30 de dezembro de 2013

Homer Heater, Jr - Uma teologia de Samuel e Reis: A teologia de um lugar de adoração em Samuel e Reis

Uma faceta importante da teologia de Israel girava em torno dos lugares
de adoração. Durante toda a história anterior ao exílio de Israel, existia um
Tabernáculo ou um Templo lado a lado com outros lugares onde o povo de
Deus adorava. Com o passar do tempo, desenvolveu-se uma polêmica contra os
lugares altos que culminou na remoção violenta feita pelo rei Josias.

A tensão entre a obrigatória centralização da adoração e a prática da diver-
sidade de lugares de adoração forma uma base na abordagem crítica ao Antigo
Testamento. A teoria é a seguinte: Considerando que Deuteronômio (em par-

ticular, Dt 12, 14 e 16) limita a adoração a um local, e visto que como a prática
de adoração vigente desde o tempo de Juízes até Josias estava em vários lugares,
a maior parte do livro de Deuteronômio deve ter sido redigida nos dias de Jo-
sias para autenticar uma tradição nova e autorizar a reforma de Josias.  Segal
argumenta que Deuteronômio não insiste que a adoração seja administrada
somente em um lugar, mas que o lugar seja divinamente sancionado como lugar
santo para a adoração ao Senhor. 

O Tabernáculo ficou por certo tempo em Siló. Depois da guerra contra os
filisteus registrada em 1 Samuel 4, a Arca teve uma existência independente.  Ao
que parece, o Tabernáculo foi reerguido em Nobe, cujos sacerdotes Saul assassi-
nou, sem a Arca. Davi ergueu um tipo de tenda (talvez o Tabernáculo completo)
para a Arca, quando a levou para Jerusalém e fez da cidade o lugar central para a
habitação de Deus.

OS LUGARES ALTOS EM SAMUEL

A palavra hebraica traduzida por “lugar alto” (bamah) ocorre só em dois
lugares em Samuel, e ambos relacionados com o profeta Samuel e a unção de
Saul.  Aqui, o lugar alto era claramente legítimo, pois foi sancionado por nin-
guém menos que Samuel. Não há um comentário editorial sequer a respeito de
“a casa não ser construída para o nome do Deus”. Estes dois lugares altos são
mencionados sem crítica apesar da existência prévia do Tabernáculo em Siló e
de sua existência posterior em Nobe.

A adoração no lugar alto em Samuel caracteriza a refeição sacrificatória
outro tanto ou mais do que o sacrifício. Aprendemos que 30 homens foram reu-
nidos para a refeição e que Saul foi posto à cabeça da mesa, no lugar de honra.
Um cozinheiro preparou a refeição e serviu um pedaço especial de carne para
Saul. A presença de Samuel era necessária para que a refeição prosseguisse.
Estas passagens em 1 Samuel indicam que o escritor de Samuel não tinha
problemas com lugares altos, contanto que fossem dedicados ao Senhor. Mc-
Carter argumenta em um círculo quando diz: “Esta passagem [1 Sm 9] com
a associação inflexível de Samuel com um lugar alto é de origem anterior ao
Deuteronômio e escapou da censura editorial”. 

Apesar do interesse na adoração no restante de 1 e 2 Samuel, não há outra
menção de lugares altos como centros de adoração até 1 Reis. Em Reis, a atitude
do historiador é claramente hostil com relação aos lugares altos. Por causa da
falta do Templo, ele reconhece a necessidade de o povo adorar nesses lugares
(e por inferência, Salomão também). O historiador estava escrevendo da pers-
pectiva posterior, quando a religião se tornara sincretista e os lugares altos eram
uma armadilha para o povo.

Havia lugares altos dedicados a falsos deuses (1 Rs 11.7) e outros que eram
dedicados possivelmente ao Senhor, mas que sem dúvida eram usados para o Se-
nhor e para Baal ou para outra deidade. O historiador condenou os lugares altos
de Jeroboão I, mesmo que tivessem certa conexão com o Senhor, e um profeta
veio de Judá especificamente para denunciar o altar de Betel (1 Rs 12-13).

