19 de novembro de 2013

Roland de Vaux - A evolução social

Na civilização nômade há famílias. Podem ser mais ricas ou mais pobres, mas não se dividem em diferentes classes sociais no interior da tribo. Só há tribos mais “nobres” que outras, e todos os beduínos se consideram “nobres” em comparação aos agricultores sedentários. Nem sequer os escravos formam classe à parte, mas formam parte da família. Segundo tudo o que podemos saber, essa situação foi a mesma em todo o tempo que Israel levou uma exis¬tência seminômade.
Mas a sedentarização produziu uma profunda transformação social. A uni¬dade não é mais a tribo, mas o clã, a mishpahah, instalada em uma cidade, que comumente não é mais que uma aldeia. A vida social tornou-se uma vida de pequenas cidades, e aqui é interessante notar que o pano de fundo antigo do Deuteronômio é, em grande parte, uma lei municipal, como por exemplo os estatutos sobre as cidades de refúgio, Dt 19, sobre o assassino desconhecido,

21.1- 9, sobre o filho rebelde, 2.18-21, sobre o adultério, 22.13-28, sobre o levirato, 25.5-10. Essa organização baseada no clã se manteve, em certo modo, durante a monarquia  e voltamos a encontrá-la em vigor depois do Exílio, Ne 4.7; Zc 12.12-14.
Contudo, a monarquia centralizada introduziu mudanças importantes. Os oficiais e os funcionários do rei, civis ou militares, reunidos nas duas capi¬tais ou repartidos em províncias como agentes da autoridade, formaram uma espécie de casta social desligada dos interesses municipais e, às vezes, em conflito com eles. Sobretudo, o jogo da vida econômica, as transações comer¬ciais e imobiliárias romperam a igualdade entre as famílias, algumas das quais chegaram a ser muito ricas, enquanto que outras empobreceram. Entretanto, é abusivo pretender descobrir na antiga sociedade israelita os contrastes que conheceram, ou conhecem, outros ambientes humanos, entre "nobres e plebeus”, “capitalistas” e “proletários”. Na realidade, em Israel nunca houve classes sociais em sentido moderno, isto é, grupos conscientes de seus Interesses particulares e opostos entre si. Para evitar paralelos enganosos, pre¬ferimos falar aqui de “elementos da população”. Além disso, não é fácil determiná-los pela variedade e incerteza do vocabulário.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.