13 de novembro de 2013

Thomas L. Constable - Uma teologia de Josué, Juízes e Rute: Tópicos especiais em Rute

Em Josué e Juízes, o foco da revelação está na terra que Deus prometeu
aos descendentes de Abraão. Em Rute, o foco passa para a semente que Ele
prometeu. Em particular, a semente em vista é a que viria da tribo de Judá para
dominar o povo de Deus (Gn 49.10).

Em geral, o principal tema teológico em Rute é o trabalho externo do propó-
sito divino pela instrumentalidade humana.  Mais especificamente, a soberania
irresistível de Deus e a sua graça ilimitada recebem muita atenção em Rute.


A soberania irresistível de Deus. Deus prometeu a Abraão que Ele faria dos
seus descendentes uma grande nação (Gn 12.2). Depois, revelou a Judá que pela
sua descendência, Ele levantaria um rei (49.10). Em Rute, o escritor relacionou
Davi à promessa desse regente. Traça a ascendência de Davi a Judá e Belém e
liga o concerto abraâmico (não o mosaico) com a dinastia davidica, juntando as
eras patriarcais e monárquicas. 

Como Deus apresentou Davi é um tema principal em Rute e uma de-
monstração significativa da soberania irresistível de Deus na Bíblia. No perí-
odo dos juízes, a geração de Noemi encontrou muitas dificuldades, algumas
das quais eram a disciplina de Deus ao povo pelos pecados destes. Em Deute-
ronòmio, Deus prometeu que se o povo se afastasse dEle, Ele tornaria a terra
improdutiva (Dt 28.24,38-40,42,48). Logo na introdução do livro de Rute,
houve uma fome na terra (Rt 1.1). Esta situação levou o marido de Noemi,
Elimeleque, e a sua família a migrar para Moabe. Lá, Elimeleque e os seus dois
filhos morreram.

Quando acabou a fome em Canaã, provavelmente devido à volta dos israelitas
a Deus (Dt 28), Noemi decidiu se mudar de volta para Israel. Encorajou as noras a
permanecerem na pátria delas, porque ela não podia lhes oferecer maridos de acor-
do com o costume do levirato, porque ela era velha demais para dar à luz filhos (Rt
1.12; Dt 25.5-10). Não havia como esperar um herdeiro. O tema da calamidade é
forte na primeira parte de Rute. Hongisto mostra que a declaração de Noemi “eu
sou muito velha para conceber” (Rt 1.12, tradução do autor) está no centro do
quiasmo  que constitui Rute 1. A incapacidade de dar à luz filhos apresentava obs-
táculo importante para Deus proporcionar uma semente para ela (cf. 4.17).

A determinação de Rute de confiar no Senhor, entregar-se a Ele e mudar-se
para Israel com a sogra, ofereceu um vislumbre de esperança, e foi essa deter-
minação que Deus abençoou. É claro que Rute não estava se mudando apenas
fisicamente de Moabe para Israel. Estava deixando o povo e deuses de Moabe e
transferindo a sua lealdade ao povo de Deus e ao próprio Senhor (Rt 1.16-18).
Rute, descendente de Ló (que escolheu sair da Terra Prometida na esperança de
achar maior bênção em outro lugar), inverteu a decisão do seu antepassado e
mudou-se para a Terra Prometida na busca das bênçãos do Senhor.  Por causa
desta decisão, Deus a abençoou abundantemente.

Tendo instalado-se em Belém, Rute e Noemi concordaram com um plano
para que elas experimentassem legitimamente as bênçãos de Deus (Rt 2.2). 

A bênção inicial realmente ocorreu. Boaz tomou conhecimento de Rute, e ela
alcançou favor aos olhos dele (w. 13,19). Incentivada pelo amor (hesed) leal de
Deus (2.20; cf. 1.8; 3.10), Noemi e Rute se envolveram em outro plano para
obterem descanso (3.1; cf. 1.9; 3.18), principalmente para Rute, mas também
para Noemi (3.1-8). A execução do plano é o ponto fundamental na história,
o centro para a estrutura quiasmática do livro.  O plano acarretava essencial-
mente em Boaz redimir Rute e, com isso, Boaz proporcionaria bênçãos para
Rute e Noemi, comprando a terra de Elimeleque e, esperançosamente, gerando
um herdeiro para ele através de Rute (3.13; 4.3-12). Lógico que este tema da
redenção é forte em Rute.

