10 de janeiro de 2014

Gerald F. Hawthorne - O cânon e os apócrifos do Antigo Testamento

DEFINIÇÃO DE TERMOS

A palavra “cânon” deriva do grego kanõn, uma palavra cujo significado literal é vara, barra ou linha, como a linha do prumo de um pedreiro. Era usada para medir coisas ou manter um objeto em movimento retilíneo.
A palavra passou a ter o significado metafórico de padrão pelo qual as pessoas comparavam coisas e pelo qual julgavam suas qualidades ou valor (cf. G1 6.16). As vezes “cânon” se referia às regras de uma arte ou negócio, ou ao padrão usado para orientar o artesão. Na escultura, por exemplo, a estátua “o lanceiro”, de Policleto, “era considerada o cânon ou a forma perfeita do corpo humano” (TDNT, 3, 597). A sua forma era o modelo de excelência do escultor.

Desse significado metafórico surgiu a ideia de aplicar a palavra “cânon” a uma lista de escritos sagrados que possuíam autoridade divina especial — autoridade que dava a esses escritos uma característica normativa. Por isso, tornaram-se o padrão, o modelo, o paradigma segundo o qual os fiéis poderiam avaliar outros escritos e ideias, e o conjunto de regras pelas quais poderiam ordenar a própria vida de fé, ensino e prática.

E este último significado que temos em mente quando falamos do cânon do AT — uma coleção de escritos inspirados pelo Espírito de Deus, santos, sagrados e revestidos de autoridade. Esse cânon contém: 1) o Pentateuco (Gn, Êx, Lv, Nm, Dt); 2) os Profetas: os Profetas Anteriores (Js, Jz, 1 e 2Sm, 1 e 2Rs) e os Profetas Posteriores (Is, Jr, Ez, e os Doze, i.e., os chamados “Profetas Menores”); e 3) Os Escritos (Sl, Pv, Jó, Ct, Rt, Lm, Ec, Et, Dn, Ed—Ne ele 2Cr). Embora em épocas e locais diferentes esses livros do AT apresentem variações na sua ordem e quantidade (o número de livros canônicos varia entre 22 e 39, dependendo de como são agru-pados), para os judeus e a maioria dos protestantes todos esses livros e somente esses livros constituem o cânon do AT — um registro fechado e normativo da revelação divina.

A palavra “apócrifos” também deriva de uma palavra grega — apokryphos. Originariamente significava “coisas escondidas, secretas”, “coisas obscuras, de difícil compreensão”. Com o passar do tempo, no entanto, como a palavra “cânon”, tornou-se um termo técnico aplicado a escritos sagrados e revestidos de autoridade; foi usada dessa forma por Jerônimo para designar aqueles livros que outros pais da Igreja tinham chamado de “eclesiásticos” — i.e., livros dignos de serem lidos na igreja, mas não de serem empregados para estabelecer doutrinas.

Ninguém sabe ao certo por que essa palavra foi escolhida para descrever esses escritos sagrados. Talvez porque algumas pessoas os considerassem sagrados demais para serem usados pelas pessoas comuns, ou profundos e difíceis demais para serem compreendidos pelos não iniciados. Por isso, eram mantidos longe e escondidos dos leigos. Por outro lado, talvez tenha sido porque alguns os considerassem indignos de serem lidos lado a lado com as “verdadeiras Escrituras Sagradas”, ou documentos perigosos cheios de ensinos falsos e destrutivos que precisavam ser mantidos escondidos e distantes das massas ignorantes que são facilmente enganadas.

Não importa qual tenha sido a verdadeira razão, a expressão “Apócrifos do AT” agora se refere aos escritos excluídos do cânon hebraico, mas que mesmo assim foram incluídos no cânon de alguns grupos cristãos, especialmente o dos católicos romanos. Esses escritos perfazem o total de 15 e incluem 1 e 2Esdras, Tobias, Judite, Adições a Ester, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruque, Carta de Jeremias, O Cântico dos Três Hebreus, Suzana, Bel e o Dragão, Oração de Manassés e 2Macabeus (cf. NEB). Somente oito desses livros, no entanto, aparecem no índice das Bíblias católicas romanas (cf. BJ), porque 1 e 2Esdras e a Oração de Manassés não foram canonizados pelo Concílio de Trento (1546 d.C.) e por isso são omitidos, e porque Adições a Ester é parte integrante de Ester, enquanto O Cântico dos Três Hebreus, Suzana e Bel e o Dragão são parte integrante de Daniel.

Devemos observar que os católicos romanos preferem a expressão “deuterocanônicos” ao termo “apócrifos” para esses livros, não porque com essa designação os considerem menos inspirados ou com menos autoridade do que os livros “protocanônicos” (os livros do cânon hebraico). Eles preferem essa designação simplesmente porque ela ressalta o fato de que, após muitas dúvidas e discussões, esses livros foram finalmente definidos e aceitos como parte do cânon em data posterior à dos livros do cânon hebraico (cf. New Catholic Encyclopaedia, 2.386; 3.29).

FORMAÇÃO DO CÂNON DO AT

Os 39 livros do cânon do AT fazem parte da Bíblia cristã já há tanto tempo que talvez tenhamos nutrido a concepção de que Deus deixou cair do céu os 39 livros de uma vez e ainda encadernados em um só volume. Mas a palavra “cânon” sugere tempo, reflexão e decisão. Dentre os muitos escritos hebraicos redigidos ao longo de séculos de vida do povo hebreu, somente alguns foram escolhidos por providência e influência divinas e por seleção humana para ser o padrão e a regra normativa para a fé e a prática. Em outras palavras, o cânon do AT tem uma história.

1) Fontes para a reconstrução dessa história

De forma alguma, é fácil reconstruir a história da formação do cânon do AT, e essa tarefa tampouco pode ser realizada com certeza ou exatidão. A razão disso está nas fontes que precisamos usar. São escassas, vagas e, em alguns casos, lendárias. Seus autores não eram estudiosos críticos e detalhistas do século XX, dispondo-se a escrever e anotar a cada passo do caminho um relato preciso de como e quando cada livro do AT foi concluído e reconhecido como inspirado.

a) O AT. Uma dessas fontes é o AT, mas até o AT tem pouco a dizer a respeito de si mesmo — quem escreveu seus diversos livros, como e quando foram finalmente reu¬nidos em um corpus bem ordenado ou quais pessoas influenciaram os diversos estágios do seu desenvolvimento. Por exemplo, partes do Pentateuco afirmam ter sido escritas por Moisés: a promessa de Deus de exterminar Amaleque (Ex 17.14); a lei da aliança de Êx 20—24; 34 (cf. especialmente 24.4 e 34.27) ; os relatos das viagens de Israel como registradas em Números (cf. Nm 33.1,2); e se não todo o livro de Deuteronômio, pelo menos os caps. 27.1—31.9 (observe 31.9ss) etc. Mas em nenhum lugar nos primeiros cinco livros do AT se diz explicitamente que Moisés foi o autor do todo, o arquiteto responsável por reunir e preservar em forma escrita as tradições antigas de Gênesis junto com as novas leis da aliança de Deus com Israel. Muitas vezes ocorrem expressões do tipo “o SENHOR disse a Moisés” nos livros de Êxodo a Deuteronômio, mas, embora elas sejam um argumento a favor da inspiração do Pentateuco, não nos dizem claramente que Moisés escreveu tudo que o Senhor dissera a ele. A comunicação oral entre o profeta inspirado e os seres humanos à sua volta de forma alguma era coisa do passado. 

Também não recebemos ajuda alguma acerca da composição final do Pentateuco dos períodos posteriores da história do povo hebreu. E certo que são mencionadas e se recorre com frequência às leis de Moisés, até mesmo às leis escritas de Moisés, como a um corpo de literatura normativo e marcado pela autoridade: Josué (8.34), Juízes (3.4), Reis (1Rs 2.3; 8.9; 2Rs 14.6; 18.4-6), Crônicas (2Cr 25.4), Neemias (9.14; 13.1,2) etc. — todos testemunham desse fato. O aspecto sagrado das leis de Moisés era inquestionável (2Rs 8.9) — obedecer a elas era obedecer a Deus. Mesmo assim, esses autores posteriores pouco nos contam da composição do Pentateuco como um todo. Quase todo livro do AT retrata Moisés como “a fonte da lei de Israel”, e os profetas advertiram o povo acerca do que aconteceria se negligenciasse a Lei, mas nenhum deles atribui explicitamente a Moisés mais do que o “coração” do Pentateuco — a lei da aliança. Em pelo menos duas ocasiões, Israel prometeu obedecer a esse Livro da Lei que Deus lhes tinha dado por meio de Moisés — uma foi durante o reinado de Josias (2Rs 23.2ss; 2Cr 34.30ss) e outra sob Esdras e Neemias (Ed 7.6,14; Ne 8.1ss); tudo isso implica que essa Lei era considerada Escritura canônica. Mas em que consistia esse Livro da Lei ninguém sabe — certamente parte do Pentateuco, mas provavelmente não todo ele.

Por isso a informação colhida do AT permite apenas as seguintes conclusões. Permite-nos concluir que a ideia de um cânon é muito antiga, remontando às ordens marcadas pela autoridade dadas por Deus a Adão, Noé, Abraão e especialmente a Moisés, e que Deus podia e de fato revelou sua vontade de forma escrita com o resultado de que esses documentos escritos se tomaram sagrados e normativos. Mas não nos permite concluir com igual certeza qual era a extensão desses documentos ou que Moisés foi o autor do Pentateuco em todas as suas partes, ou que ele sozinho reuniu essa parte do cânon na sua forma final conhecida hoje.

O que dizer acerca da origem e formação dos chamados livros proféticos do AT? Novamente o testemunho do AT acerca de sua própria história — quem escreveu quais livros, em que época e como eles e somente eles passaram a ser considerados Escrituras sagradas — parece insignificante. Por exemplo, foi Josué, filho de Num, quem escreveu o livro que leva o seu nome? Talvez. Mas não há reivindicação dessa autoria no próprio livro. Também não é possível argumentar com base em Js 24.26 (“Josué registrou essas coisas no Livro da Lei de Deus”) que “o Livro de Josué foi escrito pelo profeta Josué e acrescentado ao Pentateuco” (Harris, APEB, 1, p. 715), porque a expressão “essas palavras que foram escritas na lei de Deus” se referem somente à aliança que Josué fez com o povo de Israel no final de sua vida, e não ao livro como um todo. Portanto, a questão da autoria ainda permanece não resolvida, e, como consequência, a pergunta acerca de quando foi escrito também não está respondida.

