediu um profeta do
Senhor. Trouxeram-lhe Micaías (cujo nome significa “quem é como o Senhor”),
filho de Inlá. Neste episódio pungente, a soberania do Senhor, incluindo o seu
controle sobre os falsos profetas que estavam iludindo Acabe para que fosse
morto em batalha, é claramente apresentada. Os propósitos do Senhor não po-
dem ser removidos. Acabe morreu e os cachorros lamberam o seu sangue, como
o Senhor tinha dito.

O controle divino da vida é novamente a questão quando Acazias, o filho
de Acabe, machucou-se em uma queda e enviou mensageiros a Ecrom para con-
sultarem Baal-Zebube, deus de Ecrom (2 Rs 1). Um anjo do Senhor disse para
Elias que desafiasse Acazias e os seus mensageiros: “Porventura, não há Deus em
Israel, para irdes consultar a Baal-Zebube, deus de Ecrom?” (v. 3). O castigo por
tal sincretismo foi que Acazias não se recuperaria dos seus ferimentos. Como
aconteceu em outras ocasiões, o rei tentou derrubar a palavra do profeta à força.
Enviou mensageiros para capturar Elias, mas eles foram mortos por fogo que
caiu do céu. Quando Elias veio a Acazias, ele apenas repetiu o relatório medo-
nho já anteriormente dado: Acazias morreria. Assim, mais uma vez as pessoas
vêem que o Senhor toma conta do universo inteiro.

Os milagres de Eliseu estavam na esfera da natureza: a cura da água (2
Rs 2.19-22); o milagre da provisão de água na batalha de Moabe (3.14-26); a
multiplicação do óleo para a viúva do profeta (4.1-7); a ressurreição do filho
da sunamita (w. 8-36); a purificação da refeição envenenada (w. 38-41); e a
multiplicação da comida para 100 pessoas (w. 42,43). A intensa ênfase no culto
da fertilidade no Reino do Norte exigia uma resposta por parte do Senhor que
provaria a sua superioridade sobre as falsas deidades adoradas pelos israelitas.
Houve outros efeitos causados pelos milagres, mas a luta pela atenção das pes-
soas aconteceu na arena da natureza. Eliseu foi usado para mostrar que não há
ninguém igual ao Senhor.

A cura espetacular do general sírio, Naamã, mostrou que o Senhor pode
dar vida à carne morta (“a tua carne te tornará”, 2 Rs 5.10), que ele era gentil
para com os estrangeiros e que o profeta não era mercenário como era a maio-
ria dos profetas de Israel. Nenhum outro texto ilustra melhor o fato de que o
profeta está livre do controle do povo, do que na recusa de Eliseu receber remu- 
neração do general rico. O servo do profeta serviu de exemplo da tolice de agir
mercenariamente com o ministério (2 Rs 5).

A universalidade do Senhor se mostra na habilidade de Eliseu controlar
os exércitos sírios, contando ao servo de Deus onde eles estavam situados. Esta
situação é semelhante a registrada em 1 Reis 20, quando os sírios pensaram
que o Senhor estava limitado a certos locais. A consciência que Eliseu tinha dos
sírios mostra que o Senhor sabe o que está acontecendo em outros países. Nas
religiões pagãs as deidades eram limitadas a certas esferas (uma cidade, o mar,
a caça, etc.). A reputação de Eliseu como profeta do Senhor era bem conhecida
na Síria, que o viam como alguém que conhecia os assuntos secretos até mesmo
dos sírios (2 Rs 6.12).

Quando o rei da Síria foi capturar Eliseu, o profeta tinha profunda confiança
em Deus. Estava ciente de que “mais são os que estão conosco do que os que
estão com eles” (2 Rs 6.16). Orou ao Senhor para que abrisse os olhos do servo,
de forma que este visse o exército divino acampado na montanha ao redor.
A história do cerco sírio a Samaría (2 Rs 6.24-7.20) contém temas teoló-
gicos importantes. A responsabilidade pela fome (uma consequência do cerco)
é atribuída ao Senhor. Portanto, o alívio tem de vir da mesma fonte. O rei
(Jorão?) sabia que só o Senhor poderia atender as necessidades do povo (6.27).
Também sabia que o Senhor trouxera essa calamidade ao povo (6.33).  Tam-
bém revelado está a rebelião do rei israelita que recusou se submeter à autorida-
de do Senhor.  A resposta do conselheiro do rei mostra a arrogância da casa do
rei: “Eis que, ainda que o Senhor fizesse janelas no céu, poder-se-ia fazer isso?”
(2 Rs 7.2). a retirada do cerco ocorreu por milagre, e o Senhor e o seu profeta
foram defendidos na libertação que sobreveio a Israel.