O plano de Rute e Noemi achou cumprimento no matrimônio de Rute
com Boaz (Rt 4.13). Pelo visto, Rute 4.13 é o versículo fundamental do livro,
porque registra a maior bênção de Deus para Rute, Boaz, Noemi e todo Israel.
Deus permitiu que Rute concebesse e desse à luz um filho. Neste ponto, o tema
da bênção alcança o clímax. Parte das bênçãos de Deus dizia respeito à proprie-
dade material para Rute, Noemi e Boaz, como Deus prometera aos piedosos
no concerto mosaico (2.1; 3.11; 4.11; cf. Dt 28). As bênçãos de Deus também
envolveram descanso para Rute (Rt 1.9; 3.1), Boaz (3.18) e Noemi. Outras refe-
rências às bênçãos de Deus em Boaz (2.19) e Rute (3.10) as relacionam às expe-
riências deles. Por estas bênçãos, Noemi bendisse o próprio Deus (2.20; 4.14).

Através de Boaz e Rute, todo o Israel foi abençoado. E as bênçãos de Deus para
o mundo através de Israel foram possibilitadas pela união de Boaz e Rute. E o que estava prefigurado na bênção de Rute, que originalmente era estranha aos
concertos de Israel. 

O modo como Deus deu um herdeiro para Elimeleque que cumprisse, em
parte, a promessa relativa ao descendente-rei de Judá constitui a fascinação da
história de Rute e a grande prova da soberania de Deus. Tantas situações apa-
rentemente impossíveis tiveram de ser superadas para que o leitor se identificasse
prontamente com Noemi no seu desespero inicial no capítulo 1. Mas Deus incri-
velmente fez que a sua vontade acontecesse. E claro que o livro de Rute atesta que
o plano de Deus não pode ser frustrado nem mesmo pela anarquia egoísta do seu
povo que dominou durante o período dos juízes. A sua soberania é irresistível.
A graça ilimitada de Deus. O livro de Rute revela muito sobre o plano de
Deus. Mas também faz importante contribuição para compreendermos como
Deus trata as pessoas.

Uma das características dos procedimentos de Deus com as pessoas é a sua propensão — poderiam dizer a sua preferência — em trabalhar com indivíduos e através de indivíduos que as pessoas consideram material improvável. O livro de Juízes também mostra este fato. Muitos juízes eram indivíduos improváveis de Deus usar por causa do sexo (Débora), pouca fé (Gideão), formação familiar (Jefté) ou devassidão moral (Sansão). Mas Rute era especialmente pouco promissor. Era mulher, era estrangeira, era membro de uma nação inimiga dos israelitas. Além disso, era viúva e pobre.

Por que Deus não usou uma israelita rica para dar à luz ao avô de Davi?
Rute entrou na terra por causa da fé no Senhor (Rt 1.16). Submeteu-se
às leis de Israel como expressão do seu compromisso com Deus (2.3; 3.9). Por
conseguinte, foi respeitada pelos israelitas e também usada por Deus no seu
plano de levar bênção para o mundo inteiro. A chave era a fé no Senhor. Pode
ser que ela tivesse mais fé que muitas outras mulheres dos seus dias. A confiança
no Senhor venceu todas as outras limitações e qualificou-a para o uso de Deus.

O fato de Rute ter sido incorporada na vida israelita é um problema para
muitos estudiosos do livro de Rute. Deus anteriormente declarara na lei mosaica
que nenhum moabita seria admitido na comunidade do concerto (Dt 23.3). 

