18 de dezembro de 2013

Homer Heater, Jr - Uma teologia de Samuel e Reis: O papel de Samuel como Sacerdote em contraste com a casa de Eli

O manto de Samuel paira sobre todo o livro de 1 Samuel desde a sua juven-
tude nazireu até a sua reconvocação no capítulo 28 para dar a Saul a rejeição final.

Um dos propósitos de 1 Samuel é mostrar a pessoa ideal que Deus estava procu-
rando para conduzir o seu povo. No sacerdócio, Ele desejava pessoas piedosas que
o venerassem e respeitassem o povo. Na família de Eli, nenhuma destas caracterís-
ticas estava presente. Deus levantou um sacerdote fiel da piedosa família levita de
Elcana e de sua esposa especialmente piedosa.  Esta história bonita de uma mãe
fiel em Israel que Deus honrou dando-lhe um filho é o ápice no argumento do
livro. O Senhor procura homens e mulheres crentes e piedosos, a quem Ele possa

colocar sobre o povo.  O juiz Sansão era nazireu, mas a sua vida pessoal continua
sendo um enigma. Samuel também era juiz nazireu,  mas a sua vida foi, em todos
os sentidos, exemplar conforme ele publicamente declarou em 1 Samuel 12.

Samuel atuou em três ofícios. Era profeta acima de tudo; o homem por
quem a palavra de Deus veio. Nessa função, deu a sentença para a casa de Eli (1
Sm 3.1-18), ungiu Saul e Davi (10.1; 16.13), reprovou Saul por desobediência
(13.13; 15.22,23) e encorajou Davi (19.18). O ofício profético foi exercido até
mesmo depois da morte, quando Saul encontrou-se com ele através da bruxa de
En-Dor (1 Sm 28). Na função de profeta, também estava envolvido ao escrever
a história dos atos de Deus em Israel (1 Cr 29.29).

Samuel também era sacerdote. Quando era menino, ele usava um éfode
feito de linho, o sinal de sacerdócio.  Liderou na adoração do Senhor no lugar
alto em uma das cidades benjamitas (1 Sm 9.11-24). Samuel praticou o papel
sacerdotal de ensinar, quando discursou para as pessoas em 1 Samuel 10.17-27
e 12.1-25• O cronista declarou em nota curta que Samuel participou no proces-
so de estabelecimento original de porteiros (1 Cr 9.22).

Samuel se tornou, no sentido exato do termo, o último dos juizes de Israel.
Como os juizes de outrora, ele conduziu o povo na batalha contra os filisteus.
Primeiro Samuel 7 traça um contraste entre o modo que os filhos de Eli foram
lutar contra os filisteus e o modo que Samuel conduziu o povo. Não há indi-
cação em 1 Samuel 4 de uma preparação espiritual. Eles tão-somente entraram
em batalha e perderam. Então levaram a Arca na batalha como um tipo de ta-
lismã, e em resultado disso, a batalha e a Arca foram perdidas. Em 1 Samuel 7,
Samuel, o porta-voz de Deus, preparou o povo para entrar em batalha contra os
filisteus. Primeiro, os convenceu a livrarem-se dos ídolos (1 Sm 7.2-4). Depois,
levou-os à confissão de pecado (w. 5-7). Por ultimo, ofereceu sacrifícios, e o
Senhor derrotou os filisteus. Depois da vitória, Samuel erigiu uma pedra come-
morativa para que o povo não esquecesse de que o Senhor (quando devidamente
obedecido) fornece ajuda. A “pedra de ajuda” (Ebenézer) foi erigida no mesmo
local em que os israelitas perderam a guerra com os filisteus sob a orientação da
família de Eli (1 Sm 4.1).  O texto não declara que Samuel esteve diretamente
envolvido nas atividades militares, mas que ele dominou a preparação para a
batalha. Enquanto Samuel estava oferecendo o holocausto, Deus sobrenatural-
mente derrotou os filisteus. 

O PAPEL DOS ÚLTIMOS SACERDOTES EM 1 E 2 SAMUEL

O sacerdócio silonita é novamente representado quando Saul iniciou a
campanha militar contra os filisteus. Ele consultou ao Senhor através do sacer-
dote sobre a questão de ir ou não à guerra, mas o Senhor não lhe respondeu.
Temos em 1 Samuel 21 uma página negra na história de Israel, quando
Davi recebeu a ajuda inocente de Aimeleque, o sumo sacerdote em Nobe. Nobe,
no território de Benjamim, se chama “cidade dos sacerdotes” (1 Sm 22.19,
NTLH). Ao que parece, o Tabernáculo foi reconstruído depois da destruição de
Siló, e a família de Eli continuou no ofício.  Enraivecido, Saul matou 85 sacer-
dotes e os habitantes da cidade (22.18,19). Abiatar escapou e serviu a Davi. Ele
foi o último da família de Eli a servir como sacerdote.

Zadoque serviu como sumo sacerdote junto com Abiatar sob a aquiescên-
cia de Davi. Este arranjo é muito incomum. Depois da morte de Davi, Abiatar,
que apoiava Adonias, foi despedido, e Zadoque serviu só.  Zadoque é o ante-passado a quem os sacerdotes que servem no templo escatológico de Ezequiel
seguem a linhagem.

