30 de janeiro de 2014

Eugene H. Merrill - Uma teologia de Crônicas: O Deus do Reino

O DEUS DO REINO

Em comum com o restante do Antigo Testamento, Crônicas não ofe-
rece definição sistemática e proposicional de Deus e seus atributos. Estes
têm de ser descobertos no curso da narrativa e através de observações fei-
tas pelos peesonagens dessas narrativas que repercutam estes assuntos. Tal
abordagem deixa claro que a rubrica tradicional que distingue Deus como
uma pessoa da sua atividade na história, embora não mutuamente exclusiva,
é bastante satisfatória.

A PESSOA E ATRIBUTOS DE DEUS

A auto-revelação de Deus em Crônicas é mediada por profetas, sacer-

dotes, reis e outros que espelham nEle e no seu caráter conforme lidam com
as circunstâncias da vida e o aparecimento de Deus para eles nessas circuns- 
tâncias. É nas suas relações com eles, no entendimento da sua natureza, na
sua própria auto expressão e na sua posição entre eles e a favor deles que
os seus porta-vozes entendem quem Ele é e conhecem algo dos atributos
divinos inefáveis.

Deus nas suas relações. Com isto, queremos dizer a possibilidade do en-
contro divino-humano. Salomão perguntou: “Mas verdadeiramente habitará
Deus com os homens na terra?” (2 Cr 6.18), e afirmou que até os céus não
podem conter Deus. Será que este Deus, tão transcendente quanto a ficar
totalmente fora da criação, se relaciona com ela de alguma forma? A resposta
está na metonimia  e na teofania. Na mesma oração de Salomão, ele roga ao
Senhor que lhe dirija, em dias de dificuldade, os olhos em direção ao Templo,
ao lugar onde Ele disse que poria o seu nome (v. 20). O seu nome está parti-
cularmente associado com a Arca do Concerto (1 Cr 13.6) e, contanto que ela
permanecesse no Templo, o próprio Jeová estaria ali (2 Cr 23.25; 28.2).

Outro sinal da imanência do seu Deus era o reconhecimento de Israel do
esplendor teofânico na nuvem e no fogo. Quando a Arca foi transportada ao Tem-
plo de Salomão, a nuvem da glória de Deus, o Shekiná, o encheu (2 Cr 5.13,14).
Semelhantemente, assim que Salomão terminou a oração de dedicação do Tem-
plo, fogo desceu do céu e a glória de Deus encheu o Templo mais uma vez (7.1,2).
Era tão impressionante esta manifestação tangível da residência de Deus entre eles
que o rei e o povo se prostraram em adoração e louvor (v. 3).

Deus na sua natureza. Não podemos separar os assuntos da acessibilidade
e inacessibilidade divina da natureza do próprio Deus, três aspectos dos quais o
cronista especialmente selecionou. Primeiramente, Ele é absolutamente santo,
conclusão obtida não por afirmação, mas por dedução. Está muito bem ilustra-
do na imprudência de Uzá que, para estabilizar a santa Arca de Deus, morreu
por transgredir tal santidade (1 Cr 13.9,10). Violar a santidade da Arca, o sím-
bolo da presença de Deus, era pisar em terra santa. Em segundo lugar, Deus é
justo ou íntegro, qualidade que empresta dimensão moral à santidade. Para o
profeta Semaías, que entregou a terrível palavra de que Sisaque saquearia Judá,
Roboão e a sua corte clamou: “O SENHOR é justo” (2 Cr 12.6). Os pecados trou-
xeram retaliação divina, fato proporcional à integridade do Senhor. Por fim, em
linha com a santidade e a justiça divina, o Senhor é onisciente, especificamente
com relação aos pensamentos e motivos do coração humano (1 Cr 28.9). Aquele
que é reto exige a integridade interior dos seus servos.

Deus na sua expressão. O Deus santo, que pode e se relaciona com a criação, o
faz de modo perceptível. Por exemplo, Davi confessou que o Senhor é misericordio- 
so  (1 Cr 21.13), uma faceta do caráter divino que foi demonstrado inúmeras vezes
ao rei. A misericórdia não pode ser separada da compaixão, a qualidade que toma a
misericórdia possível e compreensível. Exequias entendeu isto, e, em carta aos irmãos
israelitas de Samaria, ofereceu-lhes esperança pela reconciliação com os compatriotas
cativos, uma esperança fundamentada na grande compaixão de Deus (2 Cr 30.9). O
segundo suporte da misericórdia do Senhor é a fidelidade, ou hesed, o compromisso
auto-imposto com o seu povo inerente na relação de concerto com eles. Mais tarde,
discutiremos isto em detalhes, mas é interessante observar que a primeira súplica de
Salomão ao Senhor na famosa oração do Templo foi pela confiança, a fidelidade, uma
virtude atestada ao longo da vida do seu pai Davi (6.14,15; cf. 21.7).

