29 de novembro de 2013

Roland de Vaux - Os elementos da população livre: O Povo da Terra

Os textos falam com freqüência do “povo da terra”, ‘am ha’ares, expressando que recebeu diferentes explicações. Muitos vêem nela a classe social infe¬rior, o comum do povo, a plebe em contraposição à aristocracia ou os campo¬neses em oposição aos habitantes da cidade. Outros, pelo contrário, querem descobrir nela os representantes do povo no governo, uma espécie de parla¬mento ou de câmara dos deputados. Outros, finalmente, reconhecem nela o Conjunto dos homens livres, que usufruem de direitos cívicos em um determi¬nado território.
A análise dos textos mostra que essa última explicação é a única aceitável para a época antiga, mas que o sentido da fórmula evoluiu posteriormente.

Quando se trata de não israelitas, o “povo da terra” designa em Gn 23.12-13 nos cidadãos hititas de Hebrom, em oposição a Abraão, que ali não é mais que um estrangeiro residente; em Gn 42.6 aos egípcios, em oposição aos filhos de Jacó; em Nm 14.9, aos cananeus, donos do país, por oposição aos israelitas (ef. o paralelo de Nm 13.28: “o povo que habita esta terra”). Pode-se objetar com Êx 5.5, em que, segundo o texto massorético, o faraó chama os hebreus "o povo da terra”, o que justificaria uma tradução por “plebe”, mas é muito tentador adotar a leitura samaritana: “são mais numerosos que o povo da terra”.
Se passamos para Israel, temos que distinguir três períodos no uso dessa expressão. Antes da volta do Exílio, foi empregada sobretudo por II Reis, Jeremias e Ezequiel. O “povo da terra” é posto em distinção ou em oposição ao rei ou ao príncipe, II Rs 16.15; Ez 7.27; 45.22; ao rei e aos seus servos, Jr 37 .2; aos chefes e aos sacerdotes, Jr 1.18; 34.19; 44.21, aos chefes, aos sacerdotes e aos profetas, Ez 22.24-29. Nunca é contraposta a nenhuma outra classe do povo.
Segundo II Rs 24.14, Nabucodonosor deixa em Jerusalém só “os mais pobres do povo da terra”, e esta precisão indica que a expressão em si mesma não designa a classe pobre, cf. também Ez 22.29. Isto resulta igualmente das enumerações a que acabamos de nos referir, por exemplo, Jr 1.18: “...contra lodo o país, contra os reis de Judá, contra os seus líderes (sarim), contra os Meus sacerdotes e contra o seu povo”. A lei de Lv 4 distingue os sacrifícios pelo pecado que devem ser oferecidos: v. 3, pelo sumo sacerdote, v. 13, por toda a comunidade de Israel, v. 22, por um chefe, v. 27, por qualquer pessoa do povo da terra”. É todo o “povo da terra” que deve ser castigado por certas fultas religiosas, Lv 20.2-4.
Assim pois, o “povo da terra” representa o conjunto dos cidadãos. Por Uso, a expressão aplicada ao reino de Judá alterna com “povo de Judá”, comp. 
I Rs 14.21: “Todo o povo de Judá escolheu a Uzias”, e II Rs 23.30: “O povo da terra escolheu a Joacaz.” Da mesma maneira o “povo da terra” castiga os assassinos de Amom e proclama rei a Josias, II Rs 21.24. Em II Rs 11.14,18 “todo o povo da terra aclama a Joás e derriba o templo de Baal”: é uma revolu¬ção nacional, dirigida contra Atalia e sua corte estrangeira. Sem dúvida, o v. 20 contrapõe esse “povo da terra” e a cidade, Jerusalém. Mas é porque em Jeru¬salém residia a corte, os funcionários, todos os que apoiavam ao regime derri¬bado. Essa expressão significa apenas a distinção entre o povo de Judá e os habitantes de Jerusalém em Jr 25.2. Em nenhuma parte ela designa um partido ou uma classe social.
Na volta do Exílio, a expressão continua sendo empregada nesse sentido geral por Ag 2.4; Zc 7.5, e encontra-se também em Dn 9.6, em que a enumera¬ção “nossos reis, nossos líderes, nossos pais, todo o povo da terra” lembra as de Jeremias e Ezequiel. Mas o sentido muda em Esdras e Neemias. A expres¬são é empregada no plural, “os povos da terra”, ou “das terras”, Ed 3.3; 9.1,2,11; 10.2,11; Ne 9.30; 10.29,31,32. Ela designa então os habitantes da Palestina que não são judeus, que colocam obstáculos à obra de restauração, que difi¬cultam a observância do sábado, com os quais se contraem matrimônios mis¬tos. Os “povos da terra” se contrapõem ao “povo de Judá” em Ed 4.4, ao “povo de Israel” em Ed 9.1. É uma inversão completa em relação ao uso ante¬rior ao Exílio, e se explica ainda pelo sentido fundamental da expressão: a comunidade do retomo não é o “povo da terra”, posto que não tem o estatuto político que havia sido reconhecido aos samaritanos, aos amonitas, aos moabitas: estes são “os povos da terra” ou “das terras”.
Assim se prepara um terceiro significado. Na época rabínica, o “povo da terra” são todos que ignoram a Lei ou que não a praticam.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.