28 de janeiro de 2014

D. J. Wiseman - A arqueologia e o Antigo Testamento

A arqueologia é o principal meio de recuperar o passado por intermédio da descoberta de sítios antigos e ao se encontrar, por meio da escavação, construções, artefatos e documentos escritos que eles continham em tempos passados. Dessa forma, ela dá ao historiador uma ferramenta para que ele possa fazer um retrato do homem, de suas atividades e do seu pensamento em dado período e lugar na história. Visto que o AT em si já é uma coleção de escritos pertencentes a um contexto de vida específico, não é de surpreender que a arqueologia das terras bíblicas, principalmente da Síria-Palestina e seus vizinhos, comumente chamada de “arqueologia bíblica”, tenha feito muito para melhorar nossa compreensão dos povos, lugares, línguas, tradições e costumes entre os quais os hebreus tinham o seu lugar especial.

Enquanto a exploração antiga, e também alguma mais recente, tinha na Bíblia seu motivo principal de interesse, a arqueologia moderna desenvolveu-se em uma disciplina reconhecida e independente para descobrir, datar, examinar, preservar e interpretar os seus achados. A arqueologia não é uma ciência exata, embora já seja atualmente um campo de pesquisa contemporânea em rápido desenvolvimento que utiliza métodos de comparação e tipologia. Seus resultados, com exceção das
evidências documentais, talvez sejam subjetivos, sujeitos a interpretações variáveis ou limitadas pela falta de material de comparação ou até pelos pontos de vista e métodos empregados pelo escavador. Não obstante, alguns princípios de métodos ou resultados agora impõem respeito e ampla aceitação independentemente de qualquer convicção teológica, ou falta dela, do próprio arqueólogo.

A função da arqueologia está limitada à determinação do pano de fundo material de uma civilização. As ideias e os pensamentos de um povo antigo às vezes podem ser reconstruídos com base nesses vestígios materiais, mas são traçados mais comumente e de forma mais confiável com base em seus escritos. A arqueologia bíblica tem ilustrado, explicado e ocasionalmente confirmado o texto bíblico, embora às vezes tenha levantado problemas ainda não resolvidos. No entanto, ela não “comprova que a Bíblia é verdadeira”. Os autores do AT selecionam seus fatos, fontes e palavras e muitas vezes têm percepções e preocupações espirituais que estão além do escopo do questionamento ou da confirmação da arqueologia. Assim, a arqueologia bíblica se propõe a iluminar e suplementar, como também confirmar, ou, mais raramente, corrigir interpretações tradicionais. Visto que ela leva o leitor a conhecer o pano de fundo contemporâneo aos autores bíblicos, tornou-se uma ferramenta indispensável, se não essencial, para a completa compreensão da Bíblia.

1. Sítios

As estimativas dão conta de que somente três por cento dos 5 mil sítios descobertos e estudados na Palestina ou dos 10 mil lugares antigos em países limítrofes têm sido  sistematicamente examinados. Com base neles, parece que algumas cidades se desenvolveram no quarto milênio a.C., provavelmente sob influência da Mesopotâmia, embora algumas como Jericó datem do quinto milênio a.C. Lugares citados na narrativa do começo de Gênesis — e.g., Nínive, Cala, Ereque, Erid(u) etc. — são atestadas já no terceiro milênio. Lugares citados nas histórias dos patriarcas — e.g. Betel, Siquém, Hebrom (Quiriate-Arba), Sodoma e Gomorra — representam cidades-Estado cuja existência é confirmada como aspecto dominante do período. Em torno de 1700 a.C., as defesas maciças das cidades em toda a região foram fortificadas em vista dos novos armamentos (carros e cavalos) e das incursões dos hicsos (povos do mar). Essas fortificações podem ser observadas em toda a Síria e Palestina (Dã, Hazor, Laís, Siquém, Tirza, Gaza) e até no Egito. E possível que tenham sido motivo de espanto para os hebreus que estavam chegando (Nm 13.28). Cada cidade-Estado tinha seus próprios governantes e túmulos que testemu¬nhassem da prosperidade do período. Mais tarde, no século XVI a.C., Megido, Jericó e Bete-Zur estavam entre os lugares aparentemente destruídos pelos egípcios que vieram após os hicsos. O domínio deles sobre as fortalezas principais da Palestina pode ser visto também na correspondência do século XIV entre governantes locais e os faraós (cartas de El-Amarna).

