13 de dezembro de 2013

F.F. Bruce - O Antigo Testamento e o cristão

O Antigo Testamento e o cristão

F.   F. BRUCE

O ANTIGO TESTAMENTO NA IGREJA

Além do seu status de Escritura sagrada, o AT é uma obra literária das mais interessantes e valiosas por si só, um objeto digno de estudos intensos e constantes. Posto na sua perspectiva histórica e interpretado corretamente, ele se constitui em fonte primária indispensável para uma fase importante da história — especialmente a história religiosa —     do Antigo Oriente Médio. Parte do seu conteúdo é do mais elevado nível literário, e muito desse conteúdo ainda gera reações de apreciação espiritual no leitor e proporciona-lhe um meio de expressar as aspirações mais profundas da sua própria alma. Tudo isso vale tanto para leitores cristãos quanto para os outros, mas os cristãos têm de considerar ainda o seu status como parte das Escrituras Sagradas da igreja cristã.


O AT está investido de autoridade especial como Escritura sagrada não só para cristãos, mas também para judeus e muçulmanos. Na ortodoxia judaica, a Bíblia hebraica, que contém a Lei, os Profetas e os Escritos, é toda a Palavra de Deus. A sua interpretação é regulamentada pela tradição e, por motivos polêmicos ou apologéticos, a tradição tem recebido algumas vezes status equivalente ao do texto, mas tanto em princípio como de fato o texto escrito tem prioridade e é normativo. No islamismo, o tawrat (as Escrituras judaicas), e o injil (as Escrituras cristãs) registram a revelação de Deus dada por meio de profetas anteriores, que seria então finalmente reiterada e confirmada na revelação dada por meio de Maomé e registrada por escrito no Alcorão.

Já na igreja cristã, o AT é reconhecido tradicionalmente como o texto que registra os estágios iniciais desse processo contínuo de revelação divina e de resposta humana, que teve seu cumprimento em Cristo, sendo o NT o registro desse cumprimento. Se o que Deus falou a nossos antepassados por meio dos profetas, muitas vezes e de muitas maneiras, está preservado no AT, o NT, por sua vez, nos conta que “nestes últimos dias falou-nos por meio do Filho” (Hb 1.12). Mas, se colocarmos a questão dessa maneira, poderemos negligenciar o fato de que nas primeiras gerações da sua existência a única Bíblia da igreja cristã era o AT, e ela se deu muito bem tendo somente o AT. Quando nosso Senhor afirma que “são as Escrituras que testemunham a meu respeito” (Jo 5.39), ele está se referindo às Escrituras do AT. Quando é dito a Timóteo que “toda Escritura é inspirada por Deus”, a referência é àqueles escritos sagrados com que Timóteo estava familiarizado desde a infância — ou seja, os escritos do AT (a propósito, na versão LXX). Timóteo é lembrado que esses são os escritos “que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus” e que proporcionam uma instrução abrangente e completa “para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra” (2Tm 3.15-17). Era do AT que os primeiros pregadores cristãos, seguindo o exemplo do seu Mestre, extraíam seus textos; e o faziam de maneira formal e expressa quando se dirigiam a audiências judaicas e de maneira implícita quando pregavam aos gentios. Assim como Jesus afirmou que não viera abolir a Lei e os Profetas,  mas para cumpri-los (Mt 5.17), Paulo também afirma que a Lei e os Profetas testemunham do evangelho da justificação pela fé (Rm 3.21,22).

Mesmo já quase na metade do segundo século da era cristã, os escritos do AT ainda desfrutavam dessa dignidade única. Tem-se comentado muitas vezes quão expressivo é o número de pagãos cultos do século II, como Justino Mártir e seu discípulo Taciano, que se converteram ao cristianismo — e eles mesmos dão testemunho disso — por meio da leitura do AT grego. Nessa época, naturalmente, a maioria dos documentos que constituem o NT já existia e circulava havia décadas, mas ainda não tinha recebido aceitação geral como uma coleção de escritos do mesmo nível que o AT, como sendo o volume do cumprimento ao lado do volume da promessa.

No entanto, quando falamos desse status singular do AT na igreja primitiva, estamos falando do AT interpretado e cumprido por Jesus. A igreja e a sinagoga compartilhavam do mesmo texto sagrado (faz pouca diferença se, em algumas regiões de fala grega, o cânon da igreja era ligeiramente mais abrangente do que o cânon da sinagoga), mas o texto era compreendido de formas tão diversas pela igreja e pela sinagoga que poderia até parecer que estivessem usando duas Bíblias diferentes. Em vão, Justino tenta convencer Trifo, no seu Diálogo com o judeu Trifo, da verdade do cristianismo, recorrendo às Escrituras que ambos reconhecem como divinas: o apelo de Justino pressupõe uma interpretação que Trifo não consegue aceitar.

