12 de novembro de 2013

Roland de Vaux - Questões Demográficas

Seria importante poder determinar a soma da população de Israel, a fim de compreender melhor as instituições nas quais vivia. A demografia é um elemento necessário em toda investigação sociológica. Mas, como geralmen¬te para os povos da antigüidade, o problema é muito difícil, dado que faltam os documentos estatísticos.

É certo que há na Bíblia algumas indicações numéricas, mas não ajudam muito. Segundo Êx 12.37-38, teriam saído do Egito 600.000 homens de infan¬taria sem contar suas famílias e uma multidão heterogênea que se uniu a eles. Anles da partida do Sinai, Nm 1.20-46, uma contagem detalhada das tribos dá
como resultado 603.550 homens de mais de 20 anos (cf. Ex 38.26); os levitas são contados à parte: são 22.000 de mais de um mês, Nm 3.39, 8.580 entre trinta e cinqüenta anos, Nm 4.48. Nas planícies de Moabe, Nm 26.5-51, o total das tribos alcança
601.730 homens de mais de vinte anos, e há 23.000 levitas de mais de um mês, Nm 26.62. Essas somas concordam mais ou menos entre si, mas pressupõem uma população de muitos milhões de pessoas saídas do ligito e peregrinando no deserto, o que é absolutamente impossível. Expres¬sam simplesmente a idéia que se tinha, em uma época muito posterior, da maravilhosa multiplicação do povo e da importância relativa das anti¬gas tribos: por exemplo, a de Judá é a mais forte e a de Simeão a menos numerosa.

Um outro censo é relatado para época de Davi, II Sm 24.1-9. Ele retrata o reino no momento de sua maior extensão, incluindo a Transjordânia e esten¬dendo-se a Tiro e Sidom e até o Orontes: segundo esse censo, havia 800.000 homens mobilizados em Israel e 500.000 em Judá. O Cronista, na passagem paralela de I Cr 21.1-6, eleva mais a soma de Israel, embora exclua os territó¬rios não israelitas. O total mais baixo, o de II Sm, é ainda muito exagerado: .300.000 mobilizados representariam pelo menos 5.000.000 de habitantes, o que equivaleria para a Palestina a uma densidade quase duas vezes superior à dos países mais povoados da Europa moderna. Além disso, é contrário aos dados explícitos do texto interpretar essas somas (ou as de Números) como  englobando mulheres e crianças. Deve-se reconhecer simplesmente seu cará¬ter artificial.
Um dado mais aceitável é oferecido por II Rs 15.19-20. No ano de 738, para pagar um tributo de 1000 talentos de prata a Teglat-Falasar III, Menaém impõe aos gibbôre hciil de seu reino um imposto de cinqüenta siclos por cabe¬ça. Avaliando o talento em 3000 siclos , isto supõe que havia então em Israel 60.000 Mil chefes de família usufruindo de uma certa abastança . O que equivale a 300.000 ou 400.000 pessoas. Deve-se acrescentar o povo comum, artesãos e pobres (número incerto, mas menos elevado), os estrangeiros e os escravos (números incertos, mas ainda menores). Dessa maneira não se chegaria a 800.000 mil habitantes para todo o reino de Israel, e quase não se passaria do milhão mesmo acrescentando o reino de Judá, três vezes menos extenso e com regiões de população menos densa.

Nessa mesma época, pelo que se refere a Judá, essa estimativa poderia ser confirmada com informação extra bíblica. Os Anais de Senaqueribe dizem que na campanha de 701 contra Ezequias foram tomadas 46 cidades e inume¬ráveis aldeias e que se fez sair, contando-os como butim, a 200.150 homens, mulheres e crianças. Se não se trata de uma deportação de prisioneiros, mas de um censo dos vencidos, o número indicaria toda a população de Judá, exceto Jerusalém, que não foi tomada. Infelizmente, é evidente que o texto fala, como nas passagens paralelas dos Anais, dos cativos que o vencedor levou, e nesse caso o número é excessivo. E provável que se trate de um erro de grafia, sendo o número 2.150.

