22 de janeiro de 2014

Gleason L. Archer - Introdução ao livro de Habacuque

O nome Habaqquq é raro, e seu significado incerto; possi-
velmente significasse um “abraço ardente” de hãbaq, “abraçar”
(Eiselen em ISBE). Alguns têm sugerido que seria uma planta de
jardim, que os assírios denominavam hambaqãqu, mas que ainda
não pôde ser identificada.

O tema desta profecia diz respeito aos problemas de fé em face
das dificuldades aparentes que pareciam ser empecilhos ao cumpri-
mento das promessas de Deus. Estas dificuldades são enfrentadas
e solucionadas à luz da continuada revelação de Deus, e o Profeta
encerra com um salmo de confiança jubilosa.

Esboço de Habacuque


I. Os Problemas da Fé, 1:1 — 2:20.
A. Como é que um Deus santo pode permitir a existência da
iniqüidade? 1:1-12.
1. Opressão em Judá, sem castigo, 1:2-5.
2. Os caldeus são o castigo divino, 1:6-12.

B. Como é que Deus permite a uma nação ímpia triunfar
sobre Seu povo? 1:13 — 2:20.

1. Crueldade sem compaixão, idolatria grosseira dos cal-
deus, 1:13-17.
2. O que crê deve esperar humildamente, confiante na
resposta divina, 2:1-4.
3. O julgamento que atingirá os caldeus por causa dos
cinco pecados que praticam, 2:5-9.
4. Deus continua sendo soberano da Sua terra, 2:20.

II. Solução de Todas as Dúvidas: a Oração da Fé e a Confiança
Inabalável, 3:1-19.
A. Oração pelo reavivamento, 3:1,2.
B. Os julgamentos do Senhor no passado são sinal claro do
futuro, 3:3-16.
C. O que crê regozija-se somente em Deus, tendo segurança
da vindicação da santidade de Deus, 3:17-19.

Autoria e Data da Composição

Habacuque parece ter exercido seu ministério durante o rei-
nado de Jeoaquim, porque os caldeus são mencionados como sendo
bem conhecidos e de formidável reputação (1:6-10). Isto concor-
daria melhor com uma data subseqüente à queda de Nínive em 612,
e talvez até depois de Nabucodonosor ter ganho sua vitória triun-
fante na batalha de Carquemis em 605. É razoável supor que a pre-
dição da subjugação da Palestina aos caldeus fosse vinculada a um
cumprimento relativamente rápido. (É difícil saber qual das in-
vasões estava em mente, se a primeira, de Nabucodonosor, em 605,
ou a segunda, em 597). Habacuque 1:2-4 indica um surto de ex-
ploração violenta dos pobres da parte da nobreza de Judá; isto indi-
caria uma época após a morte de Josias (609). É razoável, portanto,
concluir que Habacuque entregasse sua mensagem cerca de 607
ou 606 a.C.

Alguns comentaristas não consideram 1:2-4 aplicável aos opres-
sores judeus, preferindo identificá-los com os egípcios (colocando
a profecia no ano 608, durante a breve ascendência de Neco) ou
até com os assírios (que implicaria numa data anterior a 612,
remontando talvez até o reinado de Asurbanípal, que morreu em
626). Mas não há nenhuma evidência no texto de 1:2-4 de ter havido
alusão a invasores pagãos; a manipulação das cortes de justiça para
favorecer os ricos indica um mal doméstico. 

Alguns críticos sentem que a matéria dos caps. 1 e 2 seria re-
composta por um redator posterior, ainda que o Habacuque pré-
exílico pudesse ter sido o autor de todas as partes. Mas os críticos
são unânimes em duvidar da sua autoria do capítulo 3, declarando
que este consiste num salmo e não numa expressão profética, e
menciona que termos musicais ocorrem nos versículos 1 e 19. Com
estes argumentos, Pfeiffer coloca este capítulo no quarto ou no
terceiro século a.C. Mas tal argumento envolve a validez da supo-
sição que os termos musicais que se acham nos Salmos de Davi
pertencem a uma época posterior, e que, apesar de Amós 6:5 e outras
referências semelhantes, o rei Davi nada tinha que ver com música
ou cânticos, por ser um homem de guerra. Para os que levam a
sério a tradição bíblica de que Davi se preocupava muito com a
autoria e a musicalidade dos Salmos, tais termos musicais não
oferecem nenhuma evidência de autoria de data posterior. Além
disto, não há nada que impeça um profeta de compor um salmo
de ações de graça e de louvor ao Senhor. Grandes porções das es-
crituras proféticas são de caráter altamente poético, que os pró-
prios críticos se apressam a indicar.

Alguns estudiosos exageraram a importância do fato que o co-
mentário de Habacuque da Primeira Caverna de Qumran omite o
terceiro capítulo. Millar Burrows observa (DSS 321, 322): “Sua
ausência do Rolo é consistente com esta teoria, mas não o prova.
Nem sequer prova que os sectários judeus desconhecessem o terceiro
capítulo. Sendo um Salmo, não se adapta ao tipo de interpretação
adotado para os outros capítulos. Há também a possibilidade de
que o comentário não foi completado. A Septuaginta possui os
três capítulos, mas se esta parte da Septuaginta é mais antiga
do que o Comentário de Habacuque é outra questão”.

A Mensagem de Habacuque

Os nobres rapaces, aliados dos líderes venais e religiosos, esta-
vam inescrupulosamente roubando e oprimindo o povo de Judá.
Tinham, portanto, que ser punidos através da instrumentalidade
dos caldeus. É interessante notar que a nobreza era a primeira
parte da população a ser levada ao cativeiro nas duas deportações
preliminares de 605 e 597. A maior parte das classes baixas foi
deixada na terra até a terceira deportação de 586.

Depois disso, o profeta percebe que os caldeus se constituirão
em problema dificilmente reconciliável com a doutrina da santi-
dade de Deus, sendo um povo sanguinário, sem compaixão e sem a 
mínima reverência pela lei moral. Mas, ao invés de cair num cinis-
mo impaciente, Habacuque dá um exemplo muito saudável de es-
pera pela resposta do Senhor (2:1). Finalmente chega a resposta:
o pecador orgulhoso que confia em si mesmo será condenado, e seu
tempo está próximo, somente o crente fiel ficará de pé, justificado,
no julgamento do Senhor. Só ele participará da vida eterna, só
ele tomará parte nesta vida, na continuação da história, 2:4. Deus
tomou nota dos pecados dos caldeus, e vindicará gloriosamente no
final, ao trazer julgamento à sua terra (2:13,14). Solucionadas
todas estas dúvidas, Habacuque irrompe num salmo de santo rego-
zijo, e rememora os dias do Êxodo, da Conquista e a época dos
Juizes, relembrando as instâncias do passado nas quais Deus, de
maneira semelhante, vindicou Seu caráter de retidão e demons-
trou Sua soberania perante o mundo.

A profecia de Habacuque tem vários aspectos sui generis. É
especialmente digna de nota pelo seu estilo de abordar os assun-
tos. Ao invés de se dirigir diretamente à nação como porta-voz do
Senhor, Habacuque entregou a mensagem divina ao revelar ao
povo como ela chegara a ele, respondendo às perguntas que esta-
vam surgindo dentro da sua alma. Com a possível exceção de
Daniel, não há qualquer autor bíblico que empregue esta técnica. 

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.