Essa interpretação pode ser resumida na afirmação de que Cristo e o evangelho são o tema do AT. “Todos os profetas dão testemunho dele, de que todo o que nele crê recebe o perdão dos pecados mediante o seu nome” (At 10.43). Os profetas podem até ter investigado e examinado cuidadosamente as Escrituras “procurando saber o tempo e as circunstâncias para os quais apontava o Espírito de Cristo que neles estava” (IPe 1.10,11), mas as pessoas que testemunharam os eventos da salvação não precisaram de tal investigação ou exame; elas sabiam. A pessoa era Jesus; a época era agora. Essa compreensão do AT permeia de forma tão ampla e completa os escritos do NT que ela certamente vai além desses escritos até o próprio Jesus, e este é, de fato, o testemunho dos Evangelhos e de todas as camadas da tradição que podem ser identificadas na sua base. O anúncio das boas-novas aos pobres, que de acordo com os profetas do AT caracterizava a proclamação do ano da bondade do Senhor (Is 61.1,2), é apresentado por Jesus como a essência do seu próprio ministério: “Hoje”, ele disse, “se cumpriu a Escritura que vocês acabaram de ouvir” (Lc 4.18-21; cf. 7.22). Ele deixou bem claro que isso fazia parte do advento desse reino que, de acordo com outro autor do AT, o Deus dos céus estabeleceria em dias futuros (Dn 2.44; 7.14, 22,27). Ele parabenizou seus discípulos porque eles viviam numa época em que podiam experimentar coisas que profetas e homens justos de outros tempos tinham, em vão, desejado ver e ouvir (Mt 13.15,16; Lc 10.23,24). E se no final seu ministério seria coroado com a morte, então isso também — para que ele “sofra muito e seja rejeitado com desprezo” — era algo que estava escrito acerca do “Filho do homem” (Mc 9.12). Seguro disso, ele submeteu-se a seus captores com as palavras: “Mas as Escrituras precisam ser cumpridas” (Mc 14.49).

Os seus seguidores, portanto, descobriram que as Escrituras do AT estavam repletas de novo sentido à medida que desvendavam seus mistérios mais profundos com a chave que o seu Mestre lhes dera. Quando seu testemunho foi perpetuado de forma escrita, e os documentos que o perpetuaram foram, no devido tempo, reunidos e canonizados no NT, a autoridade do AT não foi, de forma alguma, diminuída. Também, quando na primeira metade do século II Marcião afirmou que Jesus e o evangelho eram coisas completamente novas, não relacionadas a nada que havia ocorrido antes, negando assim que o AT tivesse  o direito de ser tratado como Escritura cristã, a igreja não deu nenhuma guarida a ele nem às suas convicções. Alguns argumentos usados para refutá-lo talvez tenham sido tolos, mas havia uma sã intuição de que o evangelho não floresceria com mais vigor se fosse cortado de suas raízes do AT.

A PALAVRA DE DEUS NO AT

É verdade que houve uma mudança de perspectiva na igreja desde os primeiros dias em que o AT era a sua única Bíblia, tornada compreensível pelo seu cumprimento em Cristo. Hoje em dia a tendência é valorizar mais o NT do que o AT. Creio que há concordância geral de que o conhecimento do AT é necessário para a compreensão do NT. Em primeiro lugar, ele registra a preparação para o evangelho, é o relato do que aconteceu antes, sem o que o evangelho não pode ser compreendido adequadamente. Além disso, o NT está de tal modo repleto de citações do AT que o conhecimento deste é tão essencial para sua apreciação quanto o conhecimento dos clássicos gregos e latinos é essencial para a apreciação da obra de Milton (por exemplo).[1] Mas para Milton os clássicos em grego ou latim não continham autoridade própria; eles proporcionavam uma mina inexaurível de alusões literárias. As alusões ao AT no NT, no entanto, não estão ali para efeitos literários; elas implicam o reconhecimento da autoridade inerente ao próprio AT. Os autores do NT consideravam que o conteúdo da sua mensagem estava organicamente de acordo com a mensagem do AT, a ponto de o AT e o NT poderem ser considerados duas partes de uma mesma sentença, cada parte sendo essencial para a compreensão do todo. Essa percepção está destacada no artigo VII dos “Trinta e nove artigos”, que começa assim: “O Antigo Testamento não é contrário ao Novo; porquanto em ambos, tanto no Antigo como no Novo, a vida eterna é oferecida ao gênero humano por Cristo, que é o único Mediador entre Deus e o homem, sendo Ele mesmo Deus e Homem...”.

