31 de dezembro de 2013

Gleason L. Archer - Introdução ao livro de Isaías (I)

O nome hebraico deste profeta é Yesha’-Yahu, que signifi-
ca, “O Senhor é salvação”. Apropriadamente, é este o tema da
mensagem de Isaías, que a salvação é recebida somente pela graça,
pelo poder de Deus, o Redentor, e não pela força do homem nem
pelas boas obras da carne. O Deus santo não permitirá a profana-
ção entre Seu povo da Aliança, e, portanto, tratará com ele para
castigá-lo e purificá-lo para que seja preparado a participar do
Seu programa de redenção. Isaías expõe a doutrina de Cristo
com tantos detalhes que, com razão, tem sido chamado “O Profeta
Evangélico”. Acham-se introspecções cristológicas mais profundas
na sua obra do que em qualquer outra parte do Antigo Testamento.

Esboço de Isaías


I. O Volume de Repreensão e de Promessas, 1:1 — 6:13.
A. Primeiro Sermão: a rebeldia se confronta com a conde-
nação e a graça, 1:1-31.
B. Segundo Sermão: castigo no presente, glória no futuro,
2:1 —4:6.
C. Terceiro Sermão: julgamento e exílio para a nação
obstinada, 5:1-30.
D. Quarto Sermão: o Profeta é purificado e comissionado
por Deus, 6:1-13.
II. O Volume de Emanuel, 7:1 — 12:6.
A. Primeiro Sermão: a sabedoria do mundo rejeitará Ema-
nuel, 7:1-25.
B. Segundo Sermão: rápida libertação prenuncia a che-
gada do libertador vindouro, 8:1 — 9:7. 
C. Terceiro Sermão: inexorável sentença de exílio para a
orgulhosa Samaria, 9:8 — 10:4.
D. Quarto Sermão: vencendo o império falso; o glorio-
so império do porvir, 10:5 — 12:6.
III. O Julgamento Divino: Fardos para as Nações, 13:1 — 23:18.
A. Fardo de Babilônia, 13:1 — 14:27.
B. Filístia, 14:28-32.
C. Moabe, 15:1 — 16:14.
D. Damasco e Samaria, 17:1-14.
E. Etiópia, 18:1-7.
F. Egito, 19:1 — 20:6.
G. Babilônia, segundo fardo, 21:1-10.
H. Edom, 21:11,' 12.
I. Arábia, 21:13-17.
J . Jerusalém, 22:1-25.
K. Tiro, 23:1-18.
Primeiro Volume de Julgamento e Promessa, em geral,
24:1 — 27:13.
A. Primeiro Sermão: julgamento universal do pecado uni-
versal, 24:1-23.
B. Segundo Sermão: louvor ao Senhor como Libertador,
Vencedor e Consolador, 25:1-12.
C. Terceiro Sermão: cântico de júbilo pela consolação de
Judá, 26:1-21.
D. Quarto Sermão: punição aos opressores e preservação
do povo de Deus, 27:1-13.
Volume de Ais para os Infiéis de Israel, 28:1 — 33:24.
A. Primeiro Sermão: Deus trata com beberrões e zomba-
dores, entre Seu povo, 28:1-29.
B. Segundo Sermão: julgamento das almas cegas que
procuram iludir a Deus, 29:1-24.
C. Terceiro Sermão: confiança no homem ou confiança
em Deus, 30:1-33.
D. Quarto Sermão: libertação através da intervenção gra-
ciosa de Deus, 31:1 — 32:20.
E. Quinto Sermão: punição dos enganadores traiçoeiros,
e a vitória de Cristo, 3:1-24.