E difícil afirmar com certeza que os níveis de destruição em Tell el-Hesy (Eglom?), Megido, Laquis, Asdode e Hazor estejam relacionados à vinda dos hebreus. Não há evidencia alguma da ocupação de Ai, e K. M. Kenyon afirma não ter encontrado sinal algum de muros caídos em Jericó datados dessa época (ao contrário da suposição inicial de J. Garstang), embora haja sinais de abandono em c. 1325 a.C., a época em geral mais atestada pela evidência arqueológica para a ocorrência desse evento.

No período “filisteu”, Gate, Gaza, Ascalom, Ecrom e Jope são apresentadas como cidades principais e independentes, e encontramos cerâmica, objetos, esquifes, pilares e templos decorados no estilo dos filisteus. Os templos são fundamentalmente diferentes dos posteriores. O de Tell Qasile elucida o ato de Sansão ao se firmar contra as duas colunas centrais para deslocá-las das suas bases de pedra fazendo ruir o telhado com um movimento só (Jz 16.20). A penetração para o interior por parte dos filisteus é marcada pelo escambo comprovado em Gibeá, Jerusalém, Bete-Zur e Tellen-Nasbeh. O seu monopólio no tempero do ferro os conduziu à superioridade militar e econômica (ISm 13.18-22). No período da monarquia, o ferro substituiu o cobre e o bronze nos equipamentos usados na agricultura, como pode ser comprovado em escavações da capital de Saul, Gibeá (Tell el-Fül), a 4,5 quilômetros ao norte de Jerusalém, onde foram descobertas as fortificações israelitas mais antigas.

Pouco nos resta em termos arqueológicos do tempo de Davi, a não ser a encosta jebusita e o muro novo em Ofel, “a cidade de Davi”, e os consertos em Bete-Semes e Tell Beit Mirsim podem ser atribuídos à defesa dele contra os filisteus. A idade do bronze tardio mostra um progresso na técnica de construção que coincide com a atividade de Salomão, cujos novos portões da cidade e construções em Hazor, Megido e Gezer (cf. lRs 9.15) foram descobertos por Yadin. Os chamados “estábulos de Salomão” em Megido estão sendo redefinidos agora como escritórios administrativos ou depósitos da época de Acabe. As construções de Salomão em Jerusalém, incluindo tanto o complexo do templo como o pórtico de colunas do seu palácio com os seus jardins, imitam o estilo de construções sírias da época já conhecidas de Alalah, Ugarite e outros lugares. A amplitude de sua atividade comercial pode ser constatada em uma inscrição num pedaço de cerâmica de Qasile que diz: “ouro de Ofir para Bete- Horom”. Os utensílios usados no templo podem ser ilustrados por aqueles encontrados em Hazor que incluem pesos, pás e até mesmo uma serpente na ponta de uma vara (como Neustã, 2Rs 18.4), além de altares com chifres (2Cr 6.13) encontrados em templos da época em Arade e Berseba. Uma esteia egípcia quebrada encontrada em Megido e níveis de destruição em Debir e Bete-Semes atestam as incursões na Palestina por parte do rei Sisaque (Sheshonq I) c. 928 a.C. (cf. lRs 14.25,26).

O reforço das defesas em Laquis e Azeca por parte de Roboão pressupõe tensões constantes entre Israel e Judá, como o fazem também as reconstruções de Siquém, Gibeá, Betel e Mispá (Tell en-Nasbeh?). Embora lRs 16.21-26 não destaque Onri como um construtor, o seu trabalho em Siquém e Tirza (Tell el-Farah) — esta deixada inconclusa por causa de sua grande obra de construção da nova capital em Samaria — coincide com o retrato bíblico da sua obra lá. As decorações em marfim de suas casas (lRs 22.39; Am 6.4) e o enorme tanque em que provavelmente o seu carro foi lavado (lRs 22.38) foram descobertos.