O que dissemos a respeito de Josué se aplica igualmente aos livros de Juízes, Samuel e Reis — os outros Profetas Anteriores. Seus autores não são identificados, e a data de sua autoria não é especificada. Se esses livros como os conhecemos hoje não foram escritos durante o período que descrevem (como alguns eruditos pressupõem), são baseados, mesmo assim, em documentos que facilmente poderiam ter sido escritos na mesma época dos eventos registrados neles — documentos como o Livro das Guerras do Senhor (Nm 21.14), o Livro de Jasar (Js 10.13; 2Sm 1.18), um livro escrito por Samuel acerca dos direitos e deveres do reino (ISm 10.25), o Livro dos Registros Históricos de Salomão (lRs 11.41), o Livro dos Registros Históricos dos Reis de Israel (lRs 14.19) e de Judá (lRs 14.29). E um fato histórico, no entanto, que os “Profetas Anteriores” sobreviveram e se tornaram parte do cânon do AT, enquanto suas fontes caíram no esquecimento. Mas por que, visto especialmente ser possível que algumas dessas fontes escritas fossem claramente proféticas na sua origem — Os Registros Históricos do Vidente Samuel, do Profeta Natã, do Vidente Gade, do Profeta Semaías, do Vidente Ido, de Jeú, filho de Hanani (lCr 29.29; 2Cr 12.15; 20.34); e Os Registros Históricos dos Videntes (2Cr 33.19)? E quando se tornaram canônicos? E em que circunstâncias? O AT em si não responde a essas perguntas.

O AT tampouco responde completamente a essas perguntas quando são feitas acerca dos Profetas Posteriores — Isaías, Jeremias, Ezequiel e os Doze. Em grande parte, a men¬sagem dos profetas foi transmitida de forma oral (o termo hebraico, massa’, “levantar” i.e., a voz, encontrada tantas vezes em Isaías e traduzida por “oráculo”, implica uma palavra [de juízo] falada). Por isso ficamos pensando se o próprio profeta escreveu o livro que leva o seu nome, ou se o trabalho de colecionar e anotar seus oráculos foi deixado para os seus discípulos, i.e., os “filhos dos profetas” (cf. 2Rs 2.3), a ser feito imediatamente (observe que Baruque, o escriba, diz: “ele ditou todas essas palavras, e eu as escrevi com tinta no rolo” — Jr 36.4,18,27,32; cf. também Is 8.16), ou mais tarde. Embora a informação dada pelo AT não nos permita afirmar dogmaticamente quando cada um desses livros proféticos foi escrito ou quem os escreveu, podemos dizer que a estrutura deles, elaborada em torno das expressões “assim diz o Senhor”, OU “a palavra do Senhor veio ao profeta” etc., caracterizava-os como normativos e marcados pela autoridade divina. Podemos dizer ainda que essa autoridade era intensificada quando as palavras preditivas de juízo dos profetas se tornavam realidade nos desastres nacionais que caíam sobre Israel e Judá e quando suas profecias eram citadas como palavras inspiradas do Senhor nas quais se podia confiar (cf. Ed 1.1; Dn 9.2; Zc 7.12 etc.). Era inevitável então que esses livros se tornassem parte do cânon do AT.

O que dizer dos outros livros do cânon — Rute, 1 e 2Crônicas, Esdras, Neemias, Ester, Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Lamentações de Jeremias e Daniel? Precisamos repetir que o próprio AT não tem muito (ou nada) a dizer acerca de quem de fato escreveu esses livros, ou exatamente quando eles foram escritos e quando tomaram o seu lugar no cânon das Escrituras. Por isso somos compelidos a concordar com a afirmação de que, embora o AT “deva legitimamente ter o direito de definir e descrever a canonicidade, ele na verdade não tem quase nada a dizer acerca da maneira em que os escritos sagrados foram colecionados ou acerca das personagens que exerceram influência sobre o corpus de escritos durante os diversos estágios do seu crescimento” (Harrison, p. 262).

b) Fontes externas ao AT. Apesar do fato de que o AT tem pouco a dizer acerca do seu próprio desenvolvimento histórico, quando os 39 livros do cânon hebraico estavam finalmente completos, foram eles, e não suas fontes subjacentes, que as pessoas preferiram, aceitaram e usaram como Escrituras sagradas. Mas quando esses livros foram concluídos e considerados canônicos? Visto que o próprio AT não responde a essa pergunta, precisamos buscar a resposta em outro lugar. Apesar das muitas evidências externas ao AT, a pergunta nunca é respondida de forma totalmente satisfatória.

O nosso testemunho mais antigo da conclusão do cânon do AT é o Pentateuco Samaritano. De acordo com Ne 13.28 e Josefo, Antiguidades, 11.5.7,8, em torno de 432 a.C. Neemias expulsou o genro de Sambalate, o horonita, de Jerusalém, que então fundou a comunidade religiosa dos samaritanos, separando-se dos judeus. Ele construiu um templo no monte Gerizim para concorrer com o de Jerusalém e levou consigo as Escrituras sagradas dos judeus. Visto que a Bíblia Samaritana consistia apenas no Pentateuco (com uma versão modificada do livro de Josué — não considerada, porém, parte da Bíblia — que incluía uma história que ia até o período romano), muitos estudiosos presumem que a literatura posterior do cânon do AT ainda não tinha sido desenvolvida ou, pelo menos, não tinha ainda sido considerada sagrada. A dificuldade dessa pressuposição é que ela se baseia no silêncio. Talvez os samaritanos tenham rejeitado as outras partes do cânon porque elas advogavam a favor do templo em Jerusalém e continham tantas expressões antiefraimitas (Bentzen, p. 35). O único fato seguro é que, pelo menos em 432 a.C., o Pentateuco estava completo e era visto como uma unidade e considerado canônico.

A Septuaginta (LXX), a primeira tradução do AT, é mais uma testemunha antiga da existência do cânon das Escrituras. Esse projeto de tradução foi realizado no Egito e planejado, de acordo com a lenda, por Ptolomeu Filadelfo (285—247 a.C.). A Epístola de Aristéias (c. 100 a.C.) narra essa lenda, contando como 72 tradutores versados em hebraico e grego foram levados por Ptolomeu para Alexandria e hospedados na ilha de Faros, onde, em consulta entre si, produziram uma tradução harmônica. Tradições posteriores (registradas, e.g., por Fílon, Ireneu e Clemente de Alexandria) embelezaram a lenda ao descrever como os tradutores foram isolados em 72 cômodos separados e produziram 72 traduções independentes, porém concordes umas com as outras, palavra por palavra! Se essa história fosse crível, não somente provaria que a LXX era inspirada, mas também que todo o AT era reconhecido como canônico já em 250 a.C. Mas não podemos dizer mais do que o fato que o projeto de tradução foi iniciado em alguma época durante o século III a.C. — e foi iniciado sem dúvida pelo Pentateuco. “A falta de unidade de plano nos livros que não fazem parte da Lei indica que provavelmente muitas mãos diferentes trabalharam em épocas diferentes nesses livros” (Robinson, p. 556). A LXX, portanto, que provavelmente levou praticamente um século para ser concluída (c. 250— 150 a.C.), nos conta pouco mais do que o fato de que o cânon mais antigo das Escrituras do AT foi o Pentateuco.

Jesus ben-Siraque (c. 180 a.C.) escreveu um livro em hebraico intitulado Eclesiástico. Nessa obra, a Lei está em alta estima no pensamento e na admiração desse autor (2.16; 19.20- 24; 39.1). Mas, nos caps. 44—50, ele canta um “hino aos pais” e elogia os homens famosos do AT de Enoque a Neemias, indicando com isso que ele sabia da existência da maior parte, se não de todo o cânon do AT. Se ele considerava esse cânon “fechado” é outra questão. Pois em 24.33 (“ainda derramarei ensino como profecia e o deixarei para as gerações vindouras”) Jesus ben- Siraque parece indicar que se considerava uma pessoa inspirada capaz de escrever verdades normativas que deveriam ser acrescentadas ao cânon existente.

O neto de Jesus ben-Siraque traduziu Eclesiástico para o grego e acrescentou um prólogo de sua autoria. Esse prólogo (c. 130 a.C.) talvez seja a evidência mais antiga da canonicidade de todo o AT. Certamente é a evidência mais antiga do fato de que o cânon hebraico era dividido em três partes — Lei, Profetas e Escritos (hagiógrafos). As suas palavras são: “Embora muitas e grandes coisas nos tenham sido transmitidas pela Lei e pelos Profetas, e por outros [...] a Lei e os Profetas e os outros livros dos nossos pais [...] a Lei, os Profetas e o restante dos livros”. Com base nisso, está claro que os nomes que ele dá de forma coerente aos primeiros dois grupos são os termos técnicos padrão usados para denominar o Pentateuco e os Profetas Anteriores e Posteriores. Mas ele descreve o último grupo de forma tão geral que: a) ele poderia estar se referindo àquela coleção final e variada de escritos canônicos agora conhecidos como os hagiógrafos e, portanto, se toma testemunha de um cânon fechado de 39 livros, ou b) ele poderia estar indicando que essa última seção ainda não estava completa e que o cânon ainda permanecia aberto nos seus dias como nos dias do seu avô.

Os textos das cavernas de Cunrã são mais uma evidência antiga da formação do cânon do AT. Esses rolos do mar Morto pertenciam a uma seita que se separou do restante do judaísmo não mais tarde do que c. 130 a.C., e ocupou Kirbet Cunrã por aproximadamente 200 anos. Esses rolos contêm citações de quase todos os livros do AT. Pesquisas feitas nessas citações indicam que “não mais tarde que 130 a.C. a Lei e os Profetas (no sentido hebraico da palavra) e a maior parte dos Escritos (hagiógrafos) eram aceitos e considerados canônicos, havendo talvez algumas dúvidas acerca de Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Ester e Eclesiástico” (Eybers, p. 36).