I. Segundo Volume de Julgamento e Promessa, em geral,
34:1 — 35:10. 
A. Primeiro Sermão: destruição da potência mundial
pagã, 34:1-17.
B. Segundo Sermão: a bem-aventurança final dos redi-
midos de Deus, 35:1-10.
O Volume de Ezequias, 36:1 — 39:8.
A. Evitada a destruição de Judá, 36:1 — 37:38.
B. Evitada a destruição do rei de Judá, 38:1-22.
C. Julgamento do orgulho do rei nas suas riquezas; a
Babilônia o leva cativo, 39:1-8.
O Volume da Consolação, 40:1 — 66:24.
A. O propósito da paz, 40:1 — 48:22.
1. A majestade do Senhor, o Consolador, 40:1-31.
2. O desafio do Deus da providência aos infiéis,
41:1-29.
3. O Servo do Senhor, individual e nacional, 42:1-25.
4. Redenção pela graça, 43:1 — 44:5.
(Libertação através de Ciro).
5. ídolos mortos ou o Deus vivo, 44:6-23.
6. Deus como Soberano converte e utiliza os pagãos,
44:24 — 45:25.
7. Lições ensinadas pela queda da Babilônia e pela
preservação de Israel, 46:1 — 47:15.
8. Julgamento de Israel infiel e hipócrita, 48:1-22.
B. O Príncipe da Paz, 49:1 — 57:21.
1. O Messias trará a restauração a Israel e luz aos
gentios, 49:1-26.
2. O pecado de Israel contrastado com a obediência
do Servo, 50:1-11.
3. Exortação a confiar somente em Deus, sem temer
aos homens, 51:1-16.
4. Israel é chamado a se despertar e voltar-se a favor
de Deus, 51:17 — 52:12.
5. O Servo divino triunfará através do sofrimento vi-
cário, 52:13 — 53:12.
6. Bênçãos conseqüentes para Israel e para a greja,
54:1-17. 
7. Graça para todos os pecadores que confiam em
Cristo, 55:1-13.
8. Inclusão dos gentios na bem-aventurança de Is-
rael, 56:1-8.
9. Condenação dos soberanos ímpios de Israel, 56:9
57:21.
C. O programa da paz, 58:1 — 66:24.
1. Contraste entre o culto verdadeiro e o falso,
58:1-14.
2. A confissão da depravação de Israel trará liber-
tação através da intervenção divina, 59:1-21.
3. A gloriosa prosperidade e paz dos redimidos,
60:1-22.
4. O reino virá através de Cristo, cheio do Espírito,
61:1-11.
5. Sião será restaurada e glorificada, 62:1 — 63:6.
6. As antigas misericórdias de Deus farão Israel im-
plorar a libertação, 63:7 — 64:12.
7. A misericórdia de Deus pertence ao Israel espiri-
tual, 65:1-25.
8. A sinceridade de coração ficará no lugar da ex-
terioridade do culto, 66:1-24.

É importante notar, no que diz respeito à seção final, O Vo-
lume da Consolação, que os vinte e sete capítulos, 40 — 66, de-
monstram uma simetria notável nas três subdivisões. O final da
subdivisão A, (O propósito da paz), é virtualmente idêntico ao
final da subdivisão B, (O Príncipe da Paz); ambos terminam com
a fórmula, “Para os perversos... não há paz, diz o SENHOR”.

Cada uma das três subdivisões demonstra de maneira sistemática
alguma área de ênfase doutrinária: A. Teologia; B. Soteriologia; C. Escatologia. Esta estrutura arquitetônica indica um autor úni-
co, e não uma coletânea de fontes heterogêneas. O que se diz acerca
do Volume da Consolação pode ser aplicado aos primeiros 39 capí-
tulos também, pois mesmo o simples esboço que foi dado acima
basta para indicar um uso deliberado de equilíbrio ou de paralelismo
de estrutura.

A Autoria de Isaías

O profeta Isaías, filho de Amós (,ãmõs — “forte”, “corajoso”),
era, segundo parece, membro duma família de distinção e influência. Não somente se registra o nome do seu pai, mas parece ter
gozado de familiaridade na corte real mesmo durante o reinado
de Acaz. Deve ter sido um estudioso de assuntos internacionais,
bem treinado, que gastava a maior parte do seu tempo na cidade
de Jerusalém, onde ficava em contato com as várias correntes de
assuntos nacionais e internacionais. Dirigido por Deus a se opor
com vigor a quaisquer alianças embaraçantes com potências es-
trangeiras (seja com a Assíria contra Samaria e Damasco, seja
com o Egito contra a Assíria), sua causa era destinada ao fracasso,
sendo que tanto o governo como o povo preferiam confiar na força
carnal do que nas promessas de Deus.

Até a morte de Ezequias (em 698 ou 696), Isaías recebia gran-
de medida de respeito, apesar da impopularidade dos seus pontos
de vista políticos, e, durante o período de reforma religiosa levada
adiante por Ezequias, sua influência na religião era significante.