A unidade da mensagem dos dois testamentos não deve ser estabelecida por meio de exercícios tipológicos fantasiosos, que encontram nos escritos do AT as mais diversas doutrinas neotestamentárias, das quais nem os autores originais nem seus leitores poderiam sequer suspeitar. Essa unidade pode ser demonstrada de forma mais eficiente por meio do reconhecimento de um padrão recorrente de ação divina e resposta humana, como é traçado, por exemplo, em ICo 10.1-11 ou Hb 3.7—4.13.

Houve muitas tentativas de apresentar essa ininterrupta mensagem de uma forma que destacasse o seu significado básico e a sua adequada plenitude em Cristo. Entre essas tentativas, provavelmente a mais bem- sucedida seja aquela que a apresenta como a “história da salvação” (Heilsgeschichte), o relato dos atos salvíficos de Deus que tiveram sua consumação na obra salvífica de Cristo. Deus é aclamado repetidamente no AT como a “salvação” do seu povo. Ele se manifesta nessa qualidade em épocas sucessivas da história do AT, mas de forma especial no êxodo do Egito e no retorno do exílio babilónico (cf. Êx 15.2; Is 45.15-17). O registro da primeira dessas libertações fornece um modelo de narrativa no qual a segunda libertação pode ser retratada, e o registro das duas fornece um modelo de narrativa usado no NT para retratar a obra salvífica de Cristo.

A salvação de Deus e o seu juízo, no Antigo Testamento, são dois aspectos da mesma ação: se ele vindicou o seu nome ao permitir que seu povo fosse para o exílio por se rebelar contra ele, da mesma forma vindicou o seu nome ao trazê-lo de volta. A salvação desse povo é a sua vindicação (cf. SI 98.1-3). No ato culminante do evangelho, esses temas gêmeos de salvação e juízo coincidem: Jesus absorve o julgamento na sua própria pessoa e assim realiza a salvação do seu povo. 

Nessa história da salvação, o ato divino e a palavra profética andam de mãos dadas: nenhum deles proporciona uma revelação completa sem o outro. A relação entre o ministério de Moisés e a libertação realizada no êxodo é equiparada à interação entre o ministério de profetas posteriores e os atos de misericórdia e juízo que eles proclamaram ou interpretaram. Quando chegamos à consumação do NT, o ato redentor e o ministério profético coincidem na mesma pessoa — Jesus.

Alguns estudiosos encontraram no tema da aliança um princípio unificador para o relato do AT, que conduz ao cumprimento do evangelho. O Deus de Israel é um Deus que faz alianças e as cumpre: ele estabelece um relacionamento especial com as pessoas e dispõe-se a ser o seu Deus, entendendo que elas querem ser o seu povo. Nos dias de Noé, ele faz uma aliança com toda a raça humana (Gn 6.18; 9.8-17); por meio de Abraão, ele estabelece sua aliança com uma família específica, com anúncio de bênçãos para todas as outras famílias (Gn 15.8-21; 17.1ss; 22.15-18); e quando essa família cresce e se torna uma nação, ele confirma sua aliança com ela no monte Sinai, logo depois da sua libertação do Egito, com um código simples de leis que são a constituição básica dessa aliança (Êx 24.3-8; 34.10-28), e a reafirma em Siquém, logo depois de o povo se fixar na terra prometida (Dt 27.1-28,48; Js 8.30-35; 24.1-28). Uma aliança posterior e mais restrita foi feita com Davi, confirmando a ele e seus descendentes o reinado sobre Israel (2Sm 7.8-17; SI 89.19-37; 132.11-18).

A aliança de Deus com Noé recebe pouca ou nenhuma atenção no NT. “O juramento que fez ao nosso pai Abraão” (Lc 1.73) é considerado cumprido no evangelho da justificação pela fé (Rm 4.13ss; G1 3.6-18); a aliança com Davi é considerada (especialmente nos escritos de Lucas) como cumprida na exaltação e soberania de Jesus (Lc 1.32,33; At 2.25¬36; 13.22,23,32-37; 15.16-18). Mas a aliança dos dias de Moisés é contrastada com a aliança eterna introduzida por Jesus e selada com seu sangue; esta aliança é identificada como a “nova aliança” anunciada em Jr 31.31-34, que de fato deveria substituir a aliança deficiente e quebrada feita com os antepassados de Israel, quando Deus os tomou “pela mão para tirá-los do Egito” (cf. 2Co 3.4-18; Hb 8.6—9.22).

