8 de novembro de 2013

Thomas L. Constable - Uma teologia de Josué, Juízes e Rute: Tópicos especiais em Juízes

Josué e Juizes lembram dois lados de uma moeda. Josué é essencialmente uma
revelação positiva e Juizes, uma negativa. Josué demonstra que vitória, sucesso e
progresso ocorrem quando o povo de Deus confia e lhe obedece consistentemen-
te. Por outro lado, Juizes demonstra que derrota, fracasso e retrocesso acontecem
quando o povo de Deus não confia e não lhe obedece consistentemente. Consi-
derando que Josué revela a fidelidade de Deus em dar a Israel a Terra Prometida,
Juizes enfatiza a infidelidade de Israel em subjugar a terra. Josué realça o ódio de
Deus contra o pecado, mas Juizes exalta a graça de Deus aos pecadores.


A infidelidade de Israel em subjugar a terra. Nas gerações depois de Josué
e dos anciãos que o seguiram, os israelitas não expulsaram os cananeus restan-
tes da terra (Jz 1.8-10). Esta situação se deu porque a geração mais velha não
passou o conhecimento do Senhor para os filhos (1.10). A nova geração não se
lembrava do que Deus fizera para o seu povo e o que Ele lhes dissera no passado
(3.7; 8.34). Em vez de destruir os cananeus, o povo de Deus permitiu que es-
ses inimigos vivessem entre eles (1.27-33; 2.2; 6.10). Ironicamente, em vez de
destruir os cananeus, os israelitas começaram a lutar entre si e destruir uns aos
outros (5.17,18,23; 8.5-8; 12.1-6; 18.24,25; 20.8-21.25).

A desobediência ao mandamento de Deus no que diz respeito aos cana-
neus, constituiu a apostasia espiritual. Em vez de permanecerem leais ao Senhor
e cultuá-Lo exclusivamente, como Ele ordenara, os israelitas toleraram, depois
passaram a admirar e por fim cultuaram os deuses cananeus (cf. Jz 17-18). Em
vez de exterminar os cananeus, o povo de Deus fez concerto com eles (2.1,2).

Em vez de destruir os altares pagãos, os israelitas prestaram cultos através deles
(2.11-13,17,19). A natureza sincretista da religião cananéia incentivou a apos-
tasia de Israel. Os cananeus não exigiam que os israelitas abandonassem a ado-
ração ao Senhor. Tão-somente incentivavam o povo de Deus a unir-se com eles
na adoração aos seus deuses junto com a adoração ao Senhor. Mas o Senhor
considerou este comportamento como um abandono a Ele (3.7). 

A apostasia espiritual rendeu amargos frutos para a cultura israelita. Poli-
ticamente, Israel começou a desintegrar-se. Em vez de continuar funcionando
como grupo de doze tribos unidos em termos de vida e propósito, a hostilidade e
o egoísmo tribal foram cada vez mais acentuados (Jz 5.17,18,23; 8.5-8; 12.1-6).
A unidade nacional deteriorou-se e a desorganização política aumentou.

O caos social marcou o período dos juízes. O desrespeito pela lei cres-
ceu. As pessoas não tinham mais segurança para sair em público (Jz 5.6). Elas
tomavam as leis nas próprias mãos (18.24,25). E a imoralidade aumentou.

As práticas que caracterizavam Sodoma e Gomorra nos dias de Abraão agora
marcavam a sociedade israelita (Jz 19; cf. Gn 19). Até um dos juízes de Israel,
Sansão, viveu uma vida imoral.  O escritor de Juízes resumiu a situação, di-
zendo: “Cada qual fazia o que parecia direito aos seus olhos” (Jz 17.6; 21.25).
A anarquia prevaleceu.

Em consequência destas condições, um movimento se desenvolveu em
Israel para eleger um rei que desse ordem ao caos. Algumas pessoas pensaram
que Gideão seria um bom rei (Jz 8.22). Mas Gideão sabiamente recusou a
oferta e exortou o povo a dedicar-se a seguir ao Senhor como rei em harmo-
nia com a lei mosaica (v. 23). O filho de Gideão, não tão sábio quanto o pai,
tirou proveito da popularidade de Gideão para tornar-se rei de um segmento
de israelitas no norte com sede em Siquém (Jz 9). Sendo um mau regente, foi
assassinado pela sua própria gente pouco tempo depois que começou a reinar
(w. 50-57).  A medida que as condições pioravam em Israel por causa da
contínua apostasia do povo, o movimento para a eleição de um rei ganhou
forças. Mais tarde, o povo exigiu de Samuel um rei (1 Sm 8.5) e recebeu Saul,
que foi outra decepção.