Os contatos frequentes entre Israel e Judá e os reis que os dominavam na Assíria e Babilônia são objetos de referência direta em documentos extrabíblicos da época [cf. em Inscrições, a seguir]. Alguns desses encontram apoio também em evidências arqueológicas independentes. Assim, por exemplo, a defesa de Ezequias de Jerusalém contra os assírios em 701 a.C. foi possível pela sua construção ou adaptação do túnel de Siloé, redescoberto em 1838. Esse antigo canal de água, com “1.200 côvados de comprimento”, dava acesso do interior dos muros da cidade a uma fonte subterrânea fora dos muros (2Rs 20.20; 2Cr 32.30). A queda de Judá é marcada pela destruição e abandono da maioria dos centros fortificados. Isso é especialmente observável ao longo da fronteira sul — Laquis, Azeca (Jr 34.7, Tell Beit Mirsim), Bete- Semes, Ramá Rahel e Arade. Em Jerusalém, valas comuns de sepultamento fora dos muros têm sido atribuídas ao saque de 587 a.C. Durante o exílio, Mispá (Tell en-Nasbeh) continuou como uma cidade pouco ocupada, embora as vinhas ao norte de Jerusalém ainda fossem cultivadas para suprir a Babilônia. O esplendor da cidade de Nabucodonosor pode ser avaliado com base nas amplas escavações da sua capital com seus palácios, templos e cidade ocupados por ele e Belsazar, filho e co-regente de seu sucessor, Nabonido. Fora algumas tabuinhas com inscrições, ainda não há evidências acerca dos judeus no exílio na Babilônia. O seu retorno a Judá pode ser observado em recolonizações esparsas em Gezer, Laquis, Betel, Bete-Zur (ao norte de Hebrom) e em Mispá. No entanto, Judá não recuperou sua prosperidade até o século III a.C.

2. Inscrições

A evidência arqueológica que vem da ocupação dos sítios é importante, mas é mais muda do que as inscrições, que podem ser datadas com relativa precisão e são mais facilmente associadas ao texto do AT. Dessa forma, podem-se esperar referências diretas a eventos, lugares e personagens bíblicas; e às vezes são de fato encontradas.

A influência da escrita cuneiforme babilônica utilizada já em c. 3500 a.C. pode ser vista na Síria em 2500 a.C. Em Ebla (Tell Mardikh), os escribas já a usavam para copiar a mesma classe de textos conhecidos tanto antes quanto na época da própria Babilônia. Todo tipo de registros, administração e tarefas escolares (com os seus vocabulários e silabários refletindo o dialeto semítico local) estão entre os c. 10 mil textos encontrados ali. Esses textos mostram os escribas criando e preservando as já antigas tradições literárias. Também havia entre eles instruções (semelhantes às de Provérbios), relatos da criação de natureza politeísta semelhantes à epopeia babilónica posterior começando com “quando no alto...” (enuma elish) e um relato da história babilónica do Dilúvio (Epopéia de Gilgamesh), parte do qual também foi encontrado em Megido, datado do século XIV a.C. Essa importante coleção, que inclui hinos e orações, cartas comerciais e governamentais, editos reais, alianças e tratados e outros dados históricos, como também textos matemáticos e médicos, vão se revelar importantes no estudo do pano de fundo tanto de Gn 1—11 quanto do período patriarcal posterior. O horizonte geográfico desses textos não se estende a Canaã e a Babilônia. 
A língua e a literatura babilónicas foram comumente usadas em todo o Antigo Oriente Médio durante o segundo milênio a.C. quando muitos milhares de textos, incluindo 25 mil de Mari (Tell Hariri), fornecem um retrato detalhado do período em que bem podem ser colocados os patriarcas. A língua e os costumes são igualmente bem ilustrados por meio dos textos históricos, legais e de correspondência de Alalah (Síria) nos séculos XVIII ao XV a.C., posteriormente Nuzi (Assíria, século XV a.C.) e Amarna (século XIV a.C.). Textos de Ras Shamra (Ugarite) incluem epopéias e mitos (Baal, Aqhat etc.) e outros escritos em um alfabeto que usava a escrita cuneiforme. Da mesma cidade, na época da entrada dos israelitas na terra prometida, vêm textos escritos por escribas bilíngues incluindo a história do Dilúvio (com muitas semelhanças com o Gênesis, mas com pano de fundo politeísta e outras diferenças significativas), o “Jó” babilónico, hinos, orações, provérbios e canções de amor (cf. Cântico dos Cânticos) e o comum amontoado de textos legais e registros administrativos. Assim, o AT deve ser visto contra um pano de fundo de tradições literárias locais, usando métodos de escrita semelhantes (e.g., colofões) e gêneros literários semelhantes aos usados pelos hebreus. Estes, no entanto, são distintos no seu conteúdo e na sua orientação religiosa. Em todas as cortes e templos, os registros escritos tornavam desnecessária a dependência da anotação de eventos somente com base em lembrança posterior ou em ensinos ou tradições orais que existiam paralelamente à palavra escrita.

