15 de dezembro de 2013

Alan R. Millard - O texto do Antigo Testamento

ALAN R. MILLARD

A ESCRITA NO MUNDO DO ANTIGO TESTAMENTO

Quando o homem inventou a escrita, ele descobriu uma forma de preservar suas ideias e experiências para que atravessassem a barreira do tempo. Era natural que o Deus que estava preparado para falar a linguagem humana fizesse que suas palavras fossem registradas por intermédio desse meio humano. Pela sua providência, a maior parte da sua revelação foi dada a um povo que tinha herdado um alfabeto pronto para o uso universal, para que qualquer pessoa que quisesse pudesse aprender a ler os livros sagrados.

Moisés é o primeiro israelita de que temos notícia que escreveu algo (Êx 17.14), e ele certamente viveu num mundo em que a escrita era bem conhecida Entre 2000 e 1000 a.C., quase uma
dezena de escritas eram usadas na Síria-Palestina. Entre elas, as mais importantes eram os 600 sinais cuneiformes da Babilônia, inscritos com um buril em tabuinhas de barro, e os 700 sinais hieroglíficos dos egípcios, na sua forma cursiva para o dia-a-dia, o hierático, escrito com pena e tinta em papel (papiro) e sobre outras superfícies lisas. A escrita egípcia era pouco difundida fora de áreas de forte e contínua influência egípcia, como a Palestina e as cidades costeiras da Fenícia, ao passo que a escrita cuneiforme era o meio internacional de comunicação em todo o Oriente Médio. Este sistema e todos os outros eram complicados e empregados principalmente na administração, nas leis, na religião e na diplomacia. Constituíam praticamente um monopólio da classe dos escribas.

Um pouco antes de 1500 a.C., surgiu um rival que, eventualmente, suplantou todos os outros: o alfabeto.
Provavelmente familiarizados com o egípcio, os inventores semitas do alfabeto descobriram como um pequeno conjunto de símbolos poderia substituir os incômodos hieróglifos: era necessário um sinal para cada som da língua, em torno de 30 ao todo. Os sinais eram imagens, escolhidas, podemos supor, de acordo com o princípio acrofônico “dado=d”. Como nenhuma palavra semítica começa com vogal, e já que as vogais são suplementares às consoantes nas línguas semíticas, ainda que necessárias, não era vital registrá-las. (Os sinais vocálicos foram sistematicamente criados quando os gregos tomaram emprestado o alfabeto em torno de 900 a.C., pois sua língua não podia ser escrita claramente sem esses sinais.) Ao final do segundo milênio a.C., o alfabeto estabilizou-se e começou a desalojar os outros sistemas. Ele gerou imitações pelas mãos de escribas treinados na tradição babilónica, os quais produziram alfabetos de sinais cuneiformes para uso em superfícies de argila, especialmente em Ugarite, na Síria. Por menor que seja o número de exemplos do alfabeto nascente, serve para mostrar o amplo uso da escrita, que se tornou possível por meio da simplicidade do sistema alfabético, quebrando assim o monopólio dos escribas.

A ESCRITA NO ANTIGO ISRAEL

Na conquista de Canaã, Israel tomou posse de cidades em que a escrita era conhecida, e o alfabeto básico era familiar. História, leis, profecias, itinerários, narrativas, listas de impostos, tudo já era registrado com facilidade (cf. Jz 8.14). Infelizmente, seguindo a prática egípcia, o alfabeto era normalmente escrito em papiro, um papel vegetal que se desfaz em solo úmido; por isso, não temos exemplos para mostrar a extensão e o estilo da escrita israelita antiga. Pequenas amostras de hebraico antigo sobreviveram, presentes em materiais mais duráveis, cerâmica e pedra, que nos permitem ver como a escrita era usada na vida diária e inferir a existência de livros de couro e de papel em forma de rolo. Isso não nos permite, nem de longe, deduzir que todos sabiam ler ou escrever, mas nos tempos de Isaías e Jeremias parece provável que havia poucas aldeias sem pelo menos um habitante que pudesse fazê-lo. O Antigo Testamento também nos dá essa impressão, embora qualquer obra de homens instruídos —como é o caso — tenderá a destacar a habilidade deles!

