7 de novembro de 2013

Roland de Vaux - A morte e os ritos fúnebres: Interpretação desses ritos


Tentou-se interpretar esses ritos fúnebres como manifestações de um culto aos mortos, seja considerando o morto como temível, procurando proteger-se dele ou fazê-lo propício, seja atribuindo aos mortos um caráter divino. O Antigo Testamento não oferece nenhuma base sólida para tais explicações.

Já foi dito, pelo contrário, que tais ritos eram apenas a expressão de dor causada pela perda de um ente querido. É verdade que muitos desses gestos eram usados, fora do luto, nos momentos de muita tristeza ou de desastre nacional. Mas essa explicação é insuficiente, pois alguns desses ritos são, ao mesmo tempo, ritos de penitência, assim, por exemplo, o vestir-se de saco, o jejum..., e podem, portanto, ter sentido religioso. Os cortes e as tonsuras reprovadas pela lei, Lv 19.27-28; Dt 14.1, tinham, certamente, significado religio¬so, que nos é ainda obscuro. As oferendas alimentícias
expressavam, pelo menos, a crença em uma vida além túmulo. Enfim, tais cerimônias eram con¬sideradas como um dever que se devia aos mortos como um ato de piedade, 1Sm 31.12; II Sm 21.13-14; Tb 1.17-19; Eclo 7.33; 22.11-12. Para os filhos, esses ritos faziam parte dos deveres para com os pais impostos pelo Decálogo. Honravam-se, pois, aos mortos com espírito religioso, mas nem por isso tribu¬tavam-se-lhes culto.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.