Assim, em tomo de 1800 a.C. o alfabeto semítico pode ser observado em apontamentos nas minas do Sinai e, por volta de 1500 a.C., em Biblos, como também em Gezer, Siquém (uma placa) e Laquis (um punhal com inscrição). Na época em que os hebreus entraram na Palestina, o cuneiforme babilónico, o hierático e os hieróglifos egípcios, o alfabeto linear cananeu (ancestral do alfabeto hebraico posterior e dos alfabetos grego e romano), um alfabeto de 25—30 sinais cuneiformes relacionado ao de Ugarite, a escrita silábica de Biblos, como também as escritas do tipo cipriota e cretense já estavam em uso. Todos esses podem ter vindo ao conhecimento de Moisés por meio da educação que recebeu na corte do faraó do Egito.

Da época da monarquia unida, sobreviveram algumas inscrições semíticas. Uma é a ponta de lança de el-Khadr, perto de Belém, que talvez tenha pertencido a um homem que seguiu Davi para o exílio. Uma inscrição nativa, o calendário de Gezer — o calendário de um agricultor ou a tarefa de menino de escola — talvez possa ser datado com o do tempo do reino de Salomão. Os relevos e textos de Sisaque nas paredes do templo de Karnak de Amun em Tebas o retratam castigando cativos asiáticos e fazem uma lista das suas conquistas na Palestina. O usurpador Onri (884—873 a.C.) é mencionado na inscrição de Mesa (a Pedra Moabita, c. 830 a.C.) encontrada em 1868. Nela o rei de Moabe também conta como o seu pai foi derrotado por Acabe mas, mais tarde, recuperou sua independência enquanto Acabe estava lutando contra a Síria (2Rs 1.1). Salmaneser III afirma que “o israelita Acabe” forneceu “2 mil carros e 10 mil homens” para a coalizão liderada por Irhuleni de Hamate e Ben-Hadade II de Arã-Damasco (chamado Adade-idri ou Hadadezer pelos assírios). A maior contribuição dos israelitas em carros foi na batalha de Carcar em 853 a.C. quando o avanço assírio para o Oeste foi impedido por algum tempo. Hazael tinha destituído Ben-Hadade II em 843 a.C. e é chamado usurpador (“um filho de ninguém”) e “o nosso senhor Hazael” em inscrições em um marfim, saqueado de Damasco por soldados assírios, e nos textos históricos.  O Obelisco Negro de Salmaneser III (Museu Britânico) mostra a submissão de “Jeú filho (dinastia?) de Onri” ao rei assírio. Esse evento não é mencionado na Escritura. Uma esteia de pedra de Hadade-Nirari III de Rimá, a oeste de Mosul, cita ‘Yu’asu (Joás) de Samaria” pagando tributo a ele. Ao reina¬do de Jeroboão II (770—755 a.C.) podem ser atribuídos os 63 fragmentos de cerâmica de Samaria que registram o recebimento de vinho e azeite por conta de impostos pagos em espécie. Há também o selo de um dos seus oficiais, “Sema, servo de Jeroboão”, não mencionado na Bíblia. Azarias (Uzias) de Judá parece ter exercido uma grande influência na Síria, a julgar por referências a “Azriyau de Yaudi” em textos assírios da época. A inscrição hebraica que registra o traslado dos seus ossos para um túmulo novo em Jerusalém deve ser datada aproximadamente de setecentos anos mais tarde.