A história da salvação e a história da aliança são chaves valiosas para a compreensão cristã do AT e do seu lugar na Bíblia como um todo, principalmente porque não precisam ser importadas para dentro do relato bíblico como princípios de organização, pois elas já estão presentes nesse relato. Mas elas não cobrem todo o AT, e será lastimável se sua importância for exagerada a ponto de serem negligenciadas as partes do AT que não possam ser adequadamente relacionadas com elas.

A RESPOSTA HUMANA NO AT

Os “livros sapienciais” do AT não podem facilmente ser reunidos sob a rubrica da história da salvação ou da aliança; mesmo assim, dão uma contribuição indispensável à mensagem do AT. O sábio estava ao lado do sacerdote e do profeta como comunicador da verdade divina para os seus compatriotas (cf. Jr 18.18). A literatura sapiencial da Bíblia hebraica é marcada por um aspecto internacional, seja no tratamento das coisas observadas no dia-a-dia da vida e da natureza (como em Provérbios), seja no tratamento dos problemas mais profundos da existência humana (como em Jó). A literatura sapiencial posterior (e.g., Sabedoria e Eclesiástico) está mais intimamente relacionada ao panorama religioso de Israel e tende a identificar a sabedoria com a Lei mosaica.

O AT registra não somente a revelação que Deus fez de si mesmo no curso da história do seu povo, mas também a resposta do povo a essa revelação. Junto com os livros poéticos do AT (principalmente o Saltério), a literatura sapiencial pertence em grande parte à área da resposta humana à revelação divina. Homens e mulheres aos quais Deus se revelou por meio de uma experiência pessoal, como também por meio da história nacional, contam o que ele passou a significar para eles, e, no seu testemunho, aprendemos mais sobre os caminhos de Deus no trato com o ser humano — e aprendemos isso de tal maneira que as palavras desse seu testemunho fornecem um meio aceitável para o nosso próprio testemunho de como Deus lida conosco. Isso explica, em grande parte, a popularidade dos salmos como meio de louvor cristão.

NOSSO SENHOR E O AT

A avaliação que os cristãos fazem do AT não pode ser dissociada do uso que Jesus fez dele. Está claro que Jesus o considerava a última instância de apelação. Ele citou-o para justificar seu procedimento e expor as defici¬ências tanto dos fariseus quanto dos saduceus. No AT, ele encontrou alimento e conforto para sua alma; nele encontrou também o pro¬grama para seu ministério e a vontade de Deus para sua vida diária e seu sacrifício derradeiro. “O que foi indispensável para o Redentor”, tem-se dito com muita propriedade, “precisa sempre ser indispensável para os redimidos” (G. A. Smith, Modem Criticism andthe Preaching oftheOT.i 1901, p. 11).

No entanto, mesmo se baseando indiscriminadamente na Lei, nos Profetas e nos Escritos, não o fazia sem discernimento. Não há nada de estranho ou inadequado na sua aplicação do texto sagrado; tampouco ele o coloca, todo, em um mesmo plano. A letra da Lei precisa ser subserviente ao espírito da Lei. O descanso no sábado e a relação matrimonial foram instituídos para benefício de homens e mulheres, e são cumpridos de modo melhor quando esse propósito é promovido. Até mesmo a pressuposição de Moisés de que o divórcio é permitido (Dt 24.1-4) é tratada como uma concessão feita por causa da “dureza de coração” do ser humano; Jesus encontrou um caminho mais excelente embutido na ordenança do Criador (Gn 1.27; 2.24, citados em Mc 10.2-9). A observância literal da lei do sábado pode dar lugar a uma necessidade maior, como ocorreu no caso da observância da lei relacionada ao pão da Presença, quando Davi e seus homens estavam famintos (ISm 21.1-6, mencionado em Mc 2.25-28). A lei do “olho por olho, dente por dente” (Êx 21.24) mostrou um avanço ético considerável na época, ao substituir a vingança do sangue pelo princípio da retribuição estritamente limitada, mas a seus discípulos Jesus recomendou o princípio melhor da não-retaliação e, melhor ainda, o da retribuição do mal com o bem (Mt 5.38-48). Ele resumiu toda a Lei (e os Profetas) no duplo mandamento do amor a Deus e do amor ao próximo (Dt 6.4,5; Lv 19.18); qualquer interpretação ou aplicação que não fosse condizente com a lei do amor estava consequentemente descartada (Mc 12.28-31; cf. Lc 10.25-37).