Porém, conforme Deus o advertira na visão no templo (Is 6:9,10),
a nação, de modo geral, não quis escutar nem sua mensagem espi-
ritual. Durante o reinado de Manassés, o filho degenerado de Eze-
quias, subiu uma forte maré reacionária contra o severo culto ao
Senhor do reinado anterior. Isaías viveu até ver desfeita toda a sua
obra, no que diz respeito à política contemporânea. Quanto aos
assuntos espirituais, seus compatriotas caíram numa condição de
depravação mais desesperadora do que durante o reinado de Acaz.
Reconhecendo que era inevitável o julgamento de Deus contra a
nação, o interesse de Isaías durante o reinado de Manassés veio
a se focalizar mais e mais na tomada de Jerusalém, no cativeiro
na Babilônia, e na restauração que se seguiria. Uma antiga tra-
dição narra que foi martirizado durante alguma época do reinado
de Manassés, possivelmente ao ser serrado em duas partes no meio
dum tronco oco de árvore (cf. Hb 11:37׳). Visto que registra a
morte de Senaqueribe em Is 37:37, 38, parece razoável inferir que
Isaías vivesse até depois da morte de Senaqueribe em 681 a.C.
Teorias Críticas quanto à Composição de Isaías
Com o surgimento do deísmo no fim do século dezoito, era
natural que homens de convicções anti-sobrenaturalísticas levan-
tassem objeções contra as passagens de Isaías que demonstram um
conhecimento de eventos futuros. Se o método era tratar os escritos
bíblicos como sendo de origem meramente humana, seria uma ne-
cessidade inevitável dar a explicação que estas previsões, que pa-
reciam ser tão exatas, foram escritas depois do seu cumprimento, ou pelo menos perto do acontecimento que cumpriria a profecia.

Podemos distinguir quatro etapas na crítica ao Livro de Isaías.

1. Johann C. Doederlein (1745-1792), professor de teologia
em Jena, foi o primeiro estudioso a publicar (em 1789) um argu-
mento sistemático em prol duma data do século seis a.C. da com-
posição de Isaías 40 — 66. Segundo seu raciocínio, o Isaías do
século oito a.C. não poderia ter previsto a queda de Jerusalém
(em 587) com o Cativeiro de 70 anos, e muito menos ter escrito
as palavras de consolação dirigidas a Judá no Exílio, que apare-
cem do capítulo 40 em diante. Além disto, seria obviamente im-
possível, do ponto de vista racional, para uma pessoa em 700 a.C.
prever o surgimento de Ciro, o Grande, que tomou Babilônia em
539 e deu licença aos exilados judeus para voltarem à sua pátria.
Mas, em dois textos, Isaías 44:28 e 45:1, não somente foi profetizada
a obra de Ciro, mas seu nome foi literalmente citado. Obviamente,
portanto, o autor destas profecias deve ter sido algum judeu des-
conhecido que vivia na Babilônia, depois de Ciro ter surgido pela
primeira vez como figura de destaque internacional (cerca de 550
a.C.) e a queda da Babilônia perante seu império que se expandia.
Este suposto autor, vivendo em Babilônia cerca de 540 a.C., veio
a ser chamado “Deutero-Isaías”.

Estes argumentos eram considerados tão persuasivos que outros
estudiosos do Antigo Testamento como o Professor Eichhom con-
venceram-se e concordaram. Em 1819, Heinrich F. W. Gesenius
(1786-1842) publicou um comentário, Jesaja, Zweiter Theil —
“Isaías, Parte Segunda”. Professor de teologia em Halle, e emi-
nente lexicólogo de convicções racionalistas, desenvolveu um ar-
gumento muito capaz em prol da unidade de autoria dos últimos
27 capítulos de Isaías, refutando os ataques dos que já tinham
procurado separar até Deutero-Isaías em várias fontes diferentes,
argumentando que todos os temas centrais destes capítulos foram
tratados dum ponto de vista único, empregando linguagem que
demonstrava afinidades notáveis de vocabulário e estilo desde o
capítulo 40 até o capítulo 66. Insistiu que todos eles fossem pro-
venientes da pena dum único autor que viveu cerca de 540 a.C.