Um lugar-comum ocorre com relação aos reis piedosos: Asa (1 Rs 15.14),
Josafá (22.44), Joás (2 Rs 12.4), Amazias (14.4), Azarias (1 Rs 15.4) e Jotão (2
Rs 15.30). Cada um destes reis é elogiado, mas alguma forma da frase “tão-
somente os altos se não tiraram” ocorre com cada um deles. Só com Ezequias
e Josias foi tomada ação mais drástica e revolucionária para remover os lugares
altos (2 Rs 18.4; 23.8).

A ARCA EM SAMUEL

A adoração era praticada nos lugares altos sob a orientação dos sacerdotes
levitas, mas a Arca também era especial como símbolo da presença de Deus.
Quando Davi levou a Arca para Jerusalém, a centralização da adoração come-
çou. Os lugares altos, lugares legítimos de adoração, continuaram ao longo da
história da monarquia, mas Jerusalém, a casa da Arca, cada vez mais se tornou
o centro de adoração.

O transporte da Arca para Jerusalém foi um evento de grande significação
teológica. Se Merrill estiver correto, uns 27 anos passaram entre a conquista de
Jerusalém e a transferência da Arca àquela cidade.  Davi quis fazer da cidade
dos jebuseus o centro do reino e também o centro da adoração ao Senhor. O
Senhor se encontrava com o povo em Gilgal, Siló, Mispa e Nobe. Quando Salo-
mão começou a reinar, ele foi para Gibeão oferecer sacrifícios (1 Rs 3.4), apesar da presença da Arca e pelo menos alguma forma do Tabernáculo em Jerusalém.

Depois de Salomão construir o Templo, Jerusalém se tornou o principal lugar
de reunião.
Na teologia de 1 e 2 Samuel, a Arca salienta-se grandemente. A Arca se
perde pelo mau uso da casa de Eli. A soberania do Senhor se manifesta no
impacto que a Arca causou nas cidades dos filisteus. A santidade do Senhor se
revela pelo modo em que os moradores de Bete-Semes trataram a Arca. Duran-
te décadas, a Arca ficou na casa de Abinadabe, em Quiriate-Jearim. Davi quis
colocá-la em Jerusalém para que a cidade se tornasse o centro de adoração ao
Senhor. Ao trazer a Arca à sua nova capital, Davi estava tentando unir as tribos
e o governo central mais firmemente. 

Primeiro, Davi a transportou em uma carroça como os filisteus tinham
feito. O método prescrito era transportá-la com varas aos ombros dos levitas
(Nm 4.1-16). Deus evidencia o desprazer com esta quebra de protocolo levita
ocasionando a morte de Uzá (2 Sm 6.1-8). A segunda tentativa de Davi foi
bem-sucedida,  e agindo na função real que lhe cabia ele ofereceu holocaustos
e ofertas pacíficas.

O ato de Davi transportar a Arca como símbolo da presença do Senhor é
colocado em contraste com o ato de a família de Eli perdê-la. A seção da Arca
(2 Sm 5-6) também conduz ao concerto davídico. Davi criou o cenário para a
mensagem do Senhor sobre a casa eterna de Davi quando transportou a Arca
para Jerusalém. Salomão concluiu o Templo, e com uma construção perma-
nente, o sacerdócio em Jerusalém sob a orientação de Zadoque assumiu maior
significação.