Ele figurou na linhagem dos grandes profetas de Israel, e tratou o ensino destes com a dignidade que merecia, não como se fosse uma série de notas de rodapé da Lei. Como eles, ele atribuiu mais valor às questões éticas (interpessoais) do que às exigências rituais (e.g., Mt 5.23,24), no espírito de Os 6.6: “Pois desejo misericórdia, e não sacrifícios” (citado em Mt 9.13; 12.7).

De todos os profetas, o que mais demonstra afinidade com Jesus é Jeremias, o profeta da nova aliança, que insiste na interioridade da verdadeira religião. Quando Jeremias faz uma retrospectiva do reinado do rei Josias, o que mais elogia não é sua reforma do culto, mas sua administração justa, sua forma de julgar os pobres e necessitados: foi nisso que Josias manifestou seu conhecimento de Deus (Jr 22.15,16). Há uma semelhança impressionante também entre o conselho de Jeremias para a submissão ao governante gentio dos seus dias (Jr 38.17,18) e a orientação de Jesus para dar a César o que é de César (Mc 12.17) ou sua reprovação do espírito de revolta contra Roma que um dia iria lançar Jerusalém ao chão (Lc 13.1-5; 19.41¬44; 23.28-31).

Para concluir, o uso que nosso Senhor fez do AT exibe um método exegético criativo e original, que fornece um modelo para seus seguidores; ele “está baseado em [...] uma profunda compreensão do ensino essencial da Bíblia hebraica e em um discernimento seguro da situação do seu tempo” (T. W. Manson, BJRL 34, 1951-1952, p. 332).

O AT COMO REGRA DE FÉ

Se a Bíblia é a regra de fé e prática do cristão, a contribuição que o AT faz a essa regra de fé já foi sugerida.

Começa com Deus, apresentando-o como um só, como o Criador do Universo em geral e da humanidade em particular, como justo e misericordioso no seu caráter e como alguém desejoso de ver esse seu caráter reproduzido na vida de homens e mulheres. Quando se diz que ele criou o homem à sua própria imagem, isso significa (talvez, entre outras coisas) que a intenção era que os seres humanos vivessem em comunhão não somente uns com os outros, mas também com ele. Eles devem atender a seus apelos e viver de forma responsável diante dele, recebendo sua graça, prestando-lhe seu serviço e exercendo sobre a terra a autoridade que ele lhes delegou. Quando os homens se revoltam contra a sua lei, experimentam seu juízo, mas em meio ao juízo ele não se esquece de ser misericordioso. O juízo, sem dúvida, é sua “obra muito estranha” (Is 28.21), estranha e sem congenialidade com a sua natureza, à qual ele se dispõe com relutância, ao passo que tem prazer em demonstrar misericórdia e graça perdoadora (Mq 7.18). Tudo isso é explicado, não na forma de um sistema teológico, mas no contexto histórico da relação de Deus com a humanidade e, especialmente, com aqueles que ele chamou para serem seu povo.

Se o AT usa linguagem antropomórfica e antropopática quando fala de Deus, é porque ela é mais adequada ao retrato que o AT apresenta de seu ser e de seu caráter do que o uso de abstrações metafísicas ou de artifícios medievais, como a “via negativa” ou a “via da eminência”. “Deus não é homem...” (Nm 23.19; ISm 15.29), pois ele é o Criador e o homem é sua criatura, mas o homem foi feito à imagem de Deus e é encorajado a ser como Deus, de forma que o uso de um vocabulário comum tanto para Deus quanto para o homem é mais do que natural.

