28 de novembro de 2013

Gleason L. Archer - Introdução ao livro de Jonas

O nome Jonas (Yõnãh) quer dizer “pombo”. Este profeta é
mencionado em II Reis 14:25 como sendo aquele que predisse que
as conquistas de Jeroboão II (7S3-753) teriam grande alcance —
profecia muito do agrado dum patriota tão sério como ele era. Sua
cidade natal era Gate-Hefer, na tribo de Zebulom, no norte de
Israel. Seu ministério profético parece ter começado pouco antes
do reinado de Jeroboão, ou pelo menos antes deste rerilhante ter
conseguido alguns dos seus triunfos militares mais marcantes. O
tema da sua profecia (que é realmente uma biografia mais do que
um discurso em forma de sermão) é que a misericórdia e a com-
paixão de Deus se estendem até às nações pagãs, na condição de se
arrependerem. É, portanto, obrigação dos israelitas testificar pe-
rante elas da fé verdadeira; negligenciar esta tarefa pode levar a

nação, como foi o caso do próprio Jonas, às águas profundas da aflição e do castigo. Do ponto de vista profético, a experiência de
Jonas ao ser enterrado vivo no estômago da baleia serve como pro-
tótipo do enterro e da ressurreição do Senhor Jesus (Mt 12:40).

(A propósito, deve ser notado que o texto hebraico de Jonas
2:1 diz dãg gãdõl ou “grande peixe”, não empregando qualquer
termo técnico representando “baleia”. Mas, desde que a língua
hebraica não possuía nehuma palavra indicando “baleia”, e desde
que nenhum peixe verdadeiro — contrastando-se com qualquer
mamífero marinho — tem um estômago tão grande como o da
baleia, é razoável aderir à tradicional interpretação neste detalhe.
A única outra palavra possível, tannín, era por demais vaga para
ter sido empregada aqui, visto que podia significar também “tu-
barão”, “serpente marinha” ou até “dragão”).

Esboço de Jonas

I. Jonas Rejeita a Ordem Divina, 1:1-3.
II. A Fuga de Jonas, a Perseguição do Senhor, 1:4-17.
III. Jonas Ora pela Libertação, 2:1-10.
IV. A Comissão Divina Renovada, e Cumprida em Nínive, 3:1-9.
I. A Tristeza de Jonas pelo Arrependimento de Nínive, e a Res-
posta do Senhor, 3:10 — 4:11.

Data de Composição

O texto não especifica o autor desta narrativa biográfica, mas
é razoável supor que fosse composta por Jonas perto do final da sua
carreira, ao relembrar o ponto decisivo no seu ministério. Isto expli-
caria o emprego do verbo no passado ao referir-se a Nínive (3:3),
porque num período de várias décadas, as condições da cidade
podem ter sofrido alterações desde a época da visita de Jonas. Isto
colocaria a data da composição cerca de 760 a.C. Conquanto o
autor não fale na primeira pessoa do singular, isto não é mais
surpreendente do que o fato de Moisés, na Torá, sempre referir-se
a si mesmo na terceira pessoa, assim como faz Xenofonte na Aná-
base e Júlio César nas Guerras Gálicas.

Críticos de convicção liberal datam a composição de Jonas
cerca de 430 a.C., baseando-se na suposição que era uma peça de
ficção quase-histórica escrita como alegoria para fazer frente ao “es-
treito nacionalismo” de líderes judaicos tais como Esdras e Neemias,
numa época na qual os samaritanos estavam sendo excluídos de
qualquer participação no culto ao Senhor em Jerusalém, e todas as esposas estrangeiras estavam sendo divorciadas sob a pressão
do exclusivismo fanático. Seria, pois, uma boa hora para algum
defensor anônimo duma idéia mais universal escrever um panfleto
apropriado à época, que chamaria a nação de volta a um ponto
de vista mais liberal. Assim, o motivo principal de se escolher uma
data de 430 a.C. é a teoria da seqüência do desenvolvimento das
idéias durante a história da religião de Israel.