Menaém (Menuhimme) de Samaria, de acordo com os anais de Tiglate-Pileser III, uniu-se a Rezim de Damasco no pagamento de tributos aos assírios em torno de 739 a.G. (cf. 2Rs 15.37; 16.5-9; Is 7.1ss). Os mesmos anais mencionam Peca (Paqaha) como um aliado de Rezim e contam como os assírios colocaram Oséias (Ausi’) no trono de Israel (“a casa de Onri”). Os anais da Assíria relativos ao ano 731 mencionam (Jeo)acaz (Yauhazi) de Judá pagando tributos à Assíria junto com Moabe, Edom, Ascalom e Gaza (cf. 2Rs 16.18). Outras evidências externas do tempo dele são um selo de “Ushnu, servo (oficial) de Acaz” e um texto de Nimrud, capital da Assíria, mencionando tributos. Salmaneser V afirma ter iniciado o cerco de três anos a Samaria, um ataque que parece ter sido concluído por Sargão II em 722/1 a.G. (por isso o plural “reis” em 2Rs 18.10). A Crônica Babilônica também registra que Salmaneser “quebrou a (oposição da) cidade de Shamarain (Samaria?)”. Sargão afirma ter levado 27.270 (ou 27.290) “homens de Samaria” como prisioneiros, “junto com os deuses em que eles acreditavam”, assim comprovando o politeísmo que os profetas tão veementemente condenavam. O mesmo texto descreve o saque da Babilônia em termos que lembram Isaías 13. Os exilados de Samaria foram levados a Gozan (Guzan, Tell Halaf), onde os documentos logo mostram habitantes com nomes aparentemente judaicos. Outros talvez foram levados a Calá (Nimrud), onde um óstraco lista nomes semíticos ocidentais como Menaém, Eliseu, Hananel e Ageu.
A inscrição do túnel de Siloé registra o encontro dos mineradores escavando os “últimos três côvados” de cima e de baixo quando estavam fazendo o poço do canal de água de 1.200 côvados usado por Ezequias para defender Jerusalém em 701 a.C. Senaqueribe registra esse cerco a Jerusalém quando ele “prendeu o judeu Ezequias (Hazaqiau) na sua cidade real como a um pássaro na sua gaiola”, mas não afirma ter feito captura alguma. No relato mais vívido que o AT fornece, estão claras as razões por que ele não conseguiu fazer isso. É mencionado também o pagamento de “800 talentos de prata e 30 talentos de ouro” que Ezequias fez. Entretanto, a queda de Laquis diante do rei assírio é tema de relevos e inscrições nas paredes do palácio de Senaqueribe, em Nínive, que mostram os deportados sendo levados para o cativeiro. Descobertas em Laquis mostram a ferocidade do cerco. A padieira de um túmulo preparado para “(Shebn)ayahu que está acima de uma casa” (i.e., um administrador real) vem de uma necrópole do vale Silwan ocupada pelos de alta patente. O texto é a terceira inscrição de monumento mais longa em hebraico arcaico que sobreviveu. Ele apoia a ideia de que esse é o túmulo do Sebna que foi repreendido por Isaías (Is 22.15,16).

Esar-Haddon da Assíria relaciona os tributos recebidos de “Manassés (Minse) rei de Judá”. Este provavelmente também esteve presente em Calá em maio de 672 a.C. quando o rei assírio impôs um tratado de vassalagem a todos os seus súditos, fazendo-os jurar lealdade a seus filhos como reis da Assíria e da Babilônia. O texto, com suas exigências ou estipulações relativas à aliança (“fareis...; não fareis...”) seguindo uma forma praticamente inalterada do segundo milênio, contribuiu muito para o aumento do interesse nas formas literárias das antigas alianças como são encontradas também nos Dez Mandamentos e em Deuteronômio. Entre outras exigências, os vassalos se comprometem a aceitar o deus da Assíria como seu deus, sob ameaça de repetição dos saques a suas cidades e exílio para os seus habitantes por violarem qualquer um dos mandamentos impostos. Esse tipo de texto começa com um título e um prólogo histórico escrito ou implícito. Em seguida, coloca as estipulações que os vassalos têm de reconhecer ou repetir em voz alta; as orientações para depositar uma cópia da aliança no santuário do vassalo e para a sua leitura pública e renovação periódica, incluindo as obrigações de ensinar isso a “seus filhos e filhas” para sempre; as testemunhas divinas, as maldições sobre o vassalo caso ele transgredisse a aliança e bênçãos caso ele obedecesse (cf. Êx 20 e 21; Dt 1.1-32,47; Js 24).

A organização fiscal de Judá (yhd) exigia que os impostos fossem pagos em espécie, e algo em torno de 600 alças seladas de jarros mostram que Hebrom, Socó, Zife e Mmst eram centros de arrecadação desde Ezequias até a queda de Judá.