Em algumas áreas do AT, a relação entre Deus e o homem é regulamentada por uma legislação sacrificial e cerimonial. E importante notar quão rapidamente aqueles que reconheceram a eficácia redentora do sacrifício de Cristo afastaram-se dessa legislação. Alguns, talvez, já anteriormente tivessem suas reservas em relação ao ritual do templo; mas as implicações da obra de Cristo foram decisivas. O que para muitos cristãos judaicos da primeira geração deve ter sido uma questão de intuição espiritual recebeu comprovação clássica na carta aos Hebreus, que argumenta muito bem em favor da abolição de todo o sistema, em Cristo. Os cristãos deveriam ser muito gratos pela providência que levou à inclusão dessa obra no cânon do NT: se a lei cerimonial foi abolida em Cristo, não precisamos perder tempo alegorizando seus detalhes para encontrar neles alguma sombra da sua obra redentora. Quando o autor de Hebreus compara o sacrifício definitivo de Cristo com o sacrifício do Dia da Expiação, repetido anualmente, ele destaca o contraste, e não alguma semelhança entre os dois. O NT está na linha da tradição daqueles salmistas e profetas do AT que sabiam se aproximar de Deus por meio da adoração sincera, sem necessitar da mediação sacerdotal (SI 73.23-28), e reconheciam que ele não habitava em templos feitos por mãos, mas com o “contrito e humilde de espírito” (Is 57.15; 66.1,2).

O AT E A CONDUTA HUMANA

Se o AT é usado como regra de conduta, é fácil reconhecer sua insistência fundamental na justiça e na misericórdia, mas precisamos reconhecer também o fato de que a aplicação prática dessas virtudes era feita em contextos sociais muito distantes do nosso. Elas precisaram ser reaplicadas mesmo nos tempos do AT, quando a vida pastoril deu lugar à agricultura e depois, novamente,   a retribuição dos céus são reinterpretados como referência àqueles inimigos espirituais — o mundo, a carne e o Diabo — com os quais o cristão trava uma batalha interminável, está bem; mas não se deve supor que esse seja o significado desses textos do AT. Essa alegorização, com certeza, é necessária por motivos devocionais naquelas tradições cristãs que prescrevem a repetição regular do livro inteiro de Salmos. Isaac Watts, parafraseando SI 92.11, pode até cantar:

Todos os meus inimigos interiores devem ser mortos Satanás não deve violar a minha paz de novo... mas não foi isso que o salmista quis dizer quando escreveu: “Os meus olhos contemplaram a derrota dos meus inimigos; os meus ouvidos escutaram a debandada dos meus maldosos agressores”.

Mesmo sendo possível perceber um avanço ético em alguns estágios da narrativa do AT, ou até um avanço geral do início ao fim, não se deve pressupor que uma linha contínua possa ser traçada desde os tempos primordiais até o fim da história bíblica. As histórias patriarcais do Gênesis refletem um nível de comportamento civilizado que não pode ser facilmente equiparado àquele visto durante o período da conquista ou sob a monarquia. Até na época da monarquia, na verdade, a pena imposta pelo rei Asa a Maaca, a rainha-mãe, por seu envolvimento em um ritual cananeu (2Cr 15.16), parece exagerada- mente branda em comparação com os padrões mais rígidos dos comentaristas da Bíblia de Genebra (1560), que o censuram por ceder a uma “tola compaixão”.

Além disso, “problemas morais” dessa ordem não são peculiares ao AT. Quando as ações em questão são executadas por motivos políticos ou militares conhecidos, não constituem problemas no campo ético: sabemos muito bem com que facilidade essas razões tornam-se mais fortes do que considerações humanitárias. Mas constituem problemas morais quando assumem a forma de terror em nome de Deus ou pelos interesses do “destino manifesto” de uma civilização supostamente mais elevada, pois é aí que se pode esperar que as considerações humanitárias se tornem predominantes. E verdade, as formas de genocídio na história de Israel parecem marcantemente amadoras e ineficazes quando comparadas com os campos de extermínio europeus do início da década de 1940 ou, olhando um pouco mais para trás, com o desaparecimento total de tribos inteiras como os aborígines da Tasmânia. Mesmo assim, o Deus revelado no AT é justo e misericordioso; sua justiça e misericórdia são os padrões da justiça e da misericórdia do seu povo, e a conduta injusta ou sem misericórdia não combina com a sua natureza. Há poucas expressões mais refinadas acerca desse aspecto da sua natureza no AT do que a pergunta com a qual ele silenciou a reclamação patriótica de Jonas: “Não deveria eu ter pena dessa grande cidade?” (Jn 4.11).

Esta última referência nos lembra que o Deus de Israel é “o Juiz de toda a terra” (Gn 18.25); o AT retrata em uma grande tela o tratamento de Deus com as nações em geral, ao longo dos séculos, mostrando que ele “domina sobre os reinos dos homens e os dá a quem quer” (Dn 4.17,25,32). Isso antecipa a percepção de Schiller quando diz que “a história do mundo é o juízo do mundo”, mas insiste em que esse juízo é administrado pessoalmente.