2. Visto que os estudiosos conservadores tinham levantado
objeções à data exílica atribuída a Isaías II, ostentando a prova
que mesmo em Isaías I achavam-se evidências impressionantes da
importância futura da Babilónia na história de Israel, tornou-se
necessário aos críticos reconsiderar os primeiros 39 capítulos de
Isaías. Emst F. K. Rosenmueller (1768-1835), professor de Árabe em 
Leipzig, tomou o próximo passo lógico em elaborar as implicações
lógicas da posição de Doederlein. Se um autor do oitavo século
não poderia ter escrito as passagens em 40 — 66 que demonstram
um conhecimento de antemão da importância da Babilônia, então
até aquelas seções consideráveis de Isaías I (tais como capítulos
13 e 14) que demonstram conhecimentos semelhantes, devem tam-
bém ser retiradas do Isaías histórico, e atribuídas ao profeta des-
conhecido da época do Exílio. A remoção de tais seções babilónicas
logicamente levou-se a questionar a autoria de Isaías de outras pas-
sagens também, inclusive aquelas nas quais a predição não fosse
um fator. No decurso do tempo, as porções que se consideravam
como sendo da autoria do Isaías do oitavo século, ficaram reduzidas
a um total de poucas centenas de versículos.1

3. No decorrer deste debate tornou-se sempre mais evidente
que numerosas passagens do assim-chamado Deutero-Isaías difi-
cilmente se reconciliariam com uma teoria de composição na Ba-
bilônia. As referências à geografia, à flora e à fauna seriam mais
apropriadas a um autor vivendo na Síria ou na Palestina. Argu-
mentando a partir desta evidência, Professor Bernard Duhm (1847-
1928), trouxe a lume uma teoria de três Isaías, nenhum dos quais
vivia na Babilônia. Segundo sua análise, os capítulos 40 — 55
(Deutero-Isaías) foram escritos cerca de 540 a.C., nalguma parte
da região do Líbano, sem deixar claro se foi na Fenícia ou na Síria.
Os capítulos 56-66 (Trito-Isaías) foram compostos em Jerusalém
no período de Esdras, cerca de 450 a.C. Duhm passou a demons-
trar, porém, que em todos estes três Isaías, havia ainda interpola-
ções de períodos posteriores da história de Judá, até o primeiro
século a.C., sendo então feita a redação final. Foi a esta escola
de crítica que George Adam Smith aderiu, na maior parte, no seu
comentário homilético de Isaías, na coletânea The Expositor’s Bible.
Seria desnecessário dizer que, com a descoberta dum manuscrito
de Isaías, bem completo, do segundo século a.C., a teoria de Duhm,
das interpolações do primeiro século, torna-se dificílima de sus-
tentar.

Deve ser acrescentado que esta crítica divisora não ficou sem
resposta durante o século dezenove. Entre os estudiosos mais no-
táveis que sustentavam que Isaías escreveu todos os 66 capítulos
há os seguintes: a) Carl Paul Caspari (1814 — 1892), um converti-
do do judaísmo que se tornou professor da universidade de Cris- 
tiana na Noruega. Era aluno de Ernst Wilhelm Hengstenberg. B) Moritz Drechsler, também aluno de Hengstenberg, que publicou
um comentário de Isaías 1-27, mas que morreu antes de comple-
tar a obra restante, c) Heinrich A. Hahn (1821-1861), que publicou
e suplementou a obra de Drechsler até Isaías 39. d) Franz Delitzsch
(1813-1899), que com grande capacidade sustentava a genuinidade
das profecias em todas as edições do seu famoso comentário de
Isaías, até que na última, finalmente deu vazão à possibilidade
dum Deutero-Isaías na época do Exílio). e) Rudolph E. Stier (1800-
1862) foi outro comentador da posição conservadora, com grande
capacidade. Na Inglaterra, o mesmo ponto de vista foi sustentado
por Ebenezer Henderson, que ensinava no Colégio para o Minis-
tério entre 1830 e 1850. Nos Estados Unidos, Joseph Addison Ale-
xander, do Seminário dé Princeton, publicou um comentário de
grande gabarito em dois volumes, no qual refutou totalmente as
teorias divisoras da teologia liberal alemã.

4. No século vinte, a tendência dos teólogos liberais tem sido
avançar a data de porções “não-isaiânicas” de Isaías ao invés de
multiplicar o número de Isaías diferentes. Assim, Charles Cutler
Torrey, de Yale, argumentou em prol dum único autor de Isaías
34-66 (excetuando 36-39), escritor este que vivia na Palestina, pro-
vavelmente em Jerusalém, perto do fim do 5.° século. Este autor, se-
gundo Torrey, não escreveu para os exilados, falando apenas para
pessoas da sua própria terra da Palestina. As referências a Ciro e
à Babilônia seriam meras interpolações que ocorreram em apenas
cinco passagens, e que devem ser ignoradas.