O Primeiro Livro de Macabeus (c. 130 a.C.) é importante porque destaca Daniel e os Salmos e aparentemente confirma o fato de que esses livros eram tratados como canônicos no século II a.C. Primeiro Macabeus 1.54 conta como Antíoco Epifânio erigiu o “sacrilégio terrível” em Jerusalém (Dn 9.24¬27); IMacabeus 2.59,60 descreve a libertação dos três jovens hebreus da fornalha ardente e o livramento de Daniel na cova dos leões (Dn 1.7; 3.26; 6.23) e IMacabeus 7.16,17 cita claramente de Salmos (SI 79.2).

O Segundo Livro de Macabeus (c. 124 a.C.) menciona duas cartas supostamente enviadas em 144 a.C. por judeus da Palestina a seus irmãos no Egito. Uma dessas cartas, após algumas histórias apócrifas acerca de Jeremias e Neemias, continua dizendo: “As mesmas coisas foram também relatadas nos arquivos públicos e nos registros relacionados a Neemias, e como, fundando uma biblioteca, ele reuniu as coisas concernentes aos reis e profetas, e os [escritos] de Davi, e cartas de reis acerca de dádivas sagradas. E de forma semelhante Judas também reuniu para nós todos aqueles escritos que tinham sido espalhados [...] em virtude da guerra que tivemos; e eles permanecem conosco” (2.13-15).

A importância dessas cartas está no fato de que, embora elas mesmas possam ser ilegítimas, contêm o que parece ser uma recordação verdadeira de um estágio antigo da formação do cânon do AT. A observação “as coisas concernentes aos reis e profetas” sem dúvida se refere aos Profetas Anteriores e Posteriores; “os [escritos] de Davi” é uma expressão que lembra o livro de Salmos ou parte dele; e as palavras “cartas de reis acerca de dádivas sagradas” lembra os editos dos reis persas publicados a favor da reconstrução do templo, como encontramos em Esdras —Neemias. Essas observações indicam que os livros da segunda divisão do cânon do AT (os Profetas) e alguns da terceira (os hagiógrafos) foram reunidos por Neemias para formar parte de uma coleção maior ou uma biblioteca fundada por ele. Observe, no entanto, que elas associam o nome de Neemias (século V a.C.) com a preservação do cânon, e não com a composição ou a edição final dele. E impossível deduzir dessas afirmações que Neemias teve algo que ver com a canonização, mesmo que só de uma parte do AT — trata-se somente do reconhecimento de que esses livros mencionados eram normativos, marcados com a autoridade divina e dignos de serem adicionados aos que ele já possuía.

Fílon (morreu c. 50 d.C.) também dá testemunho a favor da divisão tripartite do cânon do AT. Ele escreve acerca de “leis, e as palavras anunciadas pelos profetas, e hinos e outros escritos” (De vita contemplativa, 25). Mas para ele a Lei, e somente a Lei, era o supercânon.

Ele nunca faz exegese, no verdadeiro sentido da palavra, de uma passagem que não seja do Pentateuco. Simplesmente alude a textos de outras partes do AT no decurso de suas exposições de passagens da Torá (Von Campenhausen, p. 14). A sua maneira de citar, no entanto, é instrutiva. Mesmo que tenha sustentado que a inspiração não estava confinada às Escrituras do AT (Green, p. 130), nunca citava de fontes outras que as Escrituras canônicas do AT — nem mesmo dos apócrifos. O cânon que ele usava, portanto, era essencialmente o cânon do AT hebraico. Será que a ação desmente a verdadeira convicção de uma pessoa?
O NT talvez seja a melhor evidência antiga (50—100 d.C.) do cânon “estabelecido” das Escrituras do AT. Embora venhamos a dizer mais acerca da relação entre o AT e o NT mais tarde, observe de passagem que os autores do NT referem-se ao AT como “a Escritura” (Jo 10.35; 2Pe 1.20), “Escrituras Sagradas” (Rm 1.2), “a Lei” (Jo 10.34), “a Lei e os Profetas” (Mt 5.17) etc. Especialmente o título “Lei” era um que podia ser aplicado a qualquer parte do AT (Jo 12.34; 15.25; ICo 14.21). “Esses nomes ou títulos, embora não definam os limites do cânon, certamente pressupõem a existência de uma coleção completa e sagrada de escritos judaicos que já estão destacados de toda a outra literatura como separados e estabelecidos” (Robinson, p. 558). Mas a única passagem do NT que dá evidência clara da divisão tripartite do AT (Lc 24.44) também deixa transparecer incerteza a respeito dos limites e do conteúdo da terceira divisão. Em vez de “A Lei, os Profetas e os Escritos”, Lucas diz “A Lei, os Profetas e os Salmos”. [Visto que Salmos encabeça esse terceiro grupo, seria possível que ele o estivesse usando como termo não-técnico para representar o todo?] Flávio Josefo, o famoso historiador judeu, sacerdote e pertencente à nobreza, escreveu um tratado importante em defesa dos judeus. Foi intitulado Contra Apionem e é datado de c, 100 d.C. Nesse tratado há uma seção (1.8) de interesse especial para a nossa discussão acerca da história do cânon e sobre a teoria da inspiração e da canonicidade. Aqui está o que ele escreveu: “Pois não temos um grande número de livros discordantes e conflitantes entre si. Temos somente 22, contendo o registro de todo o tempo, livros que são merecidamente considerados divinos. Desses livros, cinco são os livros de Moisés, que abarcam as leis e as tradições mais antigas desde a criação da humanidade até o tempo da sua própria morte [...]. Da morte de Moisés até o reino de Artaxerxes, rei da Pérsia, o sucessor de Xerxes, os profetas que seguiram a Moisés escreveram a história dos eventos que ocorreram no seu tempo em 13 livros. Os quatro documentos restantes incluem hinos a Deus e preceitos práticos para os homens. De Artaxerxes até os nossos dias, tudo foi registrado detalhadamente. Mas esses registros recentes não foram considerados dignos do mesmo crédito que foi dado aos que os precederam, visto que a exata sucessão de profetas cessou. Mas a fé que depositamos nos nossos próprios escritos está evidente na nossa conduta; pois mesmo que um tempo tão longo tenha passado até agora, ninguém ousou acrescentar, remover ou alterar uma sílaba deles. Mas é natural para todos os judeus desde o seu nascimento considerá-los mandamentos de Deus”.

Há várias coisas a serem destacadas nessas declarações de Josefo: a) Para ele, o cânon, cuja forma verbal era inviolável, estava fechado e de fato tinha sido fechado já na época de Artaxerxes (465—425 a.C.) — essencialmente a época de Malaquias. “O número de livros ‘confiáveis’ que não permitem alteração e são o código sobre o qual está fundamentada a vida dos judeus [...] é definitivo [...] e é traçada uma linha muito clara entre eles e os inúmeros registros do período após Artaxerxes nos quais não se pode confiar completamente” (Katz, p. 76). b) Esse cânon fechado era um cânon de 22 livros ordenados em três partes — cinco livros de Moisés, 13 de profetas e quatro de hinos e preceitos práticos. Infelizmente, Josefo não diz quais livros eram incluídos nos profetas ou nos hinos. Supostamente, no entanto, os 13 livros dos profetas incluíam Josué, Juízes—Rute, Samuel, Reis, Crônicas, Esdras—Neemias, Ester, Isaías, Jeremias—Lamentações de Jeremias, Ezequiel, Daniel, os Doze Profetas Menores e talvez Jó (ou Cântico dos Cânticos). Então os hinos e preceitos seriam constituídos de Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos (ou Jó). Se essa suposição está correta, o seu cânon do AT seria igual ao nosso, sem considerar a ordem dos livros dentro dele. [Observação: De acordo com essa ordenação do século I d.C., Ester, Esdras—Neemias, Daniel e talvez Cântico dos Cânticos estão incluídos entre os Profetas, e não entre os Escritos, como no cânon hebraico atual. Isso reflete uma ordem pré-rabínica “que combina características das ordens definitivas grega e hebraica e é uma das ordens existentes atualmente na Palestina” (Katz, p. 77)]. c) Finalmente, as declarações de Josefo fornecem o primeiro critério para a inclusão ou não de um livro no cânon, um critério de autoridade inquestionável: Foi escrito por um profeta? Josefo acreditava que de Moisés a Artaxerxes houve uma sucessão ininterrupta de profetas que escreveram a história e o pensamento do seu tempo, e que era isso que conferia a seus 22 livros sua santidade intrínseca e singular. Com Artaxerxes, no entanto, essa atividade profética chegou ao final. Consequentemente, embora tudo que aconteceu desde Artaxerxes até Josefo tivesse sido registrado detalhadamente, esses últimos registros não eram considerados de valor igual aos escritos que os tinham precedido — não tinham origem profética que os tomasse fidedignos no mesmo sentido. Josefo fundamenta sua defesa dessa ideia de canonicidade em nenhuma autoridade, a não ser na sua. Mas isso pode ser, e muito provavelmente é, porque ele estava simplesmente verbalizando uma convicção bem difundida na época — uma ideia aceita em geral que não precisava de comprovação.

O Segundo Livro de Esdras (4Esdras na versão latina) é um livro apócrifo judaico escrito originariamente em grego no final do século I d.C. Embora seja lendário em sua natureza, mesmo assim parece refletir uma tradição judaica genuína que associa Esdras de alguma maneira literária com o cânon do AT. Nele Esdras lamenta que a lei foi queimada na destruição de Jerusalém e ora pedindo capacitação para reescrevê-la: “Enche-me com o teu Santo Espírito, para que eu possa escrever toda a história do mundo desde o começo, tudo que está na tua Lei”. Deus respondeu à oração de Esdras, e a história continua: “Levei comigo os cinco homens de acordo com a orientação que havia recebido, e nós partimos [...]. No dia seguinte, ouvi uma voz me chamando: ‘Esdras, abre tua boca e bebe o que eu te der’. Assim, abri a boca e recebi um copo cheio do que parecia água, exceto que a sua cor era cor de fogo. Eu o peguei e bebi, e de imediato minha mente começou a transbordar de uma enxurrada de conhecimento, e a sabedoria dentro de mim aumentou cada vez mais, pois mantive minha memória intacta. Eu abri a boca para falar e continuei a falar ininterruptamente. O Altíssimo deu entendimento aos cinco homens, que se revezavam escrevendo o que estava sendo dito, usando uma escrita que nunca tinham usado. Eles continuaram trabalhando durante 40 dias, escrevendo o dia todo e se alimentando somente à noite. Mas, quanto a mim, eu falava o dia todo; até mesmo de noite, eu não me calava. Nos 40 dias, foram escritos 94 livros. Ao final dos 40 dias, o Altíssimo falou comigo. ‘Torna públicos os livros que você escreveu primeiro’, ele disse, ‘para serem lidos tanto pelos bons como pelos maus, mas guarda os últimos 70 livros; eles devem ser dados somente aos sábios entre o teu povo. Eles contêm um rio de entendimento, uma fonte de sabedoria, uma abundância de conhecimento.’ E foi isso que fiz” (14.21,22; 37-47).