O PAPEL DOS SACERDOTES EM 1 E 2 REIS

O primeiro livro de Reis 8 menciona o ministério dos sacerdotes junto
com a dedicação do Templo, mas quase que de passagem. O registro declara que
eles levaram a Arca e outros equipamentos sacerdotais para o novo Templo. Em
1 Reis, Salomão é o centro das atenções. A oração de dedicação é longa, e ele e
todo o Israel são os ofertantes dos sacrifícios (1 Rs 8.62).

Quando Jeroboão I se desligou de Judá para formar um reino independen-
te no norte, o principal problema era a atração que os israelitas do norte tinham
em centrar a adorarão do Senhor em Jerusalém. Por isso, o mau rei montou um
sistema religioso rival que utilizava antigos centros com significação religiosa.
O filho de Salomão, Roboão, foi forçado a ir a Siquém para ser interrogado
quanto a tornar-se rei. Siquém tinha significação religiosa, voltando aos patriar-
cas. Jeroboão reconstruiu Siquém como centro de adoração (1 Rs 12.25) como
também Peniel, onde Jacó lutara com o anjo. Também adotou o antigo culto do
bezerro de ouro, colocando um bezerro em Betel (outro antigo centro religioso) e
outro em Dã, onde os danitas tinham montado um sistema religioso próprio nos
dias dos juízes com um descendente de Moisés como sacerdote (Jz 18.30,31).
Os sacerdotes escolhidos para servir nestes centros não eram da tribo de
Levi (1 Rs 12.31).  A idolatria de Jeroboão levou o historiador a desenvolver
um tema sobre a pecaminosidade: “E isso foi causa de pecado à casa de Jero-
boão, para destruí-la e extingui-la da terra” (13.34).

Vemos a atitude de Deus para com o sistema religioso sacerdotal de Jero-
boão na declaração profética dita pelo profeta de Judá que pronunciou julga-
mento sobre o altar e predisse a elevação de Josias, que despedaçaria o altar (1
Rs 13.1-10; 2 Rs 23.15,16). O sacerdócio foi reconfirmado, por assim dizer,
depois de 722 a.C., quando os assírios devolveram um sacerdote para ajudar a
nova população mista a lidar com os desastres locais (1 Rs 17.24-33).

A palavra “sacerdote” só volta a ocorrer em 2 Reis 10.11,19, quando Jeú matou os sacerdotes de Acabe, e em 2 Reis 11, quando Joiada, o mentor de Joás, assumiu o centro das atenções. Os profetas dominam a seção de 1 Reis 13 a 2 Reis 10.

Joiada deu um golpe de estado e destronou a usurpadora Atalia (2 Rs 11). A sua atividade foi muito semelhante a de um profeta. Embora não haja menção de unção, o ato deve ter acompanhado a colocação da coroa em Joás (v. 12). Joiada também lhe deu o “testemunho” {’edüt). Certos estudiosos entendem que esta palavra significa “jóias”, mas outros a traduzem por “cópia da aliança” (cf. NVI), derivando-a da raiz 
que significa “testemunha” ou “testemunho”.  Deuteronômio 17.18-20 indica que o
rei “escreverá para si um traslado desta lei num livro, do que está diante dos sacer-
dotes levitas”. Será que era uma forma modificada desse ritual?

Joiada se tornou, na prática, rei durante a minoridade de Joás e o levou a
seguir a lei do Senhor. E indubitável que ele foi influente no conserto e restau-
ração do Templo empreendidos pelo rei. Esta função de aconselhamento deu a
Joiada influência considerável nos assuntos nacionais.

O apóstata rei Acaz, talvez como parte da lealdade a Tiglate-Pileser, en-
viou o modelo de um altar em Damasco para Jerusalém.  Sob as ordens do rei,
o sacerdote Urias fez um altar igual e o colocou no Lugar Santo, mudando parte
do ritual para acomodá-lo (2 Rs 16.10-16).

O sumo sacerdote Hilquias foi uma pessoa importante no movimento de
reforma do jovem rei Josias (2 Rs 22-23). Há muitos paralelos entre Joiada/Joás e
Hilquias/Josias. Ambos os reis eram bastante jovens quando começaram a reinar,
ambos se envolveram na restauração de um Templo descuidado, ambos entraram
em concerto com o Senhor (2 Rs 11.17, 23.2,3); e em ambos os casos, depois do
concerto, houve uma purgação dos sacerdotes pagãos (11.18; 23.4,5). O propósi-
to do historiador em 2 Reis 12 era realçar o ministério de Joiada na entronização
de Joás, mas em 2 Reis 22 e 23 estão caracterizados o lugar central da lei e a obe-
diência de Josias. Por isso, Hilquias não é enfatizado como Joiada.

Por essa época havia muitas distinções importantes no sacerdócio. O
espaço não nos permite desenvolver as ideias, mas os sacerdotes pagãos de 2
Reis 23.5 (temarim) eram diferentes dos sacerdotes do Senhor em 2 Reis 23.8
(kôhanini). Os últimos foram impedidos de exercer o serviço sacerdotal, porque
serviam em santuários rurais e não porque não eram sacerdotes legítimos.

A última palavra sobre sacerdotes em 2 Reis se refere à deportação para
a Babilônia do sumo sacerdote Seraías e o segundo sacerdote Sofonias (2 Rs
25.18,19).

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.