Levando adiante este conceito do Livro de Jonas, sua alegoria
é interpretada conforme se segue: o próprio Jonas representa a
desobediente nação de Israel; o mar representa os gentios; a baleia
simboliza a cidade da Babüônia durante o período dos caldeus; os
três dias de confinamento no estômago da baleia indicam o cativeiro
na Babilônia. Assim como Jonas foi instruído a ser fiel à sua res-
ponsabilidade de evangelizar os pagãos, assim também era da von-
tade de Deus que os judeus do quinto sécúío aceitassem suas opor-
tunidades de pregar a única fé verdadeira, rejeitando as limitações
embaraçosas do exclusivismo. Quanto à planta cuja morte entris-
teceu tanto o coração de Jonas, alguns interpretaram o incidente
como sendo uma referência a Zorobabel.

Um exame mais cuidadoso do texto revela, porém, que nume-
rosos aspectos da narrativa dificilmente poderiam ser enquadrados
no padrão alegórico. Se a baleia representava a Babilônia, o que é
que Nínive representava? Quanto ao navio que velejou de Jope,
é difícil perceber onde se enquadraria na alegoria, e não há ne-
nhuma explicação por que um período de três dias tinha sido
escolhido para representar setenta anos de cativeiro. Além disto,
não existe a mínima evidência histórica da existência de tais sen-
timentos universalistas entre os judeus do quinto século, que esta
teoria pressupõe. Apesar de ter havido, sem dúvida alguma, judeus
que queriam manter relações harmoniosas com seus vizinhos pa-
gãos, sua motivação seria materialista e comercial mais do que
missionária. Se os críticos alegam que os Livros de Jonas e Rute
são testemunhas deste zelo, é um argumento circular da parte
deles: estes dois livros devem ter sido escritos neste período, porque
se enquadram no estágio de pensamento religioso judaico postulado,
ao qual testificam estes dois livros.

Objeções Históricas contra Sua Autenticidade

Para apoiar esta teoria do caráter quase-histórico, ou mesmo
alegórico do Livro de Jonas, levantam-se pelo menos quatro objeções 
contra a credibilidade da narrativa bíblica aqui registrada. Cada
objeção será estudada aqui pela ordem, com as fraquezas específicas
do argumento, devidamente indicadas.

1. Tem sido dito que era inconcebível que um rei da Assíria
pudesse ter sido chamado “rei de Nínive” apenas, por um autor
hebraico vivendo no período assírio. Só um escritor que vivia numa
época bem posterior, muito depois do desaparecimento da Assíria,
teria empregado tal terminologia. Mas esta maneira de tratar o
uso que Jonas fez do título “rei de Nínive” dificilmente pode ser
considerada satisfatória. Nenhum autor antigo que se tenha re-
ferido a Nínive em qualquer registro que sobreviveu até nós (em
acadiano, hebraico, grego ou latim) parece ter ignorado ser Nínive
capital do império assírio. Seria uma atitude simplória querer
crer que um autor, vivendo no ano 430 a.C., supusesse que o rei
de Nínive não fosse também o rei da Assíria. Certamente os autores
gregos, tais como Heródoto no quinto século e Xenofonte no quar-
to século, conheciam bem o império assírio, e Heródoto, pelo menos,
sabia que Nínive era sua capital. Devemos, portanto, procurar
outra explicação deste título “rei de Nínive” no terceiro capítulo
de Jonas. A linguagem hebraica bem atestada nos Livros históricos
do Antigo Testamento oferece boas analogias para este título. Por 
exemplo, embora seja declarado que Acabe era rei de Israel (do
Reino do Norte inteiro, portanto), ocasionalmente é chamado “rei
de Samaria” (I Reis 21:1), sendo que Samaría era a capital do
reino. Da mesma forma, Ben-Hadade era bem conhecido como rei
da Síria, para o autor das Crônicas (Aram), mas nem por isso
deixou de chamá-lo “rei de Damasco” em certas ocasiões (II Cr
24:23). Mais uma vez, o nome da cidade capital foi empregado
no título real. A expressão de Jonas, “rei de Nínive” é uma maneira
paralela de se escrever, conforme os exemplos supra.

2. Insiste-se, também, que Nínive é descrita com o verbo no
passado (hãyetah — “era”), em 3:3. Isto indicaria, decerto, que
a cidade não existia mais; senão, o autor teria dito, “E Nínive estava
sendo (tihyeh) uma cidade grande”. Reconhece-se que o autor po-
dría ter mencionado o tamanho da cidade com o verbo no imper-
feito (tihyeh) se quisesse; mas evidentemente seu propósito espe-
cial naquela altura da narrativa era enfatizar o fato que Nínive
já se tinha transformado numa cidade de grandes proporções (e
provavelmente estava maior ainda na data da composição do Livro,
ou seja, em 760 a.C.) A única maneira de se exprimir este pensa-
mento “viera a ser”, era por meio do tempo perfeito, hãyetah.

