26 de novembro de 2013

Roland de Vaux - Os elementos da população livre: Os notáveis

Nos textos do Deuteronômio citados anteriormente, os assuntos municipais estão nas mãos dos zeqenint. De acordo com alguns eles seriam todos os homens adultos - os que usam barba, zaqan - reunidos em assembléia popu¬lar. \i muito mais provável que, segundo o sentido do adjetivo correspondente que significa “velho”, eles sejam os “Anciãos”, os chefes de família, que for¬mavam em cada cidade uma espécie de conselho, I Sm 30.26-31. Alternam com os sarím, os “chefes”, em Nm 22.7-14 e em Jz 8.6,16; são colocados lado a lado, como sinônimos, em Jz 8.14, onde nos é dito que em Sucote eles eram quarenta e sete. As duas palavras parecem ser também sinônimas em Is 3.14, a mesma palavra sarím designa os chefes de família, explicitamente em Ed 8.29 e provavelmente em Ed 8.24s. Em Jó 29.9, os sarím têm assento às portas da .cidade, como os “Anciãos” de Pv 31.23. Assim pois, os dois termos são, em parte, equivalentes.

Esse sentido de sarím é também possível em certo número de outros textos, mas com freqüência interfere com uma acepção diferente. Os sarím não, então, os oficiais ou funcionários do rei, quer se trate de reinos estrangei¬ros, Gn 12.15; Jr 25.19; 38.17s; Et 1.3; 2.18; Ed 7.28, ou mesmo de Israel. Em muitos casos são oficiais militares, comandantes de unidades ou o chefe de todo o exército, I Sm 8.12; 17.18,55; II Sm 24.2,4; I Rs 9.22; II Rs 1.14; 11.4, Ctc. Com freqüência são também oficiais civis, os ministros de Salomão, I Rs 4.2, os governadores, I Rs 20.14; 22.26; II Rs 23.8, os funcionários em geral, Jr 24.8; 26.1 Os; 34.19,21, etc.

Diante do rei, esses oficiais são apenas “servos”, II Rs 19.5; 22.9, etc. , mas entre o povo têm uma posição privilegiada. O rei podia lhes dar terras, ISm 8.14; 22.7. Sendo numerosos, sobretudo nas capitais, Samaria e Jerusa¬lém, constituem uma força com a qual o rei deve contar, Jr 38.24-25, e até acontece de fazerem complô contra seu senhor, II Rs 21.23. São os notáveis e cm muitos casos não é possível distingui-los dos chefes das grandes famílias, nas quais são recrutados com freqüência. 

Em Nm21.18 e em Pv 8.16, sarím alterna com nedíbím, os homens “exce-lentes”. Estes têm um lugar de honra nas reuniões, I Sm 2.8; SI 113.8; são poderosos e ricos, SI 118.9; 146.3; Pv 19.6.

Em Is 34.12 e em Ec 10.17, os sarím estão em paralelo com os horim, e em Jr 27.20 horim substitui a sarím do texto correspondente de II Rs 24.14. A pala¬vra, empregada sempre no plural, é citada junto com zeqením em I Rs 21.8,11, e junto com gibbôrê hail (v. acima) em II Rs 24.14. Segundo a raiz e seus derivados nas línguas afins do hebraico, são homens “livres, de boa família”.

Essas palavras são, pois, mais ou menos sinônimas e designam a classe dirigente da época monárquica, funcionários e chefes das famílias influentes, em uma palavra, os notáveis. São os “grandes”, os gedolím, como são chama¬dos em outros textos, II Rs 20.6,11; Jr 5.5; Jn 3.7.

Depois do Exílio aparecem outras palavras para designar o mesmo gru¬po. Em Jó 29.9-10, os negidim são colocados paralelamente com os sarím, e em I e II Cr negídim é praticamente o equivalente de sarím. Mas os textos pré- exílicos só usavam o singular nagid e aplicavam-no ao rei designado por lahvé, Sm 9.16; 10.1; II Sm 5.2; 7.8; I Rs 14.7; 16.2; II Rs 20.5. Por outro lado, em Ne 2.16; 4.8,13, são mencionados os seganim ao lado dos horim, e em Ed 9.2 ao lado dos sarím, e a palavra é freqüente nas Memórias de Neemias para designar aos notáveis do povo; tem-se a impressão de que no vocabulário de Neemias essa palavra substitua zequenimt os Anciãos, palavra que ele não emprega nunca. Mas nos textos anteriores a palavra significa “governador“ e é um empréstimo babilónico.

A esses notáveis ou dignitários pode-se, sem dúvida, chamar “nobres” em uma acepção ampla. Mas eles não constituem uma nobreza em sentido estrito, ou seja, uma classe fechada a qual se pertence por direito de nascimen¬to, que goza de certos privilégios e possui grande parte das terras.

Alguns autores quiseram reconhecer nos gibbôrê hail uma classe de gran¬des proprietários de terras, uma espécie de nobreza rural. Fundam-se sobretudo em II Rs 15.20, em que Menaém oprime com impostos aos gibbôrê hail de seu reino para pagar o tributo devido aos assírios. Parece, contudo, que a expres¬são designou no início, e designa com freqüência em Crônicas, os homens valentes, os guerreiros corajosos, os paladinos, como simples gibbôrím, mes¬mo que não possuam propriedades, Js 8.3; Jz 11.1. O termo foi aplicado em seguida aos que eram sujeitos ao serviço militar e que eram pessoas de posses, já que deviam fornecer seu equipamento militar. Esse é o sentido que convém a II Rs 15.20, onde são 60.000, a II Rs 24.14, onde são contrapostos à popula¬ção mais pobre do país, e a Rt 2.1, em que Boaz é só um homem de posses, como o pai de Saul, I Sm 9.1.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.