Essa passagem, embora dificilmente seja histórica, fornece algumas conclusões interessantes. Ela explica por que a Lei de Moisés não era conhecida por aqueles que estavam retornando a Jerusalém do seu exílio na Babilônia. Ela concorda com Josefo como uma das primeiras duas testemunhas a favor do número de livros do cânon do AT. Enquanto Josefo enumera 22 livros, 2Esdras fala de 24, o número que corresponde à contagem comum dos judeus (Gn, Ex, Lv, Nm, Dt, Js, Jz, Sm, Rs, Jr, Ez, Is, Os Doze, Rt, Sl, Jó, Pv, Ec, Ct, Lm, Dn, Et, Ed—Ne e Cr). Segundo Livro de Esdras parece igualar a Lei de Deus a todo o AT, e.g., os 24 livros para “consumo público” (mais os outros 70 livros que foram escritos), e não fazer distinção entre os livros “canônicos” e os 70 livros reservados somente para os sábios de Israel no que diz respeito à inspiração. Finalmente, 2Esdras coloca Esdras e seus companheiros em associação literária estreita com a Lei (cf. Ed 7.6 e TB Sukkah 20a: “A Lei fora esquecida fora de Israel; Esdras veio e a estabeleceu”). Seria essa uma maneira fantasiosa de dizer que Esdras e a “Grande Sinagoga” foram úteis para o fechamento do cânon hebraico? Dificilmente. Pois 2Esdras pode na verdade refletir uma tradição genuína indicando que Esdras, como escriba, fez trabalhos editoriais no cânon, mas não diz categoricamente que ele e seus companheiros “canonizaram” as Escrituras. 

Para muitos estudiosos, os concílios realizados em c. 90 d.C. em Jâmnia (Jabneh), um lugar não muito ao sul de Jope no mar Mediterrâneo, foram decisivos para a canonização dos 39 livros do AT (v. Bentzen, p. 22-29; Von Campenhausen, p. 5). Mas sabemos muito pouco a respeito desses concílios. O que sabemos é que, depois da destruição de Jerusalém, o rabino Johanan ben Zakkai pediu permissão aos romanos para estabelecer sua escola em Jâmnia. Aí ocorreram então debates rabínicos acerca de se as Escrituras “contaminam as mãos”, e de tempos em tempos havia discussões acerca da canonicidade de alguns livros — Ezequiel, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Provérbios, Ester. Mas “as fontes [...] não têm registro de nenhum debate canônico oficial em Jabneh durante a liderança de Johanan”. Com base nisso, “poderia parecer que as afirmações feitas com frequência de que uma decisão definitiva foi tomada em Jabneh cobrindo todas as Escrituras é conjectural, na melhor das hipóteses [...]. A erudição mais sóbria admite ignorância e dá espaço para que as questões permaneçam tão vagas quanto as fontes” (Lewis, p. 126, 132). Mas do pouco que podemos saber, as discussões em Jâmnia parecem ter girado mais em torno de quais livros deveriam ser excluídos do cânon do que de quais livros deveriam ser incluídos. Há indicações de que o cânon já estava relativamente bem definido antes dos encontros da “academia”, da “corte” ou da “escola” em Jâmnia. No entanto, questões acerca da canonicidade de Provérbios, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, Ester, Ezequiel e Jonas continuaram a ser levantadas pelos líderes judeus ainda no século II e até mais tarde.
Nossa evidência final da formação do cânon vem do Talmude, uma obra judaica que consiste na Mishná (concluída em c. 200 d.C.) e na Guemará, um comentário colossal da Mishná (concluído em c. 500 d.C.). No tratado do Talmude Babilónico chamado Baba Bathra (14b-15a), há um extrato, uma famosa glosa não autorizada (uma baraitha), contemporânea da Mishná (embora não esteja incluída nela) que, entre outras coisas, lista os livros do AT de forma muito semelhante à ordem encontrada na Bíblia hebraica. Além do Livro de Moisés, a ordem dos profetas é Josué, Juízes, Samuel, Reis, Jeremias, Ezequiel, Isaías [observe a ordem incomum de Jeremias, Ezequiel e Isaías], os Doze. A ordem dos Kethübim [Escritos, hagiógrafos] é Rute, Salmos, Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Lamentações de Jeremias, Daniel, o rolo de Ester, Esdras e Crônicas.

Essa baraitha nos conta também quem escreveu os livros do AT. Embora esse tratado seja considerado “destituído de valor histórico, tardio na época de composição e desacreditado pelo seu próprio conteúdo” (Driver, p. vi), pode, no entanto, refletir corretamente uma convicção mantida por muitos judeus na sua época e provavelmente durante séculos anteriores a eles. Sem dúvida, ele influenciou o pensamento de autores posteriores acerca da autoria dos livros e destaca o critério de canonicidade já expresso por Josefo: somente os livros que podem legitimamente reivindicar origem profética têm o direito de ser incluídos no cânon. “Quem escreveu os livros?”, pergunta essa baraitha. “Moisés escreveu o seu livro, a seção a respeito de Balaão e Jó; Josué escreveu o seu livro e os últimos oito versículos da Torá; Samuel escreveu os seus livros, Juízes e Rute. Davi escreveu os Salmos sob a orientação dos Dez Anciãos [...]. Jeremias escreveu o seu livro, o livro dos Reis e Lamentações; o rei Ezequias e o seu conselho escreveram o livro de Isaías, Provérbios, Cântico dos Cânticos e Eclesiastes. Os homens da Grande Sinagoga escreveram Ezequiel, os Doze Profetas, Daniel e Ester. Esdras escreveu o seu próprio livro e a genealogia de Crônicas até o seu próprio período. Neemias a concluiu” (v. Ryle, Excurso B, para ler o texto completo. “Os livros separados do Pentateuco não são mencionados, como também não o são quatro dos Profetas Menores; mas aqueles estão, obviamente, incluídos na ‘Torá’, e estes, nos ‘Doze’.”).

Portanto, esse tratado contém tradições interessantes, estranhas e às vezes incríveis acerca da autoria dos livros do AT. Ele é mais uma evidência da divisão em três partes do AT, e parece, junto com 2Esdras, ter fornecido o material em que o erudito judeu Elias Levita (1549) baseou-se para elaborar sua teoria questionável de que todos os livros e documentos pertencentes ao AT, antes transmitidos separadamente, foram reunidos por Esdras e seus companheiros (i.e., os homens da “Grande Sinagoga”), ordenados nas três partes conhecidas do AT e fechados para excluir permanentemente outros escritos desse cânon. Mas na verdade ele não fornece nenhuma evidência sólida sobre a qual possamos construir uma história confiável da formação do cânon.

2) Resumo e conclusão

Depois dessa longa investigação das evidências e testemunhas a favor do cânon do AT, ainda sabemos muito pouco acerca do cânon — como se formou, acerca do processo de canonização: a redação, o processo de coleta dos livros, o preparo do texto, a avaliação, a seleção etc. — quando, onde, por que e em que circunstâncias esses livros do AT passaram a existir. Descobrimos que o AT não dá uma autobiografia completa da sua existência desde os documentos escritos até o seu cânon completo. A Bíblia samaritana nos conta somente que o Pentateuco era considerado Escritura sagrada e normativa em 432 a.C.
outros livros do AT além do Pentateuco talvez até tenham existido muito antes disso, mas a atitude dos samaritanos não nos diz nada a respeito dessa parte da história. A LXX indica que todos os livros da Bíblia hebraica estavam na sua forma completa e foram considerados dignos de tradução no mais tardar em 150 a.C. Jesus ben-Siraque sabia a respeito do cânon em 180 a.C., mas aparentemente não o considerava algo definitivo ou fechado. Seu neto foi o primeiro a mencionar uma divisão do AT em três partes, e foi apoiado nisso por Fílon (c. 50 d.C.), Josefo (c. 100 d.C.) e as tradições judaicas posteriores que encontramos no Talmude. O Primeiro Livro de Macabeus (c. 130 a.C.) testemunha a favor da canonicidade de Daniel e dos Salmos. Josefo e 2Esdras são os primeiros a mencionar o número total de livros no cânon, embora não concordem acerca desse número (24 ou 22). O Segundo Livro de Macabeus (c. 124 a.C.), 2Esdras (c. 100 d.C.) e o tratado do Talmude Baba Bathra (c. 200 d.C.) fazem a ligação de Esdras (e Neemias) de alguma forma literária com o cânon — um fato que indica que havia uma convicção antiga de que Esdras teve papel importante na formação do cânon. Qual foi esse papel, contudo, não está claro. As evidências disponíveis, portanto, não dão uma história real da formação do cânon.

A erudição crítica moderna tem tentado preencher as lacunas (v. Harrison, p. 279-83, para ler os resumos). Algumas dessas tentativas, embora esclarecedoras, são inadequadas pelo menos por não darem espaço à revelação direta de Deus. Consideram o cânon um produto meramente humano, desde a concepção até a conclusão, desde a redação do texto até a intervenção dos concílios que o declararam normativo para a sinagoga ou a igreja. Outras tentativas fracassam porque não dão espaço suficiente ao elemento humano no processo de produção do cânon. A luz disso, o que segue é uma história um tanto imaginativa do AT fundamentada nos textos bíblicos e nas tradições citadas anteriormente. Tenta combinar o aspecto divino com o aspecto humano da Escritura Sagrada.