Deus na sua posição. Na linha divisória entre a pessoa e os atributos divi-
nos e a ação de Deus no tempo e no espaço são características que se sobrepõem.
Por exemplo, Crônicas exalta a incomparabilidade de Deus, na verdade, a sua
exclusividade. Na fervorosa resposta de Davi às promessas do concerto do Se-
nhor, ele exclama: “SENHOR, ninguém há como tu, e não há Deus além de ti” (1
Cr 17.20). Salomão também confessa que “o nosso Deus é maior do que todos
os deuses” (2 Cr 2.5) e que “não há Deus semelhante a ti, nem nos céus nem na
terra”, que guarde o concerto com o seu povo (6.14). Esta incomparabilidade se
manifesta em muitas formas, não menos no poder imensurável do Senhor. Davi
o louva como aquEle por quem força e poder vêm (1 Cr 29.12). Confrontado
por Jeroboão I, rei de Israel, Abias, filho de Roboão, afirmou o poder derivado
da dinastia de Davi e disse aos inimigos: “Não pelejeis contra o SENHOR, Deus
de vossos pais, porque não prosperareis” (2 Cr 13.8,12).

A expressão mais plena do poder de Deus é a soberania, um aspecto da sua
pessoa enfatizado ao longo de Crônicas.  Esta nota precisava ser soada naquele
exato momento da história de Israel, pois os reinos do norte e do sul tinham
sido vencidos e em grande parte deportados, e a esperança de restauração era
destacadamente lúgubre. A grande pergunta era se o Senhor, Deus de Israel,
podia destruir os grandes impérios do mundo e abrir caminho para a volta do
povo à Palestina, restaurando-os aos privilégios e bênçãos do concerto.

Davi não tinha a menor dúvida sobre a soberania do Senhor, como atesta a ora-
ção feita na ocasião dos preparativos para a construção do Templo (1 Cr 29.11,12):

Tua é, Senhor, a magnificência, e o poder,
e a honra, e a vitória, e a majestade;
porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra; 
teu é, Senhor, o reino,
e tu te exaltaste sobre todos como chefe.
E riquezas e glória vêm de diante de ti,
e tu dominas sobre tudo,
e na tua mão há força e poder;
e na tua máo está o engrandecer e dar força a tudo.

Semelhantemente, Josafá proclamou ao Senhor: “Tu és dominador sobre
todos os reinos das gentes, e na tua mão há força e poder, e não há quem te possa
resistir” (2 Cr 20.6).

A soberania do Senhor está implícita em muitas narrativas como explicação
para as normalmente inexplicáveis sequências de eventos. O cronista declarou que
Roboão não ouviu o conselho dos conselheiros, pois a divisão do reino estava den-
tro do propósito de Deus (2 Cr 10.15). O profeta Semaías reforçou a declaração,
retransmitindo a Roboão a mensagem de que a divisão era mesmo por sanção di-
vina (11.4). Quase um século depois, Acazias, rei de Judá, morreu às mãos de Jeú
junto com o tio Jorão, rei de Israel, uma calamidade que o cronista atribuiu espe-
cificamente a Deus (22.7). Joás, filho de Acazias, foi derrotado por um exército de
sírios extremamente numeroso, porque o Senhor o entregou nas mãos dos sírios
(24.24). Uzias, porém, obteve vitória sobre os filisteus, árabes e meunitas, porque
Deus era com ele (26.7). Reciprocamente, o Senhor foi contra o mau Acaz e o
entregou ao rei dos sírios (28.5). Em todos estes episódios é óbvio que as nações,
não só Israel e Judá, moveram-se em reação aos propósitos soberanos do Senhor.

AS OBRAS E ATIVIDADE DE DEUS

Central à posição de muitos teólogos bíblicos contemporâneos está a
noção de que o Senhor, se Ele se revelou nos tempos do Antigo Testamento,
o fez pela história, pela sua atividade entre o povo e em prol do povo.  Temos
de admitir que há verdade nesta observação, mas como mostram os críticos
da escola da “história como revelação”, o ato ou ocorrência sem palavra con-
firmatoria e interpretativa é inepto de verificação ou mesmo de significado. A
explicação profética tem de acompanhar o ato revelatório na história. 

