11 de novembro de 2013

Gleason L. Archer - A Natureza do Ofício Profético

A responsabilidade dos profetas do Antigo Testamento não
era principalmente predizer o futuro no sentido moderno da pa-
lavra “profetizar”, era mais anunciar a vontade de Deus que Ele
comunicara através da revelação. A palavra hebraica “profetizar” é
nibba’ (a raiz do Nif׳al de nãbhã’), acerca de cuja etimologia há
muitas disputas. A explicação que tem a melhor fundamentação,
porém, parece relacionar esta raiz ao verbo acadiano nabü, que sig-
nifica, “chamar, anunciar, convocar”. No prólogo do Código de Ha-
murabi, o rei babilônio assevera que foi nibit Bei (“vocacionado de
Baal”) e que os deuses nibiü (isto é, “chamaram” ou “nomearam”)
a ele para ser seu vice-regente na terra. Por esta razão, o verbo
nibba’ significaria sem dúvida uma pessoa chamada ou nomeada
para proclamar como arauto a mensagem do próprio Deus. Deste
verbo se deriva a palavra característica nãbi’, profeta, pessoa cha-

mada. Segundo esta interpretação, o profeta não deveria ser con-
siderado o profissional que se nomeou a si mesmo, cujo propósito
seria persuadir as pessoas a aceitar opiniões da sua própria lavra;
pelo contrário, seria a pessoa chamada por Deus para proclamar,
como arauto da corte dos Céus a mensagem que deve ser transmi-
tida de Deus para os homens. 

Um segundo nome que freqüentemente se aplicava aos pri-
meiros profetas era “homem de Deus” (,ísh Elõhím). Este título
implica em que o profeta seja um homem que pertencia em pri-
meiro lugar a Deus, totalmente dedicado à Sua causa, e gozando
de comunhão pessoal com Ele. Por esta razão, era digno de con-
fiança para transmitir a Palavra de Deus, sendo que só falava con-
forme a iluminação e orientação que Deus lhe dava.
Um terceiro termo aplicado aos profetas era “vidente” (he-
braico hõzeh ou ro’eh). A implicação deste título era que o profeta
não seria iludido pela aparência externa das coisas, nem pelas falsas
impressões do mundo material, mas que perceberia as coisas con-
forme realmente eram do ponto de vista do próprio Deus. Como
vidente, o profeta receberia visões especiais e revelações especiais
da parte do Senhor, sendo portanto qualificado a transmitir as
realidades espirituais que outras pessoas não poderiam perceber.

Como vidente, evitaria confundir-se com as opiniões ou idéias da
sua própria mente, restringindo-se apenas àquilo que Deus na rea-
lidade lhe mostrara. Relacionada ao termo hõzeh estava a expres-
são hãzüt, uma palavra significativa que descreve a profecia, e que
aparece no título das profecias de Isaías (Is 1:1). O verbo “ver”
hãzah também pode formar um substantivo, “profecia”, como ocor-
re em Amós 1:1 (“Palavras que, em visão, vieram a Amós”).

No período mais antigo, a função profética pertencia aos levi-
tas, que tinham a responsabilidade de ensinar as implicações da
Lei Mosaica para a conduta diária nos assuntos da vida de todos
os dias. Mas até a própria Torá previa a possibilidade duma classe
de profetas distinta dos sacerdotes, desempenhando um papel aná-
logo ao de Moisés (cf. Dt cap. 18 — uma passagem que não somente
prediz o Profeta Messiânico, mas também estabelece a ordem dos
profetas como tal). Enquanto o sacerdócio ia se tornando sempre
mais profissional nas suas atitudes, e mais relaxado na prática
(como, por exemplo, Hofni e Finéias, os filhos de Eli), uma nova
ordem de ensinadores surgiu para manter a integridade do rela-
cionamento com Deus através da aliança, despertada no coração
dos israelitas. Alguns dos profetas surgiram da tribo sacerdotal,
Levi, tais como Jeremias e Ezequiel, mas a maioria deles pertencia
a outras tribos.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.