Por que Rute foi admitida em Israel e tratada como igual? Há quem explique que
Boaz negligenciou a proscrição mosaica, porque ele amava Rute. Mas esta opinião
não faz justiça a Boaz que consta em todos os outros lugares no livro de Rute como cumpridor cuidadoso das providências da lei mosaica. Outra possibilidade
é que Deuteronômio 23.3 só dizia respeito a moabitas masculinos, visto que o
texto hebraico usa o gênero masculino do substantivo. Mas o gênero masculino
teria sido o uso normal para descrever todos os moabitas independente do gê-
nero. Não há indicação em outro texto bíblico de que a exclusão só se aplicava a
moabitas masculinos. O mais provável é que Rute foi admitida porque ela pusera
a fé no Senhor. Esta era a exigência essencial para a entrada na comunidade do
concerto, conforme Deus explicou a Abraão quando lhe deu o rito da circuncisão
(Gn 17.9-14,23). O concerto mosaico que foi acrescentado à vida israelita gera-
ções mais tarde, especificava, entre outras coisas, as exigências para a naturaliza-
ção de pessoas que quisessem imigrar para Israel provenientes de outras nações.

A proscrição contra os moabitas em Deuteronômio referia-se, ao que parece, às
pessoas que não criam no Senhor, ainda que quisessem se tornar israelitas. Teria
havido muitos casos semelhantes. De acordo com instruções previamente dadas
(Gn 17), todo aquele que se tornasse crente no Senhor poderia se tornar israeli-
ta.  O propósito de Israel no mundo era, afinal de contas, levar as nações a uma
relação salvifica com Deus (Gn 12.1-3; Ex 19.5,6). Em harmonia com a promessa
a Abraão, Deus recebia todo aquele que se tornasse crente nEIe independente de
raça, sexo ou nacionalidade. Este fato mostra a graça ilimitada de Deus.

Rute teria sido vista com desaprovação pelos outros israelitas, porque ela
era moabita mulher, mas também porque era necessitada e viúva.  Boaz viu
além da necessidade exterior e posição social inferior, contemplando-lhe o ca-
ráter excelente e íntegro que foi purificado, podemos presumir, pela fé no Se-
nhor. Semelhante a Deus, Boaz estava disposto a colocar Rute em seus planos
por causa da fé dela e pelo que tinha acontecido na sua vida. Boaz e Deus não
só anularam a lei mosaica, mas também a tradição e as convenções sociais por
causa da fé de Rute. A graça de Deus superabundou no caso de Rute.

A última seção do livro de Rute refere-se a Perez (Rt 4.18). Perez era filho
de Judá que nasceu de uma mulher cananéia, Tamar, que, como Rute, valorizou
as promessas de Deus e tornou-se crente no Senhor (Gn 38).  A referência a
Perez relaciona Davi à linhagem de Judá da família de Abraão. A referência a
Perez também exalta ainda mais a graça de Deus, lembrando o leitor que Deus, na história antiga, foi gracioso com outra estrangeira e a incorporou na família
de Israel, inclusive na linhagem especial de bênçãos da mesma maneira que ele
fez com Rute agora. 

CONCLUSÃO

Os livros de Josué, Juízes e Rute estão repletos de revelação rica. Durante
os aproximadamente 300 anos nos quais os eventos registrados nestes livros
aconteceram, Deus ensinou muita coisa aos israelitas. Na sua Palavra, Ele pre-
servou importantes lições deste período para as pessoas de todas as eras subse-
qüentes.

Estes livros mostram que Deus realmente trata das pessoas como Ele disse
que trata. Fiel e inexoravelmente, Ele faz acontecer o que incondicionalmente
prometeu. E lida pacientemente com as pessoas, dando bênçãos a todo aquele
que confia nEle e lhe obedece, disciplinando todo aquele que não.

Considerando que certos temas traspassam todos estes três livros, em cada
um Deus ensina importantes lições. A fidelidade de Deus, a provisão de salva-
ção e a importância da fé estão entre os temas comuns mais importantes. Em
Josué, destacam-se a fidelidade de Deus em levar Israel à Terra Prometida e o
ódio de Deus ao pecado. Em Juízes, a infidelidade de Israel em subjugar a terra
e, em contrapartida, a graça de Deus para com os pecadores constituem temas
principais. Em Rute, a soberania de Deus em executar o seu plano e a sua graça
em tratar com as pessoas dominam a revelação.

Estes três livros também apontam para o futuro e preparam os eventos fu-
turos e a revelação futura. Formam um segmento importante da auto-revelação
plena de Deus.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.