As tradições antigas, que datam do início dos tempos concernentes à criação do mundo, à origem da vida, às atividades dos patriarcas antes do Dilúvio etc., foram provavelmente transmitidas com santo cuidado de boca em boca e de geração em geração, ao longo de centenas de anos, em circunstâncias e contextos geográficos muito diversos. Essas tradições eram um tipo de cânon, pois as pessoas que as passavam adiante — talvez sacerdotes — devem ter crido que elas tinham origem na direta revelação de Deus. Por conseguinte, esses “sacerdotes” provavelmente insistiam que todos os mínimos detalhes fossem memorizados e repetidos com grande cuidado.

A certa altura, essas muitas tradições orais, essas histórias sagradas, que circulavam em diferentes lugares do mundo antigo, assumiram forma escrita. Ninguém pode dizer com certeza quando isso aconteceu ou quem foi responsável por fazê-lo. Pode ter acontecido um milênio antes dos dias de Moisés. “A escrita era conhecida e usada no Antigo Oriente Médio muito antes de os hebreus tomarem posse da Palestina [...] de forma que afirmações anteriores de que a escrita não era conhecida na Palestina na época dos patriarcas são infundadas” (Bainton, IDB, 4.909). Descobertas arqueológicas recentes feitas por dois estudiosos italianos, Paolo Matthiae e Giovanni Pettinato, de aproximadamente 20 mil tabuinhas de Ebla (perto de Aleppo, na Síria), escritas num dialeto semítico ocidental e datando de c. 2400—2300 a.C., simplesmente confirmam esse fato (v. Orientalia, 44, 3 [1975], 337-74).

Não importa onde ou por quem essas tradições foram escritas, sem dúvida elas também foram consideradas “canônicas”, pelo menos no sentido de que eram tratadas como escritos divinamente inspirados, relatos autorizados dos atos de Deus na história, e registros normativos da origem humana e das raízes da civilização dos hebreus.

Em algum ponto do tempo, essas tradições, ou epopéias históricas, foram reunidas em torno de um tema comum — o relacionamento de aliança entre Deus e o ser humano, encontrando o seu ponto central na Lei de Deus, na Torá. Há razões para acreditar que Moisés, do ponto de vista humano, foi o gênio que esteve por trás desse esforço integrativo, mesmo que não tenha dado ao Pentateuco sua forma final: a) ele pode ter aprendido as histórias das antigas tradições das origens e dos patriarcas com sua família, pois o início de sua educação ocorreu em casa (Ex 2.9); b) ele tornou-se o “filho” da filha do faraó (Ex 2.10) e como tal pode ter aprendido a ler e escrever e ter se tornado versado nas artes e nas ciências do mundo antigo, com oportunidades de investigar o passado distante e descobrir ideias bem difundidas acerca das origens primitivas; c) ele foi o legislador por excelência, e é lembrado sempre como o homem por meio de quem Deus escolheu mediar a lei da sua aliança ao seu povo; o seu nome está há muito tempo associado aos primeiros cinco livros do AT; d) a Lei em geral e o livro de Deuteronômio em particular datam de um período antigo na história dos hebreus — um período certamente tão antigo quanto o de Moisés. A fórmula de “maldição”, por exemplo, invocada sobre a cabeça de qualquer pessoa que ousasse acrescentar ou subtrair algo de um código normativo escrito e divinamente mediado (Dt 4.2; 12.32), também pode ser encontrada no código de leis do rei babilónico Hamurabi, cujo reino pode ter existido já em 1792—1750 a.C. (v. J. B. Pritchard, ed„ Ancient Near Eastem Texts, 1950, p. 178-9).

Por isso, “visto que não há uma única passagem em todo o Pentateuco que pode ser seriamente considerada ter sofrido influência pós-exílica [ou tardia] nem em forma nem em conteúdo” (Albright, From Stone Age to Christianity, p. 345), não é arrogância nem ingenuidade concordar com o ponto de vista tradicional segundo o qual o próprio Moisés produziu e reuniu muito do que hoje conhecemos como o Pentateuco.

Não importa quanto Moisés escreveu durante a sua vida, isso imediatamente se tornou “cânon” — reconhecido pelo povo de Israel como texto investido de autoridade divina: em virtude de seu valor intrínseco e do valor de Moisés. Ele era o seu grande estadista, um homem por meio de quem Deus se revelava e transmitia suas leis. Em um sentido, os escritos de Moisés tomaram- se a expressão normativa da vontade de Deus para Israel para todos os tempos, o “cânon supremo” em comparação com o qual todos os outros livros do AT tinham de ser medidos. Pensa-se que esses outros livros nunca alcançaram o mesmo status da Lei, mesmo que fossem inspirados, produto do trabalho de profetas de reconhecida autoridade. De alguma forma, o termo qabbala, “tradição”, foi associado a eles porque acreditava-se que eles não acrescentavam coisa alguma à lei, mas somente a interpretavam para os seus dias (Bentzen, p. 33). De qualquer maneira, na divisão do cânon em três partes, a Lei (um termo de tamanha importância que era aplicado a todo o Pentateuco) sempre recebe o primeiro lugar.

A interpretação, porém, da história como atos de Deus não cessou com Moisés. Sem dúvida, parte dessa história contínua foi preservada em cânticos e recitações e circulava oralmente. Mas não há razão para supor que todos os eventos importantes foram preservados dessa forma até épocas muito posteriores. A escrita já existia em tempos bem antigos, e é possível que muitos eventos primitivos tenham sido imediatamente registrados dessa forma mais permanente. No começo, esses eventos registrados talvez tenham existido como histórias isoladas e circulado separadamente sem nenhuma estrutura que as ligasse umas às outras. Gradualmente foram reunidas em algum tipo de coleção. Livros começaram a aparecer, como o Livro de Jasar, o livro dos Registros Históricos dos Reis de Israel e de Judá, os Registros Históricos dos Videntes etc. Esses livros e registros foram os precursores e estavam entre as fontes dos livros históricos do AT. Mas quando e por quem esses livros foram compostos? Não se pode dar nenhuma resposta segura a essa pergunta. No entanto, à luz do testemunho que o AT dá de si mesmo e das tradições descritas acima, é bem possível que tenham surgido, e recebido praticamente a mesma forma que possuem hoje, entre os séculos VIII e VI a.C., sob a iniciativa e supervisão dos profetas, talvez Isaías e Jeremias, para citar apenas dois — videntes de Deus, homens de sabedoria e percepção divinas. Por essa razão, as muitas histórias que surgiram ao longo dos séculos e formavam um enorme conjunto de informações amorfas foram então processadas por homens inspirados, que selecionaram dessas fontes coisas que estavam em harmonia com a lei da aliança e registraram o relacionamento contínuo entre Deus e o seu povo. Eles escreveram história interpretada, e não é de surpreender então que Josué, Juízes, Samuel e Reis sejam chamados “Profetas Anteriores” e tenham sido prontamente reconhecidos como portadores de autoridade divina.

Enquanto supervisionavam a escrita dos Profetas Anteriores, se é que não faziam eles mesmos o trabalho, os profetas estavam anunciando as advertências de Deus contra Israel e chamando o povo ao arrependimento. Os seus muitos oráculos eram orais em grande parte e foram transmitidos em diferentes épocas a diferentes audiências. Mas foram lembrados e registrados. Os “filhos dos profetas” (2Rs 2.3) ou escribas particulares como Baruque, no caso de Jeremias (Jr 36.4), foram responsáveis, sem dúvida, por sua preservação (cf. Is 8.16). Alguns profetas provavelmente escreveram seus próprios livros, ou pelo menos supervisionaram durante a sua vida o trabalho de colecionar seus oráculos. Mas é possível também que os escritos de alguns dos Profetas Posteriores (Isaías, Jeremias, Ezequiel ou os Doze) tenham sido editados e publicados em épocas bem posteriores. Talvez o próprio Ezequiel, o profeta do exílio, tenha recebido muitos desses oráculos mais antigos de diversos profetas, reconhecido a sua natureza inspirada no fato de que as suas predições se tornaram realidade e os colocado em uma ordem de acordo com os nomes dos profetas que os tinham anunciado.

Que papel Esdras teve na formação do cânon do AT? Uma tradição muito antiga o associa de forma literária com o cânon (2Ed 14.21 ss; Baba Bathra 14b). Essas tradições, embora evidentemente lendárias, muitas vezes têm alguma base em fatos históricos. Será possível que Esdras, sacerdote e escriba versado na Lei (Ed 7.6), e seus companheiros (Ne 8.9) tenham feito a edição final do Pentateuco e a coleção e edição finais dos Profetas Anteriores e Posteriores? Isso não significa dizer que ele ou a “Grande Sinagoga” de alguma forma canonizaram esses livros. Pois está evidente nos textos bíblicos que a Lei era algo muito antigo, muito mais antigo do que Esdras, algo que possuía autoridade firmada havia muito tempo no pensamento do povo de Israel. Isso significa simplesmente reconhecer que alguém ou um grupo sob a orientação de Deus tinha de reunir esses livros e uni-los em torno de um tema comum — o mesmo tema que dera coesão aos textos do Pentateuco: a aliança de Deus com o seu povo. E óbvio que as diversas histórias, leis, oráculos etc. encontrados no AT e escritos ao longo de um período de muitos anos não se juntaram por iniciativa própria nem por acaso. Um escriba devoto e letrado como Esdras, junto com os seus eruditos companheiros (incluindo Neemias; cf. 2Macabeus 2.13-15), certamente era capaz de realizar essa tarefa tão desafiadora, de tão grande importância histórica e teológica. E se seu trabalho foi além de coletar e editar o material, certamente se limitou estritamente a “aprovar como canônicas obras que havia muito tempo eram veneradas como normativas e marcadas pela autoridade divina” — de forma alguma conferiu-lhes status normativo (Harrison, p. 283).

De qualquer maneira, os Profetas Anteriores e Posteriores juntos constituem a segunda parte do cânon. De alguma forma, por direção divina, esses foram selecionados de um corpo mais amplo de literatura hebraica, foram reconhecidos pelo povo de Deus como escritura normativa e foram universalmente usados como tal — talvez desde o tempo de Esdras e Neemias, se não antes. Nas tradições acerca do cânon, esses livros — os Profetas — são considerados distintos da Lei, por um lado, e dos hagiógrafos, por outro.