Alguns dos estudiosos mais recentes, tais como W. H. Brownlee,
estão chegando a um ponto de vista que considera a totalidade do
corpo isaiânico como tendo evidências tão fortes de unidade e de
arranjo sistemático, que sugere que o todo fosse organizado por
algum aderente duma assim-chamada “escola isaiânica”. Segundo
este ponto de vista, um círculo de discípulos conservou corn cuidado
uma coletânea dos pronunciamentos do profeta do oitavo século,
fazendo acréscimos, por um processo paulatino, de geração em
geração, até que finalmente algum habilidoso expoente desta es-
cola, vivendo possivelmente no terceiro século, trabalhou a coletâ-
nea inteira de profecias até produzir uma obra prima de literatura
bem organizada.

Os Argumentos Críticos em Prol duma Divisão de Fontes
Em termos gerais, os motivos levantados pela recusa da autoria
Isaiânica dos capítulos 40 — 66 podem ser classificados em três 
tipos: Diferenças de Temas e de Assuntos, Diferenças de linguagem
e de Estilo, e Diferenças em Idéias Teológicas. Cada um destes
critérios será agora analisado, sendo testados para averiguar se
têm base sólida e se são sustentáveis.

A. ALEGADAS DIFERENÇAS DE TEMAS E DE ASSUNTOS

Os críticos divisionistas argumentam que em Isaías I (1 — 39)

o centro da atenção do autor é ocupado por condições contemporâ-
neas. Em Isaías II (40 — 66) o centro de interesse muda para o
Exílio na Babilônia e a vislumbrada possibilidade duma volta à
pátria original. Argumenta-se que tal ponto de vista futurista não
poderia ter sido sistematicamente mantido através dum número
tão grande de capítulos. Isto tem persuadido até os estudiosos mo-
derados que não se dispuseram a rejeitar totalmente a possibili-
dade de predição genuína. Em termos gerais, porém, os arquitetos
da teoria dos dois Isaías simplesmente pressupuseram, em bases
racionalistas, a impossibilidade da revelação divina através de
profecias genuinamente do futuro. Deste ponto de vista filosófico
a priori, começaram a obra de estudar os dados do texto, propria-
mente dito. Conforme J. A. Alexander indicou no seu Comentário
(vol. I, p. 25), a suposição básica de todos os críticos deste tipo,
por maiores diferenças que existam entre eles, é que simplesmente
inexiste a visão profética distinta do futuro distante. Continua,
dizendo:

“Aquele que rejeita uma certa passagem de Isaías por conter
predições definidas dum futuro por demais remoto da época na
qual vivia para ser o objetivo de previsão humana normal, natu-
ralmente vai procurar justificar esta condenação, através de provas
específicas tiradas da dicção, do estilo ou da linguagem idiomática
da passagem, das suas alusões históricas ou arqueológicas, seu ca-
ráter retórico, seu tom moral, seu espírito religioso. Ao descobrir
e apresentar tais provas, a pressuposição anterior, que lutava por
sustentar não poderia deixar de ter uma influência torcedora das
evidências”.

Este comentário contém uma introspecção psicológica válida
que deve ser levada em conta em qualquer análise da estrutura do
assalto da alta crítica à legitimidade de Isaías. Se se nega a pos-
sibilidade de existir o cumprimento da profecia, torna-se lógica a
necessidade de explicar todos os aparentes cumprimentos de profe- 
cia como sendo meramente vaticinia ex eventu, profecias depois
do acontecimento. O problema do anti-sobrenaturalista se toma
especialmente agudo tendo em vista o caso da referência nominal
ao rei Ciro (44:28; 45:1). Pode ser uma suposição plausível que
algum analista político capacitado, vivendo em 540, pudesse ter
predito com exatidão o sucesso final do rei jovem e capaz que, já
em 550 a.C., tinha galgado renome na Média. Mas seria coisa bem
diferente um autor que vivia em 700 a.C. prever acontecimentos
150 anos antes de os mesmos se verificarem.

Geralmente, neste assunto, insiste-se que as Escrituras rara-
mente mencionam o nome duma figura histórica profetizada. Mas
deve ser mencionado que, quando for apropriado, a Bíblia não tem
hesitado em especificar nomes de pessoas e de lugares, nas profe-
cias do futuro. Por exemplo, o nome do Rei Josias foi predito por
um profeta de Judá já na época de Jeroboão I (931-910), segundo
1 Reis 13:2, três séculos inteiros antes do aparecimento deste rei em
Betei, para destruir o bezerro de ouro e o santuário idólatra que Je-
roboão erigira. Isto, naturalmente, pode ser atribuído a uma inter-
polação posterior em I Reis; mas há outras ocasiões que não podem
ser explicadas de maneira tão fácil. Mencicna-se Belém como sendo
o lugar de nascimento do Messias, em Miquéias 5:2, sete séculos
antes do nascimento do Senhor Jesus. Este fato foi bem conhecido
dos escribas judeus da época de Herodes o Grande.

