27 de janeiro de 2014

Gleason L. Archer - Introdução ao livro de Jeremias

O nome Jeremias, Yirme-Yãhü, aparentemente significa “O
Senhor estabelece” (Orelli em ISBE), se o verbo rãmah (“lançar”)
pode ser entendido no sentido de lançar alicerces. O tema do Pro-
feta consiste numa série de severas advertências a Judá, no senti-
do abandonar a idolatria e o pecado para evitar a catástrofe do
Exílio. Cada classe da sociedade dos hebreus foi condenada como
sendo indesculpavelmente pecaminosa. Porque Judá recusou a se
arrepender, o Cativeiro na Babilônia seria inevitável. O que os
hebreus precisavam era humilhar-se em submissão ao jugo dos
caldeus, e não rebelar-se contra ele, pois o castigo pela sua infi-
delidade à aliança com Deus era bem merecido. Mesmo assim,
chegaria o dia em que Israel seria livrado pelo Messias, o Justo
Renovo; por este motivo Israel precisaria confiar sempre somente
em Deus e nunca na sua força carnal.

Esboço de Jeremias

I. Profecias sob Josias e Jeoaquim, 1:1 — 20:18.
A. A chamada do profeta, e sua comissão, 1:1-19.
B. O pecado e a ingratidão da nação, 2:1 — 3:5.
C. Predita a devastação vinda do norte (os Caldeus) 3:6
6:30.
D. A ameaça do Exílio na Babilônia, 7:1 — 10:25.
E. A aliança violada, e o sinal do cinto de linho, 11:1 —
13:27. 
F. A seca; o sinal do Profeta solteiro; a advertência acerca
do sábado, 14:1 — 17:27.
G. O sinal da casa do oleiro, 18:1 — 20:18.

II. Profecias Posteriores no Reinado de Jeoaquim e Zedequias,
21:1 — 39:18.
A. Nabucodonosor, instrumento de Deus para punir Zede-
quias e Jerusalém, 21:1 — 29:32.
B. O Reino Messiânico do futuro, 30:1 — 33:26.
(A doutrina da responsabilidade individual, 31:1-40).
C. O pecado de Zedequias e a lealdade dos Recabitas, 34:1
35:19.
D. A oposição de Jeoaquim, e sua destruição do rolo pro-
fético, 36:1-32.
E. Jeremias na prisão durante o cerco, 37:1 — 39:18.

III. Profecias Após a Queda de Jerusalém, 40:1 — 45:5.
A. Ministério entre os remanescentes em Judá, 40:1 —
42:22.
B. Ministério entre os fugitivos no Egito, 43:1 — 44:30.
C. Encorajamento a Baruque, 45:1-5.

IV. Profecias Contra Nações Pagãs, 46:1 — 51:64.
A. Egito, 46:1-28.
B. Filístia, 47:1-7.
C. Moabe, 48:1-47.
D. Amom, Edom, Damasco, Arábia, Elão, 49:1-39.
E. Babilônia, 50:1 — 51:64.

V. Apêndice Histórico, 52:1-34.
(Acontecimentos na queda e no cativeiro de Jduá).

Biografia do Autor

Jeremias começou seu ministério com cerca de vinte anos de
idade, no décimo-terceiro ano de Josias, isto é, 626 a.C. Passou a
maior parte da sua vida na cidade natal Anatote, aparecendo em
Jerusalém a todas as festas anuais do calendário religioso judaico,
sendo descendente de família sacerdotal. Parece ter tido boas con-
dições financeiras, sendo que não lhe custou qualquer ônus a mais
a compra da fazenda empenhorada dum parente falido. Durante
o governo do piedoso rei Josias, não foi molestado pelos oficiais, e
desfrutou de relações cordiais com o rei, ao ponto de compor uma
lamentação eloqüente na ocasião da sua morte em Megido. No 
meio dos seus próprios companheiros de sacerdócio e dos seus
parentes, Jeremias angariou para si mesmo considerável má von-
tade por causa da repreensão aberta que lhes fez da infidelidade
á aliança, condenando suas práticas mundanas.

