10 de dezembro de 2013

Gleason L. Archer - Introdução ao livro de Amós

Na segunda metade do oitavo século a.C., a profecia hebraica
atingiu uma idade áurea de excelência. Depois que os primeiros
profetas escreventes, Obadias, Joel e Jonas, tinham feito sua obra,
o palco estava preparado para o aparecimento de quatro grandes
vultos que dominaram o cenário desde 755 até o começo do sétimo
século: Amós, Oséias, Miquéias e Isaías. Os três primeiros são ana-
lisados neste capítulo; serão necessários mais dois capítulos para
descrever a obra de Isaías.

AMÓS


O significado do nome Amós é provavelmente “aquele que
carrega fardos” (derivado do verbo ’ãmas, “erguer um fardo, car-
regar”) . O tema central da profecia era a fidelidade do Senhor à
Sua aliança e à Sua santa Lei, e o dever do povo de Israel de obser-
var de maneira prática as obrigações da aliança. Amós seriamente
exortou o povo a cumprir seu dever de concordar de coração com
a prática do código legal da Torá, tanto de letra como espiritual-
mente. O fato de que Israel não conseguiu apresentar ao Senhor
uma fé viva e verdadeira, procurando fazer Deus aceitar o mise-
rável substituto da profissão meramente verbal, só poderia levar
à ruína e destruição total da nação.

Esboço de Amós

I. O Juízo do Senhor sobre as Nações, 1:1 — 2:16.

A. Prelúdio: O dia da ira está perto, 1:1,2.
B. Julgamento de vizinhos pagãos por seus crimes de desu-
manidade, 1:3 — 2:3. 
1. Damasco, 1:3-5
2. Gaza, 1:6-8
3. Tiro, 1:9,10
4. Edom, 1:11,12
5. Amom, 1:13-15
6. Moabe, 2:1-3
(Todos esses para sofrer fogo e destruição)
C. A ira divina sobre as duas nações da aliança por causa
da sua negligência à Palavra de Deus, 2:4-16.
1. Judá, tendo se desviado de Deus atrás de falsos mes-
tres, também sofreria fogo e destruição.
2. Israel também sofreria uma destruição terrível por
explorar os pobres, praticar incesto, ingratidão para
com Deus, e de perseguição aos fiéis.
As Ofensas de Israel e as Advertências de Deus, 3:1 — 6:14.
A. O julgamento inevitável por causa da completa depra-
vação de Israel, 3:1-15.
1. Quanto maior o privilégio, maior a responsabilidade,
3:1-3.
2. Credenciais de Amós, como mensageiro de Deus,
3:4-8.
3. Os crimes de Israel: opressão dos pobres, luxurias e
busca do prazer egoístico, serão punidos pela de-
vastação e despovoação, 3:9-15.
B. O desafio de Deus aos endurecidos de coração que pro-
curam os prazeres, 4:1-13.
1. Sua busca de prazer, suas riquezas, suas formas car-
nais de culto pronunciarão sua ruína, 4:1-5.
2. A advertência das pragas não foi levada a sério; o
julgamento vindouro, 4:6-13.
C. Lamentação e apelo final, 5:1-27.
D. A sentença do exílio para as classes ricas que só busca-
vam prazeres, 6:1-14.
Cinco Visões de Ruína de Israel, 7:1 — 9:10.
A. Gafanhotos — retidos, 7:1-3.
B. Fogo — retido, 7:4-6.
C. O prumo — tudo será arrasado e nivelado, 7:7-9.
(Interlúdio: a discussão com Amazias, cuja ruína é prevista,
7:10-17).
D. Frutos do fim do verão — o fim está perto, 8:1-14.
E. Ferido o templo de Betel; Israel será tratada como nação
pagã, 9:1-10. 
IV. Promessas de Restauração, 9:11-15.
A. Preliminar: a Época do Novo Testamento, 9:11,12.
B. A consumação no milênio, 9:13-15.

O Autor

Visto que não se cita o nome do seu pai, supõe-se que Amós
fosse de nascimento humilde. Sua cidade natal era Tecoa, situada
nas montanhas de Judá, cinco quilômetros ao sudeste de Belém.
A profissão de Amós era pastor e cultivador de figos de sicômoro.
Pode ser que cuidasse também de gado (conforme implica a pala-
vra bõqêr, “vaqueiro”, em 7:14). Certamente criava ovelhas, pois
que é chamado nõqêd (cf. nõqedím em 1:1); isto quer dizer que
foi criador dum tipo de ovelha, pequeno e malhado chamado nãqõd.
Ganhava também a vida no cultivo de sicômoros, ou figueiras bra-
vas (shíqemím, 7:14), uma árvore donde se extraía um tipo de sei-
va, ao serem feitas incisões na época certa, quando então essa seiva
formaria um tipo de bola endurecida que os pobres compravam
como frutas.