Os hagiógrafos (Kethübim, “Escritos”) constituem a terceira e última parte do cânon hebraico. Que o AT foi dividido em três partes, não é algo questionado por muitas pessoas. Mas por que foi assim dividido e quais livros estavam em cada parte, é questão de muitos debates.

Talvez, por um lado, as três seções reflitam os estágios no desenvolvimento do cânon, sendo os hagiógrafos o último e mais recente estágio na sequência cronológica. Por outro lado, talvez a divisão tripartite indique que as duas primeiras partes foram escritas por homens pertencentes à ordem profética, enquanto a última, embora por pessoas inspiradas, foi escrita por homens que eram reis (Davi, Salomão), oficiais do governo (Daniel), governadores (Neemias) etc., e não por profetas no sentido técnico. Não se deveria incluir aqui então a questão do tempo, e seria possível que muitos dos hagiógrafos tivessem sido escritos antes dos documentos mais antigos dos profetas escritores. Não há concordância entre os estudiosos do AT acerca dessa questão. Se eu tiver de escolher entre as duas alternativas apresentadas aqui, escolho a segunda, porque é uma alternativa razoável e não implica que os livros dessa divisão tenham de ter necessariamente uma data de composição muito recente — i.e., uma data posterior à época de Esdras.

Quais livros estão incluídos nessa terceira divisão? Também não há resposta segura para essa pergunta. Uma tradição judaica razoavelmente uniforme (talmúdica, massorética e as edições impressas da Bíblia hebraica) situa nela, em diversas ordens, Salmos, Jó, Provérbios, Rute, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, Lamentações de Jeremias, Ester, Daniel, Esdras—Neemias e Crônicas. As palavras de Jesus “desde o sangue do justo Abel, até o sangue de Zacarias” (Mt 23.35 e Lc 11.51) em parte apoiam essa tradição [contudo, há problemas de crítica textual em relação ao texto de Mateus], pois suas palavras poderiam significar que os fariseus teriam de responder por todos os homicídios registrados no AT desde o inicio até o fim — Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, descreve a morte de Abel, e 2Crônicas, o último livro da Bíblia dele, a morte de Zacarias (24.20,21). O neto de Jesus ben-Siraque, a primeira pessoa a mencionar a divisão do cânon em três partes, não nos conta nem dá indicação de quais livros estariam nessas partes. O evangelista Lucas (24.44) menciona somente os Salmos quando se refere à parte final do cânon. E Josefo (Contra Apionem, 1.8) afirma categoricamente que os livros restantes, depois da Lei e dos Profetas, somavam somente quatro e que esses quatro eram constituídos de hinos e preceitos práticos.

Por isso, é impossível falar com qualquer grau de certeza sobre essa terceira parte,  acerca de que livros faziam parte dela, se um, quatro ou 11 (Rt, Sl, Pv, Jó, Ct, Ec, Lm, Et, Dn, Ed—Ne e Cr), sobre a época em que os livros dessa parte receberam sua forma final, quem foi o instrumento humano que os escreveu ou reuniu, ou qual foi o motivo de sua preservação. Talvez, novamente, Esdras tenha sido a peça-chave, não somente em coletar e editar os livros, mas também em compor alguns deles. E importante lembrar que por muitos séculos prevaleceu o ponto de vista de que o cânon do AT foi concluído durante a vida de Esdras, um ponto de vista que tem alguma base bíblica (Ed 7.10,25; Ne 8.1ss; 9.3), mas que foi ampliado por afirmações encontradas em 2Esdras e Baba Bathra (cf. citado). Mas o fato é que simplesmente não sabemos o suficiente para afirmar com certeza que o cânon estava concluído e fechado na época em que Esdras e Neemias saíram de cena. Por isso, é possível supor que o cânon ainda estava sendo desenvolvido no período seguinte à época deles. Certamente, os livros do AT hebraico estavam na sua forma final no século II a.C., pois todos achavam-se disponíveis para tradução para o grego (a LXX), e todos os livros, com a exceção de Ester, foram citados pelos rolos de Cunrã. Mas não é certo que somente os livros do AT hebraico eram considerados por todos a soma total da revelação divina. Jesus ben-Siraque considerava que suas declarações eram proféticas e dignas de serem colocadas lado a lado com os profetas. A literatura apocalíptica estava sendo produzida nesse período e competia por um lugar permanente na literatura religiosa do povo judeu. Há indicações, portanto, de que a terceira seção do cânon ainda estava aberta nos dias de Esdras e depois dele.

A certa altura, no entanto, naquela forma misteriosa explicada como ação providencial de Deus, alguns escritos foram universalmente aceitos como normativos, e outros não o foram. Os escritos que constituíam os hagiógrafos, se um ou 11 em número, foram aceitos e usados em virtude de sua natureza autolegitimadora, visto que estavam em harmonia com o ponto de vista religioso já expresso no Pentateuco e nos Profetas e por causa de suas íntimas conexões com a adoração em Israel, sua história nacional e seus venerados líderes do passado. “Infelizmente, é praticamente impossível ser mais específico do que isso acerca dos processos pelos quais o cânon do AT, ou partes dele, foi reconhecido como investido de autoridade” (Harrison, p. 263). Em 90 d.C., a “escola” de Jâmnia só teve o trabalho de reconhecer e colocar o seu selo de aprovação em um corpo de literatura que já tinha sido canonizado por consentimento comum e uso constante — um cânon de facto que resultou nos 39 livros do AT hebraico. Isso não quer dizer que todos esses livros foram “aprovados” de uma vez e para sempre sem questionamento. Ezequiel, Ester, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes e Provérbios originaram inúmeros debates acerca de merecerem ou não um lugar no “cânon”. Para alguns eruditos, eles continham contradições, eram propensos a causar uma impressão erótica aos imaturos, refletiam meras filosofias helenistas e não faziam menção ao nome de Deus. Mas, por mérito de seu valor intrínseco próprio, conquistaram o direito de estar entre as Escrituras Sagradas lado a lado com a Lei e os Profetas.

A SEPTUAGINTA E OS APÓCRIFOS DO AT

Como já observamos (p. ), a primeira e mais importante tradução grega do AT, a Septuaginta (LXX), foi iniciada em Alexandria, Egito, por ordem de Ptolomeu Filadelfo (c. 250 a.C.). Por trás desse projeto de tradução, não estava simplesmente o desejo de aumentar a riqueza literária acumulada na biblioteca em Alexandria, mas, mais importante do que isso, dar aos judeus que viviam fora da Palestina, e já não falavam nem liam o hebraico, suas Escrituras em uma língua que pudessem entender. Os primeiros livros a ser traduzidos foram, sem dúvida, os de Moisés. Mas, após um tempo de trabalho, todos os outros livros do AT também foram traduzidos para o grego. 

Convém, porém, sublinhar que a LXX concluída não continha somente os 39 livros do cânon hebraico; continha também outros livros, livros comumente chamados de apócrifos — 1 e 2 (3 e 4) Esdras, Tobias, Judite, Adições a Ester, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruque, Epístola de Jeremias, O Cântico dos Três Hebreus, Suzana, Bel e o Dragão, Oração de Manassés ele 2Macabeus — livros que em grande parte foram escritos em hebraico e traduzidos para o grego. (Somente Sabedoria de Salomão, 2Macabeus e Adições a Ester foram originariamente escritos em grego [Sundberg, CBQ, p. 30]).

A história da origem dessa Bíblia mais inclusiva está envolta em mistério. Alguns dos chamados escritos apócrifos podem ser datados do século III ou século II a.C.; outros, mais recentemente do século I ou século II d.C. Alguns talvez tenham sido escritos na Palestina; outros, na Mesopotâmia ou Alexandria. Alguns tinham ampla circulação e, em virtude de sua popularidade, foram traduzidos para várias línguas. Todos, no entanto, fizeram o seu caminho até Alexandria e, em algum momento e de maneira desconhecida, foram reunidos em um cânon das Escrituras mais amplo do que o cânon da Palestina. Prova disso são os manuscritos do século IV d.C. da LXX, que, embora não concordem todos acerca do número exato de escritos, mesmo assim combinam os chamados livros apócrifos com os 39 livros do cânon hebraico de tal forma que um grupo não pode ser distinguido do outro.

Será que esses livros “extras” foram reunidos como escritura sagrada por judeus de Alexandria que tinham um conceito mais amplo de cânon e uma visão mais abrangente de inspiração do que os judeus da Palestina? Não é possível afirmar isso. Por um lado, a seita de judeus da Palestina, o povo de Cunrã, parecia fazer poucos esforços sérios para distinguir entre os livros do cânon hebraico e outras obras similares (Harrison, p. 279; Sundberg, CBQ, p. 146). Por outro lado, o exegeta judeu de Alexandria, Fílon, ateve-se estritamente ao cânon da Palestina.

Embora em teoria ele se negasse a reconhecer que a inspiração estivesse limitada ao período entre Moisés e Artaxerxes, na prática citou somente dos 39 livros daquele período — não fez uma única citação de um livro apócrifo.

Também não é possível dizer que a coleção desses livros “apócrifos” foi feita por um cristão ou um grupo de cristãos. É verdade que esses escritos vieram à luz pela primeira vez como coleção nas grandes Bíblias cristãs dos séculos IV e V (Sinaítico, Vaticano e Alexandrino). Mas esse fato não diz nada acerca de quem os reuniu, considerou escritos sagrados e os misturou aos 39 livros do cânon hebraico para formar um novo e mais amplo cânon. Simplesmente não podemos responder à pergunta da origem dos apócrifos como Escrituras.