As “cidades” bíblicas tinham pouca extensão. Seu tamanho, revelado pelas escavações surpreende, quase todas poderiam caber folgadamente na praça da Concórdia de Paris e algumas delas não chegariam a encher  o pátio do Louvre. Os Anais de Teglat-Falasar III dão uma lista das cidades da Galiléia conquistadas em 732; o número dos cativos varia entre 400 e 650, sendo que esse rei deportava populações inteiras. Eram, pois, aldeias comparáveis às de hoje, e não eram mais numerosas. Algumas aglomerações eram mais populo¬sas. Segundo a estimativa do arqueólogo que fez as escavações, Tell Beit- Mirsim, a antiga Debir, abrigava, nos tempos de sua maior prosperidade, 2.000 a 3.000 habitantes: era uma cidade relativamente importante.

Para Samaria e Jerusalém podem-se utilizar outras informações. Sargón I diz que levou de Samaria 27.290 pessoas. A deportação afetou essencial¬mente a capital e foi massiva, mas ela deve ter atingido também aos que haviam se refugiado nela no momento do cerco. Segundo as observações dos arqueó¬logos, a cidade devia ter uns 30.000 habitantes.
Com relação a Jerusalém, é difícil estabelecer e interpretar as somas das deportações de Nabucodonosor, posto que os textos conservaram diversas tra-dições. Segundo II Rs 24.14, no ano 597 foram exilados 10.000 dignitários e nobres e todos os serralheiros, ferreiros e chaveiros, mas o texto paralelo de
25.0 Rs 24.16 enumera só 7.000 pessoas de condição e 1.000 serralheiros e ferreiros. Finalmente, segundo Jr 52.28-30, Nabucodonosor deportou 3.023  'judeus” no ano 597, 832 habitantes de Jerusalém no ano 587, e 745 “judeus” no ano 583, ou seja, no total, 4.600 pessoas. Essa última lista, que é independente, concerne sem dúvida a categorias especiais de cativos. As indicações de Rs 24.14 e 16 não devem ser somadas e são mais ou menos equivalentes: uns dez mil foram deportados. Mas estes representavam apenas uma parte da população e, pelo contrário, compreendiam talvez forasteiros que haviam se abrigado dentro dos muros de Jerusalém. Isto torna toda a avaliação precária. Não se pode levar em conta II Mb 5.14, segundo o qual Antíoco Epífano haveria feito 80.000 vítimas em Jerusalém, dos quais 40.000 massacrados e os outros vendidos como escravos. Os números da população de Jerusalém cita¬dos pelo o Pseudo-Hecateu de Abdera e por Josefo, são ainda mais exagera¬dos. Segundo uma estimativa razoável, a cidade, no tempo de Jesus, tinha de 25.000 mil a 30.000 habitantes. Essa era também, há alguns anos, a população da cidade velha no interior das muralhas, para uma superfície mais ou menos Igual. O número de habitantes não pode ter sido muito mais elevado na época do Antigo Testamento.

A situação demográfica pode ter variado com o tempo. É certo que o reino de Davi, com as conquistas territoriais e a assimilação dos enclaves cananeus, e sobretudo o reinado de Salomão com uma economia próspera, estimularam um crescimento populacional que continuou durante os dois séculos seguintes, graças ao desenvolvimento do comércio, da indústria e da agricultura. Entretanto, até na época mais favorável para os dois reinos, na primeira metade do século VIII a.C., a população total não devia ser superior a um milhão. A título de comparação pode-se destacar que, segundo o censo inglês de 1931, antes da grande imigração sionista, a Palestina tinha 1.014.000 habitantes. Na antiguidade, sem os recursos em parte artificiais da economia moderna, é muito duvidoso que o país jamais tenha podido alimentar um número muito mais elevado de pessoas.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.