Parece ter sido um estudioso sério dos Livros de Moisés, sendo
que seu estilo demonstra fortes influências do Pentateuco. Nunca,
porém, gozou das vantagens duma educação formal numa “escola
de profetas” (do tipo mantido por Samuel, Elias e Eliseu), e nunca
foi oficialmente nomeado ao ministério profético. Ao receber sua
vocação da parte de Deus, deixou seu lar em Judá, como mero leigo,
proclamando na orgulhosa capital do Reino de Israel, uma mensa-
gem hostil, sem qualquer autorização eclesiástica. Sem qualquer
título oficial de profeta reconhecido, enfrentou os preconceitos do
público em Efraim, cumprindo fielmente sua comissão da parte
de Deus. Um homem de fortes convicções, e uma vontade de ferro,
não pôde ser desviado do seu propósito nem pelo mais alto funcio-
nário do culto em Samaria.

Data da Composição

Os estudiosos do Antigo Testamento concordam em geral, que
o ministério de Amós deve ser datado entre 760 e 755 a.C., perto da
parte final do reinado de Jeroboão II (793-753). Este rei gozara
uma brilhante carreira no que diz respeito ao sucesso militar, já
que cumpriu a façanha de restaurar as fronteiras do Reino do
Norte até os limites com os quais sua história começou em 931 a.C.
O resultado tinha sido a entrada de consideráveis riquezas prove-
 nientes dos despojos das guerras e de relações comerciais vantajosas
com Damasco e outros principados ao norte e ao nordeste. Mas,
juntamente com o aumento das riquezas, nas quais as classes mais
baixas não receberam a mínima participação, tinha surgido da
parte da nobreza rica, um marcante materialismo. Não sentiam
vergonha de espoliar os pobres, desprezando cinicamente os direitos
dos que estavam abaixo deles na escala social. Um descuido gene-
ralizado para com o sétimo mandamento minara a santidade da
família e tomara ofensiva sua tentativa hipócrita de aplacar Deus
através da observância de rituais religiosos.

O texto de Amós dá uma data precisa à sua missão de pregação
em Betel: “dois anos antes do terremoto” (1:1), isto é, aquele ter-
remoto severo na época de Uzias, que, séculos mais tarde, ainda
não foi esquecido (cf. Zc 14:5, “Fugireis como fugistes do terremoto
nos dias de Uzias, rei de Judá”). Infelizmente, a data deste terre-
moto não pode ser fixada com mais exatidão, mas de qualquer
maneira, servia como sinal preliminar da parte de Deus. As amea-
ças da destruição futura, das quais Amós era porta-voz, cumprir-
se-iam certamente. A declaração em 1:1 também serve para indicar
que o Livro de Amós não foi publicado até pelo menos dois anos
depois de ter sido entregue a mensagem verbal.

A Integridade do Texto

Os críticos liberais concedem a autenticidade de quase a tota-
lidade do texto de Amós, e consideram-no “o primeiro dos profetas
escreventes” (pois, segundo as datas de Wellhausen e Driver, o
Livro de Amós constituiria o mais antigo trecho escrito do Antigo
Testamento, com a única exceção do Documento J). Há, porém,
quinze versículos que foram classificados como sendo interpolações
posteriores. Estes incluem 1:9-12 com sua fórmula estilizada de
denúncia (“Por três transgressões de , e por quatro, não
sustarei o castigo ... Por isso meterei fogo aos muros , fogo
que consumirá seus castelos”). Pelo mesmo motivo, rejeita-se 2:4,5.
Expressões de ações de graças e de louvor a Deus, tais como 4:13;
5:8, 9; 9:5, 6 são consideradas inadequadas a Amós por causa do
seu feliz teor. E a promessa messiânica de 9:11 é descrita como
sendo um tipo de pensamento que pertence a alguns séculos depois
do oitavo século a.C. Oesterley e Robinson interpretam 9:11, 12
pressupondo o Exílio como fato consumado, por causa da referência
ao “tabernáculo caído de Davi”, que seria a queda de Jerusalém
(IBOT 366). Mas até Bentzen rejeita esta inferência como sendo 
infundada, indicando que Amós pode ter considerado a casa de
Davi como sendo caída “por causa de ter perdido a posição que
ocupava na época do próprio Davi”. R. H. Pfeiffer considera o
Amós histórico como sendo capaz apenas de enfatizar com pessi-
mismo a denúncia dos pecados, sem a mínima capacidade dum
ponto de vista mais esperançoso quanto ao futuro; qualquer pas-
sagem que não se enquadra dentro deste conceito de Amós precisa,
pois, ser rejeitada como acréscimo posterior (cf. IOT 583, 584).
Reconhece-se facilmente que todas estas passagens foram rejeitadas
por causa da existência duma teoria especial do desenvolvimento
do pensamento de Israel, e não por causa de quaisquer dados for-
necidos pelo próprio texto.