Qual foi a causa de toda essa dificuldade durante o período dos juízes? Foi
a infidelidade de Israel a Deus, recusando-se a subjugar os cananeus na terra. A
infidelidade de Israel a Deus é um dos principais temas no livro de Juízes.

A graça de Deus aos pecadores. Outra revelação importante, que está em ní-
tido contraste com a infidelidade de Israel, é a graça de Deus na forma como Ele
tratou com o povo rebelde. Por que Deus não permitiu que os israelitas fossem
absorvidos na vida cananéia e perdessem a identidade nacional? Por causa da pro-
messa do concerto com Abraão de levar bênçãos para toda a Terra através dos seus
descendentes (Gn 12.3). Os procedimentos graciosos de Deus para com o povo
firmavam-se na fidelidade divina às promessas do concerto a Abraão. 

As manifestações da graça de Deus são abundantes em Juizes. Deus avisava
periodicamente o povo contra a apostasia continuada (Jz 2.1-4; 6.7-10; 10.10-
14). Estas advertências eram provisão da graça do Senhor.

Quando os israelitas clamavam, desesperados, ao Senhor, Ele os livrava
dos opressores. O ciclo repetido de pecado, escravidão, súplica e salvação enfa-
tiza a graça de Deus esbanjada nos rebeldes pecadores. Como em Josué, o Deus
guerreiro conduziu o povo na batalha contra os inimigos. O escritor de Juizes
ressaltou que era Deus que os livrava (Jz 3.9,15; 7.2,9; 10.12; cf. 18.10). Deus
não esperou que o povo tivesse limpado as suas vidas (ou seja, tivesse se arre-
pendido) para então salvá-los. Ele os livrou quando lhe clamaram por socorro
(3.9,15; 4.3; 6.6-9; 10.10,12; 16.28; cf. Rm 10.13). 

Os juizes que Deus levantou como instrumentos de libertação e liderança
também foram uma provisão da graça (Jz 2.16).  Uns juizes eram espiritual-
mente fortes, outros fracos, havia homens ou mulheres, cuja procedência era de
diversas tribos e regiões de Israel. Na maioria das vezes, eram líderes que ficavam
sozinhos. No caso de Sansão, o texto dá a entender que ele sofria oposição não
só dos filisteus, mas também dos israelitas (15.11). Contudo, Deus usou estas
figuras solitárias para inverter o curso da situação em Israel em muitas ocasiões.

Deus não precisava de um grande exército israelita (cf. 7.1-8). Um indivíduo
bastava nas suas mãos, um testemunho do seu poder e sabedoria.

O Espírito de Deus é outra manifestação da graça divina que forma um
tema significativo em Juizes. Deus capacitou os seus instrumentos, os juizes,
de vários modos. Concedeu-lhes o poder da presença divina (Jz 2.18; 6.16) e a
autoridade da sua comissão (6.14). Todavia, o mais importante, o Espírito en-
trou nos juizes, revestindo-os, por assim dizer, dEle (3.10; 6.34; 11.29; 13.25;
14.6,19; 15.14,19). Este dom especial com poder sobrenatural não foi dado a
todos os crentes daquela época, nem foi concedido permanentemente a todos
que o receberam (cf. 16.20). Capacitados pelo Espírito de Deus, os juizes ven-
ceram oposição e deram libertação para os israelitas. 

A disciplina que Deus enviou aos israelitas por causa da apostasia foi uma
bênção disfarçada. Cada opressor estrangeiro tornou a vida difícil para o povo
de Deus. Mas ao afligir os israelitas, os estrangeiros faziam com que Israel aca-
basse se voltando ao Senhor. A disciplina de Deus era educativa como também
punitiva. Quando o povo de Deus apartou-se dEle, o Senhor não os abandonou;
afligiu-os para fazê-los voltar a Ele (cf. Hb 12.1-13).

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.