3. O tamanho enorme atribuído a Nínive seria obviamente
um elemento fabuloso na narrativa. O autor declara que levou
três dias para atravessar a cidade, por causa das suas vastas di-
mensões (3:3,4). Mas deve ser notado que o texto não diz real-
mente que Jonas levou três dias a percorrer Nínive sem parar.
Só declara que levou três dias ao passar por ela na sua missão de
pregador. Pregar nas esquinas das ruas exige uma parada de
certo tempo em cada lugar onde se prega a mensagem. Três dias
realmente não seriam um período longo demais para completar esta
tarefa numa cidade que pode ter contido até 600.000 habitantes
(a julgar pelo número de 120.000 crianças sugerido em Jonas 4:11)
no oitavo século.  Acrescenta-se a população dos subúrbios, que
naturalmente pode ter sido considerável. A distância toda através
do distrito administrativo de Nínive era de 50 a 100 km.  Pelo
contexto, é justo supor-se que a frase “caminho dum dia” (mahalak
yõm ,ehãd) se referisse àquela parte da metrópole que conseguiu
cobrir enquanto fazia uma pausa para pregar em cada ponto van-
tajoso donde poderia atrair a atenção do povo. 

4. Declara-se ser inconcebível que qualquer cidade pagã
como Nínive pudesse ter-se arrependido tão rapidamente e de ma-
neira tão geral em resposta à exortação dum estrangeiro desconhe-
cido vindo dum país pequeno e distante. O decreto do rei de que
todos os habitantes devessem vestir-se de pano de saco, vestindo até
os animais com os símbolos de luto, seria nada menos do que absur-
do. Isto, também, deve ser considerado como elemento de fábula.
Precisa ser reconhecido, porém, que tal resposta da parte duma
população pagã era nada menos do que milagre, mas a narrativa
explica com clareza que a vontade e o poder do Deus onipotente
estavam por trás de todo o acontecimento, Não teria havido muita
razão de ser, a insistência de Deus que Jonas fosse a Nínive se
Ele mesmo não estivesse disposto a tornar eficaz a pregação do
profeta. Quem pode definir limites ao poder do Espírito Santo em
convencer pessoas quando Sua verdade está sendo pregada? Se os
ninivitas tivessem ficado apreensivos com uma destruição geral que
envolveria a cidade inteira, inclusive os animais domésticos, e não
somente os habitantes humanos, não seria mais apropriado, do
ponto de vista deles, revestir os próprios animais com tais símbolos
de contrição?

Além de tais considerações teóricas, porém, há também algu-
mas evidências históricas que durante o ministério de Jonas, havia
épocas durante as quais teria ele achado uma atmosfera muito
favorável às suas mensagens monoteísticas. É provável que o rei
de Nínive e de Assíria naquela época fosse Adade-Nirari III (810-
783 a.C.). É sabido que este rei confinou sua adoração ao deus
Nebo exclusivamente, tendo avançado mais na direção da mono-
latria do que qualquer outro ocupante do trono da Assíria. Em
segundo lugar, Steinmueller (CSS, Vol. II, p. 289) sugeriu que se
Jonas tivesse chegado em Nínive um pouco mais tarde, durante o
reinado de Assurdã III (771-754), teria achado a população psicolo-
gicamente disposta a aguardar uma catástrofe total, porque uma
praga severa sobreveio à cidade em 765, e tinha havido um eclipse
total do sol em 15 de junho de 763. Seguiu-se outra praga em 759.

Argumentos Lingüísticos

As pessoas que apóiam uma data pós-exílica para Jonas, ape-
lam normalmente para um sortimento de alegados aramaísmos que
ocorrem em vários pontos no texto.

1. Em 1:5 ocorre a palavra sephínah, “navio”, ao invés da
palavra hebraica mais comum ’oniyyah. Sephínah é comum em ara- 
maico, mas na Bíblia hebraica, só ocorre aqui. Mesmo assim, é
obviamente uma derivação da raiz hebraica sãphan, “cobrir”, que
ocorre freqüentemente no Antigo Testamento, e também nas ins-
crições fenícias (sem, porém, ocorrer como verbo nas inscrições e
outros documentos em aramaico). Podemos concluir que esta ex-
pressão originalmente significava um navio coberto, ou equipado
com um convés, e que a língua aramaica pode ter emprestado a
palavra da língua cananita.

