27 de novembro de 2013

Homer Heater, Jr - Uma teologia de Samuel e Reis: A perspectiva teológica de Samuel e Reis

Devemos ler a teologia de Samuel e Reis em dois níveis. Os dois livros são
compilações de material histórico reunido a partir de certo ponto de vista edito-
rial. Muito semelhante a Lucas que teve a intenção de apresentar uma narrativa
do ministério e mensagem de Cristo e da Igreja Primitiva, assim o historiador
(ou historiadores) desconhecido, sob inspiração divina, nos oferece estas duas
composições maravilhosas que mostram o reinado de Deus entre os homens e,
mais especificamente, entre os homens e mulheres de Israel.

Encontramos o primeiro nível de teologia nos próprios acontecimentos e
declarações originais. A vida e ministério sacerdotal do piedoso Samuel como
juiz é um testemunho da fé (um tanto quanto rara, pois a palavra de Deus era
escassa naqueles dias) no Senhor, o Deus de Israel mantenedor do concerto. A fé
viril do jovem Davi em face de probabilidades humanamente insuperáveis se sa-
lienta em contrapartida com a conduta impotente e incerta de Saul. Na vida de
tais homens, viver, confiar, fracassar e pecar, o Senhor é visto dirigindo podero-
samente os acontecimentos no palco da vida para efetivar os propósitos eternos
conforme foram esboçados e prometidos a Abraão, Isaque, Jacó, José, Moisés e
Josué, e conforme foram reiterados na sombria e conflituosa era dos juízes.

O segundo nível de teologia é do historiador que reuniu estes grandes
campos da história divina, originalmente compostos por profetas como Sa-
muel, Natã e Gade, em um tratado histórico-teológico sobre a fidelidade do
Senhor implementando todas as facetas dos concertos. Em Samuel, o leitor
entende a obra de Deus um tanto quanto intuitivamente observando os acon-
tecimentos descritos em uma das literaturas mais bonitas e eficazes na histo-
ricidade do mundo.  (Que maior peça da literatura existe do que a história do
pecado de Davi com Bate-Seba e a confrontação de Natã e Davi?) Por outro
lado, 1 e 2 Reis contêm sermões longos que detalham as razões para as cala-
midades acontecerem (por exemplo, 2 Rs 17.7-23). Estas são as explicações
inspiradas de um crente do século VI a.C. dos eventos que devastaram o povo
de Israel e Judá por meio da destruição dos supostamente invioláveis Templo
e cidade — Jerusalém. Por exemplo, o historiador critica regularmente os
“lugares altos” que, por sincretismo, se tornaram extremamente corruptos ao
final da era monárquica, vendo-os destrutivos para o povo, como de fato se
deu. No período anterior, entretanto, os lugares altos cumpriam um papel legítimo na adoração ao Senhor e, no fim das contas, os personagens da história
os aceitaram como apropriados.

O primeiro livro de Samuel representa a transição da era dos juízes para
a monarquia. Esta mudança é mais dramática e de longo alcance do que pare-
ce superficialmente. Há duas forças continuamente funcionando em Israel. A
força centrífuga era a tendência a fragmentar-se em organizações tribais indi-
viduais. Alguma delas está evidente nas narrativas do êxodo e do deserto; no
assentamento de Rúben, Gade e Manasses; na guerra benjamita; na rebelião
de Absalão; e no cisma provocado por Jeroboão I. A força centrípeta, reunindo
pessoas que eram cultural e geograficamente discrepantes, era a centralização da
adoração no lugar de habitação do Senhor: o Tabernáculo e, depois, o Templo.

Jeroboão foi tão longe quanto estabelecer um sistema religioso rival para com-
pensar essa força.

A inauguração da monarquia complicou ainda mais esta crise. Saul procu-
rou unir a nação. Até certo ponto, conseguiu, começando a derrotar os filisteus,
mas nunca teve caráter para solidificar a posição de liderança. Isso foi deixado
para o jovem e popular Davi, mas lhe custou toda a persuasão pessoal e perspi-
cácia política para unir as tribos e então só depois de sete anos de um governo
rival em Maanaim.

A mão firme e liderança dinâmica de Davi mantiveram as rachaduras em-
boçadas até que o seu filho Absalão criou uma ruptura permanente. O restan-
te do reinado de Davi foi debilitado à medida que o confronto, mutuamente
destrutivo, continuou até depois da sua morte. O reinado de Salomão elevou a
grande altura o status cultural e político de Israel, mas a queda veio de repente
e permanentemente quando ele morreu.

A linha teológica que traspassa Samuel e Reis é a escolha divina de um
líder para representá-Lo, enquanto o Senhor implementa os concertos com Is-
rael. Essa nação existia na terra por causa do concerto incondicional que Deus
fez com Abraão. O Senhor implementou o concerto abraâmico quando Ele res-
gatou o seu povo do Egito e fez deles uma nação. Mas as bênçãos da terra eram
condicionais. A bênção de Deus era dada por obediência, como declarado cla-
ramente em Deuteronômio.

O lugar de Davi nesta linha já foi estabelecido pelo escritor do livro de
Rute. Devemos considerar Rute como o terceiro “apêndice” do livro de Juízes,
que esclarece um ponto que de outra forma ficaria obscuro. A genealogia de
Rute 4, que liga Rute e Boaz com Davi, a quarta geração de Rute, deixa claro
que o propósito do livro se estende a Samuel e Reis. As alusões do autor sobre
Davi constam em Samuel muito antes da unção no capítulo 16. No cântico de
Ana (1 Sm 2.10), ela se refere ao rei ou ungido de Deus. No contexto da oração,
isto foi profético. A possibilidade de um rei apareceu em Deuteronômio 28.36,
e a referência de Ana está levando em conta essa possibilidade. Para o escritor
de 1 e 2 Samuel, porém, esse rei só poderia ser Davi. Neste sentido, a transição
no livro de 1 Samuel não é somente de juízes para reis, mas de juízes para Davi.
Saul figura como um rei interino necessário,  mas o movimento do livro é em
relação a Davi.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.