Esse pano de fundo ajuda-nos quando consideramos as origens e o desenvolvimento dos livros do Antigo Testamento. Informações valiosas sobre os hábitos dos escribas podem ser tiradas dos próprios documentos antigos, e elas podem ajudar-nos a detectar os tipos de erro cometidos à medida que uma geração copiava os livros de outra. Até mesmo notas insignificantes, escritas em fragmentos de cerâmica, evidenciam a habilidade de uma eficiência prática, o cuidado para que se alcançasse a legibilidade, um modo de escrita aceito. Um cuidado semelhante pode ser identificado nos manuscritos literários assírios, babilónicos e egípcios de 2000 a.C em diante, os quais fornecem uma analogia satisfatória para a prática israelita. Por um lado, existe uma grande preocupação em reproduzir um texto antigo de forma exata, talvez com a atualização da ortografia, observando os danos causados à cópia mestra, contando as linhas, acrescentando o nome do escriba, às vezes também o nome de um revisor, a(s) fonte(s) da cópia mestra (ou cópias mestras), a data e o destino da cópia — rei, templo ou indivíduo. Por outro lado, uma composição podia passar por mudanças editoriais e por revisão, criando uma ampla variação entre diversas cópias. Nesses casos, as diferenças são muitas vezes inexplicáveis ou sem sentido agora e não seguem padrão algum; são impossíveis de ser descobertas ou previstas com base em apenas um texto, fato que precisa receber peso especial na hora de reconstruir a história literária dos escritos do Antigo Testamento.

Para leitura adicional acerca do tema desta seção, v. The Practice of Writing in Ancient Israel, The Biblical Archaeologist 35 (1972), p. 98-111; Approaching the Old Testament, Themelios 2 (1976), p. 34-9, ambos por este autor.

O TEXTO HEBRAICO TRADICIONAL DO ANTIGO TESTAMENTO

A escrita já existia em Israel, mas não sabemos como e quando os livros que herdamos foram escritos pela primeira vez, pois não há cópias disponíveis anteriores ao terceiro século a.C. As cópias mais antigas que ainda existem, os manuscritos do mar Morto, revelam certa diversidade que vai ser discutida a seguir. Elas também revelam a existência, entre 200 a.C. e 65 d.C., da forma textual conhecida em um estágio posterior como o Texto Massorético (TM) ou Tradicional, no qual as traduções para as línguas modernas são baseadas.

A partir do exílio, o hebraico decaiu para o status de língua de uma minoria entre os judeus, embora um dialeto persistisse na Judéia, sendo então substituído pelo aramaico, a língua franca do Império Persa. A medida que o processo continuava, havia a necessidade crescente de preservar a pronúncia “correta” do texto da Bíblia hebraica na leitura da sinagoga. Para ajudar o leitor, algumas consoantes podiam representar vogais, um uso que se iniciou no período da monarquia e que alcançou o seu pico na época herodiana. Por volta dos séculos VII e VIII d.C., surgiram métodos mais precisos de representação de vogais e acentos, que culminaram no esquema de pontos e sinais colocados acima, abaixo e dentro das letras, usados desde então para produzir os sons e a entonação aceitos. Os estudiosos judeus que aplicaram esse sistema ao texto consonantal herdaram regulamentações rígidas, designadas para manter a precisão nas cópias, as quais eram comparáveis às antigas atitudes babilónicas e, talvez, derivadas delas. Eles também registraram variantes no texto escrito que lhes foram repassadas (a Massorá).

Algumas dessas variantes, na verdade, corrigiam erros que foram conservados como relíquias no texto escrito; assim, em Is 49.5 está escrito lõ “não”, como está na ARC, enquanto a Massorá nos instrui a ler lô “a ele”, como na ARA, RV, RSV, NEB, NVI e manuscrito A do mar Morto de Isaías. Outras notas sugerem vogais alternativas para um conjunto ambíguo de consoantes, como 2Sm 18.13, em que “se eu tivesse atentado traiçoeiramente contra a vida dele” ou “contra mim” dependem de napsô e napsî respectivamente. As formas no texto escrito são denominadas kethîbh “escrito”, e as anotadas pela Massorá, nas margens, Qerê “que se leia”.

