11 de dezembro de 2013

Roland de Vaux - Os elementos da população livre: Ricos e Pobres

Nos primeiros tempos da sedentarização, todos os israelitas desfrutavam, mais ou menos, da mesma condição social. A riqueza provinha da terra, a qual estava repartida entre as famílias, que defendiam zelosamente seu patrimônio, cf. também a história de Nabote, I Rs 21.1-3. As transações comerciais ou imobiliárias, que são uma fonte de renda, eram de pouca importância. Havia, sem dúvida, exceções; assim, por exemplo, Nabal é um rico criador de gado das estepes de Judá: ele possui três mil carneiros e mil cabras, e sua esposa Abigail envia a Davi, para acalmá-lo, 200 pães, 100 cachos de uvas passas, 200 bolos de figo, odres de vinho, medidas de trigo tostado e ovelhas prepara¬das, I Sm 25.2,18. A riqueza de Jó é ainda maior: 7.000 ovelhas, 3.000 camelos, 500 juntas de bois, 500 jumentas, Jó 1.3; mas a história apresenta Jó à maneira de um grande sheikh da época patriarcal, cf. Abraão em Gn 12.16; 13.6; 24.35. Em compensação, os dois primeiros reis de Israel pertencem a famílias só moderadamente abastadas: o pai de Saul é um gibbôrhail, cf. acima, e, contu¬do. envia seu filho a buscar as jumentas perdidas, I Sm 9.1s, e Saul mesmo cultiva seus campos, I Sm 11.5. Davi guarda o rebanho, I Sm 16.11, cf. 17.20, 28.34s, e seu pai o envia a seus irmãos, que estão no acampamento de guerra, com uma medida de grão tostado, dez pães e dez queijos, I Sm 17.17. Segundo outra tradição, Davi, chamado junto ao rei, leva como presente cinco pães, um odre de vinho e um cabrito, I Sm 16.20. Tudo isso representa um nível de vida bastante modesto e não temos notícia de que houvesse famílias mais abasta¬das nesses mesmos ambientes.


As escavações das cidades israelitas demonstram também essa igualda¬de de condição. Em Tirsá, a atual Tell el-Fâr’ah, perto de Nablus, as casas do século X a.C. têm todas as mesmas dimensões e o mesmo formato; cada uma representa o habitat de uma família, que levava o mesmo modo de vida que seus vizinhos. É notável o contraste quando se passa ao nível do século VIII no mesmo sítio: o quarteirão das casas ricas, maiores e melhor construídas, é separado do quarteirão em que as casas dos pobres estão aglomeradas.

Na realidade, durante esses dois séculos se produziu uma revolução social. Como já vimos, as instituições monárquicas fizeram surgir uma classe de fun¬cionários que tiravam proveito de sua administração e dos favores que o rei lhes concedia. Outros, por sorte ou por habilidade, obtiveram grandes lucros com suas terras. Reinava a prosperidade. Os 12.9 põe estas palavras na boca de Efraim (Israel): “Sim, me enriqueci, e adquiri muitos bens”, e Is 2.7 diz: “O país está cheio de prata e de ouro e de imensos tesouros.” Os profetas condenavam então o luxo das residências, Os 8.14; Am 3.15; 5.11, dos ban¬quetes, Is 5.11,12; Am 6.4, das roupas, Is 3.16-24, a monopolização das terras por aqueles “Que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo até que se apoderem de toda terra”, Is 5.8. Efetivamente, essas riquezas eram mal distri¬buídas e com freqüência haviam sido mal adquiridas: “Cobiçam campos e os arrebatam, e casas, e as tomam”, Mq 2.2. Os ricos proprietários especulam e cometem fraudes, Os 12.8; Am 8.5; Mq 2.15, os juizes se deixam corromper Is 1.23; Jr 5.28; Mq 3.11; 7.3, os credores são impiedosos, Am 2.6-8; 8.6.
Pelo contrário, existem os fracos, os. pequenos, os pobres, _que sofrem com essas cobranças injustas. Os profetas saem em sua defesa. Is 3.14,15; 10.2; 11.4; Am 4.1; 5.12; cf. SI 82.3-4, e também a lei os protege, começando já por Êx 22: 24-26; 23.6, mas, sobretudo o Deuteronômio, que reflete a situa¬ção social desse período: ele promulga o preceito da esmola, Dt 15: 7-11, obriga a dar ao devedor pobre seu penhor antes do pôr-do-sol, Dt 24.12-13 (ampliando a lei de Êx 22.25,26), protege ao diarista, Dt 24.14,15.

Sabia-se muito bem que sempre haveria pobres, Dt 15.11, cf. Mt 26.11, mas mediante regulamentações, das quais é difícil dizer até que ponto foram realmente praticadas , procurou-se lutar contra o pauperismo e restabelecer certa igualdade entre os israelitas. A cada ano sabático deixava-se aos indi¬gentes o produto da terra, Êx 23.11, perdoavam-se as dívidas, Dt 15.1, “Para que não haja nenhum pobre entre vocês”, Dt 15.4. No ano do jubileu devia proclamar-se uma anistia geral e cada um recuperava seu patrimônio, Lv 25.10, com os comentários que seguem no capítulo.

Os ricos encontravam-se, geralmente, entre os notáveis e muitos textos proféticos unem uns aos outros na mesma condenação. Contudo, os pobres não constituíam diante deles outra classe social: eram unicamente indivíduos, que se encontravam indefesos precisamente por estarem isolados.

O termos “rico” e “pobre” não implicam em si mesmos nenhuma qualifi¬cação moral ou religiosa. Entretanto, carregam-se de tal qualificação ao entrar em duas linhas contraditórias de pensamento. Segundo a tese da retribuição temporal, a riqueza é uma recompensa da virtude e a pobreza é castigo, tal como dizem textos como SI 1.3; 112.1-3; Pv 10.15-16; 15.6, contra o que protestará Jó. Outra linha de pensamento parte de uma experiência muito fre¬qüente e de fatos estigmatizados pelos profetas: há ricos malvados, ímpios, que oprimem os pobres, mas estes são amados por Deus, Dt 10.18; Pv 22.22-23, e seu Messias lhes fará justiça, Is 11.4. Assim ia-se preparando a transposição espiritual do vocabulário, que se insinua em Sofonias: “Buscai a Iahvé, vós todos os mansos da terra”, Sf 2.3; cf. 3.12-13. A espiritualidade dos “pobres” se desenvolverá na segunda parte de Isaías e no saltério pós-exílico, mas os termos relativos à pobreza perdem, nesse caso, suas conexões sociológicas: nem antes nem depois do Exílio os indigentes foram um partido religioso nem uma classe social.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.