16 de dezembro de 2013

Gleason L. Archer - Introdução ao livro de Oséias

O nome deste profeta, Hõshêa’ significa “salvação”, e, na rea-
lidade, é idêntico ao nome do último rei do Reino do Norte.
O tema deste Livro é um testemunho sério contra o Reino do
Norte por causa da sua apostasia da Aliança e sua corrupção, em
grande escala, em assuntos morais, particulares e públicos. O pro-
pósito do autor é convencer seus compatriotas da sua necessidade
de se arrepender e voltar ao seu tão paciente e amoroso Deus.
Tanto a ameaça como a promessa se apresentam do ponto de vista
do amor de Deus por Israel, como Sua prole amada, como Sua
esposa pela Aliança.

Esboço de Oséias

I. O Treinamento do Profeta, 1:1 — 3:5.
A. Sua vida no lar, simbolizando a nação: punição e restau-
ração, 1:1 — 2:1.
1. O casamento com Gômer, adúltera em potencial, 1:2.
2. Os filhos: Jezreel, Desfavorecida, Não-meu-povo,
1:3-9.

3. O triunfo final da graça, 1:10 — 2:1.
B. Sua tragédia doméstica é uma revelação do amor reden-
tor de Deus, 2:2-23.
C. Seu trato com Gômer: um mandamento e uma revelação,
3:1-5.
I. O Ensinamento do Profeta, 4:1 — 14:9.
A. A poluição nacional e sua causa, 4:1 — 6:3.
1. A sentença do Juiz e seu pronunciamento, 4:1-19.
2. Advertências a sacerdotes, ao povo e ao rei: os san-
tuários pagãos são uma armadilha, 5:1-15.
3. Exortação ao arrependimento, 6:1-3.
B. A poluição nacional e sua punição, 6:4 — 10:15.
1. Deus declara Seu caso contra Israel, 6:4 — 7:16.
a) Infidelidade, culpa de sangue, a colheita san-
guinária, 6:4-11.
b) A rebeldia, adultério e bebedices constantes não
deixam margem à misericórdia divina, 7:1-16.
2. Pronuncia-se o juízo, 8:1 — 9:17.
a) Ceifando tormentas: devorados pelo mundo que
adoravam, 8:1-14.
b) Escravidão no exílio, Israel vai murchando,
9:1-17.
3. Recapitulação e apelo: a videira vazia, 10:1-15.
C. O amor do Senhor, 11:1 — 14:9.
1. Seu amor inalienável ao tratar com o manhoso Israel,
11:1-11.
2. O exílio imposto por Deus é a única alternativa por
causa da rebeldia obstinada de Israel, 11:12 — 12:14.
3. Princípios orientadores, e o resultado do exílio,
13:1-16.
4. Apelo final ao arrependimento; promessa da bênção
final, 14:1T9.

Autoria e Integridade do Texto

O profeta Oséias parece ter sido um cidadão de Israel, do Rei-
no do Norte, pois ele se refere ao soberano em Samaria como
sendo “nosso rei” (7:5). Judá só é mencionado incidentalmente,
e o interesse se centraliza nas dez tribos. A dicção do autor revela
traços dum dialeto que não se acha em Judá, mas que sugere Israel
do norte, perto do território da Síria onde se falava aramaico. A
família de Oséias tinha suficiente posição social para o nome do
seu pai (Beeri) ser mencionado. Não temos outros detalhes bio-
gráficos além daqueles que cita nas suas próprias profecias.

Os críticos liberais atribuem, em substância, toda a profecia
ao Oséias histórico. As únicas passagens que têm sido contestadas
como sendo interpolações posteriores são aquelas que se referem a
Judá (segundo Marti e Nowack); ou aquelas seções, como 11:8-11
e 14:2-9 (segundo Volz e Marti), que predizem bênçãos futuras ou
libertação nacional. Eissfeldt e Bentzen, porém, não se sentem
dispostos a descontar os trechos que mencionam a salvação depois
do castigo, nem aqueles que mencionam Judá, na sua totalidade.