As Crônicas Babilónicas dão um relato objetivo e confiável dos eventos da maioria dos anos no período 626—-539 a.C. Estes incluem a batalha de Carquemis em agosto de 605 a.C. e a derrota dos sírios em Hamate, o que permitiu que os babilônios marchassem sem oposição alguma através da Palestina até a fronteira do Egito. Entre os tributos trazidos por muitos reis, devem ter estado os de Jeoaquim de Judá, que permaneceu leal à Babilônia durante três anos, até a derrota do exército de Nabucodonosor pelos egípcios registrada em 601 a.C. Os babilônios tinham marchado para o Oeste em 604 e 602, fazendo muitos prisioneiros, que podem ter incluído Daniel e seus companheiros. Uma carta em aramaico de Saqqara fala do pedido de socorro frustrado que uma cidade fez ao Egito. Essa pode ter sido Ascalom, Asdode ou Gaza; certamente o ataque iminente levou Jeremias a anunciar um jejum (Jr 36.1ss).

As Crônicas Babilónicas acerca do sétimo ano de Nabucodonosor afirmam que ele “convocou o seu exército e marchou contra a cidade de Judá (i.e., Jerusalém) e no segundo dia do mês de Adar (i.e., 16 de março de 597 a.C.) ele capturou a cidade e levou o seu rei como prisioneiro. Ele designou um rei da sua escolha (para governar) lá; recebeu altos tributos e enviou (os exilados) para a Babilônia”. Isso fornece evidências claras para comparação com 2Rs 24.10-17 e outras passagens. Não sabemos a data exata de outra fonte, mas Joaquim (Yaukin), rei de Judá, é mencionado em textos da Babilônia que datam de 595—570 a.C. como alguém que recebe na Babilônia porções dos depósitos reais. Nesse tempo, suas propriedades reais em Judá foram administradas até 587 a.C. por “Eliaquim, administrador de Joaquim”, cujo selo é conhecido com base em achados em Debir e Bete-Semes. O rei escolhido por Nabucodonosor para suceder Joaquim era o tio deste, Matanias/Zedequias (2Rs 24.17). Os últimos dias de Judá até a queda de Jerusalém em 587 a.C. são ilustrados graficamente por meio de observações inscritas em fragmentos de cerâmica pelos comandantes de um posto avançado em Laquis que aguardavam sinais de fogo (cf. Jr 6.1; 34.7). O selo de Gedalias foi encontrado em Laquis, que deve ter estado sob o seu controle, como também o de Jazanias, ministro do rei em Mispá (2Rs 25.23; Jr 40.8). As impressões dos selos de Baruque, o escriba de Jeremias, e de outros indivíduos mencionados em Jeremias 36 também foram descobertos.

A co-regência de Belsazar com Nabonido é comprovada em inscrições babilônicas que também mencionam o “Rei dos Medos”, que nessa época não pode ser outro senão Ciro, que se intitulava tanto “Rei da Pérsia” quanto “Rei das Terras”. Com base nisso, foi sugerido que Daniel 6.28 seja traduzido “Assim Daniel prosperou durante o reinado de Dario inclusive (i.e.) o reinado de Ciro, o Persa” e que “Dario, o Medo” pode muito bem ser um nome de trono do próprio Ciro, visto que não sobrevive nenhum registro babilônico de um regente entre Nabonido-Belsazar e Ciro nem entre Ciro e Cambises (D. J. Wiseman, Notes on Some Problems of the Book of Daniel\ Lon¬don, 1965). Outros estudiosos identificam Dario, o Medo, com um regente pouco conhecido, Gubaru/Gobryas, um governador da Babilônia que, no entanto, nunca recebe o título de rei (J. C. Whitcomb, Darius the Mede, Grand Rapids, 1959).

Ciro registra que o seu anúncio de restauração de templos de muitos deuses e o retorno dos judeus depois do exílio na Babilônia está em harmonia com isso. Cartas em papiro de Elefantina, no Egito, citam tanto Sambalate quanto o sumo sacerdote Joanã (Ne 12.22-25). Outros oponentes de Neemias, “Gesém, rei de Quedar” e “Tobias, o amonita” deixaram inscrições. Uma “profecia dinástica” babilônica recentemente divulgada dá detalhes da queda da Assíria, do surgimento e queda da Babilônia e da Pérsia e do surgimento das monarquias helenistas. Como em Daniel, embora nomes de reis não sejam dados, há detalhes circunstanciais suficientes para identificar as pessoas e os períodos descritos.