Os historiadores e profetas bíblicos não negaram que o Senhor se revelou
em sua obra. Não só o viram como o Iniciador soberano dos processos históri-
cos, mas também como se revelando neles, particularmente nos atos da eleição,
redenção e salvação. No caso de Crônicas, vemos que esses atos foram feitos em
prol do povo de Deus e executados com referência especial às nações. 

Quanto a Israel, seus pensadores entenderam que ele era o povo peculiar do
Senhor em virtude de um grande ato de redenção, uma demonstração magnâni-
ma e magnífica da graça. Davi, em resposta ao concerto feito com ele, perguntou
maravilhado: “Quem há como o teu povo de Israel, única nação na terra, a quem
Deus foi remir para seu povo, fazendo-te nome com coisas grandes e temerosas,
lançando as nações de diante do teu povo, que remiste do Egito?” (1 Cr 17.21). O
ato e fato histórico do êxodo confirmaram o Senhor como Redentor.

A redenção, como deixa claro o registro, foi efetivada para libertar Israel
da escravidão egípcia e colocar o jugo suave do domínio do Senhor. Esta trans-
ferência de lealdade foi formalizada no Sinai, onde Israel aceitou as condições
generosas do concerto mosaico, condições que identificaram o povo redimido
como um reino de sacerdotes submissos ao grande Rei de toda a Terra.

Crônicas não detalha o concerto sinaítico, mas ressalta o concerto davídico, a
expressão monárquica do governo de Deus prevista pelos concertos abraâmico e sinaí-
tico (e deuteronômico). Elaboraremos esse tema daqui a pouco. Por ora, é importante
ver como o Senhor se revelou como Senhor da nação, a monarquia e o culto.
O reino era do Senhor para dar a quem quisesse, fato óbvio quando o Senhor,
tendo rejeitado Saul, transmitiu o reino para Davi (1 Cr 10.13,14). Davi entendeu
esta transferência e entendeu também que Judá era a nação teocrática escolhida para
modelar e mediar a graça salvadora de Deus e que Davi era o sub-pastor eleito dessa
nação. Em justaposição notavelmente concisa mas abrangente das ideias duplas de
reino e regente, Davi declarou: “O Senhor, Deus de Israel, escolheu-me de toda a
casa de meu pai, para que eternamente fosse rei sobre Israel; porque a Judá escolheu
por príncipe, e a casa de meu pai, na casa de Judá; e entre os filhos de meu pai se
agradou de mim para me fazer rei sobre todo o Israel” (28.4). Estes atos de eleição
falam eloquentemente das prescrições soberanas do Senhor.

A escolha de Davi marcou simultaneamente a escolha na sucessão dinásti-
ca. Seu reinado foi um prelúdio do reinado dos seus descendentes, uma linha-
gem que culminaria naquEle cujo domínio nunca terminará. Como Natã tão
eloquentemente predisse, Davi morreria, mas o seu trono seria ocupado por um
filho que construiria a casa do Senhor (1 Cr 17.11,12). Acima dele, contudo,
haveria aquEle cujo trono “será firme para sempre” (v. 14). A soberania do Se-
nhor coincidirá e se expressará eternamente por este descendente de Davi.

A iniciação e manutenção do reino não era e nem será sem oposição, pois
forças antiteocráticas sempre estão em ação para frustrar os propósitos salvado-
res de Deus. O terreno da realeza tem de ser ganho pela guerra e luta. Os inimi-
gos são tão apavorantes que o próprio Deus tem de engajar-se na batalha como
Guerreiro do seu povo. Crônicas não está desatento a este conceito de “guerra
santa” ou, como a maioria dos estudiosos atualmente prefere chamar, “guerra
do Senhor”,10 conforme indicam as passagens a seguir. 

A conquista original da terra de Canaã necessitou da intervenção divina, fato
enfatizado repetidamente em Deuteronômio e Josué. O cronista aludiu a isto quan-
do descreveu o aniquilamento das populações transjordanianas como a batalha de
Deus (1 Cr 5.22). Este é um tema espalhadamente encontrado nas façanhas mili-
tares de Davi e sua dinastia. Foi o Senhor que deu vitória sobre os filisteus (11.14;
14.10,15,17) e sobre todos os outros inimigos (17.8; 18.6,13; 22.18).