O AT E A ORDEM SOCIAL

O AT destaca desde o início que o ser humano é um ser social. Isso está resumido na declaração do Criador em Gn 2.18: “Não é bom que o homem esteja só”; e é destacado também no relato da criação, de Gn 1.    27, onde o “homem” a quem Deus criou é a humanidade, o homem na sociedade: “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. A unidade social mais simples, a família, é prontamente instituída: pai, mãe e filhos. Até mesmo Caim, expulso da vida de uma comunidade fixa para seguir uma vida nômade, não precisa suportar o exílio sozinho: ele não somente se casa e cria uma  família, mas até constrói uma “cidade” — talvez um modesto acampamento de tendas, mas, mesmo assim, um ambiente em que homens, mulheres e crianças podiam viver em sociedade (Gn 4.17).

Tentativas de estabelecer comunidades independentes de Deus estão fadadas ao fracasso porque têm falta de coesão, como ficou demonstrado em Babel e, posteriormente, em outros lugares (Gn 11.1-9; Is 8.9,10); mas a sua graça une as pessoas em famílias, tribos e agrupamentos mais abrangentes (SI 68.6). As muitas genealogias dos livros do AT refletem essa ênfase na família e na solidariedade tribal, além de servir como esqueleto para ser revestido de uma narrativa viva. A valorização disso é demonstrada no NT nas duas genealogias do nosso Senhor (Mt 1.2-17; Lc 3.23-38), que fazem muito uso de dados do AT. Aliás, a solidariedade familiar, tribal e nacional no AT às vezes é tão destacada a ponto de ser indicada pela expressão “personalidade coletiva”; isso pode nos preparar para a distinção paulina das duas grandes solidariedades humanas ou personalidades coletivas “em Adão” e “em Cristo” (Rm 5.12-19; ICo 15.21,22).

Além disso, a responsabilidade do ser humano, não somente em relação a seus pares mas também em relação ao ambiente em que vive, é destacada. Há um vínculo entre as pessoas e a terra, no AT, que o leitor ocidental moderno tem dificuldade de entender; além disso, é um vínculo que é criado e mantido por Deus. Em Is 62.4,5 ele é retratado como um vínculo matrimonial. Esse vínculo aplica de forma intensa a um país a ordenança de Gn 1.26-30, na qual o homem recebe, sobre a terra e as criaturas que a habitam, um domínio que deve ser exercido por meio de mordomia responsável, e não de exploração egoísta. Em Rm 8.19-23, Paulo olha para o futuro na expectativa da realização universal dessa ordenança da criação, quando os filhos de Deus forem revelados.

As exigências sociais da lei de Deus são destacadas com detalhes específicos para a vida do seu povo, Israel. Espera-se das nações vizinhas que observem os bons costumes básicos da boa fé, a consideração pelos fracos e o respeito pela dignidade humana, e são censuradas quando os violam (Am 1.3—2.3), mas o conhecimento que Israel tem de Deus e de sua vontade é muito maior do que o conhecimento desses povos, e a responsabilidade de Israel, portanto, é muito maior (Am 3.2). A reputação do Deus de Israel aos olhos dos outros povos depende, em grande parte, do comportamento do seu povo.

A exigência de Deus para o seu povo é resumida de várias maneiras no AT. Podemos lembrar-nos do refrão do “código de santidade” no Pentateuco: “Eu sou o SENHOR [...] o seu Deus; por isso, sejam santos, porque eu sou santo” (Lv 11.45). Essa santidade é uma característica positiva e que abrange tudo; suas implicações negativas são corolários da sua essência positiva. Essa essência positiva é evidenciada em declarações como a de Mq 6.8: “Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o SENHOR exige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus”. A justiça e a bondade que as pessoas do povo de Deus devem mostrar umas às outras são a justiça e a bondade com que ele as tratou. Essas qualidades são aplicadas não somente na via principal da ética social, mas também em regras tão raras quanto aquela que proibia a pessoa que emprestava dinheiro de ficar com o manto do devedor durante a noite como garantia, “porque o manto é a única coberta que ele possui para o corpo” (Ex 22.27,28).

A lei da retaliação do AT — “olho por olho e dente por dente” (Ex 21.24) — à qual já nos referimos, está mais intimamente relacionada à lei áurea do que muitas vezes se pensa: “que seja feito a você como você fez aos outros” pode ser facilmente visto como corolário de “faça aos outros o que você gostaria que fizessem a você”.