Depois da morte de Josias, e o surgimento da facção idólatra
e o partido pró-egípcio, houve uma reação séria contra Jeremias
e tudo quanto ele representava. Somente através da intervenção
de alguns poucos anciãos e príncipes piedosos é que Jeremias es-
capou de ser preso por causa da sua advertência pouco agradável
à nação, no sermão no templo, capítulos 7 — 10. Desde então,
parece que foi proibido de entrar na área do templo, pois tinha
que mandar Baruque como seu porta-voz cada vez que tinha uma
mensagem da parte de Deus para proclamar ao povo. Ditou suas
profecias a Baruque para que fossem lidas ao povo de Jerusalém.
Dentro em breve, porém, esta cópia foi entregue ao rei Jeoaquim,
que a destruiu na sua lareira, pedaço por pedaço, enquanto era
lida por seu próprio secretário. Mais tarde, o rei Zedequias, um
sucessor de Jeoaquim, permitiu que os nobres do tipo nacionalístico
encarcerassem Jeremias, pois viam nele um traidor, por ter exor-
tado a nação a se submeter à Babilônia. Mesmo assim, Zedequias
tinha temores secretos do mensageiro de Deus, por causa do cum-
primento das suas prévias predições da invasão dos caldeus de
598. Por este motivo, mandou salvar o Profeta da morte quando
estava a ponto de perecer por causa dos maus tratos do seu con-
finamento, conservando-o escondido do perigo até a queda de Je-
rusalém.

Quando as forças de Nabucodonosor invadiram a cidade, foi
natural que oferecessem a Jeremias uma posição de honra e uma
aposentadoria em Babilônia (sendo que fora ele quem constante-
mente insistira com os judeus para que se submetessem a Nabu-
codonosor, como instrumento de Deus no castigo deles). Jeremias,
porém, preferiu ficar com seu próprio povo na Palestina, ministran-
do aos bandos de partidários de libertação que permaneciam de-
pois da deportação. Mas, depois do assassinato traiçoeiro de Ge-
dalias, foi levado ao Egito pelo remanescente fugitivo de judeus,
que preferiram refugiar-se na terra do Nilo do que permanecer
na Palestina e enfrentar a ira de Nabucodonosor. Na terra do
Egito, Jeremias profetizou durante mais alguns anos, e provavel-
mente foi ali que morreu.

De natureza, Jeremias era terno, manso e simpático, mas Deus
lhe deu a incumbência de proclamar uma mensagem severa de 
irreversível tristeza. Amando ao seu povo com profunda afeição,
constantemente se via como objeto de ódio, acusado de ser um
traidor. Apesar de ser extremamente sensível, foi forçado a agüen-
tar uma barragem de calúnias e de perseguições, que poderia ter
esmagado o espírito até de pessoas insensíveis. Fisicamente fraco e
acanhado por natureza, foi sempre forçado a ser centro das aten-
ções. Ocasionalmente procurava desfazer-se das suas responsabili-
dades proféticas, que eram um fardo grande demais para ele, mas
vez pós outra, retornou ao dever que o chamava, e mediante o
poder que lhe vinha da parte de Deus, realmente ficou firme como
uma “torre de bronze”.

A História do Texto

Há boas evidências para se crer que, além da edição ori-
ginal da profecia de Jeremias, que foi destruída por Jeoaquim,
havia uma edição posterior que precedeu a forma final do texto
conforme conhecemos agora na tradição Massorética. Esta, pelo
menos, é uma dedução razoável a ser tirada da Versão da Sep-
tuaginta, que parece ter uma oitava parte a menos comparada
com o Texto Massorético. Há também uma diferença no arranjo
dos capítulos, sendo que os capítulos 46 — 51 do Texto Massorético
colocam-se depois do capítulo 25 na Septuaginta, e seguem uma
ordem um pouco diferente. Jeremias 33:14-26 falta completamente
à LXX. Parece que esta primeira edição foi publicada durante a
vida do Profeta e disseminada primeiramente no Egito. Depois
da morte de Jeremias, parece que Baruque fez uma coletânea mais
completa dos sermões do seu mestre, arranjando o material de
forma mais lógica. Sem dúvida é esta edição póstuma que consta
do Texto Massorético. Neste assunto, nota-se que 36:12 indica que
uma segunda edição preliminar foi publicada durante o reinado
de Jeoaquim, sendo portanto razoável supor que Jeremias conti-
nuava a acrescentar àquelas primeiras mensagens as que o Senhor
lhe dera durante o reinado de Zedequias e no período subseqüente
à queda de Jerusalém.

