24 de janeiro de 2014

Eugene H. Merrill - Uma teologia de Crônicas

Uma das principais áreas de discussão na erudição do Antigo Testamento é o
“problema sinótico” de 1 e 2 Crônicas em comparação com Samuel-Reis.  Ainda que
estas grandes obras históricas coincidam e concordem em muitos aspectos, as diferen-
ças são profundas e têm de ser explicadas. É impossível entrarmos no debate aqui em
detalhes, mas devemos enfatizar pelo menos que as variações existentes nas narrativas
são fundamentalmente atribuídas a temas e propósitos diferentes. Samuel-Reis, des-
crito por alguns estudiosos como uma parte da “história deuteronômica”, tem como
tema principal a história da nação desde o surgimento do primeiro profeta “institucional”, Samuel, ao exílio de Judá na Babilônia. Foi uma história pontuada por avaliações
e acusações proféticas da monarquia e das instituições políticas e religiosas de Israel. O
fracasso do povo do concerto é atribuído à violação do concerto por reis, sacerdotes e

o povo. Nem Davi é exceção, visto que uma seção principal de 2 Samuel é dedicada a
expor os pecados pessoais dele e de seus filhos. 

Por outro lado, Crônicas, embora não inconsciente dos temas supramen-
cionados, foca a monarquia davídica como expressão teocrática dos soberanos
propósitos eletivos e redentores de Deus para o seu povo e, no final das contas,
para todas as nações. Tendo utilizado Samuel-Reis excessivamente para docu-
mentação histórica e até mesmo teológica, o cronista aborda a tarefa historio-
gráfica com percepções e interpretações próprias e produz um trabalho marcado 
por selo teológico próprio. O resultado é uma narrativa paralela e até idêntica a
Samuel-Reis em aspectos importantes, mas suficientemente diferente para fazer
de Crônicas um objeto digno de estudo por si só. Em nenhuma parte isto é mais
verdadeiro do que em sentido teológico, pois basicamente a singularidade de
Crônicas está precisamente na singularidade da mensagem teológica. 

O método teológico bíblico apropriado demanda que todo centro ou es-
trutura de análise teológica emane da própria matéria e que náo seja imposto a
essa matéria. Exige semelhantemente que tal princípio organizacional esteja em
harmonia com categorias teológicas inerentes na totalidade da revelaçáo bíblica,
Antigo Testamento e Novo Testamento. Atenção cuidadosa a estas diretrizes
leva à conclusão de que o princípio do reino de Deus como o trabalho externo
dos propósitos da criação se ajusta melhor à multiplicidade e variedade da reve-
lação bíblica e serve para integrar melhor essa revelação em torno de um tema
comum. Com isso em mente, uma declaração apropriada do tema e propósito
de Crônicas é “a soberania de Deus revelada pela monarquia davidica nos tem-
pos do Antigo Testamento”. 

Esta monarquia, como expressão e desenvolvimento do reino sacerdotal
do concerto mosaico/sinaitico, foi criada para modelar o governo teocràtico de
Deus sobre a Terra na história e prenunciar o reino do filho dinástico de Davi,
o Ungido, nos dias vindouros. Crônicas trata da pessoa e caráter de Deus, do
seu povo teocràtico, dos relacionamentos que os unem e da sua obra presente e
futura entre eles e em prol deles.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.