A universalidade e natureza intencional de Deus ficaram evidentes quan-
do Eliseu foi para Damasco e Ben-Hadade consultou ao Senhor pelo profeta de
Deus.  No processo de consulta, Eliseu revelou a Hazael, o mensageiro do rei,
que ele se tornaria o próximo rei em Damasco. Este foi o cumprimento da comis-
são original de Elias (1 Rs 19.15). O Senhor é certamente o Deus das nações.
O sincretismo do Reino do Norte alcançara tais proporções que uma pu-
rificação sangrenta era necessária. O Senhor comissionara originalmente Elias 
para ungir Jeu para este propósito (1 Rs 19.15-17). Acabe e Jezabel tiveram
êxito em desenvolver um culto estatal centrado na adoração a Baal. Apesar da
purificação executada por Elias no monte Carmelo, houvera um grande ressur-
gimento da adoração a Baal. Agora Jeu representou o Senhor na execução da
nova purificação. Ele acabou com a dinastia de Acabe e com a vida de Jezabel,
que até o fim foi descarada e arrogantemente contra o Senhor.

O próprio Jeu não foi notável exemplo de adorador ao Senhor. Ele com-
partilhava a atitude das tropas para com os profetas. Todo profeta era um “lou-
co”, e Jeú disse: “Bem conheceis o homem e o seu falar” (2 Rs 9.11). Acima de
tudo, “não se apartou Jeú de seguir os pecados de Jeroboão, filho de Nebate,
que fez pecar a Israel, a saber, dos bezerros de ouro, que estavam em Betel
e em Dã” (10.29). Também foi condenado pelo profeta Oséias por razões não
declaradas além do fato de que ele cometera uma massacre em Jezreel (Os 1.4).
Apesar do fracasso espiritual pessoal de Jeú, o Senhor lhe prometeu uma dinas-
tia de quatro gerações (2 Rs 10.30). Essa promessa se cumpriu quando Zacarias
se tornou rei (embora logo fosse assassinado).

Nada de bom é dito sobre Jeoás, neto de Acabe. Mas há o relato de uma
visita que ele fez a Eliseu que estava moribundo. Ele mostrou grande respeito
a Eliseu, chamando-o “meu pai” e “carros de Israel”. A última frase significa
que Eliseu era mais importante para Israel do que carros de guerra. Neste caso,
Eliseu predisse, pelo simbolismo de arco e flechas, que Jeoás derrotaria a Síria
(2 Rs 13.14-19).

]onas, filho de Amitai. Jonas é conhecido pela profecia que leva o seu nome,
pertencente à missão em Nínive. Entretanto, uma declaração concisa do tempo
de Jeroboão II revela que a expansão próspera do Reino do Norte no século IX
ocorreu sob o ministério profético de Jonas (2 Rs 13.25).

Isaías, filho de Amós. Uma das seções mais longas de 2 Reis diz respeito
ao piedoso rei Ezequias, a cujo louvor está escrito: “Não houve seu semelhan-
te entre todos os reis de Judá, nem entre os que foram antes dele. Porque se
chegou ao SENHOR, não se apartou de após ele e guardou os mandamentos
que o SENHOR tinha dado a Moisés. Assim, foi o SENHOR com ele; para onde
quer que saía, se conduzia com prudência” (2 Rs 18.5b-7a). Até mesmo os
reis bons, aos olhos do historiador exílico, foram arruinados por não terem
destruídos os lugares altos. Ezequias fez exatamente isso e, por conseguinte,
recebe amplo espaço em Crônicas como também em Reis. Considerando que
a invasão assíria viu interação considerável com o profeta Isaías, analisaremos
este evento aqui.

O lugar da lei de Moisés gozava elevada posição na vida de Ezequias. Se-
parou o testemunho tangível de Moisés (a serpente de bronze), que o povo
supersticiosamente adorava, da realidade intangível (2 Rs 18.4). Ezequias pro-
vavelmente seguia os conselhos de Isaías para livrar-se do jugo assírio. Isaías ad- 
vertira Acaz, pai de Ezequias, para que não fosse à Assíria e o exortara a confiar
no Senhor (Isaías 7-8). Mas Acaz recusou atendê-lo. Agora Ezequias escolhera
confiar no Senhor e não aceitar a soberania assíria. Deve ter ficado amarga-
mente desapontado quando Senaqueribe, rei da Assíria, veio do ocidente para
devastar a terra de Judá e ameaçar a capital Jerusalém.