A questão de por que os livros chamados apócrifos foram reunidos e reconhecidos como escritura sagrada também não tem resposta fácil. Do ponto de vista histórico, esses livros são de valor inestimável, pois lançam luz sobre o período entre os Testamentos. Eles têm muita informação acerca do que aconteceu com o povo de Israel entre o seu retorno do exílio e a vinda dos romanos, acerca do conceito em desenvolvimento no pensamento judaico da vida após a morte e da ressurreição do corpo, acerca de questões ainda muito vivas na época do NT — Lei, boas obras, o pecado e sua origem na Queda, o final dos tempos etc. Do ponto de vista ético e moral, muito do material dessa coleção está num plano bem elevado, é proveitoso para a leitura e benéfico como modelo de vida. Como os outros escritos do AT, muito que há nessas obras está em harmonia genuína com o espírito da Lei. Por isso, não é de admirar que essas obras foram reunidas e preservadas.

Mesmo assim, para os judeus esses escri¬tos, por mais importantes que fossem, não “contaminavam as mãos”. Isso quer dizer que eles não os consideravam inspirados. Por quê? Aqui mais uma vez temos uma questão sem solução fácil. Talvez esses escritos não “contaminassem as mãos” porque alguns deles continham erros — históricos, cronológicos e geográficos. Talvez fosse porque outros pareciam justificar falsidade ou engano. Talvez fosse porque outros ainda ensinavam que a salvação dependia do mérito das obras (Green, p. 95-6). Talvez a resposta esteja simplesmente em confiar nos atos providenciais de Deus. Não importam as razões, o fato é que os livros apócrifos foram excluídos do cânon hebraico pelo menos a partir do ano 90 d.C., mas incluídos no cânon da igreja cristã.

O NOVO TESTAMENTO E O CÂNON DO AT

Estudos recentes mostram que em termos práticos a Bíblia dos autores do NT era a LXX (v. E. E. Ellis, Paul’s Use of the Old Testament). Visto que a LXX como é conhecida dos manuscritos do século IV continha os apócrifos lado a lado com os 39 livros do cânon hebraico, presume-se que Jesus e os seus apóstolos aceitaram esse cânon mais amplo sem questionamentos — por exemplo, que Eclesiástico era escritura sagrada para eles tanto quanto Isaías. Talvez. Mas os aspectos a seguir deveriam ser observados antes de se tirar quaisquer conclusões. a) Embora saibamos o que a LXX continha como Escritura no século IV, não sabemos de forma alguma com certeza o que ela continha no século I. b) Os termos com que Jesus se refere ao AT correspondem aos termos tradicionais com que se descrevia o cânon hebraico: “A Lei”, referindo-se a todo o cânon (Jo 10.34; SI 82), ou “A Lei e os Profetas”, incluindo Kethübím entre os “Profetas” (Mt 5.17; 24.15), ou como diz Lucas: “está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24.44). c) Como já foi comentado, (p. 45), as palavras de Jesus “desde o sangue do justo Abel, até o sangue de Zacarias” implicam que 2Crônicas (cf. 2Cr 24.20) era o último livro no seu cânon, como o era no cânon hebraico a partir de Jâmnia. d) Embora não possamos escapar do fato de que o NT contenha citações e alusões também a outros livros além dos do cânon hebraico — e.g., Paulo cita Phaenomena de Aratus (At 17.28), e Judas, o Livro de Enoque (Jd 14,15) etc. —, mesmo assim nenhum dos livros apócrifos é diretamente citado como Escritura (Geisler, p. 38) e nenhum autor do NT introduz suas referências a fontes literárias que não estão na Bíblia hebraica com fórmulas que indiquem que ele as considerasse Escritura inspirada. Fórmulas como “Está escrito” ou “A Escritura diz” são usadas somente para prefaciar citações dos 39 livros do cânon hebraico.

Assim, embora os livros apócrifos já existissem no século I d.C., e provavelmente constituíssem uma parte do cânon da LXX, e sem dúvida fossem conhecidos e usados por alguns autores do NT (cp. ICo 2.9 com Eclesiástico 1.10; Hb 1.3 com Sabedoria de Salomão 7.25-27; Hb 11.35 com 2Macabeus 6.18—7.42 etc; v. Sundberg, Old Testament of the Early Church, p. 54-5), mesmo assim não há evidências claras de que o NT atribuiu a esses escritos a mesma autoridade que conferiu aos escritos do cânon hebraico. Aliás, as evidências apontam no sentido contrário. Parecem indicar que Jesus e os autores do NT, mesmo conscientes da existência dos apócrifos, intencionalmente decidiram não reconhecer nem usar os apócrifos como Escritura sagrada. Pode não ser possível definir com precisão o conceito de cânon defendido pelos escribas e fariseus, os mestres da lei, nos dias de Jesus, nem determinar em detalhes o conteúdo do cânon deles. Mas parece possível dizer que as Escrituras usadas pelos autores do NT para explicar a pessoa e a missão de Jesus eram principalmente as Escrituras encontradas no cânon hebraico. Nesse sentido podemos dizer que para os autores do NT o cânon estava fechado — fechado mais por consentimento comum do que por decreto formal.

A IGREJA E O CÂNON DO AT

Se o NT citava somente dos escritos do cânon hebraico enquanto simplesmente aludia ocasionalmente aos apócrifos e sem fórmulas que denotassem inspiração, a situação é totalmente diferente no caso dos pais da Igreja. Clemente de Roma (95 d.C.), por  exemplo, cita das três seções do cânon hebraico — da Lei, dos Profetas e dos Hagiógrafos — usando fórmulas que indicam que esses escritos estão revestidos de autoridade divina. Mas ele vai além e cita também dos escritos não-canônicos, tanto dos apócrifos quanto dos pseudepígrafos, “de uma forma não diferente do seu uso dos escritos canônicos” (Hagner, p. 111; v. p. 86-93). E interessante observar que Clemente não introduz nenhum dos escritos apócrifos com a sua fórmula especial de introdução. Mas isso não tem muita importância, visto que ele emprega essas fórmulas com outros escritos não-canônicos (Hagner, p. 29-30). Policarpo, Barnabé, Ireneu, Clemente de Alexandria, Tertuliano, Cipriano, Orígenes — tanto pais gregos quanto latinos — citam as duas classes de livros, os do cânon hebraico e os do cânon dos apócrifos, sem fazer distinção. Agostinho (354— 430 d.C.) na sua Cidade de Deus (18.42,43) defende a inspiração divina igual e idêntica tanto do cânon judaico quanto do cânon cristão: “Se alguma coisa está nas cópias hebraicas e não nas versões da LXX, o Espírito de Deus escolheu não dizer isso por meio destas mas somente por meio dos profetas. Mas tudo que está na LXX e não está nas cópias hebraicas, o mesmo Espírito escolheu dizer isso por meio destas e não daquela, assim mostrando que os dois cânones eram meros profetas”. Agostinho, embora admitindo a diferença entre o cânon hebraico e os “livros de fora”, considerou aquele apropriado para a época em que foi formado, e a LXX apropriada para a igreja.

Essa aceitação de todos os livros da LXX como canônicos persistiu em geral em toda a igreja até o século IV com uma provável exceção. Melito de Sardes (morreu c. 190 d.C.) foi da Ásia Menor para a Palestina e trouxe do Oriente uma lista oficial das Escrituras hebraicas. Ela continha 22 livros essencialmente idênticos ao cânon hebraico, um cânon que excluía os apócrifos.

Com poucas exceções, os autores ocidentais continuaram, mesmo depois do século IV, a considerar canônicos os livros extras da LXX, em pé de igualdade com os livros do AT hebraico. Três concílios no norte da África (Hipona, 393 d.C. e Cartago, 397 d.C. e 419 d.C.) incluíram nas suas definições do AT tanto os livros protocanônicos quando os deuterocanônicos, sem nenhuma distinção.

No Oriente, a opinião era diferente. Autores como Orígenes, Cirilo de Jerusalém e Atanásio, que tinham entrado em contato com o conceito hebraico de cânon, reconheceram a distinção entre os dois grupos de escritos. Jerônimo (morreu em 420 d.C.), um pai latino, em virtude de seus estudos do hebraico, declarou apócrifos todos os escritos que não estavam na Bíblia hebraica. [Observação: Apesar das suas teorias acerca do cânon, mesmo assim ele incluiu os apócrifos, de acordo com a prática da igreja, na sua tradução da Bíblia para o latim, a Vulgata], Consequentemente, na opinião de alguns estudiosos do cânon, “a principal razão da perda de autoridade sofrida [pelos apócrifos] foi que, quando o cânon judaico se tornou conhecido na igreja, entendeu-se a priori que o cânon judaico era determinante para o AT da igreja” (Sundberg, GBQ, p. 152). “Assim, na igreja primitiva, o grau de estima de que desfrutava o cânon hebraico determinou a atitude adotada em relação aos apócrifos” (Harrison, ZPEB, 1.205).

Com a descoberta dos textos hebraicos e a sua tradução e com o advento da Reforma e do seu tema central, sola Scriptura, toda a questão do que realmente constituía as Escrituras Sagradas foi levantada novamente. Líderes protestantes ignoraram a aceitação tradicional de todos os livros da LXX e engaram a condição de inspiração aos livros da Vulgata que não estavam no cânon hebraico. Lutero negou autoridade canônica aos apócrifos, embora ele os tenha incluído (exceto 1 e 2Esdras) como apêndice na sua tradução da Bíblia (em 1534). Ele os chamou “úteis e bons para a leitura”. Calvino e seus seguidores abdicaram completamente da ideia de canonicidade em relação aos apócrifos e os excluíram da Bíblia, visto que os judeus que tinham recebido os oráculos de Deus (Rm 3.2) os tinham deixado fora de seu cânon anteriormente. A Igreja Católica Romana reagiu rapidamente a tudo isso e no Concílio de Trento (1546) declarou que todos os livros apócrifos, com exceção de 1 e 2Esdras e a Oração de Manassés, eram canônicos e tão completamente inspirados quanto os outros livros do AT.

Apesar desse conflito de ideias, os apócrifos foram incluídos em muitas traduções antigas da Bíblia para o inglês, inclusive a King James Version [Versão do rei Tiago]. Em geral, no entanto, elas vinham com algumas observações introdutórias indicando que esses livros eram valiosos “para conhecimento da história e como instruções para o comportamento piedoso”. Mais tarde, por pressão dos puritanos, eles foram removidos dentre as capas da Bíblia — uma atitude que refletia a atitude contida na Confissão de Fé de Westminster (1646—47) que afirmou que os apócrifos não deveriam ser “aprovados nem usados de forma diferente de qualquer outro escrito humano”. Hoje há um interesse renovado pelos apócrifos entre protestantes e católicos. Novamente há edições de Bíblias protestantes com a inclusão dos apócrifos. Os livros apócrifos, no entanto, estão agrupados à parte depois dos 39 livros do cânon hebraico, com paginação própria (v. a edição de Oxford da NEB). Os apócrifos estão agora tão acessíveis aos protestantes quanto sempre foram aos católicos.