A tradição também relata algumas passagens em que o texto fora alterado para evitar ideias inaceitáveis, como em ISm 3.13, em que Deus diz que os filhos de Eli “atraíram maldição sobre si mesmos (cf. VA, RV), em vez de “me amaldiçoaram”(cf. RSV, NEB; a NVI traz: “seus filhos se fizeram desprezíveis”).

Esse texto massorético é representado hoje por alguns manuscritos copiados nos séculos nono e décimo d.C., e os principais estão preservados no Cairo, Jerusalém, São Petersburgo e Londres e por todas as Bíblias hebraicas escritas ou impressas posteriormente.

TEXTOS MAIS ANTIGOS

A recuperação dos manuscritos do mar Morto provou a existência de outros textos hebraicos além do tipo tradicional, na Palestina, durante o século I a.C. até 68 d.C.

Tem-se dado destaque a esses textos variantes inevitavelmente porque são novos para nós, mas devemos observar que eles são minoria entre os manuscritos do mar Morto e, além disso, são muito fragmentários. Suas diferenças do texto massorético são mais do que erros acidentais resultantes de enganos dos escribas, embora estudos mais aprofundados mostrem que muitas delas são deslizes, e não mudanças intencionais. (Assim, o acréscimo de Ex 20.11 a Dt 5.15, em uma das cópias, pode ter ocorrido em virtude de uma associação mental inconsciente.) No livro de Jeremias, um pequeno fragmento parece ter um texto mais curto do que o massorético, concordando de certa maneira com o texto da LXX, que é um oitavo mais curto do que o TM, nesse livro. (Em Jr 10, os v. 6-8,10 são omitidos, e o v. 5 vem depois do 9.) Um texto de ISm 1 e 2 faz o contrário: acrescenta várias frases. Algumas delas, de novo, são encontradas na LXX (e.g., 1.25 parece ter começado com “Eles vieram perante o Senhor, e o seu pai ofereceu o sacrifício como ele fazia ano após ano ao Senhor”) e algumas não, como em 1.22, onde lemos explicitamente que Samuel deveria ser um nazireu para sempre, como implica o v. 11 e como defende a tradição judaica posterior. Mais tarde, vamos discutir questões como: qual era a liberdade que os escribas tinham ao copiar um texto bíblico, quão livres eram para acrescentar comentários ou explanações desse tipo, ou de omitir frases repetidas, e se havia classes diferentes de cópias, como mais tarde quando foram implantadas regras rígidas para a produção de textos para a leitura pública. Havia claramente várias tradições de texto, talvez desenvolvidas em comunidades separadas (Palestina, Egito e Babilônia são lugares sugeridos), mas não necessariamente as mesmas para cada parte da Bíblia. Quando elas divergiam do texto ancestral comum a todas não se sabe, e é uma questão relacionada à história do reconhecimento da autoridade dos livros do cânon do Antigo Testamento (v., a seguir, p. 33). 

CRÍTICA TEXTUAL

Esses diversos tipos de texto em hebraico, agora revelados, realçam o valor da crítica textual e complicam sua prática. O objetivo dessa arte é recuperar tanto quanto possível as palavras do autor ou a primeira forma escrita do livro em estudo. Os erros que se introduziram ao longo de séculos de cópias precisam ser detectados e corrigidos sempre que possível, acréscimos precisam ser descobertos e removidos e outras alterações precisam ser substituídas. Se não forem fundamentadas em evidências de manuscritos, essas atividades são meramente teóricas e podem se tornar muito subjetivas.

Comparar uma cópia com outra pode revelar os erros de um escriba; quando todas as cópias estão de acordo, a descoberta dos erros é mais difícil. Sinais de que algo pode estar errado são palavras gramaticalmente incorretas ou ininteligíveis, divergências com as versões antigas (v., a seguir, p. 19) ou com citações antigas, e características singulares que destoam do texto como um todo. Nenhum desses sinais é conclusivo por si só; cada caso precisa ser analisado individualmente. Os tradutores antigos talvez tenham parafraseado, as citações podem ser inexatas e uma peculiaridade irregular ou ininteligível pode mostrar-se aceitável por meio de uma nova descoberta. Mesmo assim, a crítica textual tem tido muito sucesso, dando-nos um texto mais claro, com maior probabilidade de ser autêntico, e uma compreensão melhor das palavras existentes. Alguns exemplos vão demonstrar os métodos. Entre os erros simples, temos:

a)            Confusão de letras semelhantes como der. Gn 10.4: “Dodanim”; lCr 1.7: Rodanim”.