Até mesmo quando a monarquia foi instituída em Israel, o rei não estava acima da lei que regulamentava a vida dos seus súditos. Quando Nabote se nega a vender sua vinha a Acabe, este fica aborrecido, mas não pensa em violar os direitos de Nabote até que Jezabel, que fora criada segundo uma outra ideia de reinado, dá passos para garantir a vinha para seu marido por meio de uma sequência de ações cruéis e juramentos falsos, o que acabou ocasionando a denúncia profética contra toda a dinastia de Acabe (lRs 21.1¬24). E quando, na geração seguinte, a crescente prosperidade mercantil conduziu à emergência em Israel de uma nova classe abastada, que podia comprar todas as pequenas propriedades e reduzir seus antigos proprietários a meros escravos, foram os profetas que condenaram a quebra da aliança demonstrada na aquisição de “campos e mais campos” por parte dos ricos e no moer “o rosto dos necessitados” (Is 5.8; 3.15; cf. Am 4.1; Mq 3.1-3). Esse tratamento dispensado ao próximo era um pecado contra Deus.

Na relação entre o povo de Deus e os povos vizinhos, há uma tensão não resolvida no AT. Por um lado, há advertências duras contra o casamento de seus filhos com os filhos dos povos e contra a assimilação: um tesouro fora confiado a Israel — o conhecimento de Deus — que poderia facilmente se perder ou ser dissipado se Israel não preservasse sua identidade nacional e religiosa. Daí o chamado a Israel para se manter separado dos outros povos. Ao mesmo tempo, o tesouro confiado a Israel deveria ser compartilhado com os outros, para que estes também viessem a conhecer o Deus vivo. Nos primeiros tempos do povo de Israel, alguns grupos não-israelitas juntaram forças com ele e aceitaram a aliança com Javé. Mas quando Israel se mudou do deserto para Canaã, a atração dos rituais de fertilidade praticados na terra conquistada tornou-se tão perigosa que foi imposta uma severa proibição quanto a fazer qualquer tipo de associação com os cananeus. Mesmo assim, algumas pessoas, como Raabe e Rute, isso sem falar dos gibeonitas (Js 9.3-27), reconheceram a grandeza do Deus de Israel e foram aceitas na comunidade da aliança. Mas foi no contexto do exílio babilónico e do seu retorno que a missão de Israel no mundo foi expressa mais claramente. Quando um grupo significativo de israelitas se achou vivendo como exilados em uma comunidade não-israelita, eles foram encorajados a participar de seu bem-estar e orar por sua prosperidade, porém não deveriam se envolver a tal ponto que não pudessem transcender os valores dessa comunidade estrangeira (Jr 29.4-10). Quando a permissão de voltar do exílio foi dada, a responsabilidade internacional de Israel foi descrita como a comunicação, em nível mundial, do conhecimento de Javé, cuja ação a favor de seu povo mostrava que somente ele era Deus (Is 45.22,23). A restauração dos israelitas os qualifica a serem suas testemunhas (Is 43.10), mas sua missão deve ser assumida e concluída pelo Servo do Senhor, que, além de cumprir um ministério para com Israel, é enviado como uma “luz para os gentios” para que a salvação de Deus chegue “até os confins da terra” (Is 49.6).

Junto com essa ênfase na difusão, o período subsequente ao retorno dos exilados testemunhou uma nova política de segregação, sob o governo de Esdras e Neemias, que não tem sido fácil de conciliar com o chamado para a missão mundial. A tensão entre esses dois aspectos estava viva ainda na época do NT, não somente no conflito entre a visão mais ampla de Jesus e o separatismo dos fariseus; mas também na igreja primitiva, no conflito entre os defensores da missão, livre da lei, aos gentios e aqueles cristãos judaicos que acreditavam que os convertidos dentre os gentios deveriam ser admitidos na comunidade cristã com salvaguardas semelhantes àquelas que regiam a admissão de prosélitos à comunidade de Israel. Os defensores da missão aos gentios de fato apelaram para a comissão do Servo do Senhor como sendo sua própria comissão (At 13.47). Nesse, como também em outros aspectos, o retrato do Servo em Isaías pode ser considerado o clímax do AT em sua função de preparo para o evangelho. 

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FONTE: BRUCE, F.F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Vida, 2008.



[1] John Milton (1608-1674) é o maior poeta épico da língua inglesa. Sua obra-prima é Paradise Lost [Oparaíso perdido, Ediouro, 2000]. [N. do T.]