CÂNON E INSPIRAÇÃO

Fundamental para a nossa compreensão do cânon é a doutrina da inspiração, com o que queremos dizer que a Escritura Sagrada é a revelação especial de Deus para a humanidade, que é a mensagem de Deus digna de confiança e investida de autoridade, essencial para a correta compreensão de Deus e seus atos e de nós mesmos e do significado de nossa existência, que foi inspirada pelo Espírito de Deus e dada para ser obedecida como a voz do Deus vivo (2Tm 3.15ss).

Essa Escritura Sagrada, no entanto, foi escrita por seres humanos em linguagem humana, em momentos específicos do tempo e em locais geográficos específicos, com todas as limitações que a humanidade, a língua, o espaço e o tempo, as sociedades e suas culturas lhe impõem. A Bíblia é vista, então, como o resultado de um esforço conjunto da parte de Deus e do homem no tempo e no espaço — um produto iniciado por Deus e sob seu controle, para que cada parte e forma dela possa ser classificada como “inspirada [soprada] por Deus” (theopneustos, 2Tm 3.16; cf. 2Pe 1.21), mas também um produto de diferentes homens, que viviam em épocas diferentes e locais diferentes, com diferentes personalidades e aparências, temores, aspirações etc., de maneira que cada parte e forma também leva a marca da humanidade: omnia ex Deo; omnia ex hominibus.

Deus impele o homem pelo seu Espírito Santo, Deus age por meio da personalidade humana mas não a violenta, Deus inicia mas também coopera com homens santos, e assim dá ao mundo um conjunto de obras literárias que se tornaram Escritura normativa. A inspiração precedeu a canonização. A inspiração, portanto, é o fator determinante máximo na decisão da extensão do cânon do AT.

No entanto, se a doutrina da inspiração inclui tanto o fator divino quanto o humano, o mesmo se aplica à ideia da canonização. O Espírito de Deus que trabalhou por intermédio de homens na composição da Escritura Sagrada também agiu no coração e na mente daqueles que a leram e aceitaram. Se o cânon do AT é o resultado da atividade providencial de um Deus que está se revelando, num sentido muito real ele é também o produto da ação decisiva de seres humanos pensantes e que tomam suas decisões.

Visto que a ideia de cânon inclui a escolha humana, que fatores contribuíram para essas escolhas? Em que base certos livros foram reconhecidos como canônicos e outros não? Vários critérios são sugeridos.

1) Somente livros escritos em hebraico podem ser reconhecidos como revestidos de autoridade. Este critério, no entanto, não explica o fato de que livros como Eclesiástico, 

Tobias e I Macabeus — escritos em hebraico — foram excluídos do cânon hebraico, enquanto Daniel, que contém partes escritas em aramaico, foi incluído.

2) Somente livros cujo conteúdo estejam em harmonia com a Lei podem ser considerados canônicos. E verdade que desde a sua origem o Pentateuco foi considerado normativo, porque foi reconhecido como a revelação de Deus a Moisés. Por isso, é impensável que pudesse ser acrescentado ao cânon qualquer livro que fosse contrário a seu tema básico: a aliança de Deus com o seu povo. E não há dúvida de que esse “prumo” foi usado para julgar todos os escritos posteriores. Mas certamente esse não poder ser o único critério para decidir a canonicidade. Há livros entre os chamados apócrifos que estão em harmonia com o Pentateuco mas que foram excluídos do cânon hebraico.

3) Somente livros que foram escritos antes do tempo de Malaquias, a época em que a voz do Espírito cessou de falar ou de ser ouvida, podem ser considerados canônicos. Esse era o ponto de vista de Josefo (Contra Apionem, 1.8). Mas não explica o fato de que muitos livros escritos antes dessa linha divisória no tempo — O Livro das Guerras do Senhor (Nm 21.14), o Livro de Jasar (Js 10.13), o Livro dos Registros Históricos dos Reis de Israel e de Judá (lRs 14.19,29) etc. — não foram preservados para se tornar Escritura normativa. Uma data antiga não é um critério adequado para canonicidade.

4) Somente livros escritos por profetas podem ser considerados canônicos — “profeticidade é o princípio da canonicidade” (Geisler, p. 43ss). Este também foi um princípio primeiramente formulado por Josefo. Somente os livros que podem legitimamente reivindicar origem profética têm direito à canonicidade (Contra Apionem, 1.8). Escritos normativos eram escritos inspirados. E, para Josefo, que talvez tenha simplesmente expressado as ideias da sua época, o período da atividade profética era limitado. Para ele, a sucessão ininterrupta dos profetas estendia- se somente de Moisés a Artaxerxes — o fato supremo que conferiu a seus 22 livros do AT (os nossos 39) seu valor normativo. Sem dúvida, esse critério teve um papel importante no processo de seleção. Por um lado, explica a ausência dos apócrifos na lista hebraica dos livros do AT (eles foram escritos depois de cessar a voz da profecia). Mas não explica o fato de que livros claramente escritos por profetas e videntes — Os Registros Históricos do Profeta Natã, do Vidente Gade (lCr 29.29; 2Cr 12.15) etc. — não façam parte do cânon.

5) Somente os livros que demonstraram o seu valor por meio do uso religioso, que adquiriram importância com base na sua relação próxima com a adoração de Israel, podem ser considerados canônicos. Este critério é bom, mas inadequado. Não explica o fato de que, embora Eclesiástico e IMacabeus tivessem indubitável valor religioso para Judá, esses dois livros não conquistaram o seu lugar na lista dos livros do AT (Harrison, p. 284).

6) Somente os livros de que Jesus deu testemunho podem ser considerados canônicos. “Sem dúvida, nosso Senhor deu crédito a todos os livros do AT e, assim, deu crédito ao AT inteiro como palavra de Deus. Visto que ele é o Filho eterno de Deus, a sua palavra é final [...] [Ele] colocou o imprimatur da sua autoridade infalível nas Escrituras do AT pelo fato de que as considerou divinas” (Young, p. 156-7). As dificuldades com esse tipo de argumentação são várias: a) A atitude de Jesus em relação ao AT não teria influência alguma sobre os judeus na determinação da extensão do cânon deles, b) As declarações de Jesus acerca da Lei, ou da Lei e os Profetas, as suas referências ao profeta Daniel e ao fato de que “a Escritura não pode ser anulada” (Jo 10.35) não nos revelam claramente quais livros ou quantos na verdade estavam no cânon dele. c) A atitude de Jesus em relação às Escrituras do AT, independentemente dos livros que tivessem sido incluídos nele, não as canonizava nem lhes conferia uma autoridade que já não tivessem; sua atitude meramente mostra que ele reconhecia a autoridade delas e a obrigatoriedade de prestar-lhes obediência, d) Mesmo que alguém defenda que Jesus colocou o seu imprimatur em somente 39 livros do AT, como está implícito um pouco antes, essa pessoa tem de admitir que esse fato escapou da observação de muitos dos primeiros seguidores de Jesus, ou que eles até rejeitaram isso, visto que aceitavam como igualmente normativos os livros extras do cânon mais amplo da LXX.

7) Somente podem ser considerados canônicos os livros que estão livres de contradições, incorreções, incoerências, práticas peculiares etc. Com base nesse critério, muitos dos apócrifos seriam certamente eliminados. Alguns livros apócrifos apresentam muitos erros geográficos, cronológicos e históricos (Green, p. 195). Outros defendem ideias novas como o purgatório, a oração pelos mortos,- a remissão dos pecados depois da morte etc. Mas se esse critério foi (ou for) usado contra os apócrifos, também poderia ter sido usado (e foi) contra a própria Bíblia hebraica. Se as questões de canonicidade tivessem sido fundamentadas somente em padrões como este, “é impossível ver como os judeus poderiam em algum momento ter aceitado os livros do AT como investidos de autoridade divina [...] visto que a maioria das composições do AT eram profundamente críticas acerca dos antigos hebreus de alguma ou de outra maneira” (Harrison, p. 284). E um critério como este teria tomado a aceitação do AT como normativo ainda mais difícil para os cristãos. A história da igreja registra que muitos dos primeiros pais da Igreja viam o que consideravam práticas estranhas, cruéis e peculiares no AT como coisas indignas da sua concepção de Deus, coisas que se viam obrigados a rejeitar, alegorizar ou explicar por meio da tipologia.

Se todos esses critérios são inadequados, em que base então alguns escritos foram selecionados como sagrados e normativos, e outros foram rejeitados? Não podemos pretender aqui dar a resposta. Pode ser uma combinação de vários ou de todos os critérios mencionados. Mas o critério supremo é o valor intrínseco que os próprios escritos têm, atestado por aquilo que os reformadores chamavam de “testemunho interno do Espírito Santo”. A sua autoridade inerente, o seu valor espiritual sujeitava o leitor/ouvinte ao julgamento de Deus, forçava-o a reconhecer que esses livros eram mais do que humanos em sua origem e o conduziam finalmente a adotá-los como o seu padrão de fé e prática. Independentemente do papel que os concílios e sínodos tiveram na história do cânon do AT, eles nunca poderiam produzir essa autoridade. Eles só podiam reconhecê-la e se submeter a ela. O cânon não depende da igreja ou de concílios, mas em primeiro lugar do Espírito Santo no coração de escritores e leitores. Existe algo nos próprios escritos que demanda a aceitação e o uso universal, e algo dentro do povo de Deus que o conduz a dizer sim a essa demanda. Sendo esse o caso, talvez tenhamos razões suficientes para não considerar os apócrifos canônicos — material valioso para a compreensão de panos de fundo históricos e para edificação moral, sim, mas não Escritura normativa. Parece que os apócrifos nunca tiveram peso próprio suficiente para serem universalmente aceitos por judeus e cristãos.

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