Sendo que até nas porções do Livro cuja genuinidade não é alvo
de dúvidas, tais como os capítulos 1 — 3, menciona-se a possibili-
dade da futura libertação da nação, aqueles poucos versículos que
descrevem como sendo glosas, são considerados como não sendo
da lavra de Oséias por outros motivos. Quanto à alusão a Judá,
Young indica com razão (IAT 261) que o Profeta considera o go-
verno do Reino do Norte como tendo sido usurpado, tendo apenas
o governo dinástico de Davi o direito legal ao trono.

Data da Composição

Nem todas as profecias deste Livro foram pronunciadas no
mesmo estágio da carreira do Profeta, segundo parece. Uma por-
ção delas parece ter sido pronunciada antes da morte de Jeroboão
II (753 a.C.), visto que o capítulo 1 interpreta o significado sim-
bólico de Jezreel como sendo uma indicação do fim violento da
dinastia de Jeú. Isto foi cumprido quando, em 752, Salum assas-
sinou Zacarias, filho de Jeroboão. Do outro lado, o capítulo 5 pa-
rece ter sido dirigido contra o Rei Menaém (752 — 742). O capí-
tulo 7 deve receber uma data de uma ou duas décadas mais tarde;
denuncia o governo, com sua política de duplicidade pela qual o
Egito é jogado contra a Assíria, e esta política, segundo se sabe,
não foi adotada por Israel antes do reinado de Oséias (732-723 a.C.).
É justificável, portanto, considerar que o livro inclui seleções de
sermões pregados no decurso dum período que remonta a 25 anos,
no mínimo. É possível que a compilação tenha sido publicada na
sua forma final em 725 a.C., talvez trinta anos após o começo do
ministério de pregação de Oséias.

O Problema de Gômer

Muitos debates têm sido dedicados à dificuldade criada pela
instrução divina que Oséias recebera, de se casar com uma mulher
adúltera. Será que o Senhor mandaria um homem consagrado
fazer aquilo que aos sacerdotes era expressamente proibido, e mui-
to mal visto pelos israelitas em geral? Num esforço de diminuir o
problema moral, alguns conservadores sugeriram que esta expe-
riência não era real, que era um tipo de parábola por extenso.
Apoiando esta teoria, alguns estudiosos têm mesmo sugerido que o
nome Gômer significasse “completação”, isto é, o cúmulo dos pe-
cados; o nome da sua mãe, Diblaim, significaria então, “bolos de
passas”, um tipo de oferta sacrificial idólatra (cf. 3:1).

Um tipo de objeção muito séria que se levanta contra este
método de interpretação se percebe no fato que a história do casa-
mento de Oséias se registra como narrativa simples. Não existe qual-
quer evidência no próprio texto que indicaria que devesse ser en-
tendido como sendo parábola ou experiência fictícia visando ilus-
trar alguma verdade teológica. Se esta transação não tivesse tido
base histórica apesar de ter sido narrada de maneira tão concreta,
surge então a possibilidade de questionar um sem-número de outros
episódios que são narrados nas Escrituras como se fossem séria nar- 
rativa histórica. O princípio básico da hermenêutica que se aplica
aqui é que as declarações das Escrituras devem ser interpretadas
no seu sentido claro e óbvio, a não ser que algum outro trecho que
trata do mesmo assunto demonstre que estas declarações devem
ser interpretadas de modo diferente.

A melhor solução ao problema acha-se na suposição que,
quando Oséias se casou com Gômer, esta não seria uma mulher
de moral abertamente baixa. Se Oséias entregou sua mensagem em
anos posteriores, pode ter considerado a história da sua tragédia
doméstica, e descoberto nela a mão orientadora de Deus. Por isso
que o Senhor já no começo encorajou-o a casar-se com ela, apesar
de saber de antemão sua futura infidelidade, e isto seria igual a
um mandamento divino, “Vai, toma uma mulher de prostituições”,
mesmo se o mandamento não se exprimisse exatamente com estas
palavras.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.