É importante observar que a situação histórica que confronta-
va Isaías em 690 a.C. deu amplos sinais de ser tão inusitada como
era a predição sobre Ciro, que até lhe citou o nome, 150 anos antes
da queda de Babilônia. Judá tinha caído a um nível tão baixo na
religião e na moral que a própria honra de Deus exigia uma des-
truição total da nação e uma remoção total do povo para o exílio
(assim como tinha sido profetizado como advertência em Lv 26
e Dt 28). Se Deus tinha que vindicar Sua santa Lei e Suas próprias
promessas de castigo disciplinar, não haveria outra alternativa
senão devastação e cativeiro. Mas, uma vez que um povo tinha
sido levado ao exílio numa terra distante, não haveria virtualmente
nenhuma esperança de um dia voltarem ao seu torrão natal. Tal
coisa nunca acontecera através de toda a história, e, humanamente
falando, não haveria qualquer esperança que os dispersos de Judá
voltariam à Terra da Promessa numa geração futura. Era, por-
tanto, apropriado que Deus fornecesse este sinal muito definido e
exato, ao qual os fiéis sinceros pudessem se apegar como sendo
uma indicação de que, futuramente, seriam libertados e restaura- 
dos à Palestina. Este sinal divino era visto na especificação do
próprio nome do libertador futuro.

Tentativas têm sido feitas por C. C. Torrey e outros de re-
mover as duas referências a Ciro, classificando-as de interpolações
que não pertenciam ao texto. Mas a evidência do contexto não
permite um corte dessa natureza. O. T. Allis no seu livro The
Unity of Isaiah — “A Unidade de Isaías” (p. 79) indica a estru-
tura de clímax e paralelismo de 44:26-28, demonstrando que seria to-
talmente destruída ou fatalmente estragada se o nome Kõrêsh fosse
removido. Nessa passagem a maior ênfase é dada à capacidade de
Deus de prever o futuro, e de cumprir aquilo que predisse. O nome
é então introduzido como sendo uma confirmação objetiva da auto-
ridade divina que havia na totalidade desta profecia.

Allis indica que as referências a Ciro que começam em 41:2-5
chegam ao seu auge em 44:28, e então vão diminuindo até a refe-
rência final (na qual o libertador persa é mencionado alusivamente,
e não nominalmente) em 48:14. Contando todas as alusões, há
referências repetidas a Ciro no decurso de todos estes oito capítulos;
há uma descrição vívida da sua pessoa e obra, e suas características
se descrevem como tendo dois aspectos. Dum lado, é representado
como sendo o “pastor ungido” de Deus, e do outro lado é descrito
como sendo um pagão estrangeiro dum país distante (46:11) que
ainda não conheceu o Senhor (45:5). É desnecessário dizer que,
se Ciro já fosse uma figura famosa tendo já feito sua reputação
como sendo aquele que consolidou o império da Média e da Pérsia
(que é o que sugere a data de 550 — 540), na data da composição
destas passagens, não seria necessária esta apresentação dum ele-
mento estranho e desconhecido. Pelo contrário, este futuro liber-
tador do Israel cativo é sempre apresentado como alguém que
surgirá num futuro distante; e seu surgimento, cumprindo essa
promessa, fornecerá uma demonstração maravilhosa da autorida-
de divina da mensagem de Isaías.

Deve ser mencionado que até na primeira parte de Isaías,
enfatiza-se a predição cumprida, e muitos eventos futuros são
preditos. Alguns dos cumprimentos aconteceram dentro de pou-
cos anos das predições; e.g. a libertação de Jerusalém do poder de
Senaqueribe mediante uma intervenção sobrenatural (37:33-35),
a derrota de Damasco dentro de três anos pelo imperador assírio
(8:4,7), e a destruição de Samaría dentro de doze anos depois de
Isaías ter profetizado o acontecimento (7:16). Outros eventos acon-
teceriam muito depois da morte de Isaías; e.g., a queda da Babilô- 
nia perante os medos e persas (13:7), e a desolação posterior da
Babilônia que a transformariam num sítio desabitado e amaldi-
çoado para sempre (13:19,20). Além disto, outra predição de longo
alcance era a vinda da gloriosa Luz à Galiléia numa geração futura
(9:1,2), que foi cumprido pelo ministério de Cristo setecentos anos
mais tarde (Mt 4:15, 16).