b)           Transposição de letras, como em SI 49.11, em que o qirbãm do TM é traduzido por “pensamento interior” pela ARC (significa “interior”, “entranhas”), mas deveria ser lido qibrãm, “seus túmulos” como está na NVI.

c)            Repetição por engano (“ditografia”), e.g., 2Rs 19.23 TM brkb rkby, em vez de brb rkby “com meus carros sem conta”.

d)           Omissão por engano (“haplografia”) exemplificada em muitas cópias que omitem Js 21.36,37 com um salto das palavras “tribo de Rúben” para “tribo de Gade”, cf. lCr 6.63,64. O manuscrito A de Isaías do mar Morto tem um bom exemplo: o escriba saltou de “templo do SENHOR”, no final de 38.20, para “templo do SENHOR”, no final de 38.22, omitindo completamente os v. 21, 22; eles foram acrescentados mais tarde numa nota marginal.

e)           Separação incorreta de palavras. Um exemplo excelente é Am 6.12 TM bbqrym AV, RV, NVI, ACF: “lavrar-se-á nela com bois?”, a ser lido bbqr ym “será que os bois podem puxar o arado no mar?” como a BLH em português, e também expressões equivalentes em inglês (RSV, NEB), dando sentido e poética melhores.

O grau de incerteza cresce com a extensão e a complexidade de qualquer suposto erro. Suponha que a haplografia em Is 38 (no item d citado) tivesse prevalecido em todas as cópias posteriores; seria muito difícil corrigir o erro com base somente no texto hebraico.

Além de mudanças resultantes de erros, pode ter havido alterações intencionais feitas para “melhorar” o texto. Substituições bem-intencionadas de “amaldiçoe a Deus” por “abençoe a Deus”, além das que estão registradas na tradição, vistas anteriormente, podem ser observadas em Jó 1.11; 2.19; lRs 21.10 etc., e do nome do deus Baal por “vergonha”, nos nomes pessoais Is-Bosete (2Sm 2; cf. lCr 8.33) e Mefibosete (2Sm 9.6; cf. lCr 8.34). A nota parentética, “esses nomes foram mudados”, em Nm 32.38 pode ser uma orientação ao leitor para evitar nomes de divindades pagãs. Notas desse tipo, denominadas “glosas”, podem acrescentar informações de atualização, embora seja muitas vezes impossível decidir se são obra do autor ou de um escriba posterior. Podemos ver alguns casos em Gn 14.2,3,7,8,17 (“que é...”); em Rt 4.7; e lRs 8.2 “o sétimo mês”. A possibilidade de rearranjos mais significativos nos textos, acidentais ou intencionais, como faz a NEB (em Is 27; 38; 53, por exemplo), deve ser admitida, mas é uma questão de opinião e não pode ser comprovada.

Descobertas em outros documentos antigos podem lançar luz sobre passagens em que um erro textual não parece existir, mas mesmo assim o texto permanece obscuro, contendo, talvez, uma das 1.500 palavras que só aparecem uma vez no texto hebraico. O ugarítico, uma língua próxima do cananeu e do egípcio, preservou uma palavra para navio que nos permite traduzir Is 2.16, “e contra todas as pinturas desejáveis” (ARG), de forma mais satisfatória por “e todo barco de luxo” (NVI) ou por “toda bela embarcação” (RSV).

Todos esses métodos têm de ser usados com prudência, com atenção a cada alternativa, com cuidado para não impor um sentido estranho ao texto. O texto tem sido preservado de forma extraordinária ao longo de muitas gerações; é um tesouro a ser valorizado, estudado e reparado nos lugares em que o tempo causou pequenas imperfeições. Não pode ser distorcido ou remodelado para agradar gostos e opiniões sempre em mudança. A todos os que estão dispostos a ouvir de forma reverente e atenciosa, ele transmite sua mensagem eterna.

FONTE: BRUCE, F.F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Vida, 2008.