1 de novembro de 2013

Roland de Vaux - A morte e os ritos fúnebres: Lamentações Fúnebres

A lamentação pelo morto era a principal cerimônia fúnebre. Em sua forma mais simples era um grito agudo e repetido, que Mq 1.8 compara ao do chacal e ao do avestruz. Gritava-se: “Ai, ai!”, Am 5.16, “Ai, meu irmão!” ou "Ai, minha irmã!”, I Rs 13.30, e se se tratava de uma personagem da realeza: "Ai, senhor! Ai, majestade!”, Jr 22.18; 34.5. O pai chamava seu filho pelo nome, II Sm 19.1,5. Pela morte de um filho único, a lamentação era mais dilacerante, Jr 6.26; Am 8.10; Zc 12.10. Esses gritos eram dados pelos homens c mulheres em grupos separados, Zc 12.11-14; era obrigação dos paren¬tes próximos, Gn 23.2; 50.10; II Sm 11.26, aos quais se uniam os assistentes, Sm 25.1; 28.3; II Sm 1.11-12; 3.31, etc., em que “ficar de luto” significa "lamentar”.

Essas exclamações de dor podiam transformar-se em uma lamentação, a composta em um ritmo especial, II Sm 1.17; Am 8.10. A mais antiga e
a mais bela foi a que Davi cantou por ocasião da morte de Saul e de Jônatas,

I Sm 1.19-27. Compôs também outra para Abner, II Sm 3.33,34. Mas esses cantos fúnebres eram, geralmente, compostos e cantados por profissionais, homens ou mulheres, II Cr 35.25; Am 5.16, sobretudo por mulheres, Jr 9.16s; cf. Ez 32.16. Era um ofício que elas ensinavam a suas filhas, Jr 9.19. Havia grupos fixos, um repertório de temas comuns, que as carpideiras aplicavam indiferentemente a todos os mortos.

Assim a lamentação por Judas Macabeu, cujo começo é citado em I Mc 9.12, reproduz os termos da lamentação de Davi por Saul e Jônatas. Louvavam-se as qualidades do finado, chorava-se seu destino, mas o que surpreende é que os exemplos conservados na Bíblia tenham conteúdo simplesmente profano. Na elegia por Saul e Jônatas há mui¬ta emoção humana, mas nenhuma nota religiosa.

Nos profetas, encontram-se imitações destes cantos fúnebres que eram utilizados para retratar as calamidades de Israel, de seus reis e de seus inimi¬gos, Jr 9.9-11, 16-21; Ez 19.1-14; 26.17,18; 27.2-9, 25-36; 28.12-19; 32.2-8; Am 5.1-2, e o livro de Lamentações.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.