Os oficiais de Senaqueribe foram a Jerusalém no esforço de intimidar Eze-
quias. A perspicácia teológica deles é impressionante. Disseram que a confiança
que Ezequias depositava no Senhor não seria bem-sucedida. Apelaram para o
povo comum, dizendo que o Senhor estava desgostoso, porque Ezequias des-
truíra os lugares altos do Senhor (2 Rs 18.22). Rabsaqué disse que o próprio
Senhor lhe mandara marchar contra Judá e destruí-la (v. 25). A inteligência
assíria estava bem informada. Ezequias dissera ao povo que confiasse no Senhor.

Ele livraria o povo da mão dos assírios. Esta era a promessa dos antigos. Fora
dada quando os israelitas deixaram o Egito, ameaçados pelo exército egípcio,
e repetida nos dias de Josué e, mais tarde, no tempo dos juizes. Agora em um
momento de arrogância Rabsaqué disse que o Senhor não os livraria. O rei da
Assíria é que os livraria e lhes daria bens e a vida. Ele estava tentando tomar o
lugar do Senhor (w. 31,32). O Senhor, disse ele, não era diferente de qualquer
outro deus nacional. Os deuses de Hamate, Arpade e outros não puderam livrar
os seus povos. Então, por que o Senhor faria algo mais pelos judeus? Este de-
safio direto à universalidade, onipotência e graça mantenedora do concerto do
Senhor com o seu povo tinha de ser respondido.

Ezequias contou para Isaías a repreensão e zombaria amontoada sobre o
povo de Deus. Pediu que Isaías orasse pelo remanescente que sobreviveu (2 Rs
19.4). O Senhor prometeu enviar um espírito aos assírios de forma que eles
acreditassem em um rumor e deixassem o país. Quando Senaqueribe se retirou,
enviou cartas a Ezequias contendo mais linguajar blasfemo (w. 9-13). A oração
de Ezequias (w. 15-19) contém temas teológicos importantes.

Começou testemunhando da singularidade do Senhor. Só Ele é Deus so-
bre todos os reinos da terra. Era o contra-argumento à afirmação de Rabsaqué
de que os deuses nacionais não puderam livrar seus respectivos povos, e que o
Senhor também não tinha poder para livrar o seu povo. O Senhor é o Criador
dos céus e da terra. Ele não é ídolo para ser levado e arrastado em cativeiro
— Ele é o grande Criador. A afirmação dos assírios de que eles derrotaram os
deuses nacionais era verdadeira, disse Ezequias, mas o Senhor não era um deus
nacional. Um livramento divino testificaria para todos os reinos da terra que o
Senhor era o único Deus verdadeiro.

A teologia maravilhosa de Isaías encontrada na sua extensa profecia tem
um vislumbre na resposta do Senhor à oração de Ezequias (2 Rs 19.21-34). O
Senhor queria que Senaqueribe soubesse que ele operou apenas pela direção
divina de Deus. Na verdade, o Senhor ordenou a atividade de Senaqueribe há
muito tempo atrás. Como o grande Criador e Mandante, o Senhor sabia tudo
sobre Senaqueribe, e sua insolência não ficaria impune. O milagre aconteceu de 
noite; 185 mil homens morreram pela mão do anjo do Senhor. O Senhor foi
defendido.

Isaías também predisse o cativeiro babilónico. A colocação desta profecia
no livro de Isaías a relaciona à segunda parte do livro sobre o cativeiro babiló-
nico. Aqui, o historiador declarou que havia muitas razões para o exílio, mas o
processo começou por Ezequias não confiar no Senhor, formando uma aliança
com os caldeus recentemente surgidos da Babilônia (2 Rs 20.12-18).

Hulda. Quando encontraram o livro da lei no Templo, consultaram Hul-
da sobre a significação do texto. Ela declarou em palavras ecoadas em Jeremias
que o povo seria julgado. Josias, porém, não seria envolvido pessoalmente no
julgamento (2 Rs 22.14-20).

Profetas inominados. O reinado longo e mau de Manassés foi a base para
grande parte do julgamento do Senhor sobre Judá. O historiador deixa claro
que o desastre de 586 a.C. ocorreu por causa da maldade do povo, conduzido
e representado por Manassés. Por isso, há o registro das palavras dos profetas,
servos do Senhor (2 Rs 21.10-15). Judá é ligado com Samaria no julgamento (v.
13) . Como Samaria fora levada para as cidades assírias, assim Judá seria levado
para as cidades babilónicas. Esta conquista era a consumação de todo o mal do
povo do Senhor desde o tempo que Ele os tirou do Egito.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.