Pontos de Contacto com o Pentateuco

Já que os críticos documentaristas consideram Amós como
sendo o primeiro profeta escrevente, parece apropriado indicar que
há numerosas referências, mesmo em Amós, às provisões legais da
Torá (inclusive D e P). Observa-se a força cumulativa dos seguin-
tes exemplos:

1. Amós 2:7, “um homem e seu pai coabitam com a mesma
jovem, e assim profanam o meu santo nome”, deve ser uma refe-
rência à prostituição religiosa, expressamente proibida em Deute-
ronômio 23:17,18. Dificilmente os ouvintes de Amós poderiam ter
sabido que esta prática fosse um crime, a não ser que anterior-
mente existissem leis que a condenassem. É uma inferência razoá-
vel que estas leis fossem escritas num período tão recuado antes
da época de Amós, que já tivessem adquirido o peso das sanções
da antiguidade.

2. Amós 2:8 condena a prática de se deitar durante a noite
em “roupas empenhadas” (uma prática proibida em Êx 22:26),
ofensa que, além de privar o pobre da sua proteção necessária,
é considerada pior quando o credor aproveitando-se faz uso do
artigo para seu maior conforto à noite (cf. Dt 24:12, 13).

3. Amós 2:12 refere-se à consagração dos nazireus, a sanção
da qual se acha só em Números 6:1-21 (uma passagem P, segun-
do Driver, ILOT, pag. 55).

4. Amós 4:4 refere-se aos dízimos “de três em três dias”,
uma especificação que parece ter sido desconhecida aos pagãos, e
ordenada apenas em Deuteronômio 14:28; 26:12, que declara que 
os dízimos das colheitas devem ser guardados ou reservados para
o Senhor.

5. Amós 4:5, “oferecei sacrifício de louvores do que é leve-
dado”, dá a entender que a prática era proibida pela Lei — e
existe esta proibição em Levítico 2:11; 7:13 (que são, naturalmente,
passagens P).

6. Amós 5:23 dá a entender que o ritual de sacrifício na
época em que vivia fosse acompanhado por cânticos, uma orde-
nança que, nos Livros históricos da Bíblia, é atribuída ao Rei Davi.
É razoável supor que, se P tivesse sido composto depois da época
de Amós, teria contido alguma referência aos acompanhamentos
musicais nos sacrifícios, para investir esta prática com sanção
mosaica. Mas a verdade é que não há qualquer referência à música
ou ao cântico como acompanhamento do sacrifício, em qualquer
parte do Pentateuco.

7. Vários termos descrevendo o sacrifício que, segundo os
críticos, são pós-exílicos, são mencionados por Amós de maneira
tão casual e livre que dá a entender que fossem práticas comuns
da sua época. Entre eles se acham: a) as ofertas voluntárias
(nedãbah) em Amós 4:5 (cf. Lv 7:16-18; 22:18; Nm 15:3; Dt 12:6,7,
etc.); b) a assembléia solene (’asãrah) em Amós 5:21 (cf. Lv 23:36;
Nm 29:35); c) “holocaustos”, “ofertas de manjares” e “ofertas
pacíficas” aparecem juntos numa única frase em Amós 5:22,; são
mencionados assim em combinação e também separadamente em
numerosas passagens da Torá (cf. Lv 7:11-14; 8:1-32).

A única maneira de evitar o impacto de todas estas evidências
é defini-las como sendo interpolações de redatores posteriores —
um tipo de argumento um tanto duvidoso ao qual apelam Pfeiffer,
Eissfeldt, e outros. Mas qualquer maneira honesta de se tratar a
evidência indica que havia na época de Amós um corpo de Lei,
que era reconhecidamente antigo e autorizado, que o próprio Amós
chamou “a Torá do SENHOR” (Amós 2:4). Esta Torá, evidente-
mente, já tinha sido aceita por todos, como sendo fato consumado
até a época de Amós. Não há a mínima idéia, ou sugestão de qual-
quer tipo, que Amós estivesse apresentando uma nova mensagem
pioneira de monoteísmo, ou um código moral mais iluminado, que
nunca antes tinha sido reconhecido como sendo obrigatório.  O
impacto cumulativo desta evidência parece ser conclusivo em favor
duma prioridade da Torá à época de Amós.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.