5 de novembro de 2013

Thomas L. Constable - Uma teologia de Josué, Juízes e Rute: Tópicos especiais em Josué

JOSUÉ

Os principais pontos teológicos acentuados no livro de Josué são dois.

Uma das suas grandes revelações é a fidelidade do Senhor em dar a Israel a Terra
Prometida. A outra é a revelação do ódio de Deus ao pecado.

A fidelidade de Deus em dar para Israel a terra. O livro de Josué tem duas
divisões principais: a conquista da terra (Js 1-12) e a divisão da terra (Js 13-
24). O registro da divisão da terra termina no capítulo 21. O que vem a seguir
são instruções para o assentamento na terra (Js 22-24). Claramente, o livro
trata da entrada de Israel na herança em Canaã que Deus prometeu. A terra

foi prometida aos patriarcas, esperada depois disso e finalmente reivindicada
por Josué. Embora a plena ocupação da Terra Prometida não fosse alcançada
nos dias de Josué, Israel começou a tomá-la.  Este registro de Deus dar a terra
para Israel é revelação importante da fidelidade divina à promessa do concer- 
to. Quando Deus fala, podemos confiar na sua palavra. Quando Ele promete,
os crentes podem esperar o cumprimento pouco importando o quanto seja
improvável. O livro de Josué visa encorajar o povo de Deus a confiar na sua
fidelidade.

O livro de Josué também registra os memoriais à fidelidade de Deus. Os
israelitas construíram um memorial no rio Jordão e outro memorial à margem
do rio depois de Deus os ter permitido atravessar o solo a seco (Js 4.3-9,18).

A própria travessia os faria lembrar do livramento que o Senhor deu no Egito
através do mar Vermelho (Êx 14). Os monumentos de pedra teriam conservado
vivo no coração das gerações sucessivas de israelitas a memória da fidelidade
de Deus à promessa. O monumento construído no monte Ebal comemoraria
igualmente a fidelidade de Deus em levá-los à terra (Js 8.30-35). Este altar,
situado quase no centro geográfico da Terra Prometida, estava perto do lugar
onde Abraão recebeu a promessa de Deus dar aos seus descendentes a terra (Gn
12.6,7) e onde Jacó enterrou os ídolos depois de voltar para Canaã vindo de
Padã-Arã (33.18-20; 35.1-4). A construção deste altar sinalizava a dedicação
novamente ao concerto mosaico, mas o altar também era um memorial à fideli-
dade de Deus em cumprir a promessa feita aos patriarcas. Mais tarde, as tribos
transjordanianas construíram um altar às margens do rio Jordão na tentativa de
preservar a unidade da tribo (Js 22.24,25). Foi um memorial que também lem-
brava e honrava a fidelidade de Deus. A pedra levantada em Siquém por Josué,
mais tarde, (24.26,27) também serviu de memorial em sua vida. O registro do
enterro dos ossos de José (v. 32) fala igualmente da fidelidade de Deus dar para
o povo a terra que José cria que eles, um dia, a ocupariam totalmente.

Considerando que estes memoriais permitiam que as gerações futuras
olhassem para trás e se lembrassem da fidelidade de Deus, também constituíam
declarações de compromisso para seguir a Deus fielmente no futuro. Esta tônica
na importância da fidelidade ao concerto mosaico escrito para também receber
a bênção futura, ganha destaque importante em Josué. O livro inicia com a
lembrança do interesse de observar a lei de Deus fielmente Js 1.7,8), e termina
com Josué exortando as pessoas a fazerem o mesmo (24.14-27). Outras ocasiões
em que atenção cuidadosa à lei foi acentuada, aconteceram em Siquém (8.30-
35), na exortação de Josué às tribos transjordanianas (22.1-6), e no discurso de
Josué ao final de sua vida (Js 23). A infidelidade à palavra de Deus resultou em
retrocessos na conquista da terra (Js 7; 9.3-15). A circuncisão dos homens e a
celebração da Páscoa foram passos de obediência à lei que autorizaram Israel a
entrar na terra (5.2-12).

Deus fora fiel em levar Israel à terra como Ele garantira no concerto abraâ-
mico, mas a ocupação de todo o território prometido e a derrota acompanhante
de seus habitantes nativos dependia da fidelidade de Israel ao concerto mosaico.
O ódio de Deus ao pecado. Josué é mais bem conhecido talvez como livro
de guerra. Israel estava em guerra com os cananeus, mas por trás destes solda- 
dos humanos Deus estava empreendendo uma guerra contra o pecado. Mais no
começo da história de Israel, Deus foi comparado a um guerreiro (Ex 14.14;
15.3; Dt 1.30; 3.22; 20.4). Mas agora Israel experimentou a liderança divina na
guerra como antes. Deus está constantemente em guerra com o pecado, porque
é uma afronta à santidade divina e porque destrói as pessoas a quem Ele ama e
deseja abençoar (cf. Rm 6.23).

No livro de Josué, Deus empreendeu guerra contra o pecado onde quer
que Ele o encontrasse. As tábuas de Ras Shamra, descobertas no sítio arque-
ológico da antiga Ugarit no noroeste da Síria, esclarecem a cultura cananéia
e nos ajudam a entender a sua natureza vil.  Quando Deus ordenou que os
israelitas expulsassem os cananeus, Ele estava usando Israel como vassoura
para varrer do mapa uma sociedade imunda. O espectro cananeu incubara na
tenda de Noé (Gn 9.20-27), evoluíra durante as gerações e agora, nos dias de
Josué, Deus não o toleraria mais. Julgando os cananeus, Deus estava fazendo
uma cirurgia na raça humana para retirar uma malignidade. Depois de sécu-
los de espera para os cananeus arrependerem-se — o que eles deveriam ter
feito em consequência das influências religiosas entre eles, como de Abraão
e de Melquisedeque —, o tratamento severo de Deus para estes povos estava
completamente justificado.  Mas Deus não foi desnecessariamente brutal ao
lidar com os inimigos como foram os assírios, por exemplo.