Quanto ao conhecimento antecipado do exílio na Babilônia,
deve ser indicado que até o capítulo 6 que, segundo os críticos, é re-
conhecido como sendo autenticamente isaiânico, profetiza o total
despovoamento e devastação de Judá, que foi levada a efeito sob
Nabucodonosor. Nos versículos 11 e 12 lemos que o julgamento de
Deus será aplicado a Judá “até que sejam desoladas as cidades
e fiquem sem habitantes, e o SENHOR afaste delas os homens, e
no meio da terra seja grande o desamparo”. O versículo seguinte,
traduzido segundo as indicações do contexto, contém uma refe-
rência à restauração do cativeiro no exílio: “Mas nela haverá uma
décima parte, que voltará, e será destruída...”. Alguns intérpre-
tes entendem yãshüb (“voltará”) como tendo a força do advér-
bio “outra vez”, mas tal interpretação é excluída pelo aparecimento
do nome do filho de Isaías três versículos adiante. É óbvio que
Sear-yasube (7:3) era o nome (“um-resto-volverá”) dado a esta
criança como sinal da fé de Isaías que Deus cumpriria a promessa
de 6:13, que um resto haveria de voltar (yãshüb).

Na parte de Isaías que segue depois, conforme ficou sugerido,
a situação com a qual Isaías se confrontava era a duma idolatria
grosseira da época de Manassés, que exigia da parte do Senhor uma
resposta à altura do desafio. Se Deus trouxesse a nação desobe-
diente de Judá a uma situação de juízo, ao ponto duma derrota
militar total, com a completa destruição da terra, seria possível
aos observadores interpretar isto como sendo um golpe de infortúnio
que poderia acontecer a qualquer povo. Possivelmente chegasse
até a ser interpretada como sendo uma expressão da ira do Deus
nacional para com Seus devotos infiéis, visto que até as religiões
pagãs estavam dispostas a explicar assim o infortúnio nacional.
(É assim que a Crônica Babilónica explica a subjugação da Ba-
bilônia por Ciro, explicando que Marduque estava zangado com a
nação. Da mesma maneira, o Rei Mesa de Moabe explicou a sub-
jugação anterior de Moabe aos israelitas, explicando que Camos
estava zangado com seus devotos). Um testemunho decisivo à re-
tidão e à soberania do Senhor como sendo o único Deus verdadeiro
só poderia ser demonstrado se Seus atos de julgamento punitivo e 
a subseqüente redenção fossem anunciados de maneira solene mui-
to antes do seu cumprimento, através duma revelação especial.

Somente assim é que seria possível estabelecer perante os olhos
de toda a raça humana a identidade e a autoridade do Soberano
do universo. (Cf. Is 48:5, onde Deus declara que predissera aquilo
que haveria de fazer, “para que não dissesse: O meu ídolo fez estas
cousas, ou a minha imagem de escultura e fundição as ordena-
ram”) . Assim foi que a degenerada geração da época de Manassés,
que estava para extinguir completamente o testemunho de Israel,
apresentou um conjunto de circunstâncias que exigiam uma série
extensa de profecias previsíveis tais quais se acham em Isaías
40 — 66.

Esta é claramente a intenção do autor. Em Isaías 41:21-23, 26,
lemos: “Quem anunciou isto desde o princípio, para que o possa-
mos saber, antecipadamente, para que digamos: É isso mesmo.”
(Há aqui uma alusão às profecias anteriores de Isaías que se cum-
priram de maneira singular). Em 42:9,23: “Eis que as primeiras
predições já se cumpriram, e novas cousas eu vos anuncio; e, antes
que sucedam, eu vo-las farei ouvir”. Outra vez, em 43:19, 12: “Quem
dentre eles (i.é., dos deuses pagãos) pode anunciar isto, e fazer-nos
ouvir as predições antigas? Eu anunciei salvação, realizei-a e
a fiz ouvir”. Semelhantemente em 44:7, 8: “Quem há, como eu, feito
predições desde que estabeleci o mais antigo povo? Que o declare
e o exponha perante mim! Esse (o ídolo pagão) que anuncie as
cousas futuras, as cousas que hão de vir!... acaso desde aquele
tempo não vo-lo fiz ouvir, não vo-lo anunciei? Vós sois as minhas
testemunhas”.