2. Em Jonas 1:6 surge o verbo ’ãshat (na forma do hitpael)
que sinifica “lembrar-se”. Na língua aramaica, este verbo ocorre
em textos tão antigos como os Papiros de Elefantina. Um substan-
tivo relacionado com este verbo ocorre em Cantares 5:14 com o
significado de “artefato”; ,ashtõt (ou talvez o singular, ’ashtut)
ocorre em Jó 12:5 como “pensamento, opinião”. O verbo, portanto,
não ocorre nem em siríaco ou em aramaico cujo sentido se emprega
em Jonas, isto é: “lembrar-se”.

3. A partícula relativa she (“quem, qual”) aparece na sua
forma simples em Jonas 4:10, e aparece em duas palavras compos-
tas, em 1:7 beshellemí (“por causa de quem”) e beshellí (“por causa
de mim”) em 1:12. Estritamente falando, isto dificilmente pode ser
considerado como aramaísmo, visto que she não é uma palavra
aramaica; apesar disto, no hebraico de épocas posteriores, veio a
ser empregado de maneira semelhante à partícula aramaica di. Po-
rém, segundo o que este autor sabe, a partícula di nunca ocorre
no aramaico da era pré-cristã depois da preposição be, significando
“por causa de”. De outro lado, she ocorre já no tempo dos juizes
no cântico de Débora (Jz 5:7), o qual de modo interessante foi com-
posto por um nativo da Galiléia do norte (como Jonas era). Deve-se
notar também que she ocorre freqüentemente nas inscrições fe-
nícias (juntamente com a forma mais comum ’-sh) e há uma boa
possibilidade de que os marinheiros do navio que levou Jonas fos-
sem de origem fenícia; há, portanto, toda probabilidade que esta
partícula tivesse ocorrido na sua conversação.

Há outros alegados aramaísmos que dependem de provas ainda
mais tênues. Por exemplo, o verbo hêtü, “jogar” (Jonas 1:5, 12),
ocorre em Jó, Salmos, Provérbios, Jeremias e Ezequiel, não po-
dendo, portanto, ser considerado uma prova de autoria de data
avançada. Quanto a qerPah (“pregação”), este substantivo é for-
mado duma raiz que pertence tanto ao hebraico como ao aramaico,
apesar do substantivo ocorrer só na Bíblia hebraica. Mais uma 
palavra merece comentário especial: ta’am, que significa “edito,
decreto”. A palavra é comum no hebraico, com o significado de
“gosto” ou “compreensão”, mas só ocorre aqui no sentido gover-
namental (Jonas 3:7). Relaciona-se, portanto, de maneira óbvia,
à palavra assíria têmu, que tem o mesmo significado, e Jonas talvez
a tenha empregado como uma reminiscência da mesmíssima pala-
vra empregada no texto do decreto do rei de Nínive. (Assim também
se emprega em Esdras 6:14, uma passagem aramaica que cita um
decreto do rei da Pérsia).

Tendo em vista as vigorosas objeções dos racionalistas à histo-
ricidade de Jonas, seria apropriado fazer aqui alguma referência
às declarações do Senhor Jesus, registradas no Evangelhos. Se-
gundo Mateus 12:40,41, Cristo Se referiu a dois eventos mais aber-
tamente rejeitados pela crítica moderna como sendo fábulas: a
preservação de Jonas no estômago da baleia, e a eficácia da sua
pregação ao levar os ninivitas ao arrependimento. Em Mateus
12:40, Cristo diz: “Porque assim como esteve Jonas três dias e três
noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do homem estará
três dias e três noites no coração da terra”. Se a história de Jonas
tivesse sido mera ficção, então, o sepultamento de Cristo na Sexta-
Feira Santa, até a Ressurreição no Domingo de Páscoa, também
seria ficção; não havendo portanto qualquer base para a compa-
ração: (“assim como ... assim”). Este é especialmente o caso
quando se trata de tipo e antítipo. Em todas as outras instâncias,
ao referir-se nas Escrituras sobre algum acontecimento típico do
Antigo Testamento (por exemplo, João 3:14; I Coríntios 10:1-11'»,
trata-se sempre dum episódio histórico. Não há qualquer evidência
objetiva que Jesus de Nazaré tivesse considerado esta experiência
de Jonas como não sendo um fato histórico.