A Integridade do Texto

A maioria dos críticos racionalistas negam que certas porções
fossem da composição do próprio Jeremias ou do seu secretário,
Baruque. Tais passagens incluem: 1) 10:1-16, pelo fato de advertir
os judeus no Exílio contra a idolatria, em termos semelhantes aos
de “Dêutero-Isaías”; 2) 17:19-27, por causa da ênfase dada à es-
trita observância do sábado, que relembra Ezequiel ou o Código
Sacerdotal, e que pertenceria, portanto, a um período um pouco
mais avançado; 3) capítulos 30 e 31, por causa das expectativas
messiânicas características do período pós-exílico, e também por
haver uma ênfase na responsabilidade individual que se asseme-
lha a Ezequiel 18 (supondo-se sempre que a passagem em Jeremias
seja posterior à de Ezequiel); 4) o capítulo 51, porque Babilônia
é mencionada no versículo 41 pelo seu nome em Atbash, “Sheshak”,
sendo que o Atbash é considerado um artifício literário posterior.
(O nome Atbash é derivado do fato de ser um código pelo qual a
última letra do alfabeto representa a primeira, a penúltima indica
a segunda, etc.; assim, o B-b-1 de “Babel” sai com Sh-sh-k, que
sairia “Sesaque” nas Bíblias em geral, mas algumas traduções já
colocam “Babilônia”).

Deve-se notar porém, que todos aqueles critérios para se atri-
buir uma data avançada dependem, quanto à sua validez, de supo-
sições não comprovadas, tais como a data pós-exílica do Documento
P da Torá e de Isaías II, e duma hipótese evolucionária quanto ao
desenvolvimento da esperança messiânica. É difícil justificar qual-
quer séria separação cronológica entre Jeremias e Ezequiel, sendo
que, de acordo com a evidência bíblica, os dois profetas eram con-
temporâneos quanto ao seu Ministério, pelo menos durante a últi-
ma parte da carreira de Jeremias. Há uma semelhança muito
grande entre Jeremias 31:29, 30 e Ezequiel 18:2 e segs., mas parece
que o que Jeremias diz de passagem, é levantado por Ezequiel como
base dum sermão prolongado.

Assuntos Históricos em Geral

Quanto à predição de Jeremias em 21:10 dos setenta anos de
cativeiro, há certa dúvida quanto à maneira de se calcular as sete
décadas. A deportação principal da população de Judá não ocor-
reu até 586 a.C. Em 539 a.C., Babilônia caiu perante os conquis-
tadores persas, e dentro de um ou dois anos, o remanescente judeu
que quis voltar, veio colonizar Judá em 536 sob a liderança de 
Zorobabel e Jesua. Só cinqüenta anos, porém, passaram-se entre
586 e 536, e será necessário, então, procurar outros pontos finais des-
se período. Já que a primeira invasão da Palestina, levada a efeito
por Nabucodonosor em 605 a.C., resultou na deportação dum gran-
de número de reféns (incluindo Daniel, Sadraque, Mesaque e Abed-
nego), esta data pode servir de ponto de partida, e 536 seria apro-
ximadamente 70 anos mais tarde. Outra possibilidade seria come-
çar o cálculo dos 70 anos com a destruição do templo pelo General
Nebuzaradã em 586, prolongando-se o Cativeiro até a construção do
segundo templo, que foi completado em 516. Destas duas escolhas,
a segunda parece ser mais definidamente favorecida por Zacarias
1:12: “Então o anjo do SENHOR respondeu: ó SENHOR dos Exér-
citos, até quando não terás compaixão de Jerusalém e das cidades
de Judá, contra as quais estás indignado faz já setenta anos?”
Sendo que esta expressão foi falada em 519 a.C., podemos concluir
que pelo menos do ponto de vista do anjo, o período de setenta
anos ainda não chegara ao fim; e que a graciosa promessa de
Jeremias 29:10 ainda haveria de ser cumprida, até a restauração
do próprio templo.