Relatos da guerra do Senhor mais ou menos detalhados aparecem no re-
gistro. Na batalha entre Jeroboão I, rei de Israel, e Abias, rei de Judá, os judeus
sulistas clamaram ao Senhor, os sacerdotes tocaram as trombetas, o grito de
batalha ecoou e o Senhor derrotou Jeroboão e seus exércitos (2 Cr 13■ 14-16). 
Asa alcançou vitória, pela intervenção de Deus, sobre Zerá e seu exército com
mais de um milhão de homens (14.11-13). Quando Josafá estava a ponto de
marchar contra Moabe e seus aliados, o Espírito de Deus veio sobre o levita Jaa-
ziel, que ressaltou ao rei que “a peleja não é vossa, senão de Deus” (20.15). De-
pois, conduzidos pelos levitas em cânticos e louvores, os exércitos de Judá avan-
çaram para as linhas de frente, onde testemunharam a carnificina da destruição
e morte auto-infligida, vendo os moabitas, amonitas e meunitas se voltarem
uns contra os outros (20.20,22,23). É digna de nota a referência ao papel dos
levitas, pois esta era a característica inconfundível e clara da guerra do Senhor. 
O resultado desta campanha militar coloca esta interpretação acima de toda dú-
vida: “Veio o temor de Deus sobre todos os reinos daquelas terras, ouvindo eles
que o SENHOR havia pelejado contra os inimigos de Israel” (20.29).

Ezequias entendeu esta função do Senhor nos assuntos nacionais de Judá.
Talvez, na pior situação difícil de Judá, o assédio de Jerusalém pelo assírio Sena-
queribe, Ezequias reuniu o povo com o brado: “Com ele está o braço de carne,
mas conosco, o SENHOR, nosso Deus, para nos ajudar e para guerrear nossas
guerras” (2 Cr 32.8). Depois, em defesa poderosa dessa confiança, o Senhor gol-
peou o exército assírio, aniquilando os comandantes e os comandados (32.21).
Está perfeitamente claro que o Senhor se revelou nos atos em prol do povo.
Mas, a sua soberania e auto-revelação não se limitaram a isso. O cronista ensina
que Deus não só é o Deus de Israel, mas também o Deus das nações. Citando
um salmo de Davi (SI 96.9,10), ele escreveu:

Trema perante ele, trema toda a terra;
pois o mundo se firmará, para que se não abale.
Alegrem-se os céus, e regozije-se a terra;
e diga-se entre as nações: O Senhor reina.
(1 Cr 16.30,31) 

Como seu Soberano, reconhecendo ou não o fato, o Senhor usa as nações
para cumprir os seus propósitos, especialmente com relação ao povo do concer-
to. Ele provocou os filisteus e árabes contra Jeorão, rei de Judá (2 Cr 21.16),
e levou Neco, rei do Egito, contra Josias. O linguajar aqui é interessante, pois
Neco disse que falava em nome do Deus de Israel, advertindo Josias a não tentar
lhe interditar a marcha para Carquêmis (35.21). Vemos que a afirmação é au-
têntica na queixa do cronista a respeito de Josias: “E não deu ouvidos às palavras
de Neco, que saíram da boca de Deus” (v. 22). O resultado, claro, foi a morte
trágica e intempestiva de Josias.

A evidência mais notável da soberania de Deus sobre as nações e o uso
delas para efetivar os objetivos salvíficos divinos está associada com Ciro, rei da
Pérsia. Escrevendo no período exílico recente, o cronista ofereceu à comunidade
dos exilados a esperança de que o fim estava a vista e que o retorno à terra da
promessa estava a ponto de suceder. A característica mais surpreendente acerca
da restauração era que seria realizada sob a égide de um rei persa pagão, o mo-
narca mais poderoso que o mundo já vira.

E assim o historiador observou que o Senhor, em resposta à palavra pro-
fética de Jeremias, “despertou o SENHOR O espírito de Ciro, rei da Pérsia” para
fazer a seguinte proclamação: “O SENHOR, Deus dos céus, me deu todos os
reinos da terra e me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém, que
está em Judá; quem, dentre vós é de todo o seu povo, que suba, e o SENHOR,
seu Deus, seja com ele” (2 Cr 36.22,23). Claro que com esta declaração não
devemos concluir que Ciro era um convertido ao jeovismo. Mas isto não di-
minui a verdade de que Ciro, inconsciente ou não, era mero agente do Senhor
de Israel, o Soberano exclusivo e incomparável de todas as nações.


ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.