31 de janeiro de 2014

Gleason L. Archer - Introdução ao livro de Lamentações

O título hebraico desta obra relativamente curta é a palavra
’êkah (“Como...!”) que aparece no começo do primeiro versículo
do Livro. O tema do livro é um lamento pelos males que sobrevie-
ram ao Judá pecaminoso e a lamentável destruição da Cidade
Santa e do templo do Senhor. Por implicação, o Profeta parece
apelar aos israelitas castigados para que reconheçam a retidão de
Deus ao tratar com eles assim, e que depositem uma vez mais sua
confiança total na misericórdia de Deus, com espírito de total ar-
rependimento.

Esboço de Lamentações

I. Jerusalém Devastada e Abandonada, 1:1-22.

A. Os Motivos da Ira de Deus contra a Cidade; o Arrependimen-
to é a única Esperança, 2:1-22.

II. A Cidade Lamenta sua Devastação; Arrepende-se ao Relem-
brar as Antigas Misericórdias de Deus, 3:1-66.

III. A Glória Anterior de Sião Contrastada com sua Atual Mi-
séria, 4:1-22. 

IV. A Nação Arrependida Entrega-se à Misericórdia de Deus,
5:1-22.

É interessante notar que os primeiros quatro capítulos foram
escritos de forma acróstica. Os capítulos 1, 2 e 4 têm, portanto,
22 versículos, cada um começando com uma letra sucessiva do
alfabeto hebraico. O capítulo 3, porém, contém 66 versículos, ha-
vendo três versículos cada letra do alfabeto.

Autoria e Composição de Lamentações

O Livro não declara expressamente quem era seu autor, mas
de acordo com uma tradição antiga e consistente Jeremias seria
seu compositor. Esta tradição é refletida no título do livro na
Septuaginta grega e no Targum de Jônatas. Os Pais antigos da
Igreja, tais como Orígenes e Jerônimo, reconheciam Jeremias como
sendo o autor incontestável. Muitos críticos modernos, porém, re-
jeitaram esta tradição na base da evidência interna; isto é, decla-
ra-se que o estilo é significativamente diferente do das profecias
de Jeremias, e duas ou três alusões históricas têm sido interpre-
tadas como referindo-se a condições ou acontecimentos de muito
depois da época de Jeremias. Por outro lado, é difícil conceber
que incidente posterior à queda de Jerusalém pudesse ter servido
como pretexto à composição duma trenodia tão trágica como esta.
Se Jeremias não foi o autor, deve ter sido algum contemporâneo
seu que testemunhou a mesma desapiedada destruição; resultado
da triste sorte de Sião ter caído nas mãos dos seus conquistadores
caldeus.

Em assuntos de estilo e de fraseologia, há diversas semelhan-
ças notáveis entre Lamentações e Jeremias, muitas das quais
foram reconhecidas pelo próprio Driver, que não aceita a autoria
de Jeremias; e.g. a virgem oprimida, filha e Sião (Lm 1:15, Jr
8:21); os olhos do Profeta “se desfazem em lágrimas” (Lm 1:16a;
2:11; Jr 9:1,18b). Compare “não tem quem a console entre todos
os que a amavam” (Lm 1:2) com “Todos os teus amantes se es-
queceram de ti, já não perguntam por ti” (Jr 30:14). Ambos falam
do cálice do julgamento divino: Lm 4:21 diz de Edom: “O cálice
passará também a ti; embebedar-te-ás, e te desnudarás”; Jr 49:12,
“Eis que os que não estavam condenados a beber o cálice, total-
mente o beberão, e tu serás de todo inocentado?”

Os avançados argumentos para indicar uma diferença do pon-
to de vista entre os autores das duas obras não dependem de qual- 
quer exegese sadia. Alega-se assim que, diferentemente de Lm
4:17, Jeremias não esperava qualquer socorro da parte do Egito.
Mas este é realmente um mal entendido, sendo que em Lm 4:17 o
Egito nem sequer é mencionado. Além disto, não registra a opi-
nião do autor, sendo apenas um reflexo da atitude da nação em
geral, que o profeta exprime nestas palavras: “Os nossos olhos
ainda desfalecem, esperando vão socorro; temos olhado das vigias
para o povo que não podia livrar”. O autor não dá a entender que
estivesse expressando seus próprios pontos de vista políticos. Ale-
ga-se também que, enquanto Jeremias considerava os babilônios
como sendo instrumento nas mãos de Deus para castigar Sua nação
desobediente, Lamentações 3:59-66 dá a entender que os Caldeus
eram inimigos maldosos que mereciam, e muito, a vara justicei-
ra de Deus. Mas é um erro supor que as duas idéias eram mu-
tuamente exclusivas. Jeremias declara como coisa óbvia que os
babilônios estavam sendo usados por Deus para o propósito de
castigar, mas que ao mesmo tempo, receberiam finalmente a pu-
nição da parte de Deus por causa dos motivos pecaminosos do
seu próprio coração. (Cf. Is 10, onde os assírios recebem o mesmo
tratamento). Conclui-se, portanto, que não há motivos válidos
para distinguir uma diferença de autoria baseada numa diferença
de ponto de vista.

Uma observação final deve ser feita quanto a Lamentações 3.
Os primeiros 18 versículos deste capítulo exprimem uma triste
lamentação, descrevendo Deus como sendo cruelmente severo, e
depois, de súbito, os versículos 19-39 adotam uma atitude de espe-
rança e de louvor a Deus pela Sua fidelidade e compaixão. Este
tipo de “discrepância” é realmente o que os críticos têm utilizado
em outros Livros do Antigo Testamento para demonstrar uma dife-
rença em autoria. Nesse capítulo, porém, nenhuma teoria da mul-
tiplicidade de fontes é possível, sendo que a composição inteira 4
vinculada juntamente de maneira firme e inescapável pelo padrão
acróstico da sua composição. Este capítulo, portanto, pode ser
levado em conta como sendo prova irrefutável de que era possível
a um autor hebraico antigo mudar de súbito dum modo para
outro e exprimir sentimentos em vívido contraste (embora na rea-
lidade não se contradigam). 

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.