Passagens tais como esta demonstram com clareza abundante
que estas predições do futuro, tão extensas e exatas encontradas
nestes capítulos de Isaías II, tinham o propósito de cumprir uma
intenção bem especial. Tinham que fornecer uma confirmação que
a mensagem do profeta era de fato a mensagem do único Deus
verdadeiro, absolutamente soberano sobre os assuntos da vida hu-
mana; que foi por meio do Seu decreto, e não através do poderio de
Babilônia, que a nação da Aliança seria levada ao Cativeiro. So-
mente através do encorajamento dado pelo cumprimento de outras
predições é que a geração futura de exilados reuniria a coragem
suficiente para voltar à Palestina, mesmo depois de ter recebido
permissão do novo governo persa. Para sustentar a fé de Israel
através destes reveses tão abaladores — a devastação completa de
cidades e fazendas, e a destruição do templo — era necessário for- 
necer provas decisivas que estes eventos tinham acontecido através
da permissão e do plano do Deus de Israel, e não porque era um
Deus fraco, vencido pelas divindades mais poderosas do império
caldeu (uma conclusão que todos os pagãos tirariam da queda de
Jerusalém naturalmente).

Deve ser indicado também que os capítulos que se centralizam
na Babilônia (40 .— 48) não aparecem sem preparação prévia na
parte anterior de Isaías. Conforme indica E. J. Young,  os capí-
tulos 1 — 39 constituem “uma escada, por assim dizer, que paula-
tinamente conduz o leitor do período assírio até o período caldeu.
Os dois se pertencem, sendo que o primeiro é a preparação do se-
gundo, e o segundo é a completação do primeiro.” Isto quer dizer
que a atmosfera da época de Isaías estava cheia das ameaças do
Exílio. Samaria já tinha sido levada ao cativeiro pelos assírios em
722, e Senaqueribe fez um esforço supremo para fazer a mesma
coisa com Jerusalém em 701. Com propósito deliberado, Isaías co-
locou capítulos 38 e 39 (apesar de narrarem acontecimentos ante-
riores, de cerca de 712 a.C.) depois dos capítulos 36 e 37, que narram
episódios de 701. Isto porque os capítulos 38 e 39 demonstram um
dos motivos do exílio na Babilônia: a soberba de Ezequias ao de-
monstrar seus tesouros aos mensageiros da Babilônia. Assim, o
capítulo 39 termina com uma predição sombria do Cativeiro caldeu.
Mas mesmo nos capítulos anteriores, há numerosas sugestões do fu-
turo exílio da nação (cf. 3:24-26; 5:5,6; 6:11-13; 24:11,12; 27:13;
32:13-18). Só o artifício de argumentar em círculos viciosos, atri-
buindo a interpolações posteriores todas estas referências é que se
pode evitar o impacto deste corpo considerável de evidência, que o
Isaías do século oitavo sabia de antemão que o Exílio era um fato
positivo no futuro.

Finalmente, deve ser notado que um ponto de vista babilónico
não prevalece tão extensivamente em todas as partes de Isaías II
quanto os defensores da teoria dos dois Isaías mantiveram. Depois
do capítulo 48, é difícil achar alusões claras ao Exílio e à Restaura-
ção. Muitos dos discursos se aplicam a condições que, segundo se
sabe, prevaleciam em Judá durante o reinado de Manassés.  J. A.
Alexander indica de maneira apropriada:  “Afinal de contas, o
Livro menciona raras vezes a Babilônia, o Exílio ou a Restaura-
ção ... Uma enumeração exata de todos os casos deste tipo, feita 
pela primeira vez, talvez surpreenderia uma pessoa cujas impres-
sões anteriores tivessem sido derivadas das declarações dramati-
zadas dos intérpretes e dos críticos”. Noutras palavras, os que
advogam um Deutero-Isaías procuraram achar muitas alusões a
uma situação do fim do sexto século, quando estas são realmente
susceptíveis duma outra interpretação. É também um fato que o
nome da Babilônia ocorre com menos freqüência nos capítulos 40 - 66 do que em 1 — 39. Uma contagem estatística revela que só
há quatro ocorrências da Babilônia na segunda parte (43:14; 47:1;
48:14,20), mas em 1 — 39 há nove ocorrências, portanto mais do
que o dobro.


Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.