Lemos, em seguida, em Mateus 12:41: “Ninivitas se levantarão
no juízo com esta geração, e a condenarão; porque se arrependeram
com a pregação de Jonas. E eis aqui está quem é maior do que
Jonas”. Nada poderia ser mais claro do que o fato de que Cristo es-
tava repreendendo Seus contemporâneos pela sua falta de fé, ao
demonstrar que nem sequer estavam à altura dos pagãos na antiga
cidade de Nínive, que nem tinham Bíblia. Mas se, como fato histó-
rico, nunca houve aquele arrependimento dos ninivitas ao aceitarem
a pregação de Jonas, então, a declaração de Cristo é falsa, e Sua
repreensão sem fundamento. Visto que até estudiosos conservadores
como James Orr têm admitido que Jonas não era uma personalidade
histórica, é importante confrontarmo-nos com estas declarações cia- 
ras do Senhor, Jesus, para reconhecer que não é possível rejeitar a
historicidade de Jonas sem também rejeitar a autoridade de Cristo.

A Integridade do Texto

Estudiosos liberais consideram que o Livro de Jonas tenha
sido composto de várias fontes diferentes. Especialmente o salmo
de ação de graças (Jonas 2:2-9) é considerado uma interpolação
estranha (1) porque 2:1 diz que Jonas orou (hitpallêl), enquanto
o restante da composição contém ações de graças mais do que
petições; (2) porque Jonas rendeu graças antes de ter sido vomitado
na terra, não tendo, portanto, motivos de exprimir sua gratidão a
Deus. Mas estas objeções, conforme formuladas por Wellhausen
(Die Kleinen Propheten — “Os Profetas Menores”, 1898, p. 221),
deixam inteiramente desaparecida a razão de ser do salmo. Em pri-
meiro lugar, conforme aparece com clareza nos numerosos exem-
plos no Livro dos Salmos, o louvor era considerado pelos hebreus
como uma forma muito legítima e importante de oração. Assim,
este mesmo verbo (hitpallêl) ocorre com seu substantivo cognato,
“oração” (tephillah) em II Samuel 7:27, uma passagem contendo
adoração e louvor ao Senhor, como o Deus que responde às orações.
Em segundo lugar, conforme Young indicou com toda a razão (IAT
278), 2:2-9 não expressa ações de graças pela libertação do estô-
mago da baleia, mas sim, pela libertação do perigo de se afogar,
por intermédio da baleia. Interpretando assim o salmo, era óbvio
que não havia nenhuma discrepância entre este salmo de Jonas
e o acontecimento ao qual foi vinculado pelo autor. Wilhelm Moeller
(GATE 240, 241) chama atenção ao fato que há semelhanças no-
táveis entre este salmo de Jonas e os de Davi (cf. SI 18:30 e seg.
e 69:14 com Jn 2:3a; SI 42:7 com Jn 2:3b; SI 18:6 com Jn 2:4b;
SI 69:1,2 com Jn 2:5; SI 42:7,8 com Jn 2:6; SI 5:7 com Jn 2:7).
Eissfeldt, tratando do assunto do ponto de vista racionalista,
considerou o Livro de Jonas como sendo o complexo de duas lendas,
uma das quais (caps. 1 — 3), trata da desobediência de Jonas à
ordem de Deus, e a outra, (cap. 4) trata da controvérsia de Jonas
com Deus no assunto de estender Sua graça aos pagãos. Do fato
que a história dum peixe que engole um homem e depois o vomita,
ocorre em outro tipo de literatura, chegou-se à conclusão que o
incidente era apenas lendário, e que não poderia ter acontecido.  
Respondendo, basta dizer que até hoje não foi provado que todos
os incidentes que ocorrem em lendas são incapazes de acontecer
de fato. Fundamentalmente é claro, a objeção de Eissfeldt é ba-
seada na premissa da impossibilidade de haver milagres. Deduções
tiradas desta conclusão a priori não podem ser consideradas mais
fidedignas do que a própria a priori. Baseado na crítica literária
sem pressuposições, não se pode demonstrar nada de convincente
que apoiasse a idéia de haver várias fontes subjacentes ao Livro
de Jonas.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.