Deus também tratou severamente do pecado em Israel (Js 7). Recebendo
mais privilégio espiritual, o povo assumiu mais responsabilidade espiritual. O
amor de Deus por Israel o levou a purificar o pecado no acampamento para
que Ele não destruísse a nação inteira. Deus evidentemente tratou Acã com
tamanha severidade para dar ao povo uma demonstração clara do seu ódio ao
pecado no começo desta nova etapa da vida nacional.  Deus não foi tardio em
julgar o pecado em outros tempos porque Ele sentia menos ódio, mas porque
Ele escolheu ser misericordioso com os pecadores (cf. 2 Pe 3.9). Deus foi menos
misericordioso no caso de Acã, por causa da significação do ato de rebelião na-
quele momento em particular da história de Israel.

O livro de Josué também mostra como Deus empreende a guerra contra o
pecado. Ele toma a iniciativa. A aparição do Senhor a Josué antes da conquista
de Jericó (Js 5.13-15; cf. Êx 3.5) lembrou Josué da sua verdadeira relação com
Deus e Israel. Josué era apenas o servo do capitão (o príncipe) dos vastos exérci- 
tos do Senhor (Js 5.14). O próprio Deus, embora invisível para o povo, chefiaria
os israelitas na batalha contra o inimigo. Além de ser transcendente, Ele era
também imanente.

Deus, pelo seu anjo, guiou os israelitas e também manobrou as forças da
natureza para lutar em prol do povo. Ele conteve as águas de um rio (Js 3.14-
17), sacudiu os muros de uma cidade (6.20), enviou granizo do céu (10.11),
prolongou as horas de um dia (w. 13,14) para cumprir os seus propósitos. Es-
tes exemplos de intervenção divina são demonstrações grandiosas do poder de
Deus desencadeado contra as forças do mal (cf. Ap 6-19).

O livro de Josué também revela que Deus usa pessoas de fé como com-
panheiros no combate ao pecado e sua influência maligna (cf. Hb 11.30). Para
ganhar o que Deus lhes ofereceu como herança, os israelitas tinham responsabili-
dades a cumprir. O método de Deus fornecer o que Ele prometeu é imprevisível
e estranho, até mesmo tolo, para os seus servos. Mas Deus pediu para os israelitas
que tão-somente confiassem e lhe obedecessem. Tinham de restringir-se do que
era proibido, como também fazer tudo que ele orientasse. O livro de Josué é uma
das provas mais claras da Bíblia de que confiança consistente e obediência à Pala-
vra revelada de Deus resultam em um viver vitorioso, poderoso e próspero.

Três características marcaram o povo que Deus usou para dar vitória em
Josué. Primeiro, os israelitas se submeteram ao padrão divino de santidade. Ao
fazer a operação da circuncisão, eles demonstraram ritualmente a renúncia da
confiança na carne e o compromisso com Deus (Js 5.2-9). Separaram-se também
das influências corrompidas dos cananeus (6.21). Segundo, serviram de acordo
com as orientações de Deus. Deve ter sido absurdo para os israelitas seguirem
a estratégia incomum e estranha ordenada por Deus para derrotar Jericó (Js 6).

Os planos para a derrota de Ai também eram anormais (8.1-8). Mas quando os
israelitas decidiam fazer conforme Deus orientava, em vez de fazer o que teria
êxito mais provável, eles venciam. Terceiro, tiveram sucesso por causa do poder
de Deus. Prescrevendo uma estratégia incomum e limitando-lhes a capacidade
própria (11.6-9), Deus ensinou ao povo que as vitórias eram obra do seu Deus e
não deles. Após a conquista era impossível haver dúvida na mente das pessoas no
que diz respeito à sobrenaturalidade da libertação, embora levassem certo tempo
para aprender esta lição (cf. Js 7.3-5). Calebe, personagem importante deste livro,
figura a pessoa de fé, porque ele seguiu ao Senhor inteiramente (14.8,9,14).

Com poderosas confrontações como essas registradas em Josué, não é in-
comum que o livro enfatize coragem e medo. Moisés desafiou Josué a ser cora-
joso (Js 1.6,7,9,18). E Josué por sua vez desafiou os israelitas a terem coragem
(10.25; 23.6). Raabe falou para os espiões que os cananeus temeram quan-
do ouviram que coisas grandiosas o Senhor já fizera por Israel (2.9-11). Mas
ela manifestou grande coragem identificando-se e permanecendo leal a Israel.

Medo e coragem estavam baseados no registro do que Deus tinha feito. Mas os
que escolheram confiar e obedecer-lhe ficaram corajosos, ao passo que os que
escolheram opor-se, ficaram medrosos. 

Josué registra algumas controvérsias contra os deuses cananeus. Quando o Se-
nhor enviou granizo e prolongou as horas de luz do dia para favorecer os soldados
israelitas, Ele estava se mostrando como o verdadeiro Deus dos elementos naturais e
dos corpos celestes (Js 10.11-14). Os cananeus acreditavam que os seus deuses con-
trolavam estas coisas  Estes eventos demonstram a soberania do Senhor. O controle
de Deus sobre o rio Jordão pode ter transmitido uma mensagem semelhante aos
cananeus. Todas as pessoas teriam entendido que cada cananeu vencido no campo
de batalha era uma demonstração da superioridade do Deus de Israel.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.