Até poucas décadas atrás, houve muito ceticismo quanto ao
cumprimento da predição de Jeremias 43:9-13 e 44:30 que o Egito
do norte seria devastado por uma invasão de caldeus sob ordens de
Nabucodonosor (cf. também Ez 29:19 e segs. contém predição se-
melhante). Os historiadores gregos pagãos não mencionam tal
invasão, embora haja um registro definido em Josefo, nas Anti-
guidades, X, 9:5,7: “Jocanã levou aqueles que libertara e chegou
a um certo lugar chamado Mandar. No quinto ano depois da des-
truição de Jerusalém, que era o vigésimo-terceiro do reinado de
Nabucodonosor, fez uma expedição contra Coele-Síria; e quando
dela se apossou, fez guerras contra os amonitas e moabitas, e tendo
reduzido à sujeição estas nações, atacou o Egito para subjugá-lo,
matando o rei que então governava, colocando um outro no seu
lugar; tomou cativos os judeus que ali havia, levando-os para a
Babilônia, chegando assim, o fim da nação dos hebreus”.

Muitas autoridades tendiam a descontar o testemunho de
Josefo, alegando que foi uma fabricação para apoiar as Escrituras
Hebraicas. Mas R. Cambell Thompson de Oxford, no capítulo sobre
o Novo Império Babilônio (no vol. II da The Cambridge Ancient
History) declara: “O pequeno fragmento duma crônica babilónica
primeiramente publicado por Pinches, demonstra que Nabucodo-
nosor lançou uma expedição contra o Egito no seu trigésimo-sétimo 
ano, isto é, cerca de 567 A.C... a exata distância até onde pene-
trou é matéria de discussão... Podemos quase entender pelas
tradições que certos desertores babilônios edificavam uma “Babi-
lônia” no Egito, perto das Pirâmides, que parece ainda ter existido
como fortaleza importante na época de Augusto, mostrando que
este exército, pelo menos deixou sua marca ali”. Na coletânea de
Pritchard: Ancient Near Eastern Texts (“Textos do Oriente Pró-
ximo Antigo”) há na p. 308 uma tradução dum texto babilônio
fragmentário que existe no Museu Britânico, contendo a seguinte
frase: “No seu trigésimo-sétimo ano, Nabucodonosor, rei da Babi-
lônia, marchou contra Mi-sir (Egito) para travar uma batalha”.

Confirmação arqueológica adicional se encontra numa inscrição
da estátua de Nes-hor no museu do Louvre. Nes-hor era um gover-
nador do Egito do Sul sob Hofra (egípcio: Uahh-ib־Ra). Neste
registro biográfico, declara-se que um exército asiático e de povos
do norte que tinham invadido o Egito procurou avançar pelo vale
do Nilo, mas isto foi felizmente evitado pelo favor dos deuses.
Tendo em vista evidências como estas, dificilmente se justifica a
negativa da historicidade da invasão do Egito levada a efeito por
Nabucodonosor, nem tampouco se questiona que houvesse sido uma
incursão muito séria e devastadora.

Nesta altura vale a pena mencionar uma descoberta arqueo-
lógica muito importante, escavada no sítio da antiga cidade de
Láquis (Tel ed- Duweir), que trouxe a lume um arquivo de corres- 
pondências de cerca de vinte e uma ostracas do ano 588 a.C. Todos
são praticamente cartas ou lembretes escritos pelo capitão dum
avançado posto militar, chamado Hoshaías, a Ya’ush, comandante
distrital das forças de Judá em Láquis durante a terceira invasão
dos Caldeus. Na maior parte destas cartas, Hoshaías parece de-
fender-se de calúnias e más interpretações da sua própria lealdade
e eficiência. Estas comunicações referem-se a várias pessoas ou
incidentes de maneira tão indireta que é difícil sabermos de seu
significado total. Alguns estudiosos entenderam, por exemplo, que
o profeta mencionado nestas cartas pudesse ser o próprio Jeremias,
ou Urias, que tinha sido extraditado do Egito depois de ter pro-
nunciado profecias contrárias a Jeoaquim (cf. Jr 26:20-23). Um
estudo mais pormenorizado da evidência, porém, levou a maioria
dos estudiosos à conclusão de que os dados não bastam para iden-
tificar o profeta mencionado nas cartas. A luz que a correspondên-
cia lança sobre o período de Jeremias é mais significante no campo
lingüístico. O tipo de Hebraico empregado assemelha-se muito ao
empregado nos escritos de Jeremias, parecendo confirmar a auten-
ticidade das suas profecias no fato de que realmente pertenceram
ao sexto século a.C.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.