3. Os rolos do mar Morto e o AT

A descoberta acidental ocorrida em 1947 perto do uádi Cunrã, a noroeste do mar Morto, levou à recuperação de manuscritos que antecedem os mais antigos textos do TM do AT conhecidos até agora. Eles são datados de c. 250 a.C. (Êxodo) até pouco antes da queda de Jerusalém (c. 68 d.C.). Mostram a exatidão com que os escribas copiavam textos hebraicos antigos. Outros mostram sinais de revisão ou são cópias de várias recensões que precederam ou seguiram as traduções gregas da LXX c. 245 a.C. Foram encontrados também escritos em aramaico e textos samaritanos. Livros deuterocanônicos (não aceitos no cânon hebraico) em hebraico, aramaico e grego também estão representados. Os livros mais copiados eram Deuteronômio, no Pentateuco; Salmos, nos Escritos; e Isaías, nos Profetas. E digno de observação que esses livros, usados no sistema educacional da sinagoga da Palestina a partir de 75 a.C., foram os mais citados por Jesus Cristo. Os rolos de Cunrã também ilustram os métodos de exegese usados na época. Documentos sectários entre os mesmos achados incluem também o Manual da disciplina e o Rolo do templo da seita, em geral e provavelmente com razão, identificada como uma ramificação dos essênios. Embora esses textos sejam muito valiosos em mostrar a continuidade e as variações nos textos do AT, é importante observar que as 14 cópias de Isaías apresentaram somente seis mudanças reconhecidas em comparação com o texto como era anteriormente conhecido, de importância menor. A importância principal desses rolos está no âmbito dos estudos do NT.

4. Avaliação

O que foi dito acima é apenas parte do retrato que pode ser reconstruído com base nas evidências arqueológicas. Isso pode testar teorias exageradas e negativas, derivadas tanto de fatos reconhecidos como de formas literárias e de interpretação. Visto que se acumulam novos dados constantemente, “precisamos lembrar que as evidências que a arqueologia e os textos fornecem sempre serão incompletas [...] precisamos admitir também que só a ausência de evidências arqueológicas não seria suficiente para lançar dúvidas sobre as afirmações dos testemunhos escritas” (R. de Vaux). A arqueologia também levanta problemas que ainda aguardam uma solução definitiva, como, por exemplo, a falta de evidências, apesar de amplas escavações, da ocupação de Ai e Jericó na época da entrada dos hebreus na terra, embora diferentes soluções possam ser genuinamente propostas. Ela tem resolvido uma série de problemas levantados pelos críticos, como a existência e o uso de camelos na Palestina no período antigo dos patriarcas (Gn 12.16 etc.) ou o reinado de Tiraca já em 701 a.C. (2Rs 19.9). A arqueologia deve ser recebida como um acréscimo bem-vindo ao nosso conhecimento, mas nunca como o substituto da própria Escritura. O expositor e comentarista bíblico precisa estar sempre em dia com os achados arqueológicos, mas nunca ser servo deles.

BIBLIOGRAFIA

Há muitas informações novas quando as descobertas são publicadas em revistas especializadas, e.g., The Biblical Archaeologist, American School of Orien¬tal Research; IsraelExploration Journal, Iraq, Levant, Palestine Exploration Quarterly etc. Textos relacionados ao AT foram reunidos em Pritchard, J. B., ed. Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament. 2. ed., Princeton, 1955, e Ancient Near 
Eastern Pictures Relating to the Old Testament. 2. ed., Princeton, 1969, abreviado em seu The Ancient Near East, an anthology of Texts and Pictures, Princeton, 1973; e em Thomas, D. Winton, ed. Documents from Old Testament Times. London, 1968. Um compêndio recente e confiável de dados de arqueologia bíblica pode ser encontrado em The New Bible Dictionary. 2. ed., Leicester, 1982 (ou com ilustrações em The Illustrated Bible Dictionary, v. 1 a 3. Leicester e Wheaton, 1980).
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FONTE: BRUCE, F.F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Vida, 2008.