O LUGAR DO TEMPLO

Considerando que o Senhor é universal e onipresente, seria tolice presu-
mir que Ele pudesse ser confinado a um santuário local (1 Rs 8.27). Ao mesmo
tempo, o Senhor graciosamente concedeu colocar o seu nome no Templo. Le-
vando em conta a veracidade disso, o povo deveria ser capaz de orar em direção
ao Templo e esperar uma resposta do Deus que se identificava com o Templo.
Considerando que o verdadeiro Templo do Senhor é o céu, é de lá que Ele ouvi-
rá as orações voltadas em direção ao Templo na terra (1 Rs 8.30). Infelizmente,
este conceito de um Deus universal, que se manifesta em um santuário local,
corrompeu-se. O próprio santuário assumiu proporções maiores que a realida-
de. O povo se convenceu de que enquanto o santuário estivesse em pé, Deus não
julgaria a cidade (Jr 7).

Não admira que o Templo, durante o exílio, se tornasse de memória e
prospecto significativo. Daniel orava três vezes por dia com as janelas abertas
em direção de Jerusalém (Dn 6.10). A cidade lhe atraía a atenção, porque era
o lugar onde o Templo estivera. O decreto de Ciro para os judeus em 538 a.C.
dizia respeito à reconstrução do Templo em Jerusalém (Ed 1.2-4). O primeiro
ato oficial dos exilados que voltaram em 536 a.C. foi pôr a fundação do Templo
(3.9,10).

O Templo tinha de ser um lugar onde a justiça era feita. As pessoas que se
sentissem lesadas tinham de poder ir a este lugar, onde o Senhor pôs o nome,
para clamar por justiça e esperar defesa (1 Rs 8.21). Esta declaração reflete a
forte ênfase dada na justiça na teologia do Antigo Testamento. Considerando
que Deus é justo, Ele espera que os seus representantes também sejam justos. O
Templo tinha de ser um lugar onde se confirmasse isto.

Os israelitas tinham de interpretar que a derrota diante dos inimigos era
sinal do desgosto do Senhor com o seu povo. Quando isto acontecesse, eles
tinham de ir ao Templo e confessar os pecados. Salomão orou para que o Se-
nhor os perdoasse e os tornasse a levar “à terra que tens dado a seus pais” (1
Rs 8.34).

Da mesma maneira, eles tinham de interpretar a seca como sinal do julga-
mento do Senhor sobre o pecado. Tinham de orar em direção ao Templo e con-
fessar os pecados. Salomão rogou ao Senhor que, quando respondesse a oração,
Ele ensinasse ao povo o jeito certo de viver (1 Rs 8.36). O mesmo princípio se
aplicava a outras catástrofes, como fome, peste, ferrugem, mofo, gafanhoto ou
pulgão, ou quando um inimigo sitiasse a eles ou as suas cidades (w. 37-40). A
resposta favorável de Deus a estas orações era fazer com que o povo temesse ao
Senhor (v. 40). 

A universalidade do Senhor é indicada pela referência ao estrangeiro que
se identificasse com o povo de Deus (1 Rs 8.41-43). Os povos ouviriam falar
do grande nome do Senhor e viriam de muitas regiões da terra. Responder à
oração do estrangeiro seria uma justificação do seu nome entre os povos da
terra. A mesma coisa vemos na teologia de Isaías 2.2-5, parte da qual diz:
“Virão muitos povos e dirão: Vinde, subamos ao monte do SENHOR, à casa
do Deus de Jacó, para que nos ensine o que concerne aos seus caminhos,
e andemos nas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém, a
palavra do SENHOR”.

O assunto do exílio, primeiramente promulgada sistematicamente em
Deuteronômio, também tratado antecipadamente aqui (1 Rs 8.46-51). O
pecado resultará em cativeiro. Salomão esperava que no exílio houvesse arre-
pendimento genuíno. Então orariam em direção ao Templo pedindo perdão.
Salomão orou que o Senhor os perdoasse e fizesse com que os conquistadores lhes mostrassem misericórdia. Lógico que Daniel tinha em mente esta oração
de Salomão, quando orou ao Senhor buscando o perdão para o povo (Dn 9).
Deus realmente trabalhou no coração de Ciro que, por sua vez, permitiu que os
judeus voltassem para